Engenharia da Motocicleta [disciplina da graduação: 2013.1]

Apr 18th, 2013 | By | Category: Engenharia & Estudos, Motoqueirismo, Motos, Outros Textos, Posts

Depois de um ano bem intenso e cheio de novidades, estamos mais uma vez prontos para oferecer a disciplina “Engenharia da Motocicleta”. Já é a terceira edição. Ela faz parte de um conjunto de atividades da UFPE que costumo chamar de Estudos em Duas Rodas, que inclui orientações, disciplinas e projetos – envolvendo motos e bicicletas. O momento é bastante especial, já que desde julho do ano passado conseguimos juntar uma equipe de estudantes – da graduação até o doutorado – que vêm trabalhando com temas relacionados com as duas rodas. Isso é muito legal, porque a partir de agora não nos limitaremos mais a reproduzir o que encontramos nos artigos de ciência e de tecnologia. Agora podemos contribuir, pelo menos um pouco, com esse conhecimento que geramos aqui na UFPE.

Sim, entendi que vocês se esforçaram durante o último ano. Legal. Mas, por que eu estudaria Engenharia da Motocicleta?

Há grandes oportunidades para quem se especializar nessa área. Vocês devem estar vendo nas notícias que o trânsito das nossas cidades está quase parado por causa desse monte de carros que temos por aqui – e ainda pensamos em instalar mais fábricas de carros! Também aposto que vocês sabem que o nosso trânsito é extremamente perigoso, com acidentes gravíssimos que atingem principalmente os jovens. Sem contar o alto consumo de combustível e a poluição dos veículos que estão no mercado. As motos fazem parte desses problemas, pois são uma alternativa de mobilidade urbana, estão envolvidas em boa parte dos acidentes, e, embora sejam mais eficientes que os automóveis, mesmo assim desperdiçam muito combustível – muito mesmo.

As pessoas querem um trânsito mais inteligente, por isso precisamos de estudos que mostrem em que situações as motos ajudam ou prejudicam o fluxo nas vias. As pessoas querem veículos mais limpos, seguros, eficientes, rápidos e baratos, por isso precisamos desenvolver novas tecnologias. As pessoas querem uma diminuição radical nos acidentes de trânsito, por isso precisamos levantar as reais causas dos acidentes e propor soluções eficazes para a sua diminuição. No final das contas, as pessoas estão à espera de jovens empreendedores com a competência e a coragem necessárias para melhorar tudo isso. E, respondendo à sua pergunta, estudando “Engenharia da Motocicleta” você aprenderá pelo menos uma pequena fração do que é necessário para poder colaborar de fato, diferentemente desses “achistas” que sabem de tudo, mas que nunca andaram ou estudaram as motos.

Você está falando em empreendedorismo, o que, do ponto de vista de um engenheiro mecânico, significa abrir uma fábrica. Mas, por que eu pensaria em montar uma nova empresa se as fábricas japonesas já controlam totalmente o mercado brasileiro?

Verdade. Aqui no Brasil temos um oligopólio de fabricantes japonesas (Honda e Yamaha) que controla 90% do mercado. Outra forma de dizer a mesma coisa é que há um monopólio da Honda, com 83% das vendas. Palavras diferentes para uma mesma situação preocupante.

É sempre difícil determinar as causas de um monopólio. Às vezes uma empresa é bem mais eficiente do que outras, por isso consegue oferecer produtos mais baratos e de melhor qualidade. Mas isso em geral dura pouco tempo, pois logo outras empresas entram na competição para compartilhar daquele bolo. O estranho é que a Honda mantém essa grande fatia de mercado há várias décadas.

Em geral, os oligopólios são mantidos artificialmente das seguintes formas: com a criação de uma burocracia que dificulta a entrada de novos produtos no mercado, com altos impostos que inviabilizam as importações, com restrições no crédito para a implantação de novas empresas, e com subsídios ou vantagens fiscais para as empresas do oligopólio. Em outras palavras, é possível manter um oligopólio dificultando artificialmente a vida dos novos concorrentes e facilitando a vida de quem já está no mercado. Para os inimigos, a lei.

