Nascido para Correr

Jun 28th, 2012 | By | Category: Bicicletismo, Hobbies, Livros, Pedestrianismo Urbano, Posts

Eu não nasci para correr. Ossos largos e pesados, tendência para engordar, tendões sem elasticidade e músculos sem explosão. Acho que eu teria feito uma boa carreira como um daqueles caras barbudos que se exibem nos circos, entortando barras de ferro e levantando as espectadoras bonitas nas suas cadeiras. Mas pensando melhor talvez eu tenha nascido para correr sim, porque, por mais que seja dolorido, sempre gostei muito de rodar a cidade a pé, “trazendo comigo a imagem de todas as ruas por onde passava e sonhando com as coisas mais loucas, sem saber porque”.

Também não nasci para competições públicas. Para participar de uma competição você precisa estar disposto a aceitar regras e reconhecer o poder das autoridades. Claro que eu sigo um monte de regras, mas só quando sou obrigado, não por livre e espontânea vontade. Mas o principal motivo de não gostar de competições é que elas comparam pessoas com códigos diferentes. Qual é o mérito de tirar melhores notas se alguém nasceu com inteligência acadêmica, qual o mérito de rodar em um carro caro se alguém vem de família rica, qual o mérito de correr bem rápido quando alguém tem um corpo esportivo, qual o mérito de ser popular quando alguém veio programado com inteligência social, qual o mérito em ganhar um concurso de beleza quando alguém teve a sorte de nascer bonita, qual o mérito em superar as dificuldades quando alguém já veio ao mundo com algum tipo de obsessão?

Esse problema com as competições públicas é fácil resolver. Basta fazer o que der vontade, sem dar bola para o que os outros pensam: correr sozinho pelas ruas, nadar sem marcar o tempo, jogar xadrez nas praças contra desconhecidos e estudar só para aprender. Isso é fácil. O problema são as competições internas. Tendo consciência das minhas limitações, sempre tento superá-las. Não nasci para correr, mas corro mesmo assim. Fico com o pé cheio de bolhas, meu tendão de aquiles vive inflamado, já torci seriamente os dois pés, várias vezes, minha panturrilha fica o tempo todo travada por causa do ácido láctico e canso rapidamente por causa do excesso de peso. É fácil superar os seus limites, o duro é encontrar o ponto certo, o limite a partir do qual o bem estar vira obsessão. É até fácil virar um maluco por corridas, mas daí você vive o tempo todo cansado e machucado. O limite que se deve procurar não é o da dor, é o do prazer. Não se deve correr além do ponto no qual você pára de se sentir bem. Correr é para fazer o corpo saudável, apreciar a arquitetura da cidade, compreender o movimento do trânsito e observar as pessoas.

Outro dia estava na Livraria Cultura, um dos meus programas preferidos (ok, coisa de burguês, mas que outras opções eu tenho por aqui?), quando vi um best-seller exibido na estante. Tenho uma séria desconfiança de que as livrarias recebem algum benefício para destacar esse ou aquele livro, por isso dificilmente dou bola para o que tentam me empurrar. Mas desta vez soou um sino quando vi o livro Born to Run (“Nascido para Correr”), de Christopher McDougall (2009).

O livro tem umas teorias muito doidas, como a de que os tênis modernos com amortecimento causam contusões e que o alongamento machuca. Sobre o alongamento eu sempre tive essa impressão. Prefiro aquecer devagar. Mas a teoria mais doida – no bom sentido – é que o ser humano nasceu para correr. Quase todos os cientistas dizem o contrário, de que nós não nascemos para correr, uma vez que não conseguimos alcançar as velocidades comuns de outros animais. No entanto, o autor fala de alguns estudos que demonstram que nascemos para correr longas distâncias, não em alta velocidade. Agora, qual seria a vantagem evolucionária disso? É que o corpo humano tem um super sistema de resfriamento: suor e respiração não sincronizada com a passada. Outros animais até correm mais que a gente, mas por poucos quilometros. Depois disso, ou eles param para esfriar o corpo ou então simplesmente morrem. Então, para caçá-los, basta perseguí-los à distância, sem deixar que descansem. Uma hora ou outra eles caem. Doido.

Mas não foi isso que mais me atraiu ao livro. Para comprovar as suas teorias, o autor procurou os Tarahumara, uma das tribos mais reclusas que se pode imaginar. Eles são conhecidos por serem os maiores corredores de longa distância do mundo. No início dessa aproximação, o autor tentou observar como eles se moviam, na esperança de compreender porque conseguiam correr tão longe, sem se machucarem. Mas com o tempo aprendeu o grande segredo. É que eles não correm contra os outros, não correm contra a pista, não correm para vencer a distância, não correm contra eles mesmos. Eles correm por prazer. Eles correm com compaixão.

Estou tentando seguir esses ensinamentos nas ruas do Recife. Ao invés de procurar o limite do meu corpo, me concentro em correr fácil, direito e leve. Claro que no meu caso isso significa um trote lento, quase andando. Também não vou muito além de um pouco mais de uma légua. Mas não importa, pois estou curtindo muito mais.

Mas nem tudo é perfeito. Correr na cidade traz alguns problemas. Um dia estava correndo na Avenida Caxangá quando me meti no meio da torcida do Sport, que ia para o estádio. De repente todo mundo começou a correr da polícia. Eu no meio. Sorte que conhecia as ruazinhas da região, então não fui preso por estar correndo sem documentos. É por aí, se você não está correndo em algum lugar bacana da cidade, então provavelmente é ladrão.

Outro problema são os carros. A minha vida de motoqueiro já não é nada fácil com esses quadrúrrodes. Agora, como pedestre é muito pior. Tem uns caras que não têm a mínima noção de trânsito. Não param nas faixas de pedestres, dão a ré sem olhar para trás e fazem curvas à toda. Dentre os sem noção, não sei qual o pior tipo de carangueiro, se são os imprudentes (que acham que a rua é só deles), os embriagados (que não têm consciência do perigo de rodar com uma máquina de uma tonelada) ou os burros (que depois dos acidentes sempre dizem: “desculpa, é que eu não tinha te visto”). O segredo para não morrer atropelado é o mesmo para pedestres, motoqueiros e bicicleteiros: seja inteligente por você e pelos outros.

Mas voltando ao que interessa – que é correr pela cidade -, meu horário preferido é o pôr-do-sol. A temperatura é mais branda e posso observar as pessoas sem parecer esquisito demais. Tenho um vizinho que diz que acerta o relógio pelas minhas saídas para correr. O coitado não consegue diferenciar horário político de horário solar.

Com essa mistura de andar de moto, de bicicleta, a pé, de carro (argh!) e de ônibus, vou entendendo cada vez melhor o trânsito da cidade. Tem o lado ruim: carros matando motoqueiros e pedestres, carrões buzinando para carros velhos saírem da frente, sinalização mal projetada e calçadas esburacadas. Mas tem o lado bom: pessoas felizes caminhando para festas, a cidade crescendo de forma orgânica, os motoqueiros propondo um novo tipo de trânsito democrático, os bicicleteiros com o sorriso dos abençoados e as crianças brincando de correr.

É isso: crianças. Aí está a resposta que o autor de “Born to Run” achou do porquê nascemos para correr. Não nascemos para correr da polícia, ou para ganhar uma competição, ou para fazer o nosso corpo doer tanto até nos esquecermos das nossas angústias. Nós nascemos para brincar com uma moto no trânsito, com os outros durante as viagens de ônibus (desde que você não seja introspectivo), brincar de conhecer o mundo em cima de uma bicicleta e de correr fácil, certo e leve pelas calçadas.

12 Comments to “Nascido para Correr”

  1. joice says:

    Adorei!!!! Sou suspeita, mas além de gostar de ler seus textos, adoro o assunto. Acho que nesse caso o DNA explica, pois sempre gostei de quase todo o tipo de esporte, mas nunca de competição…..rsrrsrs…Bom, cheguei à conclusão, não cientificamente comprovada, de que, por incrível que pareça, temos quase os mesmos gostos. Bjos e sdd!!!

  2. Dennis says:

    Já ví um documentário sobre essa tribo Tarahumara, achei muito interessante.

  3. magnani says:

    Oi Joice, legal que gostou. Esse negócio de competição é muito esquisito… Beijo.

  4. Thenio says:

    Deu ate vontade de correr. 😀
    Muito bom o texto, Fabio. Parabens.

  5. Luciete says:

    Professor, adorei o texto.

  6. magnani says:

    E eu, Luciete, fiquei muito feliz com o elogio. Um abraço.

  7. magnani says:

    Oi Bacanex, mas magrinho assim é fácil, né? Abraço.

  8. magnani says:

    Oi Dennis, tô esperando você fazer a inscrição aqui no mestrado, hein? Abraço.

  9. JP says:

    Fábio, eu corro todos os dias aqui em Santa Cruz, procuro as ruas menos movimentadas, fugindo do transito das 18h, eu particularmente acho muito legal pois me sinto bem “humano” quando corro!!!!

  10. magnani says:

    Oi JP. Pô… até em Santa Cruz tem trânsito ruim, né? Tá na hora de todo mundo fazer algo em relação a isso. Os governantes certamente não são competentes para tanto. Abraço.

  11. JP says:

    O pior é que os governantes não ligam (até ai nenhuma novidade) pra o nosso furuto inchado de veículos (vide incentivo para a compra de mais!). Só pensamos em carros e como os locomover, destroem e desabitam, para construir novas estradas, para mais carros, até que a lotamos de mais carros, depois mais estradas… Círculo vicioso! Até onde isso vai chegar? Realmente temos que começar a pensar de maneira diferente em relação a isso… Um dia a bomba estoura!!!

  12. magnani says:

    Isso mesmo JP. Aqui em Recife estamos copiando o que os EUA fizeram de errado nos anos 50. Estamos criando suburbios, fazendo mais estradas e comprando um monte de carros. Isso é bom para os governantes, pois aumenta a arrecadação. Eles não estão nem aí se esse “progresso” vai estourar mais para a frente. Vamos votar certo!

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