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	<title>Equilibrio em Duas Rodas</title>
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	<description>Blog de Motociclismo</description>
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		<title>Lego Technic</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Sep 2010 10:41:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hobbies]]></category>

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		<description><![CDATA[
O meu relacionamento com as motos vai além das viagens. Gosto de tudo que tenha moto. Assisto todos os filmes que tenham cenas com motos, faço cursos de mecânica, coleciono miniaturas, ministro aulas de engenharia da motocicleta e leio um monte de livros.
Nosso mais recente hobby é a montagem do Lego Technic Motorbike 8051. São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/8051-0000-xx-33-1.jpg" alt="" /></p>
<p>O meu relacionamento com as motos vai além das viagens. Gosto de tudo que tenha moto. Assisto todos os filmes que tenham cenas com motos, faço cursos de mecânica, coleciono miniaturas, ministro aulas de engenharia da motocicleta e leio um monte de livros.</p>
<p>Nosso mais recente hobby é a montagem do Lego Technic Motorbike 8051. São 467 peças, que formam uma miniatura de 27cm. Depois de pronta, a motinho vai ter até transmissão secundária e pistões se movendo.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/8051-0000-xx-33-2.jpg" alt="" /></p>
<p>As peças podem ser usadas para montar dois modelos diferentes, uma naked ou uma chopper. Pelo o que eu entendi, é possível comprar depois um Kit Power Functions, com controle remoto, motores e luzes. Com esse kit, a moto fica completamente motorizada. Mas vamos deixar isso mais para a frente, pois não sabemos se qualquer kit Power Function funciona em qualquer Technic. Há vários filminhos legais na internet sobre essas motinhas. Segue um deles.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/TX1svPHf-1g?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/TX1svPHf-1g?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; Civilizações Diferentes</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 09:44:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu estava em Iquique cuidando das motos enquanto o Wagner e o Geraldinho iam à igreja, um rapaz veio conversar. Entre um monte de dicas, ele me falou para tomar cuidado com a saída de San Pedro de Atacama. A questão é que a aduana fica em San Pedro, e não na fronteira entre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu estava em Iquique cuidando das motos enquanto o Wagner e o Geraldinho iam à igreja, um rapaz veio conversar. Entre um monte de dicas, ele me falou para tomar cuidado com a saída de San Pedro de Atacama. A questão é que a aduana fica em San Pedro, e não na fronteira entre o Chile e a Argentina. Se você passar direto, vai ter que andar até a fronteira para descobrir que precisa voltar. São mais de 300 km, ida e volta, sem nenhum posto de gasolina. Fácil para fazer de carro, mas com o tanque pequeno de uma moto andando a 4.000m de altitude, é arriscado.</p>
<p>Mas não passamos riscos porque tínhamos tido a dica.</p>
<p>Logo que saímos de San Pedro já começou uma grande subida, até 4.000m de altitude. Nessas Crônicas do Atacama venho usando a palavra &#8220;lindo&#8221; o tempo todo. Mas aquele lugar ali é realmente lindo. Lá em cima há um deserto rochoso multicolorido: amarelo, vermelho, marrom. Em alguns lugares há pequenos lagos salgados, que trazem um pouco de verde ao visual. Sem contar o céu perfeito. É como se uma criança tivesse pintado aquele lugar em cima dos Andes, com as cores mais vivas e bonitas da sua caixa de lápis-de-cera.</p>
<p>Faz muito frio também. Paramos para colocar bala-clava, segunda-pele e tudo o mais a que tínhamos direito. Já estávamos mais acostumados com a falta de ar. Embora cansássemos facilmente com algum esforço maior, não nos sentíamos mais com dor-de-cabeça ou qualquer desconforto maior.</p>
<p>O caminho entre San Pedro e a fronteira é cheio de curvas planas. Embora tivéssemos passado por vários trechos desertos no caminho, aquele ali dava a impressão &#8211; talvez pela altitude &#8211; de ser o lugar mais isolado de todos. Uma experiência que vou guardar para sempre.</p>
<p>Na fronteira, os militares argentinos &#8211; ao contrário das outras fronteiras pelas quais havíamos passado &#8211; nos trataram de forma bastante seca e superior. Mas nada que nos importasse. Nós estávamos livres, eles estavam ali presos.</p>
<p>Depois da fronteira, uma chuva começou a se formar. Como estávamos andando a grande altitude, as nuvens ficavam bem baixas. Raios caiam de todos os lados. Nem pensar em parar naquele lugar, pois seríamos pára-raios ambulantes. Agora, mesmo que quiséssemos sair mais rápido daquela situação, não era possível. Com a falta de ar, minha moto parecia uma 125cc, não andando a mais de 110 km/h no plano.</p>
<p>No caminho também há alguns salares muito bonitos. Não tiramos fotos com as motos lá porque depois não poderíamos lavá-las.</p>
<p>Chegou um momento em que as nuvens ficaram tão baixas que começamos a andar por entre elas. Não dava para parar por causa dos raios, o frio ou a preocupação com o cair da noite. De repente, no meio daquelas nuvens, começou uma descida vertiginosa em S´s desafiadores. De todas as serras que passamos, aquela descida foi a mais impressionante.</p>
<p>Quanto mais descíamos, mais esquentava, mais nossas motos voltavam a ficar potentes e mais chuva tomávamos. Depois de termos ficado tantos dias no deserto, era bem estranho ver tanta vegetação em torno da estrada.</p>
<p>Como já estava chegando o final da tarde, paramos em Jujuy para procurar um hotel. O parque da cidade estava cheio de jovens alegres, sorridentes e com roupas coloridas. Do mesmo jeito que tínhamos estranhado o verde, ver pessoas extrovertidas também era diferente. A nossa subida de Valparaíso para Arica, no Atacama, tinha sido gradual. Então não tínhamos notado quanto as pessoas iam ficando cada vez mais introvertidas no deserto. Mas do Chile para a Argentina essa diferença cultural era instantânea. Quando se compara com o norte do Chile, a Argentina é muito parecida com o Brasil. Não entendo nada disso, mas acho que o povo que vive no Atacama faz parte de uma civilização diferente da nossa. Nem melhor, nem pior. Diferente.</p>
<p>O meu foco também começou a mudar a partir daquele dia. O Atacama e os Andes tinham ficado para trás. Agora tínhamos um pouco mais de 5.000 km para andar até chegar em casa. A saudade começou a apertar. Tínhamos pensado em fazer alguns passeios por volta de Salta. Mas acabamos trocando tudo por um grande estirão maior no próximo dia: 900 km até Corrientes.</p>
<p>Andar 900 km em um dia é coisa mais ou menos simples, mas depois de tantos dias na estrada, é preciso ter alguma motivação maior. Ainda bem que tínhamos: voltar para casa.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Baía Formosa &#8211; RN</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 18:09:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Viagens]]></category>

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		<description><![CDATA[17 e 18.07.2010
Baía Formosa fica no Rio Grande do Norte, pertinho da divisa com a Paraíba. Poucas vezes um nome foi escolhido de forma tão apropriada. Afinal, é uma baía&#8230; e é formosa.
Pena que a viagem de ida não tenha sido tão boa assim. Há vários anos que sair de Recife em direção ao norte [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>17 e 18.07.2010</p>
<p>Baía Formosa fica no Rio Grande do Norte, pertinho da divisa com a Paraíba. Poucas vezes um nome foi escolhido de forma tão apropriada. Afinal, é uma baía&#8230; e é formosa.</p>
<p>Pena que a viagem de ida não tenha sido tão boa assim. Há vários anos que sair de Recife em direção ao norte ou ao sul tem sido extremamente broxante. O grande movimento e as intermináveis obras de duplicação fazem qualquer passeio de moto ficar cansativo. Não importa se você sai de madrugada, dia de semana ou domingo. Sempre o mesmo movimento lento, buracos e desvios. Pelo menos serve como metáfora para o passeio de moto, pois você sai todo estressado, preocupado e atento. Depois, com o passar dos quilômetros, vai ficando mais tranqüilo.</p>
<p>Ao contrário de quase todo o Brasil, chove no meio do ano aqui no nordeste. Então, nessa mistura de obras, movimento e chuva, rodamos 220 km ao norte de Recife para conhecer um dos lugares mais legais do nordeste. Baía Formosa é uma praia cercada de falésias. Lá embaixo ficam alguns restaurantes e as casas dos pescadores. Em cima, ficam as pousadas e uma cidadezinha de interior. Com direito a tudo: chupar cana na calçada, igreja no domingo e paqueras na praça. Talvez no verão, na alta temporada, todo esse astral seja dominado pelo grande movimento de turismo. Por isso fomos agora, no inverno&#8230;</p>
<p>Logo ao chegarmos na praia, com blusão de couro e bota de cano alto, fomos abordados pelo Gibson. Um menino de seus 10 anos de idade, que se propôs a mostrar a cidade. Sua mãe provavelmente era fã do galã Mel Gibson, mas o menino gostava mesmo era do carro possante de Mad Max.</p>
<p>Com a ajuda do nosso agente turístico, conhecemos a Pousada Eco Adventure, que fica na parte superior da falésia. O casal Helder e Virgínia &#8211; proprietários &#8211; conseguiu o quarto mais perto do mar o possível. R$ 80,00 por dia, com café incluso, foi um preço justo. A pequena sacada do nosso quarto ficava literalmente pendurada sobre um pequeno matagal. Se bobeássemos, cairíamos rolando os mais de 40m até a praia.</p>
<p>Passamos a maior parte do tempo lá em cima, lendo, escrevendo, conversando, descansando e contemplando o mar. Era impossível não fazê-lo, pois até do banheiro não perdíamos nenhum pedacinho da vista.</p>
<p>Os almoços foram feitos no Bar do Cocota, uma palhoça na beira do mar, daquelas em que se pisa na areia, esperando sem pressa que a comida fique pronta. Isso se o Ademir deixar, pois o garçon é super eficiente. Peixe frito, camarão e lagosta. Tudo é feito na hora. </p>
<p>À noite comemos no Ponto da Sopa, na parte interiorana da cidade. O caldo é um dos melhores que já comi. Acho que deve ficar cozinhando por horas e horas, até que engrosse naturalmente.</p>
<p>Para quem precisar, a cidade tem até oficina de moto.</p>
<p>Depois de dois dias pendurados no céu, com a moto parada na beira da piscina, chegou a hora de ir embora. Como estava sol, aproveitamos bem mais os 18 km da estrada sinousa e insinuante até a BR-101.</p>
<p>Na volta, assim como na ida, paramos em Igarassu para tomar um café no Delícias da Roça.</p>
<p>Pegamos um pouco de chuva. Mas para nós acaba não fazendo mais diferença. Depois de tanto rodar por essas estradas, acabamos nos acostumando a aceitar a vida como ela é. Hoje em dia, dificilmente paramos para pegar as capas impermeáveis no bauleto quando está chovendo, ou para tirar a jaqueta de couro se estiver muito calor. O negócio é rodar de moto e só parar quando estivermos pertinho do paraíso, como lá nas falésias de Baía Formosa.</p>
<p>FOTOS:</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/IMG_0955.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" alt="" /><br />
<img src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/IMG_1018.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" alt="" /><br />
<img src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/IMG_0934.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" alt="" /><br />
<img src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/IMG_0968.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" alt="" /><br />
<img src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/IMG_1002.jpg" alt="" /></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; O Garoto Perdido</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 15:31:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[A saída de Iquique para o interior é fantástica. Depois de subir uma duna quilométrica, há o ponto de saída para os paragliders. Dezenas daqueles pára-quedas coloridos sobrevoam sem parar o cume da estrada.  Parece que é um dos pontos mais conhecidos do mundo para esse esporte. Também pudera, o paredão até o mar é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A saída de Iquique para o interior é fantástica. Depois de subir uma duna quilométrica, há o ponto de saída para os paragliders. Dezenas daqueles pára-quedas coloridos sobrevoam sem parar o cume da estrada.  Parece que é um dos pontos mais conhecidos do mundo para esse esporte. Também pudera, o paredão até o mar é vertiginoso.</p>
<p>Andando 50 km para dentro você chega em Santa Laura e Humberstone, duas ruínas de oficinas salitreiras muito bem cuidadas.  São museus a céu aberto. Santa Laura tem praticamente só a usina e a casa grande, mas vale a pena porque todos os cômodos estão mobiliados como eram no passado. Já Humberstone é uma cidade inteira, com teatro, casas, ruas e mercado. Parece que você está em uma daquelas cidades fantasma de Hollywood. Tem horas que dá medo de entrar naquelas casinhas de zinco onde se lê coisas do tipo: a família Torres viveu aqui. Eu teria ficado dias andando por ali, pensando e escrevendo minhas idéias. Mas tínhamos que seguir viagem. É um lugar para o qual voltarei.</p>
<p>Ninguém sabia ao certo se teríamos gasolina até Arica. Então as motos foram carregadas com galões extras. Ainda bem, pois em Huara – uma pequena cidade em volta do posto fiscal -, a mulher que vendia não estava em casa.</p>
<p>Na primeira parte do caminho ao norte, pelo deserto, a estrada era totalmente plana. Víamos dúzias de pequenos tornados levantando areia o tempo todo. Só éramos observados pelos geoglífos, que são figuras gigantes formadas por pedras. Os antigos moradores do Atacama faziam isso para marcar os seus caminhos migratórios. Talvez fosse para se comunicarem com seus deuses.</p>
<p>No meio do caminho, viramos novamente para o Pacífico. Queríamos conhecer Piságua. A estrada era completamente, totalmente, absolutamente deserta. Poderíamos ter dormido no asfalto se quiséssemos. Uma experiência inesquecível. Um pouco antes de chegar ao mar, começa uma descida em duas etapas. Primeiro, parece que você está descendo um saca-rolhas, com curvas bem fechadas. Depois há uma imensa descida em linha reta &#8211; quase sem proteção nenhuma &#8211; até o mar. Há também uma estrada antiga que dizem ser bem mais emocionante – se é que isso é possível. Piságua é uma cidade pequena, na base de uma duna gigante, sendo beijada incessantemente pelo mar. Outro lugar para voltar, para passar alguns dias aproveitando a vida.</p>