Eu ainda não tenho condições de afirmar porque a Honda consegue manter esse controle de 83% no Brasil. Só sei que é muito estranho, uma vez que ela não consegue ter essa fatia tão gorda no Japão, mesmo com as mesmas concorrentes daqui. Pode ser que a Honda seja muito mais eficiente que as outras empresas. Por outro lado, pode ser que receba benefícios da época em que o nosso mercado era fechado. Ou, ainda, que tenha atingido uma economia de escala que permita sobreviver neste nosso país repleto de burocracias duvidosas. Ainda não sei a resposta. Mas estou chegando lá, daí pode deixar que eu conto para vocês.

O que eu sei é que os oligopólios em geral têm duas grandes características. Primeiro, trabalham com produtos ineficientes e caros. Isso vem acontecendo no caso das motos, muito embora não seja muito aparente porque as revistas e jornais anunciam esses produtos como se fossem grandes maravilhas da tecnologia. Não são. Segundo, todo oligopólio acaba, mais cedo ou mais tarde, desde que haja competição.

Esses dois fatos (os produtos de oligopólios são sempre ruins e os oligopólios sempre acabam) escancaram duas grandes janelas de oportunidade para os jovens empreendedores: há muito espaço para o desenvolvimento tecnológico e há muito espaço para novas fábricas no mercado. A hora é agora.

Mas vocês têm que ser rápidos para montar as suas fábricas, pois as fabricantes chinesas já perceberam esse oligopólio aqui no Brasil e estão entrando com força para tomar o seu lugar. Haverá uma grande revolução no mercado brasileiro de motos nos próximos anos, com a extinção natural do monopólio da Honda, com a entrada das fábricas chinesas e com o aparecimento de novas tecnologias. Quem quiser participar desse mercado tem menos de 20 anos até que as novas fábricas se consolidem e não deixem mais ninguém entrar por algum tempo.

O legal é que nós temos grandes vantagens em relação aos chineses e aos japoneses, pois só nós conhecemos o nosso trânsito, o nosso sistema de distribuição de produtos feito pelos motoboys e o nosso gosto por máquinas de duas rodas. As fábricas japonesas estão aqui no Brasil há muitos anos, mas nunca conseguiram produzir algo diferente do que produzem em outros países. As fábricas chinesas estão fazendo o mesmo, simplesmente copiando as motos japonesas. Eles não perceberam o risco que estão correndo se alguém com conhecimento local começar a produzir motos inteligentes.

Mas é tão difícil criar uma empresa própria…

Parece impossível criar uma fábrica de motos do nada, não é? Parece impossível, mas não é. A própria Honda, que domina o nosso mercado, é um grande e belíssimo exemplo de fábrica que começou bem pequena. A história dela está no texto As Guerras das Motos no Japão. Para falar a verdade, é até meio difícil encontrar uma fábrica que já tenha começado grande. Um exemplo é a Kawasaki, que começou com muito dinheiro, mas que nunca deu muito certo. Dinheiro não compra tudo…

Para quem quiser saber um pouco mais sobre como montar sua própria fábrica, eu propus um plano de negócios a partir da fabricação de quadros de bicicleta, que permite que você comece com um baixo investimento, mas com muita competência, e vá se capitalizando com o tempo, até criar uma fábrica de veículos individuais inteligentes.

Não tem um jeito mais rápido?

Há outros caminhos para começar uma nova fábrica, cada um se aproveitando de um tipo diferente de colapso dos oligopólios. Isso mesmo: colapso. Os oligopólios implodem de quatro formas.

