Balanço 2012: o caminho até aqui… e a estrada adiante

Dec 20th, 2012 | By | Category: Acidentes, Bicicletismo, Editoriais, Engenharia & Estudos, Motoqueirismo, Outros Textos, Papo Geral, Posts

O blog “Equilíbrio em Duas Rodas” fez um balanço das motobicicletices de 2012. Pronto: feito, registrado e devidamente arquivado. Agora é bola pra frente, porque quem vive de passado é dono de lavanderia. Que venha 2013.

Eu não acho nada saudável viver das lembranças do passado – sejam as boas ou as ruins. Penso que essa é principal motivação que tenho para escrever, já que é a forma que encontro para limpar a minha cabeça, deixando espaço para as coisas novas. Por isso, quero aproveitar esse final de 2012 para um breve registro dos últimos sete anos de motoqueirismo. Depois disso é bola para frente.

Vamos lá. O ano de 2006 foi quando comecei a estudar o assunto, lendo sobre pilotagem de motos, manutenção, filosofia e grandes viagens. Depois, em 2007, comprei a minha moto, passei a participar de fóruns da internet, a pilotar por toda a cidade e a fazer as primeiras viagens aqui pela região. Do ponto de vista mototurístico, 2008 foi o mais importante, com a Grande Viagem e a Viagem ao Sertão. O ano de 2009 foi quando o Blog Equilíbrio em Duas Rodas recebeu esta casa nova e também em que me empenhei bastante para o registro do planejamento da Viagem ao Atacama.

Apesar de ter viajado para o Atacama no comecinho de 2010, coisas mais importantes aconteceram naquela época. Considero aquele ano como um ano de integração, em que consegui juntar o hobby de andar de moto com as minhas atividades acadêmicas – coisa que agora costumo chamar de Estudos em Duas Rodas. Esse começo de integração foi marcado pela elaboração de projetos e principalmente pelo lançamento da disciplina Engenharia da Motocicleta.

Dali então, já com a vida consolidada e tendo juntado uma paixão pessoal com o meu trabalho, senti a necessidade de dar alguma serventia para o meu parco conhecimento. Isso seria feito com um maior trabalho de divulgação e com um posicionamento político mais claro. Por isso 2011 foi usado para submeter textos em revistas, publicar um artigo acadêmico no International Journal of Motorcycle Studies, expandir as atividades de ensino motoqueirísticos para a pós-graduação com a disciplina Estudos da Motocicleta, caprichar um pouco mais nos comentários sobre livros e artigos acadêmicos, e me esforçar sem sucesso para contatar empresas, autoridades e organizações.

Acima de tudo, 2011 marcou o início de um posicionamento mais forte sobre o monopólio das fábricas de moto japonesas, sobre os acidentes de trânsito, sobre a tecnologia das motocicletas que estão atualmente no mercado, sobre a produção de petróleo, sobre as montadoras de automóveis, sobre as construtoras, sobre os empreendimentos imobiliários, sobre as ações de mobilidade urbana, sobre a imprensa, sobre as organizações sociais, sobre os grupos ativistas, sobre o que vem sendo feito nas universidades brasileiras, e sobre o preconceito contra os motoqueiros. A verdade é que não é muito confortável ter um posicionamento claro sobre questões que incomodam os controladores dos grandes grupos. Na maioria das vezes você fica isolado, perde oportunidades e afasta amigos. Mas não acredito que seja uma questão de escolha. Cada qual, cada qual.

Já 2012, ao contrário do ano anterior, foi um ano de reclusão. Usei principalmente para reforçar os meus estudos. Comecei a encarar as bicicletas, revisei as motos e aprofundei um pouco o estudo das pesquisas acadêmicas que vêm sendo realizadas por todo o mundo. Além disso, no meio do ano divulguei temas de pesquisa na área de duas rodas. Isso resultou, apenas alguns meses depois, na formação de uma equipe formada por três estudantes de Iniciação Científica, um de TCC e outro de mestrado. Por isso gosto de chamar 2012 de o ano da consolidação. Vamos ao que de mais importante aconteceu:

