Quantos motoqueiros morrem por ano no Brasil?

May 1st, 2013 | By | Category: Acidentes, Editoriais, Outros Textos, Posts

Editorial

Um amigo me perguntou se a falha na fabricação de uma moto que apareceu na internet tinha matado alguém. Não sei. Mas isso me levou a fazer algumas aproximações numéricas.

Segundo o “Global Status Report on Road Safety 2013”, da Organização Mundial de Saúde (com dados até 2009), o Brasil mantém uma média de 20 mortos por 100.000 habitantes desde 2004. Como a população em 2009 era de 196.000.000, foram 39.200 mortos naquele ano. Desses, 25% eram motoqueiros. Logo, morrem cerca de 9.800 motoqueiros por ano (e 8.600 pedestres e 9.000 carangueiros).

Vamos analisar a líder do mercado no Brasil. Como a Honda tem 83% da bolada, estimamos que 8.000 brasileiros morrem por ano em uma moto dessa fábrica. A sua receita é de R$ 9 bilhões por ano, então recebe R$ 1,1 milhão por cada brasileiro morto em suas motos. O que importa nessas estimativas é que a empresa tem ótimas condições financeiras para desenvolver produtos mais seguros – só falta um empurrãozinho do governo e da sociedade cobrando isso.

Certo que a causa desses acidentes não é só tecnológica. As vias esburacadas, o trânsito implacável, as drogas, a imprudência dos motoqueiros e principalmente a imperícia dos carangueiros, também são causas. Mas, ao fazer essas contas da receita anual, certamente paramos para pensar em quanto as fábricas deveriam estar investindo para diminuir as mortes que ocorrem com seus consumidores. E mais, já que o governo não quebra o monopólio brasileiro, deveria no mínimo cobrar produtos mais seguros, através de normas técnicas e regulamentadoras.

O monopólio da Honda no mercado brasileiro de motos é mantido artificialmente por 1) benefícios fiscais em Manaus, 2) barreiras alfandegárias, 3) dificuldades para novas empresas conseguirem investimentos privados (e.g., lançamento de ações na bolsa), 4) herança da época da ditadura, que fez com que, quando o mercado abriu, a Honda já fosse muito maior que as outras (a Yamaha foi incompetente para aproveitar), 5) mídia totalmente dependente da publicidade da Honda, 6) burocracia infernal para criar novas empresas, importar componentes, importar motocicletas completas, conseguir recursos no exterior e para homologar novos produtos, e 7) permissão do governo para que a Honda obrigue os seus varejistas a venderem exclusivamente os seus produtos.

Algumas pessoas defendem que as fábricas não têm (parte da) culpa nas milhares de mortes que acontecem com os seus produtos. Isso é a mesma coisa que defender a inocência do McDonalds (comida gordurosa) e da Philip Morris (cigarros). Ou então dizer que uma distribuidora de energia elétrica não tem culpa se um raio afetar a sua operação. Claro que a distribuidora tem culpa, já que o projeto não levou esses eventos em conta. Recomendo que assistam “Obrigado por Fumar”, “Conduta de Risco” e “Helen Brockovich”, para verem como as grandes empresas conseguem desviar a culpa pelos prejuízos decorrentes do uso de seus produtos. Evidente que as fábricas são co-responsáveis pela morte dos seus clientes.

Por exemplo, no futuro, os acidentes vão diminuir muito com o uso de sensores de localização, que mandarão sinais para os outros veículos. Algo parecido com o que se usa no Dakar, mas muito mais elaborados, usando tecnologias de GPS, sensoriamento local, mapeamento e interconexão do tráfego (mobility internet) e V2V (vehicle-to-vehicle communication). A NR12, norma regulamentadora no trabalho em máquinas e equipamentos, já obriga o uso de detectores de presença em vários equipamentos para minimizar acidentes. Agora, por que os veículos não são obrigados a ter esses sensores que avisariam sobre a possibilidade de um acidente ocorrer no próximo cruzamento? Por que os veículos não são mais leves e mais lentos, o que diminuiria bastante a energia cinética durante as colisões e o que daria tempo para os condutores reagirem? O problema é que essas opções tecnológicas não são nem cogitadas, porque a Honda não precisa ser moderna para vender, já que têm um monopólio mantido artificialmente. E é óbvio que é artificial, e não causado por uma suposta eficiência, pois a Honda, no seu país sede (Japão) e no maior país produtor de motos do mundo (China), e no maior país consumidor do mundo (Índia), não tem essa fatia tão grande do mercado.

A Honda ficou famosa pelo slogan “Você encontra alguém legal em uma Honda”. Mas o mais apropriado, parafraseando os médicos americanos, que chamam as motorcycles de donorcycles, seria: “Você encontra um doador de órgãos em uma Honda”.

Isso não é piada. É uma tragédia. Se o governo não faz nada eficaz para acabar com esse monopólio que vende produtos mortais, então está mais do que na hora do Ministério Público apertar o cerco. Mas bem que o governo poderia fazer algo sobre esse atraso tecnológico que mata, através do Ministério da Saúde (forçando produtos mais seguros), Ministério da Justiça (responsabilizando as fábricas), CADE (quebrando o monopólio), Ministério do Meio Ambiente (forçando maior eficiência energética) e principalmente através do Ministério do Trabalho (com uma norma regulamentadora específica para as motos – mas nada de ficar propondo equipamentos de segurança pesados, quentes e perigosos, ou então cursinhos só para as vítimas da guerra, hein?).

