As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno – parte 4

Jun 7th, 2012 | By | Category: Ficção, Posts

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Os Motoqueiros do Sertão (história completa, até agora, desde o primeiro episódio)

Episódio 5: As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno (episódio completo)

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PARTE 4

Eu corri com Giovana para o estacionamento enquanto Lampião acordava Jessé do transe do Diabo. “Acorda, cabra da peste, tu não é governador borra nenhuma. Acorda se você quer ir embora do inferno”. Roubamos quatro motos da polícia e caímos na estrada. Não dava para ver nenhum fantasma nos seguindo. Eu não fazia a mínima idéia de como sair daquela terra, mas confiava em Lampião.

Rodamos a manhã toda, até que a adrenalina baixou o suficiente para alguém ter a idéia de pararmos para decidir o que fazer. Estávamos em alguma cidade do Mato Grosso, deserta como o resto do mundo. Fizemos o almoço em um restaurante chique. Tudo era muito bonito, mas o cheiro de podre estragou nosso apetite.

Finalmente tínhamos um tempo para conversar com calma. Lampião explicou que ele podia entrar e sair do inferno a hora que quisesse, mas os outros teriam que ter a autorização do Diabo. Essa nossa fuga tinha servido só para quebrarmos as nossas ilusões de grandeza. Só. Para sair de verdade dali, só negociando mesmo. O problema é que o preço seria caro demais.

Jessé disse que tudo era besteira de Lampião, aquele ignorante tosco e rude. Pegou a sua moto e voltou para Brasília, com a promessa de descobrir como sair daquela terra maldita.

Eu sabia que era tempo perdido, então baixei a bola e liguei para o SAC do demônio na tentativa de fazer um acordo. Não esperamos nem dois dias para aparecer uma comitiva de carros luxuosos, cheia de homens de terno, com um perfume que não conseguia disfarçar o mau cheiro deles. Armaram duas tendas da Moto Magno na praça da cidade. Eu entrei em uma tenda, Giovana entrou na outra.

O representante do Diabo ficou fulo da vida quando descobriu que não podia me impedir de sair. Eu não tinha alma, já que tinha dado a minha para a Bruxa Tereza. Belo truque. Mas não teve jeito com Giovana. Para ela ofereceram mais 10 anos na terra, com o corpo perfeito e um bom salário. Em troca ela trabalharia na Comissão de Regulamentação dos Motoqueiros, um órgão do congresso que visa criar leis para impedir que os motoqueiros trabalhem como autônomos, multar aqueles que abrirem a viseira enquanto parados nos sinaleiros, forçar a troca de placas a cada dois anos e, a minha preferida de todos os tempos, proibir o uso de capacetes durante atos criminosos: “Prezado marginal, favor limpar os pés e retirar o capacete antes de cometer crimes em nosso estabelecimento. A Direção.”

Logo que Giovana assinou o contrato nós fomos para as Cataratas do Iguaçu. Quase não nos falamos. Afinal, ela não se importava por quem eu era, nem pelo o que eu tinha feito por ela, muito menos por tudo que tínhamos vivido juntos. Pelo menos eu achava melhor ser ignorado do que ser manipulado. No passado, ela sempre dizia que me amava, mas a verdade é viveu a maior parte da vida ao lado do Coronel Abobrinha. Como diria o menestrel: “Princesa eu sei que sou para sempre. Mas sempre não é todo dia.”

A saída do inferno é uma prova de fé de que o Diabo não te enganará. Você precisa se jogar na Garganta do Diabo. Como não tínhamos escolha, foi o que fizemos. A queda foi tão forte que perdemos a consciência assim que batemos na água. Nossos corpos foram carregados rio abaixo, onde fomos encontrados por salva vidas depois de sermos avistados por turistas.

Como a Bruxa Tereza e o Diabo tinham avisado, Giovana não se lembrava mais de mim. Bem, que seja feliz no seu novo trabalho ferrando os motoqueiros. Vi Jessé na televisão uns meses depois. Ele estava fazendo campanha para vereador, prometendo aprovar uma lei que obrigará os motoqueiros a tatuarem a placa da moto no pulso e a vestirem uma estrela no braço. Assim todos poderão reconhecer os motoqueiros, mesmo que estejam longe de suas motos. A campanha eleitoral também tentava mostrar as vantagens aos motoqueiros, pois, segundo ela, isso diminuirá os roubos de motos. Agora eu acreditava mais ainda em Lampião, que disse que para voltar do inferno só fazendo um pacto com o Diabo.

Quem me pegou no hospital depois do afogamento foi o próprio Lampião. Ele tinha arranjado uma moto bonitona para mim. Esperamos o crepúsculo para deixarmos a cidade. Havia um pouco de névoa. Pilotávamos sem pressa, com as motos lado a lado, sem capacete e sem documento. Foi Lampião quem rompeu o silêncio:

“Você vai sentir falta de Giovana?”

Eu pensei em tudo que tinha passado com ela, abri um sorriso e respondi ao meu grande amigo:

“Nós sempre teremos Paris”.

(continua, em breve, com as novas aventuras dos Motoqueiros do Sertão)

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