Uneasy Rider – A Crise da Meia Idade

Dec 6th, 2012 | By | Category: Bicicletismo, Livros, Mais Destaques, Motoqueirismo, Outros Textos, Posts

Ou… uma história bem humorada sobre a crise da meia idade e a clássica compra de uma moto.

 

Quais são os sintomas da crise da meia idade? Fácil: idade entre 35 e 60 anos, o cara faz uma nova tatuagem, namora uma mulher mais nova, descarta amigos superficiais, tem mais cuidado com a saúde, passa a usar roupas mais práticas, recria sua carreira profissional, perde fácil a paciência com as tradições e, sintoma-rei, clássico dos clássicos: o cara compra uma moto.

Concordo que esses sejam os sintomas. Também concordo que sejam sinais de crise. Agora, só não concordo que exista apenas um tipo de crise da meia idade. Na verdade, acho que há dois: a psicológica e a filosófica. As duas têm os mesmos sintomas, mas têm fontes e destinos completamente diferentes.

Na crise psicológica, o cara quer voltar ao passado e reviver a sua juventude – ele tem medo do futuro. Ele está triste que seus sonhos de juventude não tenham se realizado, sofre ao comparar a sua vida com a de pessoas mais bem sucedidas e tem medo da morte. Assim que passa a crise da meia idade psicológica, o cara volta à mesma vidinha de sempre.

Já na crise filosófica, o cara quer reavaliar os seus objetivos, sonhar novos sonhos e descobrir o que realmente tem valor na vida – ele busca o futuro. A crise da meia idade filosófica produz um novo indivíduo. Um indivíduo que sabe o que quer da vida e que tem a coragem de transformar o que deve ser transformado. Durante esse processo, claro que o carinha passa por uma fase de paradoxos e confusões, mas no final cria uma personalidade muito mais harmônica, com uma autoconsciência mais arraigada e objetivos de vida mais claros.

Por isso, ao saber que seu amigo comprou uma moto, não faça julgamentos apressados. Pode ser que o cara esteja passando apenas por uma fase de abestalhamento, e portanto logo retornará a ser exatamente o que sempre foi. Mas pode ser que ele esteja saindo para uma viagem interior de onde voltará completamente diferente – mais sábio e em paz consigo mesmo. Nunca se sabe. Nunca se sabe.

O ápice da vida de um homem ocorre aos 42 anos de idade. Pelo menos é o que dizem as revistas. Dali em diante vem a degradação, o rebaixamento, o fracasso, o desespero e o fundo do poço – é o começo do fim. Aos 42 anos, ainda segundo essas revistas, o homem passa por uma grande crise de autoconfiança. Ao completarem 42 anos os homens se divorciam mais, bebem mais e têm mais ataques cardíacos. O grande Elvis morreu aos 42.

Mike Carter, autor do livro Uneasy Rider (2008), estava prestes a completar 42 anos quando acordou de ressaca após a festa de fim de ano do jornal onde trabalhava. Recém divorciado e entediado pelo trabalho, torcia para não ter passado muito ridículo. Com uma dor de cabeça infernal, tentou refazer os passos que o levaram até a sua casa na noite anterior. Parecia não ter feito nada de irreparável. Tudo bem que havia um branco em sua mente entre a meia noite e a tomada do táxi, mas pelo menos não havia nenhum sentimento de culpa. Bom, aparentemente podia voltar ao trabalho sem grandes medos.

O alarme começou a tocar quando o seu chefe perguntou quando partiria. Partir para onde? A dúvida piorou quando, momentos depois, Mike recebeu um grande abraço de admiração de um colega que em geral o olhava com desprezo. Admiração pelo que? O pavor surgiu mesmo quando o editor da seção de automóveis veio com o papo: “Vai dar uma grande matéria! Perigoso, claro, mas que viagem. Eu queria poder ir com você”.

Sim… Mike ia viajar para onde? Por que estava sendo admirado? Coragem para fazer o que? Será que tinha falado demais depois do décimo whiskey? O que ele tinha prometido naquela festa? O que ele tinha feito? Oh, meu Deus!

Não foi difícil descobrir. No meio da bebedeira, Mike tinha simplesmente anunciado em discurso formal que sairia em uma viagem de seis meses. Em uma moto. E não uma moto qualquer, mas uma moto gigante, uma BMW R1200GS – o que não tinha requerido muita imaginação da sua mente alcoolizada, pois isso era exatamente o que ele tinha assistido Ewan McGregor e Charley Boorman fazerem no Long Way Round.

O que ele não tinha falado para os seus colegas era que ele não tinha andado de moto desde um remoto período de três meses na sua adolescência. Com uma Lambretta. Só que agora não tinha mais volta: seu editor já programara as matérias que publicaria e seus colegas já o tinham transformado em mensageiro dos seus sonhos. Mas, principalmente, Mike Carter sentia que, por mais tolo que parecesse, na realidade ele tinha que fazer aquilo. Por alguma razão, sua vida dependia daquilo. Pensando bem, por que não?

É assim que começa o livro Uneasy Rider, que Mike Carter publicou em 2008. Ele viajou por seis meses, 30.000 km e 27 países. A viagem não tem nada de mais do ponto de vista motoqueirístico, já que se passa quase toda em países desenvolvidos da Europa. Mas a viagem interior é boa e a escrita é ótima. E é isso que importa para quem vai ler. Confesso que não gosto muito de livros repletos de humor autodepreciativo, coisa que me cansa depois da terceira página. Isso já fica claro no título do livro, que é uma brincadeira neurótica com o filme Easy Rider. Mas sei que é um estilo bem popular. Além disso, se você tirar essa camada superficial, encontrará bem fácil o que está por baixo, que é a transformação pessoal do autor.

