Bicicletismo Urbano – Saúde

Mar 7th, 2013 | By | Category: Bicicletismo, Engenharia & Estudos, Livros, Outros Textos, Posts

Eu gosto de dizer que a disciplina Estudos da Bicicleta tem três partes. A primeira é “A Bicicleta”, onde estudamos sua história e sua tecnologia. A segunda é “A Bicicleta e o Ciclista”, com um pouco de fisiologia e anatomia, mas principalmente com a física do ciclismo, que explica como a potência do corpo humano é usada para vencer a gravidade, a resistência à rolagem, a inércia e a resistência do ar. A última parte da disciplina – “A Bicicleta, o Ciclista e o Mundo” – trata das interações desse meio de transporte com os seus arredores: mercado, trânsito, infraestrutura, políticas públicas e cultura. Essa mistura de equipamento, indivíduo e sociedade é o que chamo de bicicletismo.

Um dos livros que vamos usar nessa última parte é City Cycling (editado por John Pucher e Ralph Buehler, ambos dos EUA), que foi lançado no final de 2012. O livro traz uma visão bem ampla do bicicletismo urbano, falando sobre as tendências mundiais, benefícios para a saúde, velocidade real dos modos de transporte, equipamentos, infraestrutura física, segurança no trânsito, integração com outros meios de transporte, aluguel de bicicletas, crianças bicicleteiras, mulheres bicicleteiras e o bicicletismo nas cidades pequenas, médias e grandes.

Mas, a despeito de todos esses aspectos do bicicletismo, o livro tem as inevitáveis limitações. A principal é no escopo, já que se baseia principalmente em países ricos e de clima temperado. Eu gostaria também de saber mais sobre o uso e a produção de bicicletas na China, na Índia e nos países do terceiro mundo. Também queria conhecer um pouco mais sobre a bicicleta em climas quentes, pois esse é um grande problema no nosso país. Tudo bem andar de bicicleta no friozinho, mas aqui no Recife você chega aos lugares banhado em suor – o que não é bem aceito pela nossa comunidade.

Quero deixar claro que não faço esse comentário para criticar o livro. Muito pelo contrário, já que seu escopo é bem amplo para uma única obra. É só para lembrar aos eventuais leitores que o mundo é bem maior que o descrito ali. Também, que nós aqui no Brasil temos problemas específicos em relação às bicicletas: ausência de desenvolvimento tecnológico local (no máximo montamos bicicletas com componentes importados e projetos copiados), desinteresse da classe política e da sociedade em geral (eles preferem os carros, que na visão deles são mais chics – embora eu não consiga ver a chiqueza de andar fantasiado em uma grosseira armadura de 1 tonelada), trânsito muito perigoso (dezenas de milhares de mortos todos os anos) e um calor desgramento (que cansa/desidrata o bicicleteiro, o expõe a um sol mortal, já que não temos árvores nas ruas, e o torna um pária suado no local de trabalho, pois a nossa sociedade não gosta de nada que a lembre que não somos fresquinhos europeus).

Eu já tinha escrito um pouco sobre esses assuntos em outros textos. Por exemplo, falei sobre o trânsito em A Arte do Bicicletismo Urbano, sobre políticas públicas e luta política em A Revolução do Pedal, e manifestei minhas experiências pessoais em Bike Commuter – Ao Trabalho de Bicicleta. A questão é que os livros nos quais me baseei para escrever aqueles dois primeiros textos também eram limitados aos EUA e Europa, além de serem textos mais de divulgação. Já o City Cycling é baseado em trabalhos científicos. O que não é por si só uma garantia de qualidade, pois você pode escolher apenas os trabalhos científicos que te interessam. Mas mesmo assim, a despeito desses detalhes, é um livro bem legal para se ter um primeiro acesso às principais questões que envolvem o bicicletismo urbano. Pois, como eu sempre digo, não se deve estudar apenas em busca de soluções, mas também para encontrar novas perguntas. São as perguntas que abrem a sua mente e os seus olhos para as coisas que jamais havia percebido. São as perguntas sem resposta que o impelem a agir.

