Motos na Imprensa

Jul 9th, 2013 | By | Category: Bicicletismo, Engenharia & Estudos, Mais Destaques, Motoqueirismo, Posts

EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS lança nova Seção de Notícias —

Como deve dar para perceber pelo que escrevo, meus estudos bibliográficos motoqueirísticos são baseados principalmente em livros, relatórios e trabalhos acadêmicos – muito pouco em jornais e quase nada em revistas. Faço essa escolha porque esse tipo de literatura traz uma visão mais aprofundada, confiável e consolidada dos assuntos, sejam eles técnicos, culturais ou econômicos. Isso em geral é bom, mas também tem um lado ruim, pois essas obras são relativas a eventos que ocorreram já faz um certo tempo, além de terem sido filtradas por seus autores.

Para minimizar esses aspectos negativos, resolvi investir um pouco mais na leitura de notícias de jornais, tanto para ver o que está acontecendo agora quanto para fazer as minhas próprias escolhas sobre o que é, ou não é, relevante. Pois, embora os textos jornalísticos sofram censura editorial e não sejam muito confiáveis, o fato de existirem muitos jornais tende a diminuir um pouco essas interferências.

Certo que meus estudos também incluem rodar diariamente de moto pela cidade, bater papo com motoqueiros, trocar ideias com mecânicos, conversar com estudantes, ouvir lorotas de empresários e levar chá-de-cadeira de autoridades – mas este texto é somente sobre estudos bibliográficos.

Estudo das Notícias

Estudar as notícias dá um trabalho danado. Isso porque essa atividade é um verdadeiro garimpo, já que a grande maioria dos veículos de comunicação é tetratemática: ou falam de acidentes, ou de crimes, ou de competições, ou de lançamentos. Só. E é claro que, ao falar de acidentes ou crimes, sempre colocam a culpa nos motoqueiros. E é mais claro ainda que, ao promoverem novos produtos, fazem só elogios, pois assim agradam aos seus anunciantes. Isso é evidente em Pernambuco. O Diário de Pernambuco é especializado em promover novos lançamentos, já o Jornal do Commercio (sic) praticamente só fala de crimes e acidentes. Nos outros estados a situação é a mesma, basta fazer uma busca na Folha de São Paulo ou em O Globo.

Para compreender os problemas e para aproveitar as oportunidades do mundo das motos precisamos de outras visões além dessas oferecidas pelos jornais brasileiros. Há muitos outros temas importantes: cultura, manutenção, economia, política, propaganda, marketing, engenharia, energia, combustíveis, ciência, educação, comportamento, trânsito, arte, trabalho, saúde, lazer, legislação, indústria, turismo, mercado, design, literatura, segurança, preconceito, tribos, consumo e ficção. Ufa. E por isso eu digo que procurar notícias é um garimpo, pois de cada mil notícias convencionais (crimes, acidentes, competições e lançamentos), você encontra apenas uma ou duas realmente relevantes.

Se bem que em alguns casos é um pouco mais fácil. Por exemplo, se você procurar artigos sobre economia, até consegue encontrar algo em jornais especializados (e.g. Valor Econômico), mas mesmo assim são informações muito gerais, sobre produção nacional e nível de emprego. Quase não há análises sobre fábricas específicas. Eu adoraria ler a verdadeira história da Honda no Brasil, ou então ter acesso a um balancete de custos de alguma fábrica de motos, para ter a noção do lucro real, mas nunca encontrei nada nem parecido.

Por essa limitação da mídia brasileira, resolvi então fazer um levantamento mundial, para ver se podia aprender coisas novas sobre o motoqueirismo. O resultado foi a nova seção do jornal (Notícias), que será continuamente atualizada. Para quem estiver interessado, outra forma de acompanhar essas notícias será pela Fan Page do EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS, que terá menos notícias do que aqui no jornal, mas por outro lado virá com alguns comentários pessoais que não farei por aqui.

Jornais Brasileiros

Antes de ir à imprensa internacional, deixa eu comentar algumas notícias interessantes que encontrei aqui no Brasil. Por exemplo, fiquei sabendo que em 2012 as montadoras brasileiras mandaram mais de US$ 2 bilhões para o exterior, o que deixa claro que seria melhor termos fábricas nacionais e reinvestir esse dinheiro aqui mesmo. Uma outra notícia que me surpreendeu, por tratar de fábricas específicas, o que não é comum em nossa imprensa, falava de como a Honda havia perdido um processo de plágio para a Shineray. Agora, o que me assustou mesmo foi ler a presidente da Petrobrás falar que adorava congestionamentos, pois o negócio dela era vender combustível. Pô… a presidente de uma importante empresa estatal deveria estar interessada no bem geral do país, não apenas em cumprir metas para acionistas.

Em uma outra boa exceção, vi um jornal fazer uma crítica técnica a um produto da Honda, que segundo a reportagem traria o risco de causar acidentes. Não quero entrar em detalhes sobre o fato, mas legal que tenha sido veiculado. Agora, o texto mais interessante, que não falava diretamente de motos, mas sim de combustíveis, foi do professor Rogério Cerqueira Leite, que explicou muito bem como a Petrobrás vem calando a voz dos artistas, políticos e intelectuais.

Em maio saiu uma reportagem legal mostrando como as indústrias japonesas instaladas aqui no Brasil são protegidas, evitando a entrada de novas concorrentes. Nessa mesma linha, uma outra reportagem dizia que a isenção tributária dada a empresas da Zona Franca de Manaus fazia com que o Brasil deixasse de arrecadar R$ 23 bilhões. O que também nos faz pensar se vale a pena proteger as fábricas japonesas de moto que controlam nosso mercado.

Uma fonte interessante para saber das coisas aqui no Brasil é o website do Senado, onde aprendi que estão discutindo uma aposentadoria especial para os motoboys e também a obrigatoriedade do uso de air bags. Em um primeiro olhar, essa última pode até parecer uma boa lei, mas a verdade é que pode ser perigoso cobrir um motoqueiro com roupas que diminuem sua agilidade e o seu conforto térmico, principalmente em um clima quente e úmido como o brasileiro. Em outras palavras, esses “equipamentos de segurança” podem aumentar mais ainda os acidentes. Mas esses senadores provavelmente se basearam em algum estudo acadêmico para propor essas leis. Ou será que não? O problema é que as pessoas confundem causa com efeito. O uso de equipamentