Campanha de Prevenção de Acidentes de Moto – Olhe Duas Vezes

May 14th, 2012 | By | Category: Acidentes, Engenharia & Estudos, Motoqueirismo, Posts

Quão próxima deve estar uma moto para que você possa vê-la? Em um cruzamento: olhe, olhe e então olhe mais uma vez.

A maioria dos acidentes envolvendo motos é causada pelos carros que “ops, desculpa, foi mal” não viram a moto (e.g., Hurt Report, MAIDS).

Esse fenômeno pode ter várias causas. Primeiro, é possível que os seres humanos tenham realmente alguma deficiência mental para ver veículos em duas rodas. A segunda possibilidade é que eles talvez até vejam as motos, mas avancem mesmo assim, esperando que o veículo mais frágil diminua a velocidade. A terceira e mais provável possibilidade é que os motoristas de carro (carangueiros) não tenham sido devidamente treinados para compartilhar as ruas com motoqueiros, bicicleteiros e pedestres.

As campanhas contra acidentes de moto no Brasil não levam em conta a culpa dos carros. Ao invés de educar os carangueiros, as campanhas insistem em criminalizar os motoqueiros, dizendo que as causas dos acidentes são apenas o álcool ou a imprudência de quem está na moto. Por que isso? Mais uma vez há muitas possibilidades. Uma delas é que motoqueiros em geral são mais pobres, por isso necessariamente devem ser os culpados, né? Uma segunda possibilidade é que quem não anda de moto morre de medo de moto. Qualquer coisa para eles é imprudência.

Nos outros países também é assim, com a maior parte das campanhas colocando a culpa nos motoqueiros. Por exemplo, o vídeo abaixo tenta mostrar que se o motoqueiro estivesse mais devagar ele teria se livrado do acidente. Tudo bem, isso está certo. Se estivesse mais rápido também teria se livrado (ah… eu também sei usar falácias). Mas a questão não é essa. O problema é que quem causou o acidente foi o carro!

Se o motorista tivesse olhado não haveria acidente.

Embora os responsáveis pelas campanhas pareçam não saber que os carros é que matam os motoqueiros, esse é um fenômeno largamente estudado por cientistas e por técnicos de trânsito. É conhecido como LBFTS Effect (looked but failed to see), i.e., Efeito Olhei Mas Não Vi.

No final das contas, o que é preciso fazer de fato para diminuir os acidentes?

  1. Ouvir de verdade os motoqueiros. Inútil, a gente somos inútil!
  2. Continuar com as campanhas contra o uso de drogas, celulares e vídeos no trânsito. Sem fins eleitoreiros ou de engenharia social.
  3. Reformular a educação dos motoqueiros, fazendo campanhas pensadas por quem entende de moto e por quem sabe falar com os motoqueiros. As campanhas não deveriam ser lideradas por quem tem medo de tudo, por quem tem interesse em vender motos, por quem quer ser promovido, por quem se acha um “motociclista diferenciado”, por quem acha que os motoqueiros são um subpovo, por quem quer presidir uma organização, por quem não tem poder político, por quem não é representante dos motoqueiros ou por quem quer concorrer em alguma eleição. Todos devem participar, mas a liderança tem que ser independente, forte e ligada aos motoqueiros. Chega de campanhas do medo. Chega de falácias.
  4. Educar os motoristas de carro para que aprendam a visualizar tanto os veículos em duas rodas quanto os pedestres. Agora, será que alguém tem coragem de, em ano de eleição, fazer uma campanha para ensinar a classe média a se importar com os pobres?
  5. Realizar estudos científicos para quantificar as reais causas de acidentes de moto no Brasil. Chega de achismos. Chega de confundir causas (carros assassinos) com conseqüências (motoqueiros mortos). Não são as motos que matam, são os carros. Chega de falácias.
  6. Cobrar os resultados das campanhas governamentais. Isso mesmo, queremos comparar o que vem sendo feito aqui com o que é feito em outros lugares. Também queremos saber quanta grana vem sendo gasta. Ah… e depois ver quem usou essas campanhas para se candidatar nas próximas eleições.
  7. Exigir a participação efetiva das fábricas de moto. Ganhar 12 bilhões por ano é fácil. Agora, ser responsabilizado pelo uso do seu produto, daí ninguém quer, né?

Motoqueiros são vulneráveis: precisam ser protegidos.
Motoristas imprudentes são perigosos: podem ser educados.
Autoridades ignorantes são responsáveis: serão denunciadas.

Quão próxima deve estar uma moto para que você possa vê-la? Em um cruzamento: olhe, olhe e então olhe mais uma vez.

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