Uma forma de colapso dos oligopólios ocorre quando pequenas empresas conseguem desenvolver novas tecnologias para processos convencionais, o que significa produtos mais baratos e mais eficientes. Uma dessas novas empresas pode ser a de vocês. Se vocês quiserem seguir esse caminho, recomendo que planejem fazer uma pós-graduação, e que se unam a colegas de engenharia elétrica, engenharia eletrônica, engenharia de produção, design, psicologia, computação, direito, contabilidade e economia. Esses últimos são particularmente importantes, porque vocês vão precisar de crédito, e o jeito mais fácil de fazer isso é lançar ações na bolsa. Não é nada fácil fazer isso no Brasil, mas é possível, desde que seus colegas de economia sejam bons. Também tem como conseguir recursos através do governo, que volta e meia lança linhas de crédito para desenvolvimento tecnológico. Os contabilistas e advogados são importantes para navegar por toda a burocracia durante a homologação dos produtos, patenteamento, aquisição de crédito, organização da produção e comercialização das motos. Essas barreiras legais e burocráticas são muito fortes no Brasil – o que ajuda a manter as empresas já consolidadas -, por isso deem bastante valor para esses colegas das outras profissões. Aproveitem toda essa riqueza de recursos humanos, de conhecimentos diversos, de alegria e de vontade de mudar o mundo que as universidades proporcionam para vocês.

Outra forma clássica do fim dos oligopólios ocorre com a saída de funcionários que abrem suas próprias empresas, aproveitando o conhecimento, a organização, e os contatos com fornecedores e comerciantes. Engraçado que isso não vem acontecendo no Brasil. Mas fiquem de olho nas novas fábricas que estão aparecendo, porque de repente uma delas é formada por engenheiros experientes das fábricas tradicionais. Participar de uma nova empresa como essas é uma grande oportunidade para crescer rápido, aprender muito e participar ativamente da evolução tecnológica no Brasil.

O terceiro tipo de colapso ocorre quando caem as barreiras alfandegárias e monetárias, coisa que vem ocorrendo no Brasil já faz um tempo. Por isso as motos chinesas estão entrando no nosso mercado. Agora, se não aproveitarmos este momento de certo caos, elas irão simplesmente substituir o oligopólio japonês por um oligopólio chinês. O interessante é que podemos participar deste novo momento. Por exemplo, outro dia eu estava conversando com o dono de uma fábrica de bicicletas elétricas. Ele é brasileiro, mas criou a sua empresa lá na China, se aproveitando da tecnologia deles em componentes eletroeletrônicos (baterias, controladores e motores elétricos). A Honda também faz isso, com duas fábricas instaladas na China. Ah… você pode dizer que isso é ruim porque cria empregos em outro país. É a vida. Melhor dividir os lucros com outro país do que ficar sem nada, não é? Além disso, estaríamos controlando a qualidade do projeto dessas motos, garantindo o suprimento de peças e mantendo uma rede confiável de assistência técnica. Já pensou que chic ser dono de uma multinacional?

A quarta forma clássica de término de um oligopólio é a falência da tecnologia que ele usa. Isso está acontecendo agora. Todo mundo está cansado de perceber que as motos são muito caras, fáceis de ser roubadas, se envolvem em muitos acidentes, poluem, gastam muito combustível, têm um design horrível, são muito pesadas, barulhentas, não estão ligadas às redes de informação e não podem ser carregadas nos veículos de transporte de massa. As motos atuais não são mais aceitas pela sociedade. São caras, perigosas, pesadas, feias, ineficientes e sujas. Há uma forte carência por produtos modernos. Há uma forte carência por novas empresas que produzam essas motos modernas. Há uma forte carência por jovens engenheiros antenados. Há uma forte carência por vocês!

Em resumo, vocês podem apostar no desenvolvimento de tecnologias convencionais, mas mais eficientes; podem entrar nos novos empreendimentos dos ex-funcionários das fábricas do oligopólio; podem criar empresas na China para vender por aqui; e podem desenvolver produtos inovadores. O mercado de motos no Brasil é de mais de 10 bilhões de reais por ano. Isso só no Brasil, pois a demanda de motos no mundo é muito maior do que isso. Há muito espaço para ser conquistado por jovens empreendedores.

Você me convenceu. Por onde eu começo?