<p>Voltamos para o deserto, voltamos a andar para o norte. Um pouco depois a estrada deixa de ser plana e passa a ser uma seqüência de subida e descida de serras arenosas. O legal é que entre essas serras há rios, que criam vales bem verdinhos. O contraste entre a vida dos vales e as serras desertas nos faz imaginar como se deu o começo de nossa civilização lá na Crescente Fértil.</p>
<p>Ainda bem que levamos a gasolina, porque todas as motos precisaram de um pouco para completar os 400 km que havíamos andado.</p>
<p>Arica é uma cidade mais turística ainda que Iquique. Muita gente de outros países, muitas cores e muitas línguas. Todo mundo sorri o tempo todo. Há muito movimento em seus calçadões.</p>
<p>Como já tinha virado rotina, paramos as motos na rua. Eu e o Wagner fomos procurar hotel e um passeio para o outro dia, enquanto o Geraldinho ficou guardando nossas coisas. Encontramos tudo muito fácil, mas, como também tinha virado rotina, mentimos para o Geraldinho dizendo que não havia mais hotéis e que teríamos que voltar para Iquique. Como já era rotina, o Geraldinho fingiu que acreditou e demos boas risadas.</p>
<p>Com o tempo de viagem, cada vez nossas brincadeiras ficavam mais infantis, sinceras e confortantes. Passamos a parecer meninos de 4 anos de idade fazendo travessuras e aproveitando uma tarde aventureira em algum quintal cheio de mistérios.</p>
<p>Afinal, acho que esse foi um dos principais motivos para eu ter saído de moto para tão longe. Encontrar esse menino perdido. No extremo norte do Chile, de onde faríamos a volta para casa, finalmente o reconheci no espelho do banheiro do hotel. O menino estava escondido atrás de uma barba de meses, fantasiado de homem maduro. Enquanto eu tirava a areia do deserto de minhas rugas, o menino abriu um sorriso de orelha a orelha, achando engraçado tanta preocupação com a limpeza. Ele tinha me encontrado.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; Porto Fantasma</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Jul 2010 15:40:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[De Antofagasta a Iquique – que fica 400 km ao norte – há dois caminhos. Ou você vai pela ruta 1 litorânea ou pela desértica ruta 5. Como na volta teríamos que passar necessariamente pelo deserto, resolvemos trilhar a estrada do mar.
Na saída de Antofagasta paramos em um pequeno ancoradouro. Os barcos, das mais variadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De Antofagasta a Iquique – que fica 400 km ao norte – há dois caminhos. Ou você vai pela ruta 1 litorânea ou pela desértica ruta 5. Como na volta teríamos que passar necessariamente pelo deserto, resolvemos trilhar a estrada do mar.</p>
<p>Na saída de Antofagasta paramos em um pequeno ancoradouro. Os barcos, das mais variadas cores, se destacavam do azul do mar. Havia um monte de pelicanos, gaivotas e leões marinhos competindo pelos restos de peixe jogados pelos pescadores. Enquanto o Wagner e o Geraldinho foram tirar fotos e dar uma olhada no mercado de frutos do mar, eu fiquei no estacionamento olhando as motos. Nem reclamei porque bem ao lado tinha uma banca de antiguidades repleta de caixas de livros antigos.</p>
<p>Eu estava procurando algum livro do Hernan Rivera Letelier. O cara escreve livros muito legais sobre as salitreiras. Ele conhece bem as histórias porque chegou a trabalhar antes da queda final da indústria. O vendedor não tinha nenhum livro dele, mas um senhor que passava ouviu a conversa. Pediu desculpas pela intromissão, apresentou-se como Juan e começou a contar, de forma muito divertida, um monte de livros do Letelier: trens, futebol, putas, traições e tudo o mais o que podia ter acontecido naqueles vilarejos escondidos pelo mundo. Juan desfilava tão bem as histórias que eu fui mais do que compensado por não ter achado o que procurava.</p>
<p>A brisa do mar, as gaivotas voando sem parar e uma boa conversa. O que mais alguém pode querer? Resposta: andar de moto. Eu esperava com bastante entusiamo aquele trecho da viagem. Nos despedimos do novo amigo, ligamos a moto e rumamos ao norte.</p>
<p>Pela primeira vez desde que saímos de La Serena não pegamos neblina logo de manhã perto do mar. O dia estava bem ensolarado, mais uma vez perfeito para rodar.</p>
<p>A primeira parada foi em Cobija, um porto fantasma da época do salitre. Só há ruínas da cidade, sendo o cemitério o lugar mais bem preservado. A poucos quilômetros da costa sobe uma escarpa de  mais de 500m de altura. A estrada na ruta 1 fica o tempo todo espremida entre o mar e essa grande montanha, que, com a textura de areia, parece uma duna gigante. Embora o asfalto seja muito bem cuidado, a estrada não tem quase movimento algum. É como se, de uma hora para outra, todo mundo tivesse desaparecido.</p>
<p>Como que para tornar a nossa visita mais respeitosa, assim que descemos das motos também desceu da montanha uma forte neblina, que escondeu o sol. Ficamos andando um bom tempo pelas covas espalhadas perto da praia. É uma coisa bem triste pensar em todas aquelas pessoas que foram para longe buscar uma vida melhor, mas que estavam pouco a pouco sendo completamente esquecidas. Sem registros, sem uma história, sem descendentes para contar a história, é como se essas pessoas nunca tivessem existido. Morrer não é deixar de ter um corpo, morrer é ser esquecido.</p>
<p>Saí bastante pensativo de lá. Logo adiante havia um outro cemitério na beira da praia. Os meus amigos seguiram na frente, enquanto eu parei para tirar algumas fotos.</p>
<p>Uma mulher com lenço na cabeça caminhava por entre as cruzes. Resolvi ir até ela para perguntar o nome daquele local. Quando me aproximei, ela disse que leria minha sorte por 2.000 pesos. Embora eu não acredite nessas coisas, sempre fico com pena. Pelo menos a velha teria o que comer. Ela pegou em minha mão e disse: “Uma mulher está pensando em você, muito longe daqui. Ela tem outra missão neste momento, mas não esqueceu de você. Pensa em você o tempo todo. Faça a sua viagem, faça o que tem que fazer. Quando chegar o momento certo, vocês estarão juntos novamente.” Aquela frase serviria para aplacar o coração de qualquer viajante. A cigana pelo menos podia ter inventado alguma coisa mais criativa. Acelerei a moto, correndo de encontro aos meus amigos que já buscavam um lugar para almoçarmos. No afã de conhecer pessoas interessantes, às vezes me meto nessas situações.</p>
<p>Tocopilla é uma cidade comum, mas que reserva duas grandes surpresas. Quem chega do sul, com os olhos acostumados com a desolação, é pego de surpresa quando se vê bem pertinho daquela grande termoelétrica próxima ao mar. De uma hora para outra você sai do contato com a natureza em sua forma mais pura para um ambiente industrial. Saindo da cidade, ao norte, há uma grande subida. Ali em Tocopilla a cordilheira encontra o mar. A visão lá de cima é inesquecível.</p>