Como City Cycling trata de tantos temas diferentes, resolvi fazer uma série de textos falando de assuntos específicos. O primeiro que escolhi foi Benefícios do Ciclismo à Saúde, que é o terceiro capítulo do livro (Health Benefits of Cycling). Foi escrito por Jan Garrard, Chris Rissel e Adrian Bauman. Como os três são da Austrália, seus exemplos vêm quase sempre de lá. Por falar em Austrália, um fato que me surpreendeu bastante foi a sua população ser bem menor do que eu esperava. Apesar de ter um território quase do tamanho do Brasil, são apenas 23 milhões de habitantes, algo como 12% da população brasileira. Claro que eu sabia que boa parte da Austrália era um imenso deserto, assim como boa parte do Brasil é floresta, pasto ou plantação – mas mesmo assim esperava uma população bem maior do que essa. Bem, registrada a minha ignorância, voltemos ao assunto.

Os autores tratam tanto da melhoria da saúde física quanto da psicossocial. O que é interessante é que cada uma dessas melhorias na saúde pode ser vista em dois níveis diferentes: pessoal e coletivo. Primeiro, há a melhoria direta na saúde de cada indivíduo que resolve andar de bicicleta. Sob esse ponto de vista, o benefício mais direto vem da movimentação corporal, que pode ser de leve a vigorosa, dependendo da pedalada. Isso é muito é importante, porque a mecanização do último século acabou tirando boa parte das atividades físicas no dia-a-dia dos cidadãos. Tudo bem que quem tem dinheiro e tempo pode frequentar academias. Mas nem todos podem, o que vem causando uma desigualdade de acesso à prática desportiva. O ciclismo, por ser barato e por poder ser realizado no caminho do trabalho, é uma ótima opção para diminuir essa desigualdade. Além da parte física, a saúde também envolve aspectos psicológicos. O livro comenta como a atividade física ao ar livre, da qual o ciclismo é um caso importante, pode diminuir a incidência da depressão, melhorar a habilidade cognitiva de crianças em idade escolar, e proporcionar relaxamento, redução do stress, diversão, alegria e interação social.

Só que não pára por aí, pois a cada bicicleta a mais, e consequentemente a cada carro a menos, a saúde coletiva da sociedade também melhora – mesmo a saúde dos não bicicleteiros. Isso ocorre porque, com a diminuição dos carros, há uma melhoria na qualidade do ar, redução do barulho nas ruas, diminuição da emissão de gases de efeito estufa e minimização brutal no número e na gravidade dos acidentes de trânsito. Por exemplo, na Austrália (23 milhões hab.), em 2000, o número de mortes causadas pela poluição dos automóveis foi estimada entre 1000 e 2000 pessoas. Para se ter uma ideia da grandeza disso, em 2008 houve 1500 mortes em acidentes de trânsito – um número parecido. O número de vítimas da poluição dos carros é tão grande que já vem sendo chamada de “a morte silenciosa”.

Uma outra família de benefícios da diminuição do uso de automóveis nasce da melhor qualidade de vida advinda de um trânsito mais amigável, de um maior contato entre as pessoas, de uma maior mobilidade das crianças, idosos e das pessoas com dificuldade de locomoção, da diminuição nos crimes, e de uma estrutura urbana mais harmônica, com bairros orgânicos. Esses bairros tem uma mistura completa de classes sociais, de idades e também de atividades: residências, escritórios, comércio, escolas, praças e pequenas indústrias. São bem diferentes dos bairros de hoje em dia, que são especializados em apenas uma função: dormitórios, industriais, comerciais, de divertimento e outros.

Olhe que não estou nem falando dos ganhos econômicos, pois, com um maior uso de bicicletas, há uma severa diminuição nos gastos públicos com ruas, estradas, estacionamentos, tratamento de acidentados, pensões e aposentadorias precoces por invalidez. Sem contar a diminuição nos gastos que são transferidos ao cidadão, como a aquisição do automóvel, taxas, impostos, seguro, combustível e manutenção. Afinal, mesmo que você não ande de carro, quem você acha que paga por todas essas ruas asfaltadas? Quem você acha que paga por todo o espaço ocioso na lateral das ruas que fica à disposição para o estacionamento dos carros? Quem você acha que paga pelos viadutos? Quem você acha que paga pelo subsídio ao petróleo? Quem você acha que paga pelas isenções fiscais dos automóveis? Quem você acha que paga a polícia de trânsito, resgate, hospitais e necrotérios? Você!

