No domingo saímos de Antofagasta de manhã sem a neblina e o frio. Nos dias anteriores aqui no deserto o sol aparecia só no decorrer do dia. O mercado no porto de Antofagasta é lindo. Há gaivotas e pelicanos voando por todos os lados, alvoroçados enquanto os homens tratam os peixes que chegam nos barcos. Conhecemos um senhor por lá, Juan, que nos contou as estórias escritar por Hernan Rivera Letelier. Eu já tinha lido O Fantasista antes de vir para cá, mas não estava conseguindo encontrar outros títulos. Comprei mais quatro livros dele. Todos sobre as salitreras. São engraçados, comoventes, simples e sábios ao mesmo tempo. Depois uma mulher que trabalha em uma livraria de Arica me disse que as pessoas daqui não gostam muito dele porque são obrigadas a ler na escola. A mesma razão pela qual não gostamos de nossos autores brasileiros. A arte deve ser livre!
A estrada entre Antofagasta e Cobija parece um cartão postal. Há uma grande cordilheira à direita e uma grande plano até o mar à esquerda. Chegando em Cobija – que é um porto fantasma da época do salitre -, a neblina nos cobriu novamente, como que para tornar o ambiente mais lúgrube. É uma sensação muito forte caminhar por suas ruinas perto do mar, com as cordilheiras nos olhando do alto.
Hoje finalmente caiu a ficha de que estou no Atacama. Em vários momentos fiquei bastante emocionado dentro do meu capacete.
Por falar nisso, em várias ocasiões da viagem – serra entre Córdoba e Villa Dolores, Andes e na costa do Pacífico -, parece que falta o ar. No início pensei que fosse efeito da altitude, mas depois percebi que às vezes ficamos tão entretidos com alguma paisagem espetacular que simplesmente esquecemos de respirar.
Depois de Cobija a estrada se transforma em um zig-zag no meio das rochas. Uma delícia para pilotar. Almoçamos em uma posada. Essas são pequenos restaurantes no meio da estrada. Por fora parecem favelas, mas por dentro são muito bem arrumadas e com boa comida.
Tocopilla oferece um ambiente bem diferente. Chegando lá a pessoa se surpreende com suas imensas termoelétricas próximas ao mar. Parece que você entrou no meio de um parque industrial. Interessante.
A estrada ao redor de Tocopilla é bem sinuosa, com relevo rochoso – mar de um lado e montanhas do outro. Mais Need for Speed. Depois de Tocopilla a cordilheira finalmente encontra o mar. A estrada agora fica literalmente na encosta. Uns 80 km ao norte, a cordilheira retrocede novamente. Parece que fica mais alta, formando uma imensa rampa. Por cima da cordilheira, lá no deserto para onde voltaremos na segunda-feira, há muitas nuvens.
Dormimos em Iquique, onde não aconteceu nada de espetacular a não ser termos conseguido comprar cerveja durante a Lei Seca do Chile. Por falar em cerveja, ainda não conseguimos entender onde se vende bebida por aqui. Na maior parte das lanchonetes e restaurantes não se vende cerveja. Não é como no Brasil que se compra em qualquer padaria, posto ou banca de revista.
Na saída de Iquique conhecemos outro senhor, Fernando, que morou no Brasil muitos anos. Nos contou várias histórias. Esses encontros são a melhor parte da viagem. Mas temos que tocar em frente.
As estradas perto de Iquique são simplesmente fantásticas. Dá a impressão que você está subindo uma duna de 600m de altura. Não faço idéia de como eles conseguem manter aquelas estradas naquele tipo de terreno.
Depois de rodar uns 40 km, fomos visitar as salitreras Santa Laura e Humberstone. Muito bem preservadas, fazem com que você tenha sentimentos muito fortes. Não é possível compreender o que se sente, nem classificar o tipo de emoção. Mas estão lá de qualquer maneira. Gostaria de ter reservado mais tempo para passar por ali.
Eu não teria feito esta viagem sozinho, por medo de quebras na moto em regiões isoladas do deserto. Meus companheiros são grandes pessoas, com quem gosto muito de passar o tempo. Mas não posso negar de que em alguns momentos, como lá em Humberstone, ou quando ando no deserto, talvez tivesse gostado de passar um pouco mais de tempo sozinho. Quando se está na companhia de outros, sua mente fica rondando por uma área segura e conhecida. Tenho curiosidade de saber para onde ela iria se tivesse experimentado em solidão a imensidão do deserto ou as impressões de Humberstone. Mas, como eu disse, esta possibilidade não existe porque não teria vindo sozinho.
Entre Antofagasta e Iquique estávamos na costa. Depois da subida de Iquique voltamos para o deserto, em uma região completamente plana e mais quente. Sopra um vento forte lateral por aqui. Em alguns lugares vímos dezenas de redemoinhos. Em Huara paramos para comprar combustível. Mas a senhora que vende não estava em casa. Sorte que tínhamos trazido tanques reservas.
Viramos novamente para o oeste, em busca da cidade de Pisagua, no Pacífico. Outra descida vertiginosa. Lindo.
Nestes últimos dias venho sentindo o corpo um pouco cansado. Às vezes fico irritadiço e não aproveito tanto a viagem. Hora de parar um pouco. Como estávamos adiantados um dia em nosso cronograma, combinamos dar uma parada de um dia para descansar o corpo e a mente. Perfeito.
Entre Piságua e Arica subimos e descemos várias vezes “dunas” quilométricas. Na última delas, no vale do Azapa, há uma região bem verde no meio do deserto. Imagino, sem pensar muito, que a Crescente Fértil talvez fosse algo deste tipo. Muito legal. Arica tem dois destes vales: Lutta e Azata.
Ontem fomos de van conhecer o Parque Nacional Lauca, com cidades antigas, vulcão Parinacota e lago Chungará. A lagoa fica a 4.500 m de altitude. Desta vez não me cansei tanto. Não sei se foi pela experiência anterior da altitude, as cheiradas de Cocoroco, o chá de coca ou ainda as folhas de coca. Experimentamos de tudo que tínhamos direito. Comemos até carne de Alpaca.
A descida para Arica, vista pela janela da van, é tão íngreme que parece que se está descendo de avião. De moto você fica mais preocupado com a estrada e não tem essa impressão.
Hoje foi dia de descanso aqui em Arica. Mas ainda deu um tempo para visitarmos o Morro de Arica.
Amanhã rumamos para San Pedro de Atacama. A viagem deve demorar 2 ou 3 dias. Uma parte pela estrada em que viemos, outra parte em uma estrada paralela, desta vez por dentro do deserto ao invés da costa.
Abraços a todos!