A Moto do Sertão

Nov 22nd, 2012 | By | Category: Acidentes, Engenharia & Estudos, Livros, Mais Destaques, Motoqueirismo, Motos, Outros Textos, Posts

As motos estão substituindo os animais no interior do país – tanto na carga de produtos quanto no transporte de pessoas. Bom para os animais, mas ruim para os motoqueiros, que estão se endividando para pagar os carnês e se acidentando nas pistas. As causas desses acidentes são claras: poucas alternativas de lazer e de cultura, transporte de qualidade inexistente, campanhas oficiais que se resumem à criminalização das vítimas e um monopólio japonês que oferece motos de projeto no mínimo duvidoso. Chegou a hora da Moto do Sertão: um grande programa de valorização da vida no interior, incluindo a produção brasileira de motos bem projetadas e com a responsabilização dos reais culpados pelos acidentes.

Depois de muitos anos na procura, até que enfim consegui encontrar um cordel que fala de moto. É “A Moto e o Jegue”, de Davi Teixeira (2005), que exponho com muito orgulho na minha biblioteca de livros de moto. Achei em uma dessas feiras de cultura tradicional no Paço Alfândega. O cordel não fala lá muito bem das motos, muito pelo contrário, mas ele puxa uma prosa que estou querendo levar já faz um tempo, que é a situação dos motoqueiros no interior.

Embora seja quem primeiro aparece no título, a moto não é o assunto principal do poema – é o jegue: sua escravidão perpétua nos trabalhos forçados, a importância no transporte de produtos e pessoas, sua versatilidade ao trilhar caminhos por onde os carros não passam e até a sua exploração como símbolo cultural para atrair turistas.

O jegue sempre foi uma peça central na vida do sertão. Mas isso vem mudando nos últimos tempos, pois cada vez mais a moto toma o seu lugar. O que claramente deve ser visto como uma coisa muito boa, pois representa a libertação do bichinho. O cordelista não reclama disso. O problema, segundo o poeta, é que agora o jegue, que não tem mais uso, está completamente abandonado. Pior ainda, pelo menos naquela época em que foi escrito, os jegues passaram a ser abatidos para a exportação da sua carne.

Outro aspecto do cordel é que o sertanejo foi meio que enganado nessa troca do jegue pela moto. Além de ser cara na loja, a moto tem gastos com gasolina, óleo, pneu e manutenção. Quando o cabra vê, está com um carnê bem gordo para pagar as prestações. Isso sem contar o número cada vez mais alto de acidentes.

Um ponto curioso é que o jegue já foi considerado artigo de luxo, como na música “Estrada de Canindé”, a minha preferida do Luiz Gonzaga. Nela, quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé.

Bem, está feita aí a apresentação do cordel. Só que, como não me vejo em condições de discutir o que está acontecendo com os jegues no sertão, vou ficar apenas com a personagem secundária dessa estória. Como em um bom repente, vou aproveitar o mote para desenvolver o assunto na direção que mais me apetece. Pois o que quero falar mesmo é sobre o uso das motos no sertão.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas o que é o sertão? Para dizer a verdade, eu nunca descobri direito qual a definição acadêmica. Às vezes as pessoas usam como se fosse uma região climática, como o semiárido. Às vezes como sinônimo de uma vegetação: a caatinga. Outras vezes ainda para falar de todo o interior do país. Bem, eu gosto de usar nesse sentido mais amplo.

Eu me sinto muito a vontade para falar do interior. Venho de uma cidade pequena, perto da divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Por isso, por ser um caipira, me considero também um sertanejo. Mas tenho mais razões ainda para tomar a liberdade de tocar nesse assunto: as minhas viagens de moto são quase sempre para o interior, o que às vezes até dá motivo para me chamarem de Lampião. Isso fica claro na Grande Viagem, na Viagem ao Sertão, nas Voltas em Pernambuco, nos Passeios pelo Nordeste e na Viagem ao Atacama. Para falar a verdade, eu me sinto muito mais em casa em uma rodoviária do interior do que em um shopping do Recife ou em uma praia de Florianópolis.

A moto é usada no interior para transportar carga, transferir doentes, como forma de lazer e como símbolo de status. Não há alternativa, já que não há transporte público de qualidade. Pior ainda, como a cultura brasileira há muito tempo vem sendo pautada pela televisão urbana, a única diversão que os jovens valorizam são aquelas praticadas nas grandes cidades.

Qual o problema com isso? Não sou eu quem defende o uso das motos? O problema é que as pessoas estão se endividando para comprar essas motos mal projetadas e estão se matando nos acidentes. O que deveria ser uma boa solução está causando a desgraça para muitas famílias.

