É claro que andar de moto tem um lado bom e outro ruim. Se fosse só bom, todos andariam; se fosse só ruim, não venderiam nem uma moto sequer. O lado ruim é fácil falar. Todo motociclista ouve a lista todos os dias: a moto é perigosa, barulhenta, de baixo poder de revenda, fácil de ser roubada, pouca capacidade de carga, traz consigo o estigma da marginalidade e inevitavelmente suja os seus passageiros.
Concordo com tudo. Mas a questão é que as vantagens superam os pontos negativos. O ponto mais fácil de rebater é esse negócio de que você se suja muito quando anda de moto. Ou então, que tem que ficar colocando e tirando a capa toda vez que muda o clima. Andar de moto é como fazer amor: você tem que tirar a roupa para depois colocar de novo, fica todo suado, cansado e sujo. Mas vale a pena!
Mas agora falando sério – bem, eu estava falando sério antes sobre fazer amor -, não tenho a intenção de proselitismo. Sei muito bem que para algumas pessoas não vale a pena andar de moto. Não quero convencer ninguém. Só quero dizer porque eu ando de moto.
A razão mais pragmática da moto é a acessibilidade. Você estaciona em qualquer lugar, anda na terra, em buracos e no meio do trânsito. Vai para lugares onde os carros não vão. Vai até pertinho do mar, sobe em montanhas e entra no quintal das pessoas para tomar água. Mas acho que há coisas bem mais importantes que isso.
No silêncio do seu capacete, você fica em contato com o seu mundo interior. Sozinho na estrada, tornado irreconhecível pela vestimenta, não há nada a provar para ninguém. Você pode rir sozinho, cantar desafinado, pensar nas mais loucas fantasias ou, acima de tudo, aprender a conviver com você. Lá não há como se proteger de você mesmo usando estímulos externos como a TV, a companhia de outras pessoas ou o trabalho incessante. É você e você, goste do que está vendo ou não!
Paradoxalmente, a moto é o local onde você também tem um contato muito forte com o mundo externo. Mas não o mundo artificial da sociedade, com suas cobranças e expectativas. O piloto tem contato com o vento, os raios solares, a visão do horizonte, o cheiro do mato, o calor do asfalto, com as forças da gravidade e da inércia.
Essa experiência direta com o mundo real, junto com o contato com o eu verdadeiro, é que faz com que a experiência de andar de moto seja viciante. O que pode ser perigoso. Andar de moto não deve ser usado para escapar do mundo do dia-a-dia. Andar de moto tem que ser um aprendizado para mudar o mundo. Isso tanto através do autoconhecimento, quanto da visão do mundo real, sem os filtros sociais.
Tem um outro aspecto de andar de moto que me traz certo prazer, mas que às vezes acho ser um pouco doentio. É que andar de moto, arriscando a sua vida, com uma roupa toda diferente, certamente destaca você das outras pessoas. Por bem ou por mal. Você se sente diferente sendo um motociclista. Penso que esse sentimento tem que ser muito bem trabalhado. Se você usa essa imagem de motociclista para humildemente inspirar as outras pessoas a darem mais valor para o que realmente importa, então tudo bem. Mas se essa imagem é usada para desprezar os outros, amedrontar, afastar, diferenciar ou rebaixar, então tudo vai por água abaixo. Se o motociclismo for usado como símbolo da rebeldia, algo vai errado. Se for usado como símbolo da liberdade – liberdade até para não gostar de motos -, então estamos no caminho certo. Rebeldia nem sempre é a mesma coisa que liberdade, embora tente usar essa roupagem. Algumas pessoas – seja no motociclismo ou fora dele -, usam a imagem da rebeldia para defender as guerras, o preconceito, o ódio, a discriminação, a imutabilidade da hierarquia social, o seguimento cego às regras, a violência, a ignorância e o crime. São rebeldes extremamente conservadores. Tenhamos cuidado com essa armadilha!
