O Motoqueiro do Sertão – parte 3

Aug 25th, 2009 | By | Category: Ficção, Posts

Jessé teve sorte da moto já estar ligada. Pulou no banco e acelerou. Podia ouvir os tiros e o cantar dos pneus dos carros da polícia que vinham em sua perseguição. Sua moto era boa para trilhas, mas não poderia fugir dos carros em uma estrada aberta. Assim que saiu da cidade, entrou no meio da caatinga por um caminho de animais. Correu por mais de meia hora no meio dos espinhos, protegido pela jaqueta de couro. Quando se sentiu seguro, desligou a moto, respirou fundo e falou para um mandacaru que tomava sol por ali:

– Isso foi armação. Como sabiam que apareceria um bandido por ali? E os carros da polícia já preparados para me seguir? Aquela Thaís armou tudo. Mas por que?

O que deveria fazer agora? Fugir ou tentar descobrir o que aconteceu?

– Deu tudo certo para eles, seja lá o que queriam comigo. Mas cometeram um erro: nunca mexa com alguém que não tem nada a perder.

Continuou pilotando pela trilha até chegar perto de outra cidadezinha. Escondeu a moto, tirou a jaqueta de couro e vestiu a roupa que estava guardada para os futuros dias de vendedor: camisa branca, calça social e sapato de verniz. Entrando a pé na cidade, procurou com os olhos alguma opção. O cabelão e a barba sempre foram motivos constantes de discussão com a ex-mulher e de gozação no trabalho, mas seriam a sua salvação. Sem hesitação, pediu um corte bem tradicional na cabeça e para passar a navalha na barba. Pronto, agora ninguém o reconheceria.

Não queria perder o elemento surpresa. Pensariam que estava fugindo naquele momento. Pegou um ônibus de volta para Serra dos Albuquerques. Não foi difícil achar a casa de Thaís naquela cidade tão pequena. Assim que ela entrou na casa, Jessé pulou o muro e olhou pela janela para estudar o local. A mulher estava sozinha. Linda como sempre, mas não era momento para pensar naquilo. Thaís não teve tempo nem de esboçar um olhar de surpresa ao ver Jessé entrar pela porta do fundo. Levou um soco na cara de primeira. Caída no chão, com o nariz sangrando, perguntou:

– Mas, o que…

Um forte pontapé na coxa da mulher fez com que entendesse que os jogos tinham acabado. Jessé pegou-a pelos cabelos, jogando-a em uma cadeira.

– Agora fala tudo o que você sabe. E rápido!

– Eu juro que não sabia de nada. O juiz mandou eu arranjar um desconhecido para fazer aquele serviço. Só isso. Só depois que ouvi os tiros é que percebi o golpe.

– E agora você vai morrer por causa da besteira que fez! Ameaçou Jessé.

– Por favor, não faça nada comigo. Eu prometo que te ajudo. Eu juro! Eu não sabia de nada!

Jessé, acreditando na mulher e precisando de um tempo para organizar o seu plano, amarrou-a na cadeira, amordaçada. Ligou o rádio para descobrir alguma notícia.

– Prezados ouvintes. Acabamos de receber uma notícia da polícia. O assaltante já foi reconhecido. O imbecil assaltou o banco com uma moto registrada em seu próprio nome, que é Jessé Jemisson do Nascimento. Ele era consultor de segurança predial na capital. Antes tinha sido especialista em demolições no exército. Uma pessoa com todo o treinamento necessário para um assalto. O seu ex-empregador já reconheceu as fotos tiradas pelo sistema de segurança. Disse que o meliante estava desesperado, largado pela mulher e sem emprego.

Thaís olhava incrédula para o rádio, que continuava:

– Conseguiu roubar 50 mil do cofre, matando dois seguranças e o secretário de finanças do município. A cidade está em luto. Mas o vagabundo não vai fugir. Dizem por aí que o juiz está oferecendo uma recompensa de 2 mil para quem trouxer o cabra. Detalhe: morto ou morto.

(continua)

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7 Comments to “O Motoqueiro do Sertão – parte 3”

  1. Denny Master says:

    Eita que Jessé lascou-se…

    Vamos lá, começar o abaixo assinado para que o capítulo 4 seja posto no ar ainda hj no final do dia.

  2. magnani says:

    Isso que dá o cara confiar na primeira rameira que encontra por aí… hehehe

  3. Denny Master says:

    É meu amigo, uma carinha bonita esconde um grande perigo… hehehehe

  4. Cara, ainda digo que o Jessé precisa conhecer o Tonhão.
    Daí o circo pega fogo. (quando der tempo eu pego os textos do Tonhão e envio pra vc).

    O Tonhão é minha criatura anti-heroi .
    rsrs

  5. magnani says:

    Denny, o Jessé que o diga… O que não faz a carência, hein?

    Gustavo, não sei não hein? O Jessé tá só começando… o cara é flórida! kkkk

  6. JP says:

    Fabio, ta muito legal essa historia, ta a cara do sertão mesmo, fico viajando com a historia, da até filme.

    Coitado do Jessé, ficou enfeitiçado com a “bunitona” e se fu…. Mas foi bem merecido o murro no porta óculos dela!!!!

  7. magnani says:

    Obrigado. Eu tenho vontade de escrever mesmo um livro desse jeito. Quem sabe mais para a frente… por enquanto vou publicando por aqui.

    Amanhã termina… hehehe

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