<p>De Tocopilla a Iquique andamos por uma das estradas mais legais da viagem. A estrada é bem asfaltada, cheia de curvas fechadas, subidas e descidas. Sempre acompanhando o mar, que bate constantemente no relevo rochoso e recortado do continente.</p>
<p>Ao chegarmos em Iquique, uma outra visão de tirar o fôlego. A cordilheira toma uma aparência de areia, como se fosse uma grande duna. Tudo bem se estivesse parada ao longe, como em Cobija. Mas aqui a estrada sobe por aquela duna, como se estivesse flutuando, prestes a desabar a qualquer momento.</p>
<p>Iquique é uma cidade turística, bem mais alegre do que La Serena e Antofagasta. Como o resultado das eleições tinha saído, a cidade estava na maior festa, com buzinas e bandeiras por todos os lados. Ficamos em uma pousada de jovens, mais ou menos perto da praia.</p>
<p>Nos divertimos muito com as placas avisando às pessoas para onde fugir caso houvesse um tsunami. Parecia paranóia. Mal sabíamos que menos de um mês depois o sul do Chile seria devastado por um grande terremoto.</p>
<p>Tivemos uma certa dificuldade em achar cerveja. Uns marinheiros que encontramos na rua, que já haviam morado no Brasil, nos explicaram que era lei seca por causa da eleição. Mas nada que um pouco de conversa e alguns pesos não resolvessem. Voltamos para a pousada com as garrafas escondidas em uma sacola preta. Brincávamos com a possibilidade de sermos presos pelo regime ainda bastante rígido do Chile.</p>
<p>No próximo dia teríamos um dia cheio. Logo na saída de Iquique veríamos o local de onde se lançam os paragliders. Depois Humberstone, um museu a céu aberto que contém as ruínas bem preservadas de uma cidade salitreira. O caminho para Arica seria feito agora pelo deserto, pois ali não havia mais a opção litorânea. Queríamos passar em Piságua, onde diziam haver uma descida vertiginosa até o mar. Só não sabíamos se havia gasolina por ali. Coisas para se resolver no outro dia.</p>
<p>Fui dormir tranqüilo. No outro dia chegaríamos em Arica, o ponto mais ao norte do Chile. De lá, começaria o retorno para casa.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; A Mão do Deserto</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2010 09:29:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre Copiapó e Antofagasta, mais um vez a estrada é ótima.  O trecho é bem simples. O Pacífico está 70 km a oeste de Copiapó. Depois você anda 90 km ao norte, acompanhando o mar, até chegar em Chañaral. Se Copiapó é o lugar onde os Andes encontram o deserto, Chañaral é onde o deserto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entre Copiapó e Antofagasta, mais um vez a estrada é ótima.  O trecho é bem simples. O Pacífico está 70 km a oeste de Copiapó. Depois você anda 90 km ao norte, acompanhando o mar, até chegar em Chañaral. Se Copiapó é o lugar onde os Andes encontram o deserto, Chañaral é onde o deserto encontra o mar. Lá a estrada entra um pouco para o continente, percorrendo mais 400 km dentro do deserto.</p>
<p>Embora tivéssemos entrado no Atacama oficialmente há dois dias atrás, é depois de Chañaral que tudo fica realmente seco. Não há nenhuma planta salpicando a paisagem. Nenhuma. Em alguns lugares, o deserto é meio avermelhado, lembrando as fotos de Marte. Mas talvez seja por causa do horário em que passamos.</p>
<p>Cansados de pagar caro pela comida, pela água e até para um xixi básico, tentamos arriscar parar em uma posada ao invés de fazer o lanche em um posto da estrada. Essas posadas são casinhas coloridas, bem simples, geralmente soltas no meio do nada. Mas por dentro são bem cuidadas e bonitas. A comida é mais barata e de boa qualidade, sem contar o bom atendimento.</p>
<p>Nessa posada em Agua Verde ficamos um bom tempo conversando com duas senhoras mais velhas que ali trabalhavam. Nos contaram bastante coisas sobre a vida no deserto. Tinham bastante orgulho por serem dali. Elas defendiam que o Deserto do Atacama, mesmo, era ali. São Pedro de Atacama &#8211; mais ao norte &#8211; seria parte de um outro deserto, segundo elas.</p>
<p>Logo depois apareceu um motociclista solitário com uma grande Gold Wing. Em geral não gosto muito dessa moto, mas nessas estradas ótimas e solitárias do Atacama, talvez sejam motos ideais. O rapaz se vestia de forma simples, com uma jaqueta de couro e calça jeans. Exatamente como veríamos mais tarde o outro rapaz que tomava um sorvete à sombra de uma árvore lá em Huara. Esses viajantes tranqüilos me fizeram pensar muito sobre o meu estilo de viagem.  Agora, aqui em Pernambuco, dou o mesmo valor para viajar 1.000 km ou sair com os amigos para comer uma tapioca em Olinda. O passeio é de moto? Agora isso já basta. Não preciso mais provar nada para mim mesmo.</p>
<p>Passamos também pela Oficina Alemania, que era uma famosa salitrera. Mas não havia mais nada a não ser um grande monumento em homenagem às pessoas que largaram tudo em suas regiões natais em busca de uma vida melhor. O Atacama sempre foi o grande responsável pela economia do Chile. Entre os séculos 16 e 18, os famosos portos do Atacama é que mandavam para o  império espanhol a prata que vinha da Bolívia. No século 19, a produção de salitre &#8211; usado como fertilizante &#8211; era quem trazia a riqueza ao país. Com o declínio da venda do salitre natural &#8211; os alemães conseguiram produzi-lo artificialmente depois da primeira guerra mundial &#8211; parecia que o Chile iria ter um grande problema econômico. Mas hei que, mais uma vez, o Atacama aparece como solução, transformando o país no maior produtor mundial de cobre.</p>
<p>A diferença entre o salitre e o cobre é o número de trabalhadores necessários. Esse número diminui mais ainda porque hoje em dia as máquinas fazem quase todo o trabalho. Na época do salitre, muitas pessoas vieram para a região para trabalhar. Depois, com o seu declínio, foram abandonando as velhas salitreras. O Atacama, então, virou um grande deserto cheio de cidades fantasmas. Como o clima é muito seco, as coisas demoram muito para serem destruídas pela natureza. Mas o homem vem substitui-la. Quase todas as cidades  foram saqueadas com o passar do tempo. Com sorte, veríamos alguma no caminho mais adiante.</p>
<p>Um pouco antes de Antofagasta encontramos a Mão do Deserto. Ela é feita de tal jeito que parece que um gigante de pedra está saindo das entranhas da terra. É linda. Também muito simbólica para a nossa viagem, pois aquela escultura é o cartão postal do Atacama. Eu pensei que fosse menor e que ficasse próxima da cidade, amontoada com outras construções. Mas não, é bem grande e instalada em um lugar completamente isolado do deserto. Você a vê bem de longe. Vai se aproximando aos poucos, torcendo para não acordar o gigante.</p>
<p>Ao terminar aquele dia tão marcante, descemos mais uma vez para o Pacífico, para encontrar a cidade de Antofagasta. A estrada desce em uma grande rampa, parecendo que vai nos jogar ao mar. Como por ali o sol se põe no mar, ao contrário do que estamos acostumados na costa leste do Brasil, andamos esse último trecho com uma iluminação forte à nossa frente, como se tivessem aberto uma fresta no paraíso.</p>
<p>No dia seguinte seria eleição &#8211; tudo estaria fechado já  no início da noite -, então tivemos que correr para comer alguma coisa e comprar mantimentos para o próximo dia. Como ficamos só ali por perto do flat &#8211; longe do mar e do centro antigo -, não nos impressionamos muito com a cidade. Mas isso mudaria bastante no próximo dia pela manhã quando passamos pelo mercado portuário.</p>
<p>Como tudo estava fechado naquele feriado, não conseguimos encontrar um hotel muito barato. Mas o conforto do flat foi relaxante depois de vários dias em que ficamos amontoados em pequenos quartos. Tinha até TV a cabo e água quente funcionando.</p>
<p>Ao dormir, fiquei lembrando do que tinha acontecido no início da tarde. Eu estava um pouco entediado em andar devagar na estrada. Tínhamos combinado isso para evitar multas, acidentes e esforço da moto nessa grande viagem. Mas tudo tem um limite. Então, em uma grande reta completamente deserta, apertei o punho e deixei o motor à vontade. No começo você fica meio temeroso com a aceleração, mas depois se acostuma com o vento, o movimento da moto e a sensação de velocidade. Lá estava eu tranqüilo, curtindo o momento em alta velocidade, quando a moto deu um estouro. Pum! Depois pegou de novo. Não deu nem tempo para reduzir a velocidade de novo e pum, outro estouro e o motor morreu. Depois de passar o susto pelo barulho e pela desaceleração repentina, enquanto reduzia a velocidade da moto para conduzi-la até o acostamento, comecei a ficar meio chateado com essa quebra bem no meio da viagem. Também comecei a pensar como faríamos para conseguir ajuda ali no meio do nada. Os meus amigos tinham ficado um pouco para trás, então parei a moto para esperá-los. Quando vi o que tinha acontecido, não conseguia mais parar de rir com a bobagem. É que com a tremedeira da minha moto &#8211; devido à grande velocidade -, a chave tinha rodado na ignição e simplesmente desligado o motor. Cada uma que acontece&#8230;</p>
<p>Naquele dia tinha me sentido pela primeira vez realmente viajando pelo deserto. A chuva da Argentina e o movimento de Valparaíso pareciam fazer parte de uma outra vida. Tudo agora era muito simples e direto. Acordaríamos pela manhã, rumaríamos pelo relevo arenoso infindável e andaríamos em nossas motos até cairmos de cansaço. Depois dormiríamos para fazer de novo a mesma coisa. Depois o mesmo, e o mesmo.</p>
<p>Acho uma grande pena que eu não consiga compartilhar o que uma pessoa pensa em cima de uma moto, em um lugar tão amplo, simples e iluminado. Mas pelo menos posso tentar falar sobre os efeitos. Você volta de uma viagem assim com a visão clara da vida. Você passa a distinguir facilmente o que é importante do que não é. O que é necessário do que é peso morto. O que é presente do que é passado. Você passa a ter foco e clareza. Assim como tudo é raro no deserto, você passa a valorizar cada bom dia que dá a um colega, cada árvore que vê no caminho. Ao ficar no meio de um lugar tão sem vida, você passa a ter consciência de como sua própria vida é única e rara. Depois de voltar do deserto, você começa a simplesmente sentir o prazer de estar vivo nas situações mais mundanas possíveis do dia-a-dia.</p>
<p>A experiência de uma vida, com o poder para mudar uma vida. Minha última lembrança daquele dia, um pouco antes de cair no sono, foi pensar que tudo tinha valido a pena. Era exatamente ali que eu queria estar naquele momento. Posso ser um homem de pouca fé, mas tenho uma baita sorte. Vá entender a vontade dos deuses.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; No Topo Quente do Mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 22:34:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Copiapó nós tivemos muita sorte, várias vezes. Para começar, tínhamos preferido não ver o Rally Dakar quando estávamos em Valparaíso. Afinal, não teríamos visto nenhuma parte técnica, apenas – no máximo – o circo colorido. Não se pode ter tudo…
Mas vejam que o nosso guia turístico para Ojos del Salado – o vulcão mais alto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Em Copiapó nós tivemos muita sorte, várias vezes. Para começar, tínhamos preferido não ver o Rally Dakar quando estávamos em Valparaíso. Afinal, não teríamos visto nenhuma parte técnica, apenas – no máximo – o circo colorido. Não se pode ter tudo…</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Mas vejam que o nosso guia turístico para Ojos del Salado – o vulcão mais alto do mundo – era um piloto de moto do Dakar. Infelizmente para Gino Bianchi sua moto tinha quebrado, por isso tinha desistido da competição.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Saímos para o passeio em uma caminhonete 4×4 logo de manhã. O dia estava bem frio. Na subida, saimos da rota normal – que teríamos feito se tivéssemos ido de moto – pegando uma estradinha de areia secundária. Era tudo cinematográfico. Em certos lugares, andávamos a centímetros de um desfiladeiro de centenas de metros. Em outros lugares, para nossa mais completa surpresa, o carro saía da estrada repentinamente para pegar algum atalho. Claro que nosso guia-piloto sabia o que estava fazendo, mas nós ficávamos com o coração na boca achando que tinha chegado a nossa hora.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">O lugar era completamente seco, a não ser em pequenos trechos por onde descia a água do degelo. Nesses raros fios d´água havia sempre uma grama verdinha e um pouco de capim que os guanacos comiam. Bem, talvez fossem lhamas, ou vicunhas, ou ainda alpacas. Mas tenho certeza que era um desses mini-camelos que veríamos o tempo todo nos Andes.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">A primeira parada foi na Laguna Santa Rosa, com sua água verdinha (ou azulzinha, pois, segundo a Renata, eu tenho um problema em diferenciar essas duas cores) e cheia de flamingos. Não era um lugar tão alto, mas já sentíamos um pouco o efeito do ar rarefeito. Depois passamos perto do Nevado Tres Cruces, formação montanhosa que dá nome ao parque nacional.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Lá em cima, a 4.000 m de altitude, chegamos à famosa Laguna Verde. Ao fundo fica o Ojos del Salado, montando um dos mais conhecidos cartões postais do Chile. A água era tão fria que eu só tive coragem de molhar as canelas, que foram logo depois aquecidas em uma das várias piscinas térmicas espalhadas por lá.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Ficávamos parados, olhando a vista dos deuses e ouvindo as mil histórias do Dakar. O Gino não se cansava em responder as nossas perguntas de como era feita a preparação, as estratégias, as emoções da competição e o orgulho de ser um representante do Atacama.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Quando passamos pelo Passo Libertadores – alguns dias atrás, na entrada para o Chile – não tínhamos sentido muito o efeito da altitude, mas ali na Laguna Verde tudo era muito diferente. Uma caminhada de 10 passos tinha que ser muito bem pensada, para não exaurir o resto da energia ou arriscar uma queda. Antes de ir para o Chile, ficava um pouco preocupado com ter falta de ar. Mas não se tem nenhuma sensação de asfixia, apenas muito cansaço e dor de cabeça.