As Grandes Bicicletas de Estrada

Feb 28th, 2013 | By | Category: Bicicletismo, Engenharia & Estudos, Livros, Mais Recentes, Posts

O livro “The Racing Bicycle: Design, Function, Speed” (2013) foi meu autopresente de natal - e que acabou virando folia de carnaval. Ele conta algumas histórias dos maiores ciclistas que já participaram de corridas de estrada, fala sobre as competições tradicionais na Europa e descreve a evolução dos equipamentos nos últimos 80 anos. Mas o aspecto que mais me atraiu foi o pano de fundo de todos esses causos, pano esse tecido com a história dos grandes fabricantes de bicicleta de estrada. Legal que cada fabricante é grande do seu próprio jeito: pode ser no tamanho, na tradição, nas conquistas, nos fracassos ou no poder de inovação. Na verdade, o que une todos esses personagens no mesmo livro é sempre a busca da qualidade.

Eu fiquei fascinado com todos os fabricantes, desde os velhinhos artesãos, passando pelos empreendedores de sucesso, até os jovens que trouxeram um novo conhecimento científico para essa indústria tradicional. Mas, antes de falar o livro, deixa eu apresentar o tema sob uma perspectiva mais ampla, coisa sempre boa de se fazer antes de pular de cabeça nos detalhes.

Primeiro, para quem não sabe, as bicicletas de estrada são aquelas magrinhas nas quais o ciclista anda bem curvado para diminuir o arrasto do vento. Antigamente eram conhecidas como bicicletas de 10 marchas. Até os anos 1970, essas eram as únicas bicicletas de qualidade que existiam, mas depois disso, com a explosão das mountain bikes, perderam muito do mercado. Algumas pessoas dizem que até os anos 1980, quando você dizia “bicicleta”, a pessoa imaginava uma bicicleta de estrada, mas que hoje, ao ouvir o termo, a maior parte das pessoas visualiza uma mountain bike.

Do ponto de vista tecnológico, essas bicicletas de estrada prezam a eficiência mecânica em pista lisa (por isso o pneu tão fino e duro) e a aerodinâmica (por isso a posição do ciclista), não sendo em geral muito apropriadas para uso no dia a dia - embora sejam as minhas preferidas. No entanto, são as bicicletas mais famosas do mundo, pois aparecem nas grandes competições das Olimpíadas, Tour de France e Giro D’Italia.

O que é preciso ter em mente, no entanto, é que, assim como a Fórmula 1 não desenvolve carros para o dia a dia (são beberrões e fracos), e assim como a MotoGP não desenvolve motos apropriadas para as nossas ruas (são motos perigosas, desconfortáveis e caras), as bicicletas usadas nas competições de estrada também não são soluções para o cidadão comum (são duras, são ineficientes e têm pouca agilidade). Isso pode ser visto na prática, já que a grande maioria dos cidadãos comuns não usa bicicletas de estrada feitas por artesãos na Europa. Ao contrário, usam mountain bikes ou clunkers produzidas por fábricas imensas na China.

Sim, mas por que essas bicicletas de estrada não são boas para o dia a dia? Primeiro, porque privilegiam o desempenho em competição, não o preço, o conforto ou a segurança. O principal motivo para serem ruins, no entanto, é que as regras das competições simplesmente impedem que sejam melhores. Isso mesmo! A UCI, Union Cycliste Internationale, obriga que as bicicletas usadas em suas competições sigam à risca o regulamento técnico. A ideia por trás desse regulamento é forçar que o ciclista campeão vença por sua capacidade física, não por causa da bicicleta. Em outras palavras, essas regras dificultam que projetistas proponham bicicletas mais eficientes. Isso pode até ser legal para uma competição, mas certamente não é interessante para o bicicleteiro comum, que só quer ir de um lugar para o outro sem se cansar muito ou ficar banhado em suor.

Há várias críticas em relação a esse regulamento da UCI. A primeira é que há muitas restrições para as bicicletas não ajudarem os ciclistas, mas por outro lado não há tanto esforço no combate à ajuda química (doping). A segunda crítica, óbvia, é que essas restrições impedem o desenvolvimento tecnológico das bicicletas, principalmente na diminuição do arrasto aerodinâmico, que é o grande dissipador de energia durante a pedalada.