  • Engenharia da Motocicleta (disciplina de graduação). Pela segunda vez eu e o Ramiro oferecemos essa disciplina para os estudantes de graduação. O material foi bastante atualizado. A grande novidade foi o método de avaliação: uma competição entre os vários grupos para ver quem projetava o motor mais potente e o quadro mais leve. Mas para receber uma boa nota, também era preciso saber explicar porque seus projetos tinham sido os melhores, além de fazer uma baita apresentação.
  • Estudos da Motocicleta (disciplina de pós-graduação). Também pela segunda vez foi realizada essa disciplina de pós-graduação, que, além da tecnologia, estuda o mercado, acidentes, trânsito, monopólio das fábricas japonesas e cultura motoqueirística. Os estudantes apresentaram seminários bem legais: “Acidentes de Moto no Brasil: As Campanhas Funcionam?”, “A Física do Highside“, “Acidentes de Moto no Brasil e no Mundo: Resultados de Pesquisas”, “Outlaw Motorcycle Gangs – Motoclubes Americanos” e “O Comportamento Global do Trânsito Quando Há Fluxo Misto de Motos e Carros”. O filme que assistimos este semestre foi “The Wild One” (1953), com Marlon Brando.
  • Estudos da Bicicleta (disciplina de graduação). As bicicletas e as motos compartilham a mesma dinâmica, a mesma história inicial, o mesmo risco no trânsito e o mesmo desrespeito por parte dos carangueiros. Por isso, nada mais natural que a linha de pesquisa Estudos em Duas Rodas passasse a incluir também as bicicletas. No entanto, há diferenças. Primeiro, a classe média tem simpatia pelas bicicletas e o mais completo ódio pelas motos, o que forma lutas políticas distintas. Segundo, as motos são mais importantes economicamente, pois o faturamento das fábricas de moto japonesas instaladas no Brasil é da ordem de R$ 12 bilhões por ano, 8 vezes mais do que as bicicletas. Isso sem contar toda a movimentação de produtos, consumo de combustível, gasto com óleo lubrificante, compra de peças e a criação de empregos, o que movimenta mais ainda a economia. A terceira diferença são os acidentes, que vitimizam mais os motoqueiros que os bicicleteiros. Por fim, há uma organização mais forte dos trabalhadores de moto do que entre os usuários de bicicleta. Porém, ao meu ver, essas diferenças são apenas superficiais. As semelhanças são muito mais profundas. Por isso, os motoqueiros podem aprender com os bicicleteiros, que por sua vez podem aprender com os motoqueiros. Com esse aprendizado, haverá o fortalecimento da luta política e da produção cultural dos dois tipos de veículos. Mesmo porque, daqui alguns anos, com o amadurecimento das bicicletas elétricas com carregamento solar, as motos e as bicicletas talvez convirjam para uma só máquina.
  • Pesquisa Acadêmica (mestrado, iniciação científica e trabalho de conclusão de curso). No meio de 2012 eu lancei algumas propostas para temas de pesquisa. Alguns meses depois já temos cinco estudantes formando essa linha. Eu sempre tive bastante apoio de outros professores, como o Ramiro Willmersdorf em Engenharia da Motocicleta, Ivan Melo nos projetos de extensão e Ricardo Sanguinetti na parte de materiais de construção das motos. Por isso, claro que nunca estive sozinho nessas empreitadas. Mas não posso negar que seja muito legal agora poder trabalhar também com os estudantes, que sempre trazem sangue novo e boas ideias. Os trabalhos que eles estão realizando são os seguintes. 1- Simulação do Trânsito de Motocicletas com Ênfase na Emissão de Poluentes e no Consumo de Combustível (Paulo D’Ávila, mestrado). 2- Exigências Legais para o Projeto, Patenteamento, Homologação, Fabricação e Comercialização de uma Motocicleta Urbana (Marcos Paes, TCC). 3 – Modelagem Computacional de Motocicletas Visando a Minimização da Emissão de Poluentes (Yuri Carvalho, IC). 4- Desenvolvimento de um Banco de Dados Sobre Poluição e Acidentes de Motocicletas (Maria Isabel Malta, IC). 5. Dimensionamento de uma Bicicleta Urbana para Uso em Clima Quente e Úmido (Saulo Cunha, IC). E isso é só o começo!