Quais são as causas imediatas desses acidentes? Já falei bastante sobre isso nos textos “Estudo MAIDS: Carros São a Principal Causa dos Acidentes com Motos” e na “Entrevista ao Blog MotordoMundo“. Em resumo as causas dos acidentes com motos são os carros, as motos mal projetadas, o uso do álcool, a imprudência, a imperícia, as falhas mecânicas e as vias mal conservadas. As autoridades tentam resolver o problema, com blitz eventuais contra a direção alcoolizada, multas eventuais para quem é imprudente, campanhas toscas para convencer os motoqueiros que eles são os únicos culpados dos acidentes, confiança completa de que as auto e moto escolas ensinam direito, confiança completa nas fábricas de que elas vendem produtos realmente seguros, resgate e atendimento aos acidentados, seguro aos inválidos e pensão aos familiares dos mortos. Isso não vem diminuindo muito os acidentes, mas vem aumentando bastante o custo com atendimento médico. Enquanto isso as fábricas agradecem por não terem seu lucro diminuído.

Claro que essas ações são boas. Representam um começo. Mas precisamos de mais ações. O Japão, por exemplo, já viveu esse problema dos acidentes nos anos 60. Para resolver, eles passaram cinco anos bolando uma legislação, cinco anos implementando as campanhas e mais dez anos esperando os resultados. Isso com a participação do governo, escolas, fábricas e sociedade. Não podemos simplesmente copiar essas ações, pois nossa cultura é diferente, mas podemos aprender que combater os acidentes não é coisa para amadores.

Além dessas ações, o que precisa ser feito é cobrar a participação das fábricas, que lucram R$ 12 bilhões por ano. Cobrar resultados das autoridades. Fazer um amplo estudo das reais causas dos acidentes – nas ruas. Perguntar aos motoqueiros que não se acidentaram porque não se acidentaram. Reformular as campanhas contra o uso de drogas, pelo uso do capacete e pela habilitação. Educar os carangueiros para tomarem cuidado com os motoqueiros, bicicleteiros e pedestres. Educar as crianças para o trânsito. Produzir uma cultura que valorize a harmonia no trânsito. Criar uma indústria brasileira que fabrique as motos que realmente precisamos.

Essas são ações gerais, que precisam ser tomadas para todo o Brasil. No caso do interior, algumas ações específicas são necessárias. Para começar, seria bem legal que os responsáveis pelo planejamento das ações fossem motoqueiros sertanejos, não carangueiros urbanos que não conhecem da missa a metade.

Outra ação específica para o sertão é o projeto de motos apropriadas para o uso nas estradas de terra e para usos específicos, como o transporte de carga. É um absurdo que todas motos de baixo custo no Brasil tenham exatamente a mesma concepção. As mesmas motos são usadas pelos motoboys que precisam de agilidade, pelas mães que transportam suas famílias e pelos trabalhadores que carregam mercadorias. Isso é fruto do protecionismo do governo militar que fechou as importações entre 1976 e 91. Ao invés de fortalecer as fábricas brasileiras, o tiro saiu pela culatra, criando um monopólio paradisíaco para as fábricas japonesas, que agora fazem o que bem entendem.

Motos bem projetadas seriam bem vindas. Essas motos que rodam por aí, mesmo as japonesas, não são projetadas para as nossas necessidades. Precisamos de suspensões adequadas, motos mais leves, sensores de alerta de aproximação de veículos, ABS em todas as motos, motos elétricas com carregamento solar, pneus de uso misto que funcionem de verdade, sinalizadores para o resgate no caso de acidentes e muito mais. E os capacetes, que foram projetados para climas frios? Até que ponto o calor que se sente nesses capacetes não aumenta a incidência de acidentes? Isso precisa ser estudado.

Precisamos também de competições esportivas espalhadas por todo o país. Em primeiro lugar, elas atrairiam os jovens mais arrojados para um lugar seguro, bem projetado, com ambulâncias e médicos. As corridas também estimulariam o desenvolvimento de novos produtos e testariam as motos que estão no mercado. O Rally dos Sertões e as corridas de motocross podem até ser usadas como primeiros exemplos, mas têm que ser vistas com cuidado, pois suas motos são muito caras, andam em altíssima velocidade e carecem de manutenção quase que diária.

Uma constatação muito importante é que os jovens precisam de lazer para deixar a velocidade apenas para as pistas e para diminuir o consumo de álcool. Voltando ao Japão, os acidentes diminuíram muito nos anos 1980. Há vários fatores para isso, mas um deles é o aparecimento dos videogames, que substituíram em parte as corridas clandestinas dos bosozokus. Não estou defendendo o uso de eletrônicos no sertão, é só um exemplo, mas certamente nossos jovens precisam de lazer. Eles que devem escolher, mas sugestões seriam eventos esportivos, festivais de teatro, festas de colheita e por aí vai. Mas não vale dizer que isso já existe, pois em geral essas atividades são pouco frequentes, entulhadas, de baixa qualidade, engessadas no passado ou importações artificiais de culturas estrangeiras.

As cidades pequenas também precisam de transporte público de qualidade, não são só as capitais. A moto deve ser usada apenas quando apresenta alguma vantagem, não por ser a única escolha. E para quem precisa de transporte individual, as estradas precisam ser mais bem cuidadas e sinalizadas. Por que as estradas de terra não podem ter uma boa infraestrutura?