Mike Carter

Como Mike Carter trabalha para um jornal, dá para conseguir mais informações na internet, como um texto bem engraçado sobre os 10 Passos da Crise da Meia Idade, onde ele fala sobre algumas coisas que aprendeu durante essa sua viagem de moto.

O que me assusta é que depois da moto parece que ele evoluiu (?) para uma fase de bicicleta, o que se percebe pelo título de um livro mais recente: One Man and His Bike. Ainda não li. Isso porque, no meu pós auge, aos 43 anos de idade, estou meio preocupado com o que me espera, já que estou passando pelos mesmos passos: primeiro a volta da moto, depois o retorno da bicicleta, a vontade de escrever sobre tudo e a recriação da vida profissional. O que virá depois? Uma grande viagem de bicicleta? Será que essa transformação filosófica nunca acaba? Mas… quer saber de uma coisa? Tomara que não.

No final, se você quiser viver uma grande crise da meia idade, é fácil: renove sua coleção de tatuagens, compre uma moto, prepare-se para ser visto como retardado e mude completamente a sua vida. Meia idade é isso. Você passa a se divertir mais, fazer o que realmente importa e a não dar bola se parece ridículo para os outros.

Claro que a moto é só um símbolo externo de algo que se passa por dentro de você. Ela representa o seu individualismo, a sua procura e a sua predisposição para tomar certos riscos.

O segredo é não se apegar demais à moto como um objeto, porque daí você corre o risco de virar mais uma vítima consumista do marketing das fabricantes. O que é perigoso. Como por exemplo essas pessoas que “amam” essa ou aquela marca, que precisam sempre possuir o último lançamento do mercado, ou que andam em grupos de pensamento único. Isso é uma armadilha psicológica. Amar uma marca de moto é como amar o McDonald’s. Patético.

Ao invés disso, se apegue apenas ao que a moto representa: liberdade, descoberta e risco. Isso sim vai te dar uma crise da meia idade das boas. Da filosófica.

12 Comments to “Uneasy Rider – A Crise da Meia Idade”

  1. Geraldinho says:

    Pois é Fábio, também “tô” querendo comprar uma bicicleta, ainda não estou pensando em desafazer da motocicleta pois penso que ainda tenho um bom preparo para “suportá-la” por algum tempo, mas a bicicleta possivelmente pode me proporcionar mais algum tempo além é claro do prazer de “bicicletear”. Não tô com medo da morte, lhe garanto não é crise psicológica, espero sim que a crise seja filosófica.
    Um abraço.
    Geraldinho

  2. Muito bom Magnani! A história do discurso sobre a viagem imitando o Ewan McGregor é impagável, deu vontade de ler.

  3. magnani says:

    Oi Geraldinho. Vale a pena andar com as duas: bicicleta e moto. O duro é encontrar uma bicicleta apropriada no mercado. Tem que prosear muito com quem entende, filtrar as preferências pessoais de cada um e depois encontrar a bicicleta no mercado. Mas é legal. Abraço.

  4. magnani says:

    Oi Minhoni. O livro é uma boa mistura de humor e drama. O cara é bem honesto com tudo o que passa. Vale a pena. Mais para a frente quero ler esse da bicicleta. Abraço.

  5. Ricardo Francelin says:

    Ótimo texto! No final não me contive, eu comprei uma moto, e minha última aquisição fou uma bike!

  6. magnani says:

    Ricardo, só posso falar uma coisa: CUIDADO!

    Um abraço.

  7. Zenna Rocha. says:

    Huuum.. a bici eu já tenho,acho que moto quero não.Sim! e o blog leitura obrigatória rsrsr

  8. magnani says:

    Oi Zenna. Parece que te falta o sintoma clássico, mas se você tem os outros sintomas, então o diagnóstico ainda vale. Bom final de semana.

  9. Sérgio Lima says:

    Olá Fábio,

    Já tinha me deparado com esse texto da crise filosófica dos 40 um tempo atrás… na época não me liguei no autor e contexto (motoqueirismo), mas na crise em si 🙂

    Agora, vivenciando intensa e conscientemente a crise, resolvi comprar uma moto (e tirar a habilitação) e (mais um sintoma da crise ?) também criar um blogue sobre minha jornada no motoqueirismo…

    Óbvio que esse seu texto foi “linkado”, assim como seu blogue está no meu “blogroll” 🙂 O primeiro texto ainda não foi publicado! Está agendado para o dia que receber a habilitação 🙂 Se tudo correr bem, até final de setembro/2016!

    Nem te conheço, mas já sou teu fã 🙂 Abraços

  10. magnani says:

    Boa sorte, Sérgio. Tanto no motoqueirismo quanto no bloguismo e no vivismo. Abraço.

  11. carlos silva says:

    Eita! Parece a minha história. Nunca gostei de motos. Nunca apreciei. Sempre achei um veículo perigoso. Por isso, estou pensando em um triciclo. A bike, comprei a um ano. Me aventurei a pedalar quase aos trinta. Pode? Estou pensando em começar a pegar a estrada. A crise é filosófica. Conheci hoje, mas já virei fã do blog.

  12. magnani says:

    Oi Carlos Silva, parece que todos passamos e sobrevivemos a essa crise. Que seja filosófica! Abraço.

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