Os Motoqueiros Também Amam

Oct 11th, 2012 | By | Category: Motoqueirismo, Papo Geral, Posts, Viagens

Há duas semanas atrás eu e a Renata comemoramos os mais de cinco anos do nosso casamento. Foi uma choradeira só. Melodramas a parte, pelo menos serviu para provar que os brutos também têm coração. Agora, tudo bem que tenha sido importante para nós dois, mas por que falar sobre casamento aqui em um blog de motoqueirismo? Elementar… é que o nosso casamento se confunde completamente com as nossas experiências em duas rodas.

Foi em 2007, quando nosso casamento ainda estava começando, que ganhamos a Falcon. A moto sempre foi muito simbólica do que estávamos vivendo. O risco permanente representava os novos riscos que tomávamos em nossas vidas, as viagens ilustravam nossas novas experiências e a necessidade de rodarmos abraçados demonstrava a nossa nova união. Um mês depois de comprarmos a moto já pegamos a estrada, em uma viagem de 1000 km, no nosso maior desafio até hoje: a Viagem a Penedo. Depois passamos todo o restante de 2007 em um monte de viagens por Pernambuco e pelo Nordeste.

Em 2008 fizemos duas viagens maiores. Na Grande Viagem fomos até o interior de São Paulo, minha região natal. Conhecemos um monte de gente e um monte de lugares. Na Viagem ao Sertão rodamos por vários estados do Nordeste, com destaque para a Serra da Capivara e o Parque das Sete Cidades.

Daí chegou a hora apostar alto. A Renata engravidou e planejamos a Viagem ao Atacama. Tivemos que juntar dinheiro por mais de um ano, comprar uma nova moto, formar um grupo para a viagem e preparar toda a logística para as crianças enquanto estivéssemos na estrada.

Esse foi o ápice, até agora, da nossa vida de aventureiros. Depois dessa viagem nossa vida mudou bastante. A Renata passou a acumular o doutorado, o trabalho e o cuidado com a nossa família. Por isso não podia mais sair tanto de moto. Eu, pelo meu lado, não me satisfazia mais em só andar de moto. Queria ensinar assuntos de duas rodas na universidade, escrever sobre nossas experiências nas ruas e nas estradas, e contribuir para uma nova visão sobre o monopólio das fábricas japonesas, sobre as campanhas educativas autoritárias, sobre a cultura das duas rodas e também sobre o preconceito contra os motoqueiros. Por isso, nos últimos dois anos nossos finais de semana passaram a ser dedicados a aprender tudo sobre as motos e as bicicletas, e a escrever no blog Equilíbrio em Duas Rodas. Não é tão glamuroso como rodar nas estradas, mas é a nossa humilde retribuição ao motoqueirismo. Claro que volta e meia ainda saímos de moto ou de bicicleta para uma volta.

Como dá para ver, nosso casamento tem tudo a ver com duas rodas. Foi por causa da Renata, e com a Renata, que vivi todas as aventuras dos últimos anos. Também é por causa da Renata que eu me esforço por ser um homem minimamente decente, batalhando com a minha pena – ainda que de forma pequena, humilde, quixotesca e irrelevante – pelo motoqueirismo e pelo bicicletismo.

Voltando ao casamento, a parte civil já tinha sido realizada em Recife algumas semanas antes. Foi coisa bem rápida, no fórum, junto com um monte de outros casais. Acho que éramos o casal mais novo, o que me deixou desconfiado que os jovens não estão mais se casando. Gosto de acreditar que eles preferem gastar o dinheiro com motos e viagens.

A festa mesmo foi em Limoeiro, na casa que tinha sido do avô da Renata e que agora é da tia dela. A Renata passou a infância toda indo para aquela fazenda. Mesmo depois de casados, continuamos passando muitos finais de semana naquela sacada fresca e tranquila. Por isso escolhemos comemorar exatamente ali.