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">A descida – ao contrário da subida, que foi por estradinhas tortuosas – era feita em grandes rampas. Às vezes dava a impressão de que descíamos em linha reta por mais de um quilômetro. No final, foi um passeio de 11 horas, por mais de 500 km, feito em plena Cordilheira dos Andes e ainda levados por um piloto do Dakar. Querem mais?</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Já de volta a Copiapó, levei a minha moto na oficina do Gino para ajustar a corrente. Chegando lá, fiquei desconfiado quando um funcionário bem idoso é que cuidou do serviço. Eu tinha visto uma oficina da Yamaha na entrada da cidade, então pensei que poderia ser educado ao deixar o velhinho cuidar da corrente, mas que depois levaria para os profissionais de verdade.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Comecei ficar irritado quando ele começou a limpar a corrente elo por elo. Para que tanta lerdeza assim?</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Mas não é que todo cuidado tinha uma razão? Ele descobriu que um dos elos da minha corrente estava caindo. Provavelmente perderia minha corrente no próximo dia. No mínimo teria um trabalhão em conseguir ajuda no deserto. No máximo teria uma queda perigosa.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Naquele momento eu tive a mais completa e clara certeza de que a minha moto devia ficar nas mãos daquele homem ali curvado. Suas mãos estavam sujas de graxa, mas não havia uma gota de suor em sua roupa, não havia um único fio de cabelo desarrumado. Sem querer desmerecer o serviço da Yamaha – que acabei nem conhecendo -, há certos momentos na sua vida que você sabe – inexplicavelmente – exatamente o que fazer.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Mais sorte ainda que havia sobrado uma das correntes sobressalentes do Dakar. O senhor nos explicou como deveríamos tirar os elos a mais, o que foi feito em uma oficina ali perto. Depois ele mesmo instalou a corrente na moto.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">No outro dia, quando saíamos de Copiapó, perto de um outdoor em que a cidade manifestava seu orgulho por ter um cidadão no Dakar, vi novamente a oficina da Yamaha. Eu não tinha a menor dúvida de que a minha moto agora estava 100%. Fiquei pensando na sorte que tivemos em aprendermos um monte sobre o Dakar, andarmos por estradas vertiginosas desconhecidas por viajantes desavisados, termos encontrado uma pessoa cuidadosa o suficiente para descobrir o problema na transmissão e ainda por cima acharmos uma corrente sobressalente.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">É exatamente em busca desses imprevistos bem-vindos que saímos de moto pelas estradas do mundo.</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; De Repente, Atacama</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Jun 2010 11:10:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[A estrada entre La Serena e Copiapó é curta, mais ou menos 350 km. Olhando no mapa, tinha tudo para ser um dia comum. Nosso foco era chegar em Copiapó para procurar um passeio até Ojos del Salado, o vulcão mais alto do mundo.
Como a manhã em La Serena estava com névoa, saímos vestidos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A estrada entre La Serena e Copiapó é curta, mais ou menos 350 km. Olhando no mapa, tinha tudo para ser um dia comum. Nosso foco era chegar em Copiapó para procurar um passeio até Ojos del Salado, o vulcão mais alto do mundo.</p>
<p>Como a manhã em La Serena estava com névoa, saímos vestidos com toda nossa roupa habitual: bota impermeável, luva longa, calça e jaqueta de cordura. Para não arriscar, fomos ainda com segunda pele e bala clava. Percorremos uns 50 km acompanhando o Pacífico, que estava cinza e sombrio. À direita, uma pequena cordilheira nos acompanhava. É o tipo de dia na estrada que nos faz pensativos.</p>
<p>Em Los Hornos, a estrada faz uma curva para a direita para subir serpenteando uma pequena serra de 500 m de altura. Lá em cima a neblina desapareceu repentinamente, como se fosse a cortina de um cinema. Estávamos no deserto. Por ali ainda havia arbustos ressequidos espalhados e o solo era formado de muitas rochas fraturadas, mas era o deserto mesmo assim.</p>
<p>Algumas dezenas de quilômetros mais adiante, agora a 800 m de altitude, vimos a inesperada e tão esperada placa dizendo que estávamos oficialmente no Atacama. Foi uma baita surpresa que ela estivesse por ali, pois dependendo de onde você procure o Atacama começa em um lugar ou em outro.</p>
<p>Os últimos 15 meses passaram em minha cabeça como que no proverbial filme de sua vida. Mais de um ano de preparação, 20 dias vivendo na estrada e exatamente (!) 7.000 km rodados em cima de nossas motos. Todo mundo que já teve um grande objetivo alcançado sabe como a gente se sente em um momento como esse. É quase impossível conter a alegria, que se derrama na forma de abraços, gritos e risadas. Muitas risadas.</p>
<p>Mas, acima de tudo, você se sente leve. Depois que passa a grande excitação física, vem a tranqüilidade. Você fica ali parado, olhando para todos os lados com a maior calma do mundo. A cada inspiração parece que o ar está te fazendo levitar. Uma única frase fica saindo bem baixinho de seus lábios: &#8220;Eu consegui&#8221;, &#8220;Eu consegui&#8221;, &#8220;Eu consegui&#8221;. Não era só estar ali que importava, mas também ter chegado do meu jeito. A viagem é mais importante que o destino, sempre.</p>
<p>Mesmo subindo de novo na moto, você continua levitando. Sua moto deixa de ser uma máquina que toca o chão. Agora é como o tapete mágico de Aladin, que serpenteia o deserto quase o tocando aqui e ali.</p>
<p>Quando alguém me perguntar de novo &#8220;Por que o Atacama? Por que de moto?&#8221;, eu vou saber exatamente o porquê. Posso não saber explicar direito, mas sei o porquê.</p>
<p>Com o visual do deserto nos acompanhando, rumamos os próximos 250 km até Copiapó. Era um desses dias em que você aproveita cada centímetro da viagem, como que se sentindo em estado de graça. Quase chegando na cidade há uma grande descida em linha reta. O terreno em volta é todo cinzento, lembrando uma possível origem vulcânica.</p>
<p>O dia todo esteve frio, mesmo com o sol completamente aberto. Só mais para o final da tarde é que começa a esquentar um pouco. Não esperávamos neblina tão perto do deserto, nem frio durante o dia.</p>
<p>Copiapó é uma cidade muito legal. Fica encravada no meio do nada, com o deserto de um lado e os Andes do outro. Vive da mineração. Entre os seus grandes marcos históricos, foi em Copiapó que instalaram a primeira ferrovia da América do Sul, em 1850. É um pouco difícil entender como pode haver um lugar tão arrumadinho cercado de absolutamente nada. Viver por ali deve ser diferente do que estamos acostumados. Acho que todos se conhecem.</p>