Como eu já disse várias vezes aqui no blog, nosso sistema de transporte urbano é muito ruim: gastamos 100 vezes mais combustível do que deveríamos, queimamos 25% dos nossos salários com os automóveis (aquisição, taxas, multas, estacionamento, pedágio, combustível e manutenção), todo dia ao sairmos de casa corremos um grande risco de morrermos em um acidente de trânsito, pagamos muito caro pelos efeitos das mudanças climáticas e andamos a passo de tartaruga nesse trânsito infernal.

As bicicletas não são a única solução. Claro que elas têm problemas, como a necessidade de um certo preparo físico e a pequena autonomia. Mas isso pode ser resolvido com o projeto de bicicletas mais inteligentes e com a integração da bicicleta com um transporte de massa de qualidade.

Os benefícios das bicicletas são claros: saúde física, saúde mental, saúde social, saúde ambiental e saúde econômica. Seria bom para todos se houvesse uma grande revolução no trânsito, com infraestrutura para bicicletas (ciclovias, árvores, bicicletários, água gelada e chuveiros) e transporte de massa de qualidade (respeito aos horários, fácil acesso aos terminais, integração com as bicicletas, ar condicionado, cadeiras vagas, conforto tanto na espera quanto na viagem, e percursos inteligentes).

Agora, por que não se investe nisso se é bom para todos? Bem, é que talvez não seja bom para as construtoras de viadutos, estradas e avenidas. Talvez não seja bom para as montadoras de automóveis. Talvez não seja bom para as produtoras de combustíveis. De onde se deduz de que lado o governo está. Parece que está do lado do “progresso”, com as montadoras, refinarias, usinas de álcool e com a transformação do país em um grande canteiro de obras. Parece que está do lado do “progresso”, com os congestionamentos, com a poluição, com a destruição das comunidades e com os custos altíssimos.

Mas vai chegar o dia em que veremos com clareza a insanidade desse “progresso”. Veremos que estamos pagando toda essa conta, que estamos parados no trânsito, que nosso sedentarismo nos causa doenças e que também somos vítimas dos acidentes – pois uma hora ou outra todos somos pedestres. Nesse dia sairão de cena os governantes aliados às construtoras, montadoras, usinas de álcool e refinarias. Em seus lugares estarão pessoas realmente preocupadas com a qualidade de vida da população. Creio que verei esse dia. E será logo, pois há uma maioria silenciosa que não aguenta mais viver sem qualidade.

Reference: City Cycling (Ed.: Pucher e Buehler, 2012). Contents: 1 Introduction: Cycling for Sustainable Transport; 2 International Overview: Cycling Trends in Western Europe, North America, and Australia; 3 Health Benefits of Cycling; 4 Effective Speed: Cycling Because It’s “Faster”; 5 Developments in Bicycle Equipment and Its Role in Promoting Cycling as a Travel Mode; 6 Bicycling Infrastructure for Mass Cycling: A Transatlantic Comparison; 7 Cycling Safety; 8 Integration of Cycling with Public Transportation; 9 Bikesharing across the Globe; 10 Women and Cycling; 11 Children and Cycling; 12 Cycling in Small Cities; 13 Big City Cycling in Europe, North America, and Australia; 14 Cycling in Megacities: London, Paris, New York, and Tokyo; 15 Promoting Cycling for Daily Travel: Conclusions and Lessons from across the Globe.

2 Comments to “Bicicletismo Urbano – Saúde”

  1. Zenna Rocha. says:

    Rapaz! Fabio Magnani se supera a cada texto, muito bom, gosto demais dos seus textos sempre lúcidos. “saúde mental, saúde social, saúde ambiental e saúde econômica. Legal demais.

  2. magnani says:

    Oi Zenna. Obrigado, mas esse elogio deve ir ao livro que eu comentei. Peguei as ideias de lá. Abraço.

Leave a Comment

This blog is kept spam free by WP-SpamFree.