Uma grande diferença entre pilotar uma moto e dirigir um automóvel é o nível de atenção despendido. Para andar de moto seus olhos precisam ficar sempre atentos, vasculhando todos os cantos, antecipando o movimento dos outros. Seu corpo, flexível, precisa estar sempre preparado para as manobras. Já em um carro você pode andar com o corpo relaxado e com uma atenção principal voltada para frente. Essa grande atenção na moto faz com que você canse mais rápido, é certo. Mas por outro lado, como boa parte do pensamento é usado na pilotagem, sua mente tem que se livrar daqueles pensamentos espúrios. Sabe quando você está dirigindo um carro, mas fica pensando nas contas a pagar, na briga com o chefe e com a agenda do dia seguinte? Em cima da moto você não consegue fazer isso. O que resta do seu pensamento vai para coisas realmente importantes: seus sentimentos naquele momento, uma boa lembrança, a observação de uma pessoa interessante na beira da estrada, uma poesia ou uma música. Interessante como a falta de alguma coisa faz você usá-la com mais sabedoria. Sobrando só um pouquinho da sua mente, essa parte é usada para o que realmente importa.
Agora vamos para as questões filosóficas do motociclismo. Quem anda de moto tem uma relação muito mais direta com a própria mortalidade. Cada dia, cada vez que você sobe na sua moto, você está dizendo para si mesmo: eu sei que posso morrer, mas também sei que vale a pena viver. Quando você está em sua moto, você aprende pouco a pouco a sempre pensar quando vale – ou não vale – a pena tomar riscos. Não são todos os riscos que valem à pena: costurar no trânsito, bebida, excesso de velocidade, empinar a moto e outras atitudes, são formas de suicídio. Penso que só pessoas desesperadas com a vida têm comportamento tão arriscado. Mas, por outro lado, vale à pena arriscar uma queda para sentir o vento, o sol, as forças da natureza em ação e o contato com o eu verdadeiro. Acho que quem anda de moto consegue mais facilmente tanto aceitar que a morte é inevitável quanto viver plenamente enquanto ela não chega.
Quem anda de moto – embora este argumento valha para qualquer viajante – também tem que ter uma relação muito saudável com a inevitável decadência das coisas e com o acaso. O tempo todo você sabe que sua moto pode quebrar, que pode furar um pneu ou que você pode se perder. Quem fica estressado com isso simplesmente tem que desistir de andar de moto, pois essas coisas acontecem o tempo todo. Mas quando você aceita, então sim a viagem fica muito mais rica. Imprevistos são oportunidades para você aprender mais sobre a mecânica da moto, para usar o seu conhecimento, para conhecer pessoas ou, mais importante ainda, aprender a confiar nelas.
Até agora falei só sobre andar sozinho de moto. Mas andar com outras pessoas também é recompensador. A intimidade com a sua mulher agarrada em você, a confiança mútua necessária para jogarem-se nas curvas, o sentimento de vitória depois de um trecho cansativo, as histórias que vão contar juntos e as sensações durante a viagem, tudo isso fortalece a união. Mas, além disso, andar de moto permite que cada um tenha a sua individualidade em companhia do outro. Cada um tem os seus próprios pensamentos, seus próprios valores, embaixo do capacete. Sem medo de magoar o outro ou de ser censurado. A mente vaga entre a mais completa independência e a mais total união representada pelo contato dos corpos. Assim devem ser as uniões: dois seres completamente independentes, com pensamentos próprios, mas caminhando juntos.
Outro jeito de andar de moto é com um grupo de amigos, cada um em sua moto. Nesses grupos as pessoas não são divididas pelo emprego, educação ou posição social. O único interesse é andar de moto. Isso não significa que todos motociclistas sejam amigos. Mas permite que você encontre pessoas com os mesmos valores que você, mesmo que em uma situação de vida completamente diferente. Elimina as máscaras.
Infelizmente, embora os motociclistas não sejam divididos diretamente pelo seu papel social, são pelo tipo e cilindrada de moto. Isso tem uma razão prática, pois motos muito diferentes não conseguem andar juntas. Mas o principal ainda é a distinção econômica. Algumas pessoas usam a desculpa de uma moto com cilindrada diferente para menosprezar os outros. Isso é muito ruim. Espero que com o tempo essa separação vá diminuindo e que o único motivo dos agrupamentos sejam os valores compartilhados.