<p>Demos sorte de chegarmos no dia de um comício para as eleições presidenciais. A praça da cidade estava cheia de bandeiras e o pessoal estava todo animado. Outra coisa que gostei muito foi do contraste entre os jovens ouvindo música eletrônica muito alta nas lanchonetes americanizadas e os adultos jogando xadrez na praça. Assim como em La Paz &#8211; na Argentina -, é desse tipo de coisa que sinto falta no Brasil: cinemas junto com bibliotecas e xadrez nas praças. Outro aspecto legal nesses países vizinhos é a gente alegre andando nas ruas à noite, depois do serviço. Todos nas praças, bares e restaurantes. Mas isso nós temos em Recife também, pelo menos quando andamos pelas ruas de nossas favelas. Todos ficam conversando nas ruas, desde os velhos sorridentes até as crianças eletrizadas pelas brincadeiras.</p>
<p>Cada vez entendemos menos a língua do pessoal. Alguns, mais acostumados com turistas, ainda são sorridentes. Mas já começamos a sentir o pessoal mais fechado e introspectivo. Não passam nenhum tipo de antipatia. Acho que é só um jeito diferente de viver. Talvez quem vive no deserto não tenha tanta necessidade de conversar com os outros. Na minha psicoantropopsicologia barata, acho que no silêncio do deserto, sem distrações, eles têm mais oportunidade de conversar consigo mesmos. Parece ser algo fácil, conviver com você mesmo, mas acho que não é. Se fosse, não ficaríamos criando tantas distrações em nossas vidas: livros, TV, papo-furado, pequenas preocupações e stress. Isso mesmo, eu acho que não somos vítimas do stress, só o críamos para nos distrair de que não somos mais completos. Gosto de pensar que quem anda de moto sabe do que eu estou falando, sabe como é ficar sozinho lá dentro do capacete. Talvez viver no deserto seja como estar dentro do seu capacete o tempo todo.</p>
<p>Seja o que for, no final daquele dia eu fui dormir um pouco mais leve.</p>
<p style="text-align: right;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; O Peso da Viagem</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Jun 2010 08:46:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[Muito já se escreveu sobre motos representando a vida real. Viajar de moto obriga você a levar só o que é importante, se livrando do peso morto. Na minha vida civil, longe das motos, procuro seguir com a mesma objetividade. Não gosto de móveis, imóveis e roupas. Tenho só um par de sapatos que uso até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muito já se escreveu sobre motos representando a vida real. Viajar de moto obriga você a levar só o que é importante, se livrando do peso morto. Na minha vida civil, longe das motos, procuro seguir com a mesma objetividade. Não gosto de móveis, imóveis e roupas. Tenho só um par de sapatos que uso até furarem. Tenho duas calças, que uso até rasgarem. Só tenho uma luxúria material: minhas estantes são cheias de livros. Engraçado que durante essa viagem boa parte do peso que levei também era de livros. Alguns comprados no caminho, outros que foram a viagem toda me fazendo companhia. Afinal, como alguém pode sair de casa sem pelo menos um livro de ficção, um livro técnico, um livro sobre motos, um livro de algum grande sábio e um livro sobre o lugar que vai conhecer? Mas, o mais engraçado é que li muito pouco, porque sempre chegava tarde nos hotéis, tinha um monte de detalhes para resolver e depois caía na cama para acordar bem cedinho no outro dia. De certos pesos não se livra nunca. Ainda bem.</p>
<p>Eu tenho muito o que aprender ainda. Mas alguma coisa já melhorou. Antes de sairmos de Recife, eliminei muita coisa que teria gostado de levar. Várias ferramentas ficaram para trás. Eu só levei uma capa de chuva, o que me fez molhar até os ossos na parte em que a Renata esteve na garupa. Ainda, ao longo da preparação já tinha visto que não valia a pena levar um monte de coisas, como uma filmadora que nunca usávamos ou a luva impermeável que levava mais de 5 minutos para ser colocada em cada parada. Depois de tantas viagens pelo Brasil, pensei que já estava escolado nessa questão de bagagens. Mas, logo no primeiro dia de viagem, ao chegar no hotel em Feira de Santana, já tive que fazer uma grande rearrumação. Isso porque, quando saí de casa, parecia lógico levar todas as cuecas juntas, todos os livros juntos. Só que ao final de cada dia eu precisava de apenas uma cueca e apenas um livro. Então, a partir dali, na parte de cima da mochila iam apenas as coisas de uso imediato. Uma peça de cada tipo. Mesmo assim, a cada nova parada, descobria que lá no fundo da mochila ficavam coisas que eu não estava usando. Todo esse peso morto ia sendo eliminado sem misericórdia. No final, descobri que podia ter viajado o tempo todo só com uma calça, uma jaqueta, um par de luvas, outro de botas, duas camisetas, dois pares de meia, uma cueca &#8211; que, como todos sabem, podem ser usadas de frente e avesso -, um caderno, uma caneta, a carteira de documentos e uma máquina fotográfica.</p>
<p>Uma cena que simboliza bem essa necessidade de nos livrarmos do peso morto foi quando estávamos almoçando em Huara, no meio do Atacama, ansiosos com o que viria a seguir. A Dona Maria, única vendedora de gasolina em um raio de centenas de quilômetros, não estava em casa. Ainda bem que nossas motos estavam carregadas de galões cheios até a boca. Isso sem contar o meu tanque modificado para levar 50% a mais de combustível. Mas, mesmo assim, não sabíamos se seria o suficiente para descermos o abismo que levava até o porto de Piságua. Minha moto continuava bebendo mais que o comum, não adaptada à gasolina sem álcool do Chile. De repente, da janela do pequeno restaurante de beira-de-estrada, vimos um rapaz de moto descansando debaixo de uma árvore. O cara tinha parado para refrescar a garganta, aproveitando a sombra e um picolé. Sua Harley Davidson de 1200 cc não levava quase nenhuma bagagem. A roupa do rapaz se resumia a uma calça jeans, a clássica camiseta branca, um par de tênis e uma jaqueta de couro preta. Trocamos algumas palavras e nos despedimos. Mas aquela visão me marcou profundamente. Quanto contraste entre a HD pelada e todo o peso que carregávamos em nossas motos. Quanta diferença entre a nossa ansiedade por chegar ao destino planejado e aquela singela parada para deixar o mundo passar diante de seus olhos, colocando a eventual falta de gasolina como algo secundário na ordem das coisas do universo. Quando eu crescer quero ser assim.</p>
<p>No final das contas &#8211; como diz o monge na propaganda de automóvel -, &#8220;Felicidade é não ter mais do que se pode carregar.&#8221;</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: right; padding: 0px;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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		<title>Crônicas do Atacama &#8211; Nos Portões do Atacama</title>
		<link>http://blog.fabiomagnani.com/?p=3943</link>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 12:43:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>magnani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas do Atacama]]></category>