O maior problema, no entanto, é que essas bicicletas retrógradas da UCI são os carros chefe das propagandas glamorosas que as fábricas veiculam nas revistas e nas televisões. As pessoas comuns, sem saber de toda a verdade, acabam comprando essas bicicletas ineficientes, pensando que são bons produtos. Depois de um tempo, ao ficarem com dores, cansadas ou suadas, desistem de andar de bicicleta. Isto é, ao insistir nessas bicicletas ruins, a UCI dá um tiro no próprio pé, desestimulando o uso da bicicleta no dia a dia.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as tolices da UCI, recomendo o filme The Flying Scotsman (O Escocês Voador), sobre Graeme Obree, um ciclista que bateu o recorde mundial de velocidade com uma bicicleta que ele mesmo construiu. Por falar nisso, a bicicleta do Obree aparece em destaque neste livro. Uma curiosidade é que ele usou os rolamentos da sua máquina de lavar roupas, além de criar uma nova posição aerodinâmica. Mas, mesmo respeitando o regulamento, essas inovações foram proibidas a posteriori pela UCI. No problema, Obree criou outra posição - que também foi banida pela UCI. Filmão.

As fábricas, revistas e programas de televisão também têm a sua culpa, pois mantêm esse mito de que essas bicicletas de competição são avançadas. Não são! Se a UCI liberasse as restrições, as bicicletas seriam muito muito mais eficientes, como a Windcheetah, por exemplo.

Mas, e aqui vai um grande mas, se não discutirmos as restrições da UCI, então certamente as bicicletas usadas nas competições são sim as mais avançadas possíveis. Por isso, dentro dessa visão mais estreita de aceitar as regras como são, é muito legal observar os maiores construtores em ação. O que sempre é uma maravilha, principalmente se imaginarmos o que poderiam fazer se a UCI não fosse tão tacanha.

Outro detalhe é que essas competições foram importantes no desenvolvimento do uso de novos materiais, como o titânio, alumínio e a fibra de carbono. No entanto, sempre é bom deixar muito claro que o grande problema das bicicletas modernas não é o peso (que diminui só um pouco com o uso desses materiais ao invés do aço), mas sim o arrasto aerodinâmico e a dificuldade de mudar de marcha em situações de torque alto (largadas e subidas). Para se ter uma ideia, uma bicicleta da UCI alcança velocidade máxima de 75 km/h, enquanto o recorde mundial de velocidade em bicicleta sem as restrições da UCI é de 133 km/h (Battle Mountain). Uma diferença criminosa.

Pronto. Aí está o meu lado rabugento em resumo: as bicicletas de estrada não são representativas do que se usa no mundo e não são as melhores bicicletas possíveis porque o regulamento não deixa. E aqui está o meu lado apaixonado em essência: a despeito das limitações do regulamento, os fabricantes fazem trabalhos fantásticos, unindo o que há de melhor na tradição, na ciência e na experiência. Posto isso, prometo que vou deixar minha rabugice de lado por um tempo e agora vou falar do que me fascinou no livro.

The Racing Bicycle: Design, Function, Speed foi editado por Richard Moore e Daniel Benson, mas teve a contribuição de outros dez especialistas, que escreveram 49 matérias dedicadas aos principais fabricantes de bicicletas de estrada. Não gostei muito da organização do livro, no qual os fabricantes são apresentados em ordem alfabética. Isso acabou deixando a leitura muito fragmentada, já que muitas vezes um fabricante não tem nada a ver com o próximo. A vantagem é que dá para ler aos poucos. Mas eu ainda teria preferido uma organização temática ou cronológica. Deixa eu dar uma ajudada…

Na produção de componentes, estão as três mais famosas fabricantes de sistemas de transmissão: Campagnolo (Itália), Shimano (Japão) e SRAM (EUA). O livro também conta a história das duas maiores produtoras de tubos de aços especiais, a Reynolds (Inglaterra) e a Columbus (Itália). Ainda tem espaço para a Cinelli (Itália), que fabrica bicicletas completas mas é mais famosa pelos componentes, e para a Mavic (França), famosa pelas suas rodas.

As grandes fabricantes de bicicleta, que são famosas tanto pelas vitórias nas pistas quanto na grande produção comercial são: Bianchi (Itália), Cannondale (EUA), Gazelle (Holanda), Giant (Taiwan), Peugeot (França), Raleigh (Inglaterra), Schwinn (EUA), Specialized (EUA) e Trek (EUA). Há dois aspectos interessantes nessas fábricas. Primeiro, mesmo não sendo necessariamente muito vitoriosas nas pistas, têm uma história muito legal na produção de bicicletas para o grande público. O aspecto negativo é que algumas não poucas vezes elas patrocinam ciclistas vencedores, mas se limitam a pintar seus nomes sobre quadros fabricados por outras empresas. Que feio!