Da mesma forma que andar sozinho pode ser difícil para quem não consegue ter um contato consigo mesmo, andar em grupo pode ser um grande desafio para quem é muito individualista. Não posso esconder que esse é o meu caso. Quando ando em grupo, muitas vezes me vejo irritado por causa da velocidade e da prisão na escolha do caminho a ser trilhado. Mas também tenho imenso prazer por conviver com novos amigos, conhecer novas visões de mundo e compartilhar minhas alegrias sobre a moto com outras pessoas.
Como eu sempre digo, uma das maiores vantagens do motociclismo é a facilidade de encontrar outras pessoas com seus valores. Mas eu nem sempre consigo aproveitar, porque exagero muito a minha individualidade. Mas assim como uso o motociclismo para me conhecer, desbravar os limites entre a vida e a morte, compartilhar momentos importantes com a minha mulher e tocar o mundo real; também estou aprendendo a usar o motociclismo para encontrar o balanço entre a minha individualidade e o compartilhamento da vida com os amigos. Como dizem os pensadores, em um processo de transformar o individualismo em individualidade. Sem deixar de fazer o que é importante para você, mas sem abdicar de compartilhar a vida com pessoas que, também, são essenciais.






Bom dia Fabão!
Texto muito bacana! Omedetô ne!
Gustavo, eu às vezes não entendo o seu dialeto. O que é “Omedetô ne”? kkkkk
Muito legal Fábio,
Muitas respostas de alguns questionamentos que eu já tinha a respota, mas não sabia como descrever em palavras.
Mais uma vez parabéns… ahhh, kkkk se não fizer questão dos direitos autorais.. gostaria de utilizar trechos desse texto em alguns dos relatos que mando para revista, claro que fazendo as honras ao autor.
Pode????
Abração
Bom Dia Fábio,
Muito legal o texto. Quanto a cantar quando anda de moto…As vezes me pego fazendo isto…rsrsrs. Meus parabéns por todas as palavras usadas no texto, apesar que algumas preciso do dicionário para entender. Continue assim, pois externando seus pensamentos e experiências, é uma forma de ajudar a quem gosta do motociclismo.
Um grande abraço.
Obrigado Ricardo. Debaixo do capacete é o único lugar a que me meto a fazer isso. Ali o único dano que posso causar é a mim mesmo… hehehe
Abraço!
Oi Denny. Claro que pode. Abração.
Tudo certo para o Jabre?
Grande Fábio. Ótimo texto. Sempre que posso paço por aqui para dar uma olhadinha e nunca me arrependo
Abraço!
ps.: os encontros co clubext estão ocorrendo onde?
Obrigado, Omago.
Os encontros do XT deram uma parada. Quase ninguém mais estava indo. Mas a esperança é que voltem com o final das chuvas.
Abraço.
Blz então.
Ando de moto há 17 anos. Nunca tinha lido algo que realmente retratasse a verdadeira identidade de um motociclista. O seu texto é excelente.
“Uma grande diferença entre pilotar uma moto e dirigir um automóvel é o nível de atenção despendido.” essa frase eu digo para todo mundo q me pergunta como é pilotar moto (rs).
Andar de moto traz uma imensa liberdade e auto conhecimento.
Sou feliz!!!!
Obrigado pelo elogio Fulviio. Mas este texto só serve para tentar explicar para quem não anda de moto. Porque para quem anda não é preciso explicar. Abraço!
Parabéns ao Fábio por esse excelente texto; ele conseguiu exprimir tudo o que o mundo do motociclismo oferece, seus altos e baixos, deixando uma bela mensagem de como essa velha companheira do dia-a-dia deve ser apresentada como símbolo.
Oi Paulo. E isso tudo o que eu escrevi não é da boca para fora não. Até hoje, se eu ficar um dia que seja sem andar de moto, já fico jururu. E quando a moto está na oficina, daí olho para garagem e vejo ela vazia? Dá um aperto no coração. Abraço!