Tudo muito bom, tudo muito bem. É possível criar novas empresas. É possível mudar o mundo para melhor. E é possível ter um trabalho que mais parece um hobby. Mas para isso é preciso se preparar direito, fazendo um curso de engenharia mecânica bem feito e se ligando aos colegas dos outros cursos – que depois vão ser seus sócios na nova empresa. Um dos passos nessa preparação é cursar a nossa humilde disciplina “Engenharia da Motocicleta”, que tem o seguinte programa:

  • História das fábricas, que quase sempre começam pequenas a partir dos sonhos de um jovem sem dinheiro no bolso e sem amigos importantes.
  • Tecnologia das motocicletas, desde os clássicos pistões até os mais modernos controles de tração.
  • Propulsão, com ênfase na simulação do motor e do comportamento das motos no trânsito.
  • Ciclística, que explica porque as motos não caem e o que fazer para que elas sejam bastante ágeis.
  • Suspensão, que é o sistema responsável por manter as rodas no chão, e que, se bem projetado, diminui o consumo, aumenta o conforto e principalmente garante a segurança do piloto.
  • Quadro, a grande vedete desta edição da disciplina, onde a técnica dos elementos finitos será usada para projetar quadros leves, resistentes e com a rigidez desejada.

Assim como nas últimas edições, eu vou ministrar as três primeiras partes e o Ramiro as três últimas. A minha parte é centrada mais na “moto” e a do Ramiro mais na “cicleta”, por isso gostamos de brincar que o curso tem como objetivo responder duas perguntas:

  1. Como a moto anda para frente?
  2. Por que a moto não cai?

Mas claro que não é só isso, pois também olhamos um pouco para as causas dos acidentes, poluição, mercado, indústria, preconceito, cultura, manutenção, tecnologia, esporte, legislação e mídia. Muita engenharia, é claro, mas também um pouco de análise das campanhas contra acidentes, o oligopólio japonês, a entrada das motos chinesas no nosso mercado, motos elétricas, novas tecnologias, e as reais necessidades e desejos do motoqueiro brasileiro.

Atenção

O nome oficial da disciplina é “ME497 – Tópicos Especiais em Energia I”.

E, aproveitando a deixa, para quem quiser se aprofundar um pouco mais nessas questões que vão além da “Engenharia da Motocicleta”, oferecemos também, no segundo semestre, a disciplina “Estudos da Motocicleta” – mas daí para os estudantes de pós-graduação.

O que há de novo, velhinho?

Primeiro, como já falei aí em cima, a grande novidade deste semestre vai ser a parte de projeto de quadros usando um software de elementos finitos. O Ramiro tem bastante experiência nisso, mas ainda não tinha tido tempo para adaptar o material para as motos. Se bem que esse conhecimento também pode ser usado para projetar bicicletas, pelo pessoal do mini baja e até por quem for projetar chassis de automóveis (argh!).

A segunda novidade é o conhecimento que temos gerado aqui mesmo na UFPE, com os trabalhos dos estudantes. Vamos lá. O Yuri (IC) faz a simulação de motores de motocicleta, com uma preocupação de como os parâmetros do motor, como o avanço da centelha ou a temperatura do arrefecimento, influenciam no consumo de combustível e na emissão de poluentes. A Isabel (IC) estuda as reais causas dos acidentes envolvendo motos e faz uma análise crítica das campanhas de prevenção de acidentes aqui no Brasil. O Saulo (IC) está fazendo uma especificação de bicicleta para uso urbano, levantando os prós e os contras dos componentes disponíveis no mercado. O Diego (TCC) fez um levantamento do que é necessário para homologar uma nova motocicleta. O Rodrigo (especialização) modelou o equilíbrio químico nos cilindros, o que permite o estudo da emissão de poluentes dos motores. O Paulo (mestrado) estuda a influência das motos no trânsito urbano – i.e., em que situações elas melhoram o fluxo de pessoas e quais as condições para que diminuam o consumo global de combustível. E a Patrícia (doutorado) está começando um levantamento sobre os usuários de motos em cidades do interior, tentando descobrir as causas tecnológicas dos acidentes, para então propor soluções.