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		<description><![CDATA[O relevo da região norte do Chile é mais ou menos simples. Imagine que você está lá no Oceano Pacífico e resolve entrar no continente, no sentido oeste-&#62;leste. Poucos quilômetros depois do mar você encontra um grande paredão, que é a Cordilheira da Costa, com altitude média de 2.000 m. Depois vem o deserto, que era o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O relevo da região norte do Chile é mais ou menos simples. Imagine que você está lá no Oceano Pacífico e resolve entrar no continente, no sentido oeste-&gt;leste. Poucos quilômetros depois do mar você encontra um grande paredão, que é a Cordilheira da Costa, com altitude média de 2.000 m. Depois vem o deserto, que era o que queríamos conhecer. Andando algumas centenas de quilômetros mais para dentro começa uma nova subida para a famosíssima Cordilheira dos Andes, com mais de 5.000 m de altitude. Como nossa viagem foi no sentido sul-&gt;norte, nós ficamos o tempo todo costurando esses relevos: Pacífico, Cordilheira da Costa, Deserto e Cordilheira dos Andes.</p>
<p>Saindo de Valparaíso &#8211; que fica mais ou menos no meio do caminho entre os extremos sul e norte do Chile &#8211; , percorreríamos 2.000 km &#8211; em 6 dias &#8211; até Arica, que é a última cidade no norte do Chile. Essa estrada às vezes passa entre a Cordilheira da Costa e o Pacífico, e às vezes sobe a cordilheira, percorrendo o deserto propriamente dito. Os dois tipos de estrada são lindos. Quando se anda na parte de baixo, você fica o tempo todo do lado do Pacífico, que é de um azul lindíssimo e cheio de rochas brigando com as ondas. Do lado direito, você sempre é acompanhado por um paredão imenso. Por outro lado, quando a estrada sobe para o deserto, você tem contato com uma das visões mais impressionantes do mundo. O deserto é muito colorido, desde o amarelo até o vermelho. O céu, então, parece que foi feito no computador; não tem nenhuma falha.</p>
<p>O caminho entre Valparaíso até La Serena vai ficando cada vez mais árido. Os primeiros 300 km são feitos beirando o Pacífico. A estrada é muito bem feita, o que provoca uma pilotagem deliciosa. Também há muito vento, mas bate na popa, o que não atrapalha em nada. O legal é que há muitas birutas nas vilas de pescadores, então dá para ter uma boa idéia da ajuda que estamos tendo. O clima é um pouco frio e a maresia é muito forte, formando uma névoa quando vista de longe.</p>
<p>Há várias vilas de turismo e acampamentos por aquele trecho. Parecem ser bem calmas, do tipo que eu e a Renata gostamos. Pena que a Renata estava deixando o Chile de avião naquele momento. Mas mesmo se estivesse ali não teríamos tempo de parar. Quero voltar para aquela região entre Los Vilos e Termas de Socos, para descansar ao som das ondas, refletir e escrever.</p>
<p>Nos últimos 100 km entre Valparaíso e La Serena, a estrada se afasta um pouco do oceano, nos dando um certo gosto do deserto que nos espera. A região é um pouco árida, mas ainda há vegetação.</p>
<p>A primeira coisa que fizemos em La Serena foi visitarmos o famoso farol. Bonitinho. A cidade de La Serena, fundada em 1554, é muito bem organizada. A impressão que passa é de ter um grande orgulho por ser tradicional. Passamos pouco mais de 12 horas na cidade, mas a impressão que me causou foi de que não éramos bem vindos. Era como se estivéssemos atrapalhando alguma coisa. Sensação difícil de explicar e provavelmente injusta, porque é só uma primeira impressão. Mas, justa ou não, a minha sensação estava lá.</p>
<p>Quando estávamos saindo de La Serena, no dia seguinte de manhã, fomos tirar algumas fotos dos prédios históricos. Havia também um monumento em homenagem aos desaparecidos e executados durante o regime militar. Quando estava ali, em silêncio, ouvi claramente um sussurro em meu ouvido &#8220;For never forgetting&#8221; (para que nunca seja esquecido). Não encontrei o sistema de som que havia produzido a frase, então tratei de sair logo dali, fortemente impressionado. O engenheiro de som responsável pelo efeito deve ter se sentido orgulhoso.</p>
<p>Já na estrada para Copiapó, isso me fez lembrar do que tinha acontecido no dia anterior, quando íamos de Valparaíso para La Serena. O Geraldinho e o Wagner tinham sumido de vista no meu retrovisor. Como a pista era dividida no meio com guard-rails, o retorno era difícil. Eu não sabia se era algum problema sério ou &#8211; o mais comum &#8211; se eles tinham parado para um xixi ou uma fotografia, então resolvi esperar 5 minutos. Caso não aparecessem, procuraria o próximo retorno para ver o que tinha acontecido. Enquanto esperava distraído, não percebi a chegada repentina de um andarilho em andrajos. Ele chegou com um sorriso desdentado e me perguntou na lata: &#8220;o que você faz por aqui?&#8221;. Fiquei meio surpreso pela pergunta, talvez com medo de um golpe e só consegui responder: &#8220;Não sei&#8221;. Nisso, o vagabundo olhou para mim com um olhar benevolente, calmo e sábio. Abriu um sorriso maior ainda e disse: &#8220;Então descubra&#8221;. Virou-se e pois-se a andar na estrada cantarolando algo em uma língua que eu não consegui reconhecer. Nisso, chegam as motos do Wagner e do Geraldinho. Como eu estava preocupado com eles, fiquei entretido na explicação da parada, causada por um vazamento de óleo na moto do Wagner, que não tinha apertado direito a tampa do reservatório. Depois acabei me esquecendo do ocorrido.</p>
<p>Mas quando saímos de La Serena com uma névoa muito forte &#8211; totalmente inesperada por nós no caminho do deserto mais seco do mundo -, sozinho na solidão do meu capacete, comecei a me lembrar do sussurro dos desaparecidos, dos espíritos naturais na tempestade de Corrientes e do andarilho do dia anterior. Para onde estávamos indo? Qual seria o mundo que nos esperava depois que a cortina nebulosa se desfizesse?</p>
<p>Cuidado com o que você deseja, porque você pode conseguir. Dali a pouco chegaríamos no Atacama.</p>
<p style="text-align: right;">(continua)</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; text-align: left; padding: 0px;">- – -</p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><img style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px;" src="http://i117.photobucket.com/albums/o45/fabio_magnani/100_0658.jpg" alt="" width="104" height="138" /></p>
<p style="margin-top: 10px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;"><strong>Apresentação.</strong> <span style="font-weight: normal;">A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho - percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 - lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=134">Planejamento</a> (textos escritos antes da partida), <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=2693">Diário da Viagem</a> (relatos publicados durante a viagem) e <a style="font-weight: 800; text-decoration: none; color: #454673;" href="http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=3614">Crônicas do Atacama</a> (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.</span></p>
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