  • Uso de Moto e de Bicicleta. Continuo usando minha moto no dia a dia para ir ao trabalho, o que sempre me permite observar o comportamento do trânsito. Ficou difícil viajar nestes dois últimos anos, pois a Renata estava na fase final do doutorado, o Dante ainda é pequeno, a Gabriela está a um ano para fazer vestibular e porque eu intensifiquei os meus Estudos em Duas Rodas. Ruim para mim porque não me divirto tanto quanto gostaria. Mas penso que a contribuição que nossas pesquisas trarão nos próximos anos fará tudo valer a pena. Mas a grande novidade do ano foi que voltei a andar de bicicleta, tanto para ir ao trabalho vez ou outra, como esportivamente nos finais de semana. Isso é muito legal porque posso testar a diferença que alguns componentes fazem (guidão, pneu, acionamento de marchas etc.), observar como os carangueiros recifenses tratam os bicicleteiros e fazer experiências com alguns fenômenos como, por exemplo, qual a velocidade ideal para suar menos, ou ainda qual o consumo de água mineral em uma cidade tão quente e úmida como o Recife. E olhe que essas são apenas duas das muitas viagens que faço enquanto pedalo. No entanto, a despeito de todas essas vantagens políticas e acadêmicas de andar sobre duas rodas, eu ando mesmo porque é divertido. Ponto.
  • 3a Semana de Cultura Motoboy (realizada pelo Coletivo Canal*MOTOBOY, em São Paulo). Um das maiores honras acadêmicas que já tive em minha vida foi ser convidado para participar do debate da Semana de Cultura Motoboy. O evento tinha debates acadêmicos, discussões políticas, shows culturais e visitas a escolas. Teve a participação de acadêmicos de várias áreas, motoboys, artistas, sindicalistas e autoridades. Não sei direito o que um mero engenheiro mecânico como eu estava fazendo por lá. Mas foi muito bom.
  • Biblioteca. Todos esses anos venho investindo na formação de uma boa biblioteca sobre duas rodas. Meus livros de moto estão quase chegando aos 300. Neste ano, em particular, comprei mais livros sobre bicicletas, uns 60, que vão desde o projeto das magrelas até a luta política travada na defesa de melhores condições para os bicicleteiros urbanos. Além da minha biblioteca particular, também tenho uma grande coleção de artigos acadêmicos. Uma das grandes vantagens de poder trabalhar em uma universidade pública brasileira, além da liberdade de pesquisa e de opinião, é ter acesso a um vastíssimo banco de dados com artigos acadêmicos do mundo inteiro. Ali podemos encontrar estudos que revelam as reais causas dos acidentes, meios efetivos para minimizar a poluição das motos, a história e as técnicas usadas na formação do oligopólio das grandes fábricas de moto japonesas, tecnologias mais seguras que já podiam estar no mercado, tecnologias mais limpas que já poderiam estar no mercado, e teorias sobre formas de organização política e social na luta dos trabalhadores por um trânsito mais saudável, veículos mais seguros e com menor impacto ambiental.
  • Blog Equilíbrio em Duas Rodas. O ano de 2012 foi bastante intenso também aqui no meu blog pessoal. Ao contar pela quantidade de palavras publicadas neste ano, talvez pudesse ter até escrito um livro. Mas falta qualidade. E falta originalidade. Mas esperem, que um dia conseguirei a documentação sobre a real história do monopólio das fábricas japonesas aqui no Brasil – daí o livro sai. De qualquer forma, é muito bom ter um lugar para registrar as minhas ideias, dar a minha opinião pessoal sobre assuntos importantes e divulgar as minhas atividades acadêmicas. Vou continuar pelo menos mais um tempo por aqui.

Pronto. Já registrei o que aconteceu em 2012 – já limpei a minha mente. Agora é hora de olhar para a frente. Não sei muito bem o que vou fazer nos próximos anos, pois isso depende do que a vida vai me trazer. Espero conseguir me preocupar menos com realizações e mais com o viver. Afinal, “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranquilo”. No mais, um feliz 2013.

Encontro vocês por aí.

2 Comments to “Balanço 2012: o caminho até aqui… e a estrada adiante”

  1. sandro says:

    muito legal fábio,um feliz natal.

  2. magnani says:

    Valeu, Sandro. Feliz Natal para você também.

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