Por fim, e mais importante, é preciso investimento em cultura. Uma cultura que valorize a vida no interior, que crie novos horizontes para os jovens e que promova um trânsito mais saudável. Já pensou um festival de curtas que explore todos os lados do motoqueirismo sertanejo? Ou um desafio de design de motocicletas para os vários usos no interior? Ou um fórum acadêmico com especialistas de todas as áreas discutindo soluções para os acidentes de forma inteligente? Ou a formação de uma cooperativa de jovens que proponha uma nova forma de organizar o trabalho com motos por ali? Legal.

Muito além das motos, são necessários incentivos para filmes, livros, documentários, websites, festas, feiras, congressos e tudo o mais que fale sobre a vida atual e futura de quem vive no interior. É preciso incentivar fortemente uma cultura que respeite as raízes dos jovens, mas que aponte principalmente para o novo. Que seja viva, democrática e livre.

Escrevi tudo isso porque ninguém me tira da cabeça que a grande causa desses acidentes envolvendo motos no interior é a falta de oportunidades. Falta lazer, cultura e transporte.

Chegou a hora de perceber que os motoqueiros não são criminosos, como também não são os responsáveis por toda essa calamidade – eles são as vítimas! Chegou a hora de cobrar resultados concretos das autoridades. Chegou a hora de cobrar a participação financeira das fábricas japonesas, que lucram R$ 12 bilhões por ano, mas não contribuem com quase nada além de pequenos agrados. Chegou a hora de dar mais oportunidades aos jovens. Chegou a hora de dar qualidade de vida aos sertanejos. Chegou a hora de perguntar a opinião dos motoqueiros sobre as campanhas de prevenção de acidentes.

Chegou a hora de projetar motos decentes, que serão conhecidas por justos apelidos como: Moto do Sertão, Moto Sertaneja, Moto Caipira, Moto Verde, Moto Científica, Moto Inteligente, Moto Digital, Moto Conectada, Moto Honesta ou Moto Segura. A fama ficará com o empresário, gestor ou governante mais ágil para planejar toda a operação, fabricar as máquinas e colocá-las no mercado.

Chegou a hora da Moto do Sertão: um grande programa de valorização da vida no interior, incluindo a produção brasileira de motos bem projetadas e com a responsabilização dos reais culpados pelos acidentes.

E, para o meu repente não ficar sem arremate, também já é chegada a hora de deixar os jegues finalmente desfrutarem sua aposentadoria em paz nos campos do nosso sertão. Ah, esses jegues de que falo são os bichinhos, não estou aqui me referindo a alguns dos responsáveis pela situação atual do motoqueirismo brasileiro, visse? Se bem que não seria má ideia…

4 Comments to “A Moto do Sertão”

  1. Tiago Moura says:

    De fato, um projeto dimensionado para esse público seria altamente louvável. Sou oriundo do sertão cearense, e sei bem dessa mudança na cultura e rotina do sertanejo, é simplesmente alarmante.
    As montadoras não estão nem aí se o “comprador” tem renda compatível com a dívida, se tem condições físicas e mentais de conduzir uma moto. O pobre sertanejo, que tem como lazer ficar de frente a televisão, cai fácil na propaganda; “sua moto 0km sem nada de entrada”. Bom você sabe bem como é. Ótimo texto, e fico com a pergunta que me faço a um certo tempo; o que simples mortais como nós, podemos fazer para, pelo menos iniciar uma mudança?

  2. magnani says:

    Oi Tiago, acho que todos podemos colaborar com as ações que estão no texto. Principalmente, podemos lutar contra essa conversa fiada de que os motoqueiros são sempre os culpados. Quando uma autoridade, um amigo ou qualquer pessoa vier com essa conversa, temos que lembrá-los de que os motoqueiros são as vítimas deste país que não oferece lazer, cultura, educação e perspectiva profissional para os seus jovens. Um abraço.

  3. Zenna Rocha. says:

    Sem falar nas motos com IPVA atrasado ou alienadas.Que são vendidas a preço de banana na zona rural..

  4. magnani says:

    Oi Zenna, tudo bom?

    Claro que essas motos sem imposto trazem um prejuízo ao estado, mas não tenho certeza se se são causas diretas dos acidentes.

    Outro dia ouvi uma autoridade defender o aumento do IPVA para diminuir os acidentes. Em outras palavras, ela estava dizendo que daí os pobres não poderiam mais andar de moto. Proposta imbecil, né? Daqui a pouco essa autoridade vai propor a prisão dos pobres como forma de diminuir os acidentes. Não sei como ninguém vê esse tipo de preconceito que vem sendo publicado o tempo todo!

    Continuo achando que o melhor é oferecer educação, lazer, cultura e boas oportunidades para o crescimento profissional.

    Essas motos adulteradas são um sintoma de problemas maiores, não são a causa. Mas para as autoridades é sempre mais fácil colocar a culpa nos motoqueiros. A classe média compra fácil fácil esse discurso e não cobra melhores condições para os cidadãos.

    Abraço.

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