Há também a contribuição dos estudantes de pós-graduação de “Estudos da Motocicleta”, que fizeram trabalhos bem legais no último ano: a física do high-side, campanhas de prevenção de acidentes, estudos sobre as reais causas dos acidentes, dinâmica do tráfego de motos e a cultura dos bikers americanos. Os estudantes de “Engenharia da Motocicleta” do ano passado fizeram uma competição acirrada, onde tinham que projetar o quadro mais leve o possível, e depois um sistema de escape que proporcionasse a maior potência a uma moto de 660c. Isso sem contar com os estudantes de graduação de “Estudos da Bicicleta”, com trabalhos que envolveram: transmissão com coroas ovais, aerodinâmica, sensores de potência, campanhas para o uso de bicicletas e o uso da fibra de carbono.

Por falar em bicicleta, eu ouvi falar que você tinha largado as motos e passado para o lado das magrelas… 🙂

Muita gente me acusou no último ano de ter “traído o movimento motoqueirístico” e, por mais que eu negasse, não consegui ser muito convincente de que meu objetivo era unificar os estudos dos dois veículos de duas rodas. Ainda bem que agora posso comprovar isso com a volta de “Engenharia da Motocicleta”. Se bem que a minha intenção sempre deveria ter ficado muito clara, com todos esses estudantes trabalhando com motos, não é? Mas é certo que foi uma experiência legal a que tivemos no semestre passado, com a disciplina de “Estudos da Bicicleta” – disciplina que vai ser oferecida de novo no segundo semestre.

A ideia dessa disciplina de bicicletas começou com os meus estudos sobre as motos. Afinal, a história das motos começou com as bicicletas; os dois veículos têm a mesma dinâmica; até as fábricas de motos e bicicletas trabalham em conjunto aqui no Brasil (ABRACICLO); e as duas sofrem de preconceito no trânsito. Portanto é óbvio que as duas têm muito em comum. Mas têm diferenças também. As motos são mais importantes do ponto de vista econômico, as bicicletas são mais aceitas pela sociedade, as motos se envolvem em muito mais acidentes graves, as bicicletas são usadas por uma classe econômica mais baixa, os motoqueiros são bem organizados em sindicatos de trabalhadores, os bicicleteiros são bem organizados em associações em prol do lazer, e por aí vai. A questão é que, ao invés de olhar para as diferenças, tentamos ver como a cultura que cerca um desses veículos poderia aprender com a cultura do outro. Seria legal se o preconceito acabasse para todos os condutores de duas rodas, que todos tivessem mais segurança no trânsito, que todos tivessem uma organização política mais forte e representativa, e que todos tivessem um mercado saudável com a melhor tecnologia possível.

Do ponto de vista tecnológico, eu acredito que haverá uma convergência entre os dois veículos em suas versões elétricas. Continuaremos a ter as motos para grandes viagens. Continuaremos a ter as bicicletas simples e elegantes. Mas há algo no meio para se usar no dia a dia urbano. Veículos elétricos com peso máximo de 30 kg e com velocidade máxima de 80 km/h, ligados na internet para otimizar o percurso e o estacionamento,integrados à rede de transporte público de massa, e interconectados com outros veículos para diminuir os acidentes. Esse novo veículo irá derrubar a parede imaginária que existe entre os motoqueiros e os bicicleteiros.

Ah… e quem não estiver gostando do uso do termo “motoqueiro”, favor ler a minha opinião sobre o assunto no texto Motoqueirismo e “Motociclismo”.

Que tecnologias novas são essas que você tanto fala?