Convidamos só os amigos e familiares mais próximos. O dia começou bem cedo com a preparação das roupas. O vestido da Renata tinha uns 87 botões, pelo menos até a parte em que parei de contar. Lá pelas dez os convidados começaram a chegar para tomar o café da manhã. As mesas estavam espalhadas pela sacada, que dá a volta na casa toda. As crianças se aventuravam pela fazenda, na companhia de um morador dali da região. Convidamos um duo para tocar para o pessoal: uma flauta e um teclado. Na hora veio também um saxofonista, que fez a música ficar mais legal ainda.

Um pouco depois das onze começou a cerimômia. A tia da Renata leu um texto que nós havíamos juntado com o tempo: Celebração de Fábio e Renata. Depois disso veio o almoço, a conversa, mais música e a inevitável despedida. Fiquei um pouco chateado porque não pude dar a devida atenção a todo mundo que estava ali. Paciência, não tem como ser diferente.

Para essa comemoração fizemos um par de alianças especiais. O design rústico delas – parte pirata, parte medieval, parte geométrico -, foi escolhido para simbolizar o valor que damos à aventura, ao conhecimento e à essência das coisas. O serviço manual do ourives – que foi uma recomendação e também um presente – representa a generosidade que as pessoas têm umas com as outras. Finalmente o material, que foi derretido de peças antigas, demonstra o respeito pelos que já passaram por aqui. Bem… elas também formam duas rodas, mas isso é só coincidência. Embora uma grande amiga minha sempre diga que não existem coincidências.

Foi muito bom poder fazer um casamento em um lugar especial, com testemunhas especiais, de uma forma especial e em um momento especial de nossas vidas. Nunca dei muita bola para essas celebrações, pois sempre me rebelei contra a autoridade do governo e da igreja. Mas depois desta comemoração eu percebi a importância que os rituais têm para as pessoas. Foi muito marcante para mim poder contar para todo mundo o que eu sinto pela Renata.

Até hoje, enquanto escrevo essas palavras, ainda fico com os olhos marejados ao lembrar daquele dia. Foi como se todas as nossas aventuras e emoções tivessem se concentrado naquele único momento em que me declarei para a Renata. Agora espero que aconteça o contrário, que aquele momento se espalhe por todo o nosso futuro. Que sempre possamos sentir intensamente a nossa ligação: a cada caminhada de mãos dadas, a cada passeio de bicicleta e a cada viagem de moto. Afinal, as duas rodas sempre representaram a nossa união. Que continue sendo assim.

8 Comments to “Os Motoqueiros Também Amam”

  1. Renato says:

    Parabéns ao casal, muitas felicidades. E vamos colocar essa moto na estrada! Quand passar por aqui quero ter a sua visita, Fábio.

  2. magnani says:

    Valeu Renato. Pode deixar que um dia passamos por aí. Bom feriadão.

  3. Bacanex says:

    Foi muito bom poder participar de um momento tao bonito e tao importante. Fiquei muito feliz de poder testemunhar a confirmacao desse sentimento, da amizade, do companheirismo e da cumplicidade que unem voces, meus amigos. As fotos infelizmente nao tive tempo ainda de editar e entregar a voces, mas assim que a faculdade me der um alivio vou me empenhar nessa tarefa e ai marcamos mais um encontro para andarmos de moto e conversamos e contarmos historias legais, alem, claro, de ver as fotos do dia. 🙂
    Abracao aos dois.

  4. magnani says:

    Legal, Bacanex. Nós ficamos muito felizes em compartilharmos aquele momento com vocês. Abração.

  5. Rômulo Borba says:

    Parabéns!! Eu como leitor e admirador das viagens de vocês, fico muito contente em ver uma história bonita dessas! Achei incrível a historinha das alianças. Abraço! Sejam sempre felizes!

  6. magnani says:

    Oi Rômulo. Esse negócio da aliança não é um caso de explicação depois dos fatos não. rsrsrs. Nós pensamos em tudo isso ao escolhermos o design, o lugar e o material. Valeu pela lembrança. Abraço.

  7. Lindo texto.
    Abraço a família.

  8. magnani says:

    Valeu, Gustavo. Faz tempo que não trocamos umas palavras… Abraço.

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