O Livro da Bicicleta – Estilo de Vida, Paixão e Design

Mar 28th, 2013 | By | Category: Bicicletismo, Engenharia & Estudos, Livros, Outros Textos, Posts

O design de uma bicicleta vai muito além do projeto mecânico. Claro que é importante ter uma bicicleta leve e com ótima eficiência. No entanto, é preciso também levar em conta a anatomia e a fisiologia do bicicleteiro, para poder extrair ao máximo a baixa potência disponível. Mais do que isso, o designer precisa saber onde a bicicleta será usada – na terra, no asfalto, na ciclovia ou no meio dos carros -, e quais as aspirações do bicicleteiro, que podem ser desde a expressão da sua individualidade através de um produto exclusivo até o mais total desprendimento com uma bicicleta quase descartável.

Por isso tudo, a análise de qualquer bicicleta sempre deve ser feita dentro de um contexto específico, de como e onde essa bicicleta vai ser usada. Por exemplo, uma bicicleta pode ser muito boa para passear nos Andes, mas ser horrível para passear na praia. Outra bicicleta pode ser um símbolo de individualidade para um jovem que vai a seus encontros noturnos sobre duas rodas, mas não ser apropriada para o relevo acidentado da cidade. Ou ainda ser bastante eficiente mas ser tão cara que o bicicleteiro terá medo de usá-la no dia a dia. E por aí vai, pois algumas bicicletas são boas para descidas e outras para subidas, algumas para expressar exclusividade e outras anonimato, algumas para andar na terra e outras no asfalto, algumas para correr sem parar e outras para parar em toda esquina.

O livro “The Bike Book – Lifestyle, Passion, Design” trilha um pouco esse caminho, mostrando as mais variadas bicicletas. São 17 bicicletas esportivas (road bicycles e mountain bikes), 22 urbanas, 6 utilitárias, 12 elétricas e 17 conceituais. Isso sem contar 9 acessórios e outros 9 racks criativos para o depósito das magrelas.

A encadernação é de capa dura, com papel de qualidade e páginas grandes. Em geral, cada bicicleta tem duas páginas à sua disposição, uma só com foto e outra com foto e texto. O texto vem em três línguas: inglês, alemão e francês. Logo, por privilegiar tanto a imagem e o poliglotismo, resta espaço apenas para um parágrafo para cada bicicleta. E esse é o grande ponto negativo do livro, pois esse pequeno espaço é insuficiente para falar da produção da bicicleta, onde é usada, características técnicas e preço. Sem contar que o texto muitas vezes é furado, como quando fala que o titânio é indestrutível ou que o aço 531 da Reynolds é a melhor liga do mundo. Por isso, esse livro deve ser visto com muito cuidado. Algumas ideias são legais, mas não há qualquer senso crítico sobre a relevância ou sobre a praticidade daquelas bicicletas. É um livro legal para ficar olhando, germinando umas ideias e babando nas fotos.

Mas há pontos positivos além da qualidade da encadernação. Os ângulos das fotos são muitas vezes inesperados, fazendo com que você se sinta como se estivesse ao lado delas, seja admirando de perto um componente ou curtindo a integração daquela bicicleta com a arquitetura urbana. Outro ponto interessante é que há muitas bicicletas da Alemanha, o que traz uma visão um pouco diferente da comum, que sempre mostra bicicletas dos EUA, França e Itália.

O mais importante para mim, no entanto, em qualquer livro, é quando aparece um novo ponto de vista. Neste caso, há bicicletas de vários tipos e materiais, acessórios para usar na pedalada e estruturas para guardar as bicicletas. O mais legal, no entanto, é o desprendimento com o fundamentalismo bicicletístico, que fica claro quando o livro dedica uma parte inteira para bicicletas elétricas. Agora, o símbolo da liberdade vem quando ele tem a coragem de colocar uma bicicleta motorizada ali no meio. Me divirto imaginando um purista jogando o livro na parede ao abrir na página dedicada àquela monstruosidade poluidora… Viva a diversidade!

Para mostrar a variedade do livro, escolhi dois punhados de bicicletas que aparecem em suas páginas. Algumas eu até gostaria de ter para rodar por aí, como essa aqui de baixo, mas acabei escolhendo as bicicletas que traziam aspectos mais interessantes.

A Travelissimo (Hampsten Cycles) é uma bicicleta americana em forma clássica, baseada nas bicicletas de corrida dos anos 60. É feita com aço italiano (Columbus) e pesa 9 kg – bastante para um competição, mas razoável para cruzar a cidade. Embora tenha esse visual de corrida, ela é projetada como uma touring racer, um pouco mais confortável para as nossas ruas e estradas.

Tudo bem que a Speed (Moulton) tem rodas pequenas, mas na verdade tem performance de bicicleta grande. Considerada como a única grande evolução das bicicletas no século XX, a Moulton compensa as rodas pequenas com uma suspensão bem pensada. O problema da suspensão é que faz a bicicleta oscilar demais quando o bicicleteiro pedala mais forte, sendo mais indicada, então, para um pedalar mais constante. Esquisita, mas inteligente e legal.

Essa bicicleta aí de cima (R.R2 FS Worldcup, Rotwild) não tem quase nada de especial, ao meu ver, já que não sou grande fã das mountain bikes. Mas gostei bastante da suspensão traseira, que ficou bem discreta. Esse é um ponto importante para mim, pois em geral acho que a suspensão tira toda a elegância das bicicletas.

Eu gosto mesmo das bicicletas de carga, cada uma projetada pensando em um uso específico. Essa FR8 (Workcycles) pode levar até três crianças. O mais legal é que foi projetada para carregar 250 kg!

A Vestige Bike (Schwinn) é feita de fibra de linho, o que já é interessante. Mas o mais legal é que eles aproveitaram que esse material é translúcido para instalar uma iluminação dentro do quadro, energizada por um dínamo no cubo.

Pelo menos em conceito, a Stealth Bomber (Stealth Electric Bikes) é como imagino a moto urbana que teremos em um futuro próximo, assim que acabarem os oligopólios de bicicletas e de motos aqui no Brasil, já que passaremos a produzir o que realmente queremos, o que realmente precisamos e o que realmente merecemos. Com 6 CV, essa bicicleta elétrica de 53 kg alcança 80 km/h.

O que me agradou na Grace foi o design da sua lâmpada dianteira, que mais parece uma máquina fotográfica antiga, e como conseguiram integrar bem as baterias ao quadro.

O interessante da Urbike é ser totalmente customizada. A partir de um quadro básico, o bicicleteiro monta todo o resto, com as cores que desejar. Gostei muito.

Eu sou completamente apaixonado pelo titânio, principalmente quando conseguem aproveitar as propriedades desse material para um projeto limpo e elegante, como essa No.1 (Paul Budnitz).

Essa Derringer Bespoke não tem nada de mais, já que é uma homenagem às motos que faziam muito sucesso nos velódromos dos anos 1920. Mas, como eu disse aí em cima, achei muito legal que essa bicicleta motorizada tenha sido incluída no livro, sinalizando a derrubada dos muros que dividem os mundos das bicicletas convencionais, bicicletas elétricas e motocicletas. Para mim todas fazem parte da mesma família, todas com a mesma dinâmica, a mesma marginalidade no trânsito e a mesma emoção na pilotagem.

O livro traz ainda uma série de projetos para racks que são figurinhas conhecidas em todas as publicações impressas e digitais. Mas não me canso de sorrir ao imaginar que um dia teremos uns racks em forma de carro espalhados pela cidade, lembrando aos carangueiros como as bicicletas ocupam bem pouco espaço.

Como exemplo de acessório, escolhi os capacetes Nutcase, que são bem simpáticos. No livro há ainda bolsas, chapéus, casacos e botas. Coisas elegantes, mas nada para nós tropicais.

Era isso. “The Bike Book – Lifestyle, Passion, Design” é um bom livro burguês, sobre bicicletas burguesas, para ler no feriadão. É um livro bem bonito e com pouco texto. Mas traga um pouco de sal e de bom senso, para poder extrair apenas as boas ideias, já que o livro falha ao não fazer análises críticas. Se bem que estamos acostumados com isso, pois é um comportamento bastante comum em todas as revistas de moto e de bicicleta que temos no mercado brasileiro, que só pensam em fazer agrados às anunciantes. O livro não diz se a bicicleta é cara ou barata, se é resistente ou não, se é bastante usada em algum lugar específico ou se foi influenciada por algum outro projeto. Mas, se você olhar com o devido cuidado, pegará um monte de ideias legais, que podem servir como pontos iniciais para uma pesquisa mais profunda. Coisa para se ler em uma única tarde e depois sonhar de noite. Legal.

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