O Segundo Motoqueiro – parte 1

Sep 8th, 2009 | By | Category: Ficção, Posts

Percebi agora há pouco que nunca me apresentei de forma apropriada. Vocês até sabem o meu nome e que gosto de andar de moto por aí. Mas nunca disse qual é a minha profissão; o que faço quando não estou em uma moto. Bem, sou fotojornalista free-lance. Corro o nordeste inteiro à procura de notícias para vender aos jornais. Às vezes sou contratado para algum serviço, mas é raro. Meu nome completo é Willinilton Barbosa. Hei, não olhem para mim! Foi o meu pai que escolheu. É que ele adorava ler as histórias dos criminosos do velho oeste. Os preferidos dele eram os Irmãos Newton, que superaram Jesse James e Butch Cassidy na quantidade roubada. Mas mesmo assim, diziam que nunca tinham matado ninguém. Como um deles chamava-se Willis Newton, não é difícil ver de onde veio o meu nome.

Essa história do meu nome vem bem a propósito, porque alguns dias atrás apareceu um novo bandoleiro no sertão. Um tal de Jessé Jemisson do Nascimento. O cara praticou a maior chacina em Serra dos Albuquerques e fugiu com o dinheiro do banco. Acostumado como eu sou com esse negócio de homenagem a personagens estrangeiros, não demorei a propor ao editor do jornal que o chamasse de Jesse James. Foi a sacada da semana. Com o dinheiro da manchete, consegui pagar algumas contas pendentes.

Mas as coincidências não param por aí. Eu estava há vários dias tentando convencer aquele editor a me emprestar o dinheiro para ir até Serra dos Albuquerques para bater umas fotos e desenvolver um pouco mais a história do crime. Como a notícia já estava fria, o cara me disse que só se interessaria quando houvesse um novo ataque. Mas, se eu conseguisse de alguma forma antecipar os fatos, então poderia tirar o pé da lama.

Eu estava em uma sinuca de bico. Não tinha dinheiro para uma grande história e não tinha uma grande história para fazer dinheiro. Como me deslocar até o sertão? Precisava pagar contas atrasadas e fazer o motor da minha moto.

Nisso aparece o Capitão Piquetão, da Polícia Federal, me fazendo uma proposta. Ir até Serra dos Albuquerques fazer contato com alguns locais. A coisa era simples. Usaria alguma desculpa para me aproximar de uma tal de Dona Thaís Albuquerque, que não deveria de jeito algum saber que eu era jornalista ou que tinha sido mandado pela PF. Ah… não deveria fazer mais nenhuma pergunta. Tudo viria a seu tempo. Em troca, ele me daria uma ajuda de custo de R$ 5.000,00 e emprestaria uma moto para a viagem.

- Não que eu tenha nada contra, mas só por curiosidade, por que ir de moto? Perguntei.

- Sem perguntas, tudo a seu tempo. Se tiver interesse, ligue para o número do cartão.

Esse Capitão Piquetão tinha conseguido o meu nome com o editor do jornal. Depois de ligar para alguns contatos, descobri que o cara era honesto e confiável. Linha dura na PF, já tinha participado de vários ataques a quadrilhas de narcotraficantes no sertão. A mais famosa foi a Operação Calango, que na época apareceu em todos os jornais e até na televisão. O procedimento tinha sido um sucesso, mas alguma manobra política tinha liberado os cabeças da quadrilha.

Como estava um pouco apreensivo em me meter com traficantes, antes de aceitar, liguei de novo para Piquetão.

- Bom dia, Capitão. Aqui é o Willinilton. Só queria dizer que estou interessado, mas estou com medo de me meter em fogo cruzado entre a polícia e bandidos. Eu sou só um fotógrafo.

- Senhor Willinilton, não posso negar que o nosso interesse seja policial. Também não estou autorizado a divulgar a operação. Mas pode ficar tranqüilo que o seu papel é apenas e somente entrar em contato com Dona Thaís. Você não vai precisar trazer informações, investigar, delatar ou se arriscar de jeito algum. Só precisamos do contato.

- Eu também não posso dizer que fiquei inteiramente tranqüilo. Mas estou curioso. Pode depositar o dinheiro na minha conta. Ah… pego a moto onde?

- A moto será deixada na porta da sua casa amanhã pela manhã. O dinheiro está escondido no quadro. Obrigado pela ajuda.

No outro dia pela manhã a moto estava lá. Pelo estado do motor, a moto era nova. Mas tinham pintado o tanque com pintura fosca. Provavelmente para parecer uma moto mais velha e não chamar tanta atenção.

Conferi o dinheiro, joguei a mochila na garupa e saí para Serra dos Albuquerques. Como não estava com tanta pressa, fiz a viagem em dois dias. No primeiro dia, cheguei no início da tarde na cidade de Roseiro. Depois de almoçar, fui até a a Lan House da cidade. Procurei informações sobre Thaís Albuquerque. A única notícia que encontrei sobre ela na internet é que tinha sido a secretária do juiz assassinado por Jesse James lá em Serra dos Albuquerques. Interessante. Entrando no Orkut, encontrei rapidamente o perfil dela. 30 anos, solteira, interessada em conhecer pessoas pela internet, com paixão por vinhos e muito romântica. Participava de comunidades de motos, de filmes de aventura e grandes amores.

Existe uma grande técnica para enganar as pessoas. Vá direto ao ponto e fique o mais próximo possível da verdade. Deixei uma mensagem para ela dizendo que era fotógrafo naturalista, uma espécie de Indiana Jones moderno, e que precisaria de alguém em Serra dos Albuquerques para me ajudar em umas fotos de pinturas rupestres. Não se passaram nem 30 minutos para receber uma mensagem me convidando para uma conversa on-line.

Em poucas linhas de conversa, a mulher já estava toda orgulhosa por ajudar um fotógrafo da capital. Disse que ela mesma iria providenciar a ida até a Caverna da Lua. Tudo certo. Combinamos para dali a dois dias. No dia seguinte fiz a segunda parte da viagem. Chegando um pouco depois do jantar, aluguei um quarto no Grande Hotel e dormi pesado até o outro dia.

Logo de manhã, fui até a Praça da Matriz, local combinado do encontro. A mulher que chegava por ali parecia mais fogosa ainda do que na foto que eu tinha visto pela internet. Ela passou direto por mim, certamente procurando o tal de Willi. Bastou um psiu para que ela olhasse para trás.

- Hei, Thaís! Sou eu, o Willi!

Com o rosto pálido, olhos estalados e de queixo caído, a mulher respondeu:

- Outro motoqueiro na minha vida? Essa não!

(continua)

5 Comments to “O Segundo Motoqueiro – parte 1”

  1. Denny_Master says:

    Hehehe

    Vamos que vamos…

    A saga de um motoqueiro no sertão!!!

  2. magnani says:

    E ainda vão aparecer outros. Só resta saber com qual deles ficará o coração da bela Thaís… kkkkkk

  3. JP says:

    Eita Thaís rodada!!!!!!!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Era pra ter colocado o dinheiro no tanque da moto, estilo Easy Rider, hehehehe.

  4. magnani says:

    Quem colocou foi o capitão… que não gosta de Easy Rider… hehehe

  5. magnani says:

    Vocês estão concluindo coisas que não necessariamente aconteceram. Crianças lêem este blog. E calma que daqui a pouco o Jessé aparece para (ou pelo menos tentar) por ordem na casa. kkkk

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