As cinco motocicletas do motoclube Vingadores de Pandora entraram na cidade fazendo um enorme barulho. A nuvem de poeira deixada para trás naquele crepúsculo de verão fazia a visão ser mais terrível ainda. As mães puxavam suas crianças para a calçada, as velhas trancavam as janelas das casas, os jovens – comumente tão valentões com os de fora – ficaram parados em suas mesas de bar orando para que o tempo passasse logo. Um teatro onde todos sabiam como se portar.
Os vingadores desfilaram por toda a avenida central. Depois voltaram, parando suas motos no jardim central. Ninguém da cidade tinha coragem de olhar diretamente para o grupo. Os cinco homens se vestiam do mesmo jeito. Jaqueta de couro com o brasão nas costas, cabelo comprido e barba. O cheiro forte de suor, depois de tantos dias na estrada também os fazia iguais. Até o olhar confiante, de quem toma o que quer, era o mesmo. Somente os nomes e posições – bordados em seus peitos – é que os diferenciava. Aqueles cinco representavam a cúpula do motoclube.
Como que para quebrar o encanto, o sorridente capitão da polícia militar caminhou até o grupo assim que terminou seu cafezinho na padaria. A cidade toda agora olhava para o jovem uniformizado.
Como que nobres em um castelo, os cinco motoqueiros receberam o comandante com bastante familiaridade, mas também com altivez. Depois dos cumprimentos, somente o presidente falava. “Comandante Feijó, nós estamos aqui para programar uma festa na sua bela cidade de Miracaia do Norte. Os meus homens dos Vingadores de Pandora estão precisando relaxar.”
Como de costume, o comandante aceitou todos os pedidos dos vingadores. Seu trabalho não seria impor dificuldades, mas sim manter a calma durante os festejos. Nunca com violência, sempre com diplomacia. Os vingadores eram a atração anual da cidade. O povo amava aquele grupo muito mais do que temia. Como sempre, as meninas se entregariam, os rapazes fariam de tudo para serem aceitos, as crianças passariam os dias vidradas nas máquinas e os adultos ganhariam dinheiro com a venda de bebida.
A conversa entre o presidente e o comandante corria solta até que o policial mudou sua prática comum, tentando pressionar o motoqueiro.
“Sabe que andam perguntando muito por aí sobre os dois novos integrantes do seu motoclube? Tem gente graúda na polícia curiosa em saber como dois caras sobem até a diretoria do maior motoclube do estado em apenas dois meses. Por falar nisso, onde estão eles?”
“Olha aqui, Feijó. Não adianta vir com essa conversa mole não. Os caras são nossos amigos. Subiram na hierarquia por sua liderança. Eles sabem agir na hora certa e sabem controlar o grupo quando é preciso.”
“Mas desde que eles apareceram, também começaram a surgir suspeitas de que seu motoclube estaria agindo fora da lei. O clube está mais organizado, ágil e valente. Não combina muito com você. Está perdendo o controle do clube? Onde essa brincadeira toda vai acabar?”
Nisso o presidente dos vingadores – o Chapadão -, empurra de leve, mas agressivamente, o peito do comandante. Com o dedo apontando para o seu nariz grita para o policial:
“Ninguém aqui está perdendo o controle nenhum, caramba! Eu mando e desmando neste clube. Pessoal, vamos embora que essa cidadezinha de merda já está me deixando azedo.”.
Em poucos segundos todos já estavam em cima de suas motos ligando os motores. As motos saíram acelerando, deixando para trás muito barulho e poeira em Miracaia do Norte.
Ao comando do presidente, o grupo parou na beira da estrada, a poucos quilômetros da cidade. O presidente, ainda transtornado com a conversa, gritou:
“Quem manda aqui sou eu! Entenderam? Quando chegarmos na chácara eu vou ter uma conversinha com esses dois novatos!”
Ficou esbravejando até que um dos seus diretores lhe deu um abraço. Nisso o homem deu um suspiro e olhou para o grupo com um olhar cansado, velho e desesperançado. De que lado aquele grupo ficaria? Do lado de um velho carinhoso e preguiçoso, ou do lado dos dois forasteiros que traziam promessas grandiosas.
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Um pouco depois, na chácara, os dois motoqueiros conversavam calmamente.
“Jessé, você não…”
“Quantas vezes já não te disse para não me chamar de Jessé? Agora eu sou o Bomba e você é o Gloqui. Se acostume logo com isso!”
“Tá certo, Bomba. Você acha mesmo que esse motoclube é um bom lugar para nos escondermos?”
“Por um tempo sim. Por incrível que pareça, ninguém iria procurar Os Motoqueiros do Sertão no meio de outros motoqueiros, né? Devem achar que estamos escondidos em outro lugar. Mas daqui a pouco vão perceber que este motoclube está mudado. Daí sim virão atrás da gente. E o senador Abobrinha virá junto.”
“Nesse caso vamos fazer o que?”
“Vai depender de que lado essa cambada vai ficar. Não tenho certeza ainda se preferem brincar ao lado do Chapadão ou se vão querer ação de verdade do nosso lado. Esse velho é só panca. Ele finge que é violento. O pessoal das cidadezinhas finge que o respeitam. O povo quer é distração. Quer um palhaço inofensivo vestido de diabo.”
Willi – digo, Gloqui – virou para a estrada ao ouvir as motos chegando em velocidade. Assim que as máquinas foram desligadas, o presidente começou a disparar.
“O que é que as duas mocinhas ficaram fazendo aqui na chácara? Por que não foram para a cidade? Estão com medinho da polícia?”
Jessé – digo, Bomba – respira fundo e pesa suas opções. Ele não precisava provar nada para ninguém, mas queria aquele grupo. Mas eles não estavam preparados para ações fortes ainda. Por isso, desistiu de pegar a pistola escondida por baixo da camisa. Ao invés disso, foi até Chapadão e puxou o velho pelo cangote jogando-o ao chão. Assim que o presidente tentou se levantar, de quatro, Bomba chutou a sua bunda com força. O velho se esborrachou no chão, chorando como uma criança.
“Esse motoclube tem outro presidente agora. Alguém se opõe?”
Os quatros motoqueiros se olham incertos. Gloqui, percebendo a indecisão, sacou a sua pistola e atirou várias vezes para cima, comemorando com um largo sorriso.
“Viva o novo presidente, viva o novo presidente!”
(continua)