Os capítulos que mais gostei foram sobre os fabricantes mais tradicionais, embora tivesse preferido um livro para cada um deles. O mais famoso é Ernesto Conalgo (Itália), que desde 1939 vem unindo estilo, qualidade e inovação. Por exemplo, no início da década de 1990 os outros fabricantes começaram a usar garfos com suspensão na corrida Paris-Roubaix (famosa pelos paralelepípedos). Mas Colnago insistiu em apostar no inverso, com bicicletas com garfo de fibra de carbono e geometria reta - o que deixa a bicicleta extremamente rígida. Ao contrário de todas as expectativas, essas bicicletas rígidas provaram ser mais velozes.

Italo Guarciotti (Itália) é mais famoso por suas bicicletas de ciclo-cross, que já venceram dez campeonatos mundiais, mas também já fez bonito no Giro d’Italia. Faliero Masi (também da Itália) é conhecido como “o alfaiate”, por sua habilidade de construir bicicletas que se ajustam perfeitamente aos ciclistas. Dario Pegoretti (Itália!) pode não ser o mais famoso dos construtores, mas suas bicicletas estão entre as mais desejadas. O problema é que a espera pode demorar dois anos e o preço parecido com o de um carro esporte. Pegoretti é um bom exemplo do caso que eu comentei acima, de uma empresa maior colocar o seu adesivo sobre o quadro de um fabricante menor. A maior parte das vitórias de Indurain foram em cima de uma Pegoretti adesivada como Pinarello.

Mas eu não gosto só do passado. No livro tem a história de várias construtoras inovadoras: a Canyon (Alemanha) que vende direto pela internet, a Cervélo (Canadá) que nasceu de um trabalho universitário de dois estudantes de engenharia mecânica, a Focus (Alemanha) com seu comprometimento com desenvolvimento tecnológico, a Litespeed (EUA) que trouxe sua experiência em projetos aeroespaciais usando titânio, a Look (França) que inovou com pedais clipless e quadros de carbono, a Scott (EUA) com sua experiência do esqui, a Serotta (EUA) com seu sistema de medição do ciclista que permite produzir bicicletas que vestem como uma luva, a Time (França) que assim como a Look também trouxe avanços nos pedais e nos quadros de carbono, e a TVT (França) que é uma das pioneiras no uso da fibra de carbono.

Ao comparar os dois últimos parágrafos, um que fala dos fabricantes tradicionais e outro dos inovadores, dá para perceber claramente que nos anos 1980 o foco sai da Itália e migra para outros países (América do Norte, Alemanha e França). Isso coincide que o desenvolvimento de novos materiais (principalmente a fibra de carbono) e de componentes aerodinâmicos (o que implica no uso de túneis de vento e simulações computacionais).

Não dá para falar de todas as fabricantes que aparecem no livro, mas garanto que tem histórias muito legais. Para deixar registrado, as outras são: Atala, Batavus, BH, Billato, Bottechia, Concorde, Daccordi, De Rosa, Eddy Merckx, Flandria, Gios, Gitane, Le Mond, Mercian, Mercier, Olmo, Orbea, Pinarello, Vitus e Wilier Tristina. Essa última, a Wilier, tem uma curiosidade. Embora o nome pareça alemão, na realidade é derivado de um acrônimo (“Viva l’Italia liberata e redenta” - viva a Itália, liberta e redimida).

Além das grandes construtoras, o livro fala de grandes ciclistas também: Jacques Anquetil, Lance Armstrong, Mark Cavendish, Mario Cipollini, Fausto Coppi, Pedro Delgado, Laurent Fignon, Bernard Hinault, Miguel Indurain, Sean Kelly, Greg LeMond, Joop Zoetemelk e, o maior de todos, Eddy Merckx. Para se ter uma ideia, Lance Armstrong, mesmo com todo o doping, teve cerca de 100 vitórias. Eddy Merckx, que poderia ser comparado com Pelé ou Muhammad Ali, teve 445 vitórias!

