As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno – parte 3
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Os Motoqueiros do Sertão (história completa, desde o primeiro episódio)
Episódio 5: As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno (episódio completo)
Parte 3
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Acordei só no outro dia pela manhã, deitado em uma cama cheirosa. No início eu não vi mais ninguém. Só se ouvia a água caindo e música ambiente. Senti um cheiro bom de café quando a porta do quarto se abriu. Era Giovana trazendo uma bandeja com o café da manhã.
“Giovana, meu amor. Onde é que você tava? Os fantasmas tiraram a gente da estrada e a gente quase morreu. Quem me tirou do carro? Como nós chegamos aqui? Cadê o Jessé?…”. Eu não conseguia parar de falar.
Nisso Giovana, em uma voz clássica e serena, me pediu para ter calma. “Meu amorzinho, acho que você teve um pesadelo. Nós estamos em casa, tá vendo?” Eu não entendi nada. Ia fazer mais perguntas, mas ela me interrompeu para me apressar pois aquele era o meu grande dia. Minha roupa estava pronta no closet e o carro já estava esperando a gente lá embaixo. Estava meio atordoado, mas achei melhor não fazer mais perguntas. Que sonho mais doido tinha sido aquele com os fantasmas.
O carro nos levou até o Centro de Convenções. Logo na entrada havia uma grande placa da Moto Magno promovendo a entrega do Prêmio Anual da Celebridade Amiga do Motociclismo. Todo mundo de smoking, mulheres perfeitas e fotógrafos por toda parte. Uma atendente me puxou eroticamente pelo braço até uma cadeira na primeira fila. O auditório estava lotado. Um monte de gente veio me cumprimentar. Eu só sorria, sem entender nada.
O mestre de cerimônias convidou o presidente da Moto Magno, o Governador do Estado e o Diretor da Rede Teledifusora de Televisão para compor a mesa. Eles fizeram seus discursos, emitiram comentários engraçados e parabenizaram a iniciativa do prêmio. Muitos aplausos.
Então o diretor da Rede Teledifusora de Televisão, Sr. Luis Siffer, foi chamado ao púlpito para entregar o prêmio de terceiro lugar para o jornalista João Ministerial Caroço pela defesa da lei que obriga a instalação de um chip no crânio dos motoqueiros. O chip desliga a moto no caso de qualquer infração e automaticamente debita o valor da multa na conta do piloto. Além disso, o chip envia para a esposa/marido do motoqueiro/motoqueira o trajeto realizado e as ligações telefônicas efetuadas durante o dia. Após essa lei, os acidentes fatais diminuíram em 0,64%, demonstrando que a maior parte dos acidentes fatais não era por causa de infrações dos motoqueiros, mas sim por imprudência dos motoristas de carro, que não têm chip. Mas o projeto continuará mesmo assim, pois as autoridades têm a esperança que o chip futuramente diminua também o número de divórcios e aumente o atendimento religioso dominical. Aplausos e fotos.
O presidente da Moto Magno, Eng. Hugo Notapete, entregou o prêmio de segundo lugar ao piloto Carlos Poltronete, que foi o ator principal da campanha estadual multimilionária para a proibição da respiração durante a pilotagem. O projeto ainda não tinha sido aprovado na câmara legislativa, mas era uma questão de tempo. As autoridades esperam que os acidentes diminuam muito com a medida. Quantos metros alguém consegue pilotar sem respirar? Gargalhadas e fotos.
Então o Governador Jessé Jemisson foi chamado. Em seu discurso ele fez um monte de elogios e desenvolveu um breve relato da minha vida, dando ênfase ao meu casamento de sucesso com a Socialite Giovana Abobrinha. Contou como eu tinha sido um líder político desde a juventude, o primeiro case de sucesso comprovado do uso do media training para a eleição de deputado federal e como eu estava sendo cotado pela Rede Teledifusora de Televisão para ser o próximo candidato a presidência pelo Partido Sorridente. Ele anunciou que o Prêmio Anual da Celebridade Amiga do Motociclismo seria entregue a mim, Senador Willi Barbosa, pela lei que proíbe o uso de rodas nas motocicletas. Segundo ele, aquela tinha sido uma articulação política que entraria para a história, pois a medida foi aprovada junto com a lei que obriga os motoqueiros a continuar comprando motos novas a cada três anos. Desta forma os acidentes diminuiriam drasticamente, mas sem diminuir as vendas.
A multidão me aplaudiu de pé por quase cinco minutos. Giovana não podia conter sua expressão de orgulho. Os homens de bem ali presentes estavam jubilantes, tanto pelo sucesso do seu programa de redução de acidentes envolvendo motocicletas como pela promoção da produção industrial do estado.
Eu estava me dirigindo ao mestre de cerimônias – “Queria agradecer ao meu amado mestre…” – quando ouvi um estouro na porta de entrada do auditório. Uma moto barulhenta entrou à toda, salpicando lama na mulherada e espalhando fumaça por todo lado. Era Lampião, o Rei do Cangaço. O cara sacou duas pistolas, disparou para o teto e gritou:
“Vamos parar com essa frescuragem! Willi, isso aqui é coisa do demo. Foge!”
(continua)
