O problema dos acidentes é muito complexo. Há várias causas, e.g., tecnologia atrasada, vias mal projetadas e mal cuidadas, imperícia, álcool e imprudência – como eu já cansei de escrever em outros textos: Campanha Olhe Duas Vezes, Estudo MAIDS, Discurso na Semana de Cultura Motoboy, Entrevista para o Blog MotordoMundo e Lanças Empaladoras de Humanos. Mas este texto aqui é dedicado a apenas uma das responsáveis.

O que dificulta a discussão ainda mais é que todo mundo acha que entende de trânsito (e de futebol, e de política, e de religião, e de engenharia). As discussões muitas vezes ficam irracionais, com o lado emocional bem forte, o que não leva a lugar algum. Apesar de saber dos riscos que corro, penso que estou contribuindo pelo menos um pouco para essa discussão. E estou plenamente consciente que vou ser muito atacado por fazer críticas à Honda. Mas são críticas necessárias, pois ela vem saindo ilesa das discussões sobre acidentes travadas no Brasil.

De qualquer forma, espero que as pessoas percebam que é um absurdo que milhares de usuários de um produto morram por ano e que nada seja feito para forçar a empresa a melhorar esse produto. Sem contar o absurdo de chamarem as colisões de acidentes. Como assim, acidentes? Todo ano morrem os mesmo 40.000 brasileiros. Isso é completamente previsível. Não são acidentes, são falhas no sistema de transporte.

Que fique claro, no entanto, que a Honda não é pior que nenhuma outra fábrica do mundo do ponto de vista da segurança. A questão é que ela tem o monopólio aqui no Brasil, e isso traz responsabilidades. Ninguém aqui está propondo que seus diretores sejam incriminados pelas 8.000 mortes por ano (não por enquanto), mas sim que a Honda, e todas as outras fábricas, ofereçam produtos seguros aos seus consumidores. Ou então que saiam do mercado. Para falar a verdade não entendo porque a Honda não encabeça essa campanha, já que ela teria plenas condições de oferecer tecnologias mais avançadas, dominando mais ainda o mercado. Como eu já falei, acho que só falta um empurrãozinho do governo e da sociedade.

Para se ter uma ideia do absurdo desse grande número de mortes em motocicletas, é como se um Boeing caísse a cada dez dias no Brasil, matando todos os seus passageiros. Será que nesse caso iriam dizer que a Boeing não tem nada com isso?

Acho que, infelizmente, estamos nos acostumando com as mortes no trânsito, por isso passamos a achar que as motos têm que ser atrasadas assim mesmo. Mas a verdade é que as motos podem ser muito mais seguras, muito mais eficientes e muito mais limpas; desde que todas as fábricas sejam co-responsabilizadas pelas mortes/poluição e desde que o governo aja para terminar com esse monopólio da Honda, que é mantido artificialmente.

Equilíbrio em Duas Rodas – Editorial de 01.05.2013

4 Comments to “Quantos motoqueiros morrem por ano no Brasil?”

  1. Rafael says:

    Achei o texto muito interessante, mas acho que ficou faltando mencionar alguns exemplos de melhorias tecnológicas que as montadoras de motos poderiam inserir em seus produtos a fim de torná-los mais seguros, evitanto as ‘quedas de boeing’ a cada 10 dias.

  2. magnani says:

    Oi Rafael, acho que a grande mudança será o desenvolvimento da tecnologia de comunicação entre veículos, que diminuirá muito o número de colisões com automóveis (a principal causa de acidentes graves). Até que as fábricas aprendam a fazer isso direito, no entanto, penso que deveriam diminuir a velocidade de todos os veículos. Mas é meio injusto pedir que os consumidores como eu tenham a solução. Como são as fábricas que comercializam os produtos que matam, elas é que tem que trazer a solução.

    Desenvolvo um pouco mais essas ideias no texto Reflexões de um Motoqueiro Sobre Colisões, Quedas e Atropelamentos

    Abraço e volte sempre.

  3. Rafael says:

    Entendi, Fábio. É uma ideia interessante, sim. Talvez fosse interessante se o governo cobrasse a apresentação de pesquisas dessas empresas em prol do aumento de segurança. Ou mesmo algum incentivo fiscal com a introdução de uma tecnologia que salve vidas. O que acha? Penso que se não partir de cima, as empresas vão sempre ficar na zona de conforto; vide a obrigação recente de todos os automóveis terem ABS e airbag aqui no Brasil, coisa que já é norma em países civilizados há muito tempo e que sabemos salvar incontáveis vidas. Mas felizmente tudo isso será resolvido de verdade com a chegada dos automóveis autônomos, que aí sim terão prudência perfeita, não terão sono, raiva, preguiça, imperícia nem nenhuma dessas fraquezas humanas. Em 20 anos estarão invadindo o mercado. 🙂

  4. magnani says:

    Isso, Rafael. Acho que o governo deveria cobrar resultados numéricos. Tipo, redução de 20% nas mortes por ano, e as fábricas que busquem as melhores soluções. Abraço.

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