Entre as grandes corridas que são descritas ao longo do livro estão a Vuelta a España, Tour de France, Giro d’Italia, Milan-San Remo, os Jogos Olímpicos e Paris-Roubaix. É importante ter essa visão mais ampla e detalhada de várias competições porque às vezes uma determinada bicicleta por alguma razão não vence o tour, mas consegue demonstrar o seu valor ao vencer estágios de corridas menos midiáticas. Afinal, vencer o tour não depende só da qualidade da bicicleta, mas também de toda a equipe de ciclistas.

Voltando ao início do texto, eu sinto falta de livros que contem a história das bicicletas que mais são vendidas no mundo, não apenas dessas bicicletas de competição. Pelo menos este livro já avançou um pouco nesse sentido, falando da Bianchi, Peugeot, Schwinn, Raleigh e Gazelle. Mas eu quero mais - quero saber da história das fábricas chinesas.

Também fico chateado quando alguma revista ou programa de televisão vende a ideia de que essas bicicletas de competição são avançadas - além de ficarem pronunciando “UCI” em inglês, mesmo sendo um acrônimo de palavras em francês. Como eu escrevi bastante aí em cima, essas bicicletas de estrada têm uma performance horrível, principalmente porque o regulamento esportivo não permite elementos aerodinâmicos. As revistas só endeusam essas bicicletas da UCI porque são sustentadas pelas anunciantes. Uma vergonha!

Mas, a despeito dessas bicicletas de estrada não serem tão eficientes quanto deveriam, e a despeito de não serem nada representativas do mercado mundial de bicicletas, eu gosto delas mesmo assim. Sinal disso é que amanhã vou pegar minha bicicleta nova que acabou de chegar na loja - uma bicicleta de estrada! Claro que preferiria uma Windcheetah, mas infelizmente não vivo em um país que preza pela inovação tecnológica. Fiquem agora com o trailer do filme do Obree, que mostra a glória que pode ser alcançada por aqueles que desafiam a ignorância.

8 Comments to “As Grandes Bicicletas de Estrada”

  1. Denny Master says:

    Olá Fabio, olha eu por aqui comentando novamente.
    Rapaz, essa da UCI de restringir inovações tecnológicas ao ponto de interferir diretamente no desempenho das bicicletas, imoral. Olhando rapidamente no link que você colocou, observei lá no site da UCI que regulamenta todos os tipos (MTB, speed, BMX). Outra que me chamou atenção, é a questão é a questão que a grande maioria dos usuários de bicicletas que se dizem “entendedores”, priorizam o peso em desfavor da aerodinâmica, em todos os estilos. Bicicleta nova na área, parabéns. Posta uma foto depois. Abração.

  2. magnani says:

    Oi Denny, tudo bom por aí? Uma categoria que tem um pouco mais de folga é o triatletismo, mas também não é nenhuma maravilha… Sobre as brigas com a UCI, recomendo o filme “The Flying Scotsman”, sobre Graeme Obree. Por falar nisso, a bicicleta do Obree aparece em destaque neste livro,. Abraço.

  3. Denny Master says:

    Tudo na tranquilidade. Vou dar uma procurada no filme.
    Uma dúvida, o carbono tem prazo de validade?
    Acho tão delicado as bicicletas de carbono.

  4. magnani says:

    Eu tenho o DVD. Se você não encontrar, eu te empresto quando nos encontrarmos. A fibra de carbono quando bem feita é bastante resistente. O problema é fazer direito. Por isso acaba ficando tão cara. Não vale muito a pena fazer quadros convencionais de carbono a não ser que seja para competição. O legal da fibra de carbono é que você pode moldar de qualquer jeito, então as possibilidades aerodinâmicas, estéticas e funcionais são infinitas. Essas serão as grandes contribuições da fibra de carbono: novos designs. Abraço.

  5. Denny Master says:

    Esse final de semana farei uma busca, se não encontrar aviso. Obrigado.

  6. magnani says:

    Oi Denny, eu acho que paguei uns R$ 15,00, já com frete. Abraço.

  7. Zenna Rocha. says:

    Massa!Sim,tem nada falando do quadro mosso não? enfim mosso é uma fabrica?

  8. magnani says:

    Oi Zenna. Não tem. O livro fala mais de fabricantes tradicionais que tiveram algum tipo de vitória nas corridas de estrada na Europa, ou então fábricas que trouxeram grandes inovações para essas mesmas competições. As fábricas mais voltadas para o grande público, que são as que mais me interessariam, não aparecem no livro. Abraço.

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