Minha aposta principal é nesses veículos urbanos elétricos que vão surgir da convergência das motos, das bicicletas e da internet. Mas precisamos de baterias mais leves, com maior capacidade e que possam ser carregadas rapidamente. Precisamos de uma rede de telefonia celular que funcione. Precisamos de estações de serviço espalhadas por toda a cidade. Precisamos de uma ampliação da geração elétrica, pois queremos carregar as baterias durante o dia. E rápido! Precisamos de motos mais difíceis de ser roubadas. Precisamos de dispositivos de integração ao tráfego que permitam otimizar o percurso, avisar onde há lugar para estacionar e principalmente que avisem aos veículos maiores que estamos por perto, diminuindo assim os acidentes. Precisamos de uma aerodinâmica revolucionária para diminuir os gastos com energia. Precisamos de pneus que sejam ao mesmo tempo eficientes, resistentes e com boa pegada. Precisamos de designs inovadores. Precisamos de uma ergonomia apropriada para as pequenas viagens do dia a dia. Precisamos de uma ciclística compatível com o tráfego nas grandes cidades. Precisamos de acessórios de segurança leves, frescos, fáceis de usar e baratos. Precisamos de uma produção cultural (filmes, textos, documentários, entrevistas, feiras, congressos, festivais, eventos esportivos e músicas) que destrua essa visão tacanha, vendida pelas revistas, de que as motos atuais são boas. Não são. Precisamos de uma produção cultural que afirme a urgência para que os jovens tomem as rédeas da inovação tecnológica, cultural e social.

Claro que uma única disciplina introdutória de engenharia não conseguirá dar todas essas respostas. E nem tem essa pretensão. Essa disciplina é apenas o primeiro passo. Mas o fato é que uma viagem de mil milhas começa com um único passo.

E se eu for de outro curso, de outra universidade, ou já tiver me formado?

Tranquilo, pode cursar também. Se você for de outro curso da UFPE, a forma mais fácil é pedir para o seu coordenador solicitar a abertura de vagas nessa disciplina, daí ela aparece no seu SIG@ – ou então fazer matrícula como disciplina isolada. Agora, se você for de outra instituição, ou então se já for formado, a única alternativa é essa tal de matrícula em disciplina isolada. Mas tem que ficar ligado nas datas e nos documentos.

Hei, psor, dá para resumir o que vai cair na prova?

Dá. “Engenharia da Motocicleta” é uma disciplina introdutória que trata principalmente de aspectos tecnológicos e físicos das motos, com foco na modelagem do motor e no projeto de quadros. No entanto, vamos falar o tempo todo de outros aspectos importantes do mundo das motos. Afinal, queremos que vocês entendam o que as pessoas esperam das motos modernas. Queremos que vocês montem as suas próprias empresas no futuro. Também queremos ser convidados para testar as motos que vocês vão produzir, hein? Mas que sejam motos com as características dos brasileiros, com nosso gosto e voltadas para o nosso uso. Com uma rede de assistência técnica decente e revenda fácil. Que sejam motos seguras, limpas, eficientes, leves, elegantes, baratas e inteligentes.

Psor, só mais uma coisa, vocês vão pagar alguma coisa para quem assistir essa disciplina?

Não vamos. Ao contrário de outras disciplinas desta e de outras universidades, neste caso não há nenhuma empresa pagando bolsas para que os alunos assistam às aulas. Quem quiser, vai ter que cursar a disciplina pelo amor ao conhecimento mesmo.

E essa figura que vocês colocaram no cartaz?

Bem… eu estava procurando uma imagem que representasse o espírito de uma disciplina sobre motos. Tinha que ter uma moto em movimento, claro, mas também tinha que ter um ar divertido, anárquico, independente e determinado. Foi aí que dei de cara com essa figura, que encontrei no blog de um ciclo-designer berlinense. Assim que expliquei onde o desenho seria usado, ele liberou na hora.

O Frankenstein é um dos meus personagens preferidos, pois representa a busca do ser humano pelo conhecimento e a revolta contra as injustiças. Uma pena que essa imagem criada na história original tenha sido completamente deturpada pelos filmes, que o mostram apenas como mais um monstro simplório. O mais legal é que o livro foi escrito por uma menina de 20 anos de idade, lá em 1818, um ano depois de inventarem a bicicleta. Por isso, nada mais justo do que o Frank estar no cartaz da nossa disciplina. Ele teria andado de moto se elas existissem naquela época.

Só fiquei preocupado quando fui pedir a opinião da minha mulher, que não gostou nada da figura, dizendo que é agressiva demais, que o cara é feio, e que, além disso, está sem capacete. Ainda, que os estudantes vão fugir da disciplina e que os nossos chefes vão nos demitir. Quando comentei essa opinião com o Ramiro, a resposta foi direta: “Também, você tinha que mostrar para um adulto? Agora acabou toda a diversão!”

Mas podem ficar despreocupados, porque a diversão está só começando. Claro que a disciplina é bem séria e vai demandar esforço, como todas as outras, mas o assunto é bem legal e o futuro mais legal ainda.

9 Comments to “Engenharia da Motocicleta [disciplina da graduação: 2013.1]”

  1. NEIDE says:

    Sempre surpreendendo. Gostei muito de sua forma de expor este artigo: com perguntas e respostas e com encadeamento de idéias harmonioso e crescente, demonstrando, assim, todo o conhecimento que adquiriu,e que está a adquirir, nos vários ramos do assunto em tela e em diversoso aspectos.
    Parabéns. Neide

  2. Amadeu says:

    Gostei. Continue …

  3. magnani says:

    Obrigado pela visita. Abraços.

  4. joel gomes says:

    Professor,
    Sou aluno da UFRPE de Ciências Sociais e pretendo escrever minha monografia em cima da Representação Social dos Usuários de veículos ciclomotores (não sei se o nome é esse, mas estou falando de motos e triciclos), principalmente dos que estão ligados aos moto clubes. Certamente que não entendo nada de mecânica, de física ou de desenho técnico. O Sr. aceitaria um aluno com esses conhecimentos tão baixos?

  5. magnani says:

    Oi Joel, oficialmente a disciplina não tem pré-requisitos, portanto você tem o direito de solicitar a matrícula como disciplina isolada. Aqueles pré-requisitos são apenas recomendações dos professores. Só precisamos ver se o coordenador vai aceitar a matrícula, ok? O problema é que muito provavelmente você não conseguirá fazer os trabalhos, que são bem técnicos. Mas nada impede que você assista a disciplina (se o coordenador aceitar a matrícula), mesmo sabendo que vai não vai aproveitar os créditos. Digo isso porque vamos discutir vários assuntos que serão úteis no seu trabalho. Em outras palavras, você faz a matrícula, perde os créditos e ganha um pouco de conhecimento. Vale a pena. Abraço, Fábio Magnani.

  6. Iraí Dantas says:

    Olá Prof. Magnani!

    Antes de tudo quero parabenizá-lo pelo excelente trabalho sobre o estudo das motos e bicicletas, gosto muito do blog e compartilho das mesmas ideias sobre a qualidade das motos, monopólio da indústria japonesa e a falta de uma indústria nacional. A meses venho acompanhando o seu blog e lendo os livros indicados, mas gostaria de saber se essa disciplina tem site e se possível ter acesso aos arquivos das aulas com slides e pdfs?
    Abraço! Irai Dantas

  7. magnani says:

    Oi Iraí, tudo bom? A disciplina aparece no site http://www.ufpe.br/ciclo, mas por enquanto não há muito mais informação do que aqui. Sobre o material, infelizmente não podemos disponibilizar. A questão é de direitos autorais. Como professores, temos o direito de reproduzir material de livros durante as nossas aulas, mas não podemos distribuir. Mas, quem sabe você não vem cursar a disciplina um dia desses, não é? Abraço.

  8. Iraí Dantas says:

    Ok! td bem Professor, obrigado pela atenção…,por enquanto não dá pra ir ai porque sou de Santo André-SP rs…sou TA na UFABC, se um dia abrir um curso EAD com certeza farei rs ou então peço transferência para a UFPE rs. Mas só o fato de acompanhar o blog,ler os artigos,posts e os livros já é um belo de um curso. Obrigado! Abraço! Iraí Dantas.

  9. magnani says:

    Ou quem sabe um dia consigo um editor/designer/promotor para lançar uma série de livros. Ou então quem sabe as universidades passem a valorizar mais as atividades de ensino além da sala de aula. Isso porque, hoje em dia, somos mais cobrados para publicar artigos científicos, ministrar aulas e orientar na pós-graduação. Não sobra muito tempo para escrever apostilas e livros, ou atuar em projetos de extensão. O jornal, por exemplo, escrevo no meu horário livre. Mas o legal é que, de vez em quando, a gente recebe uns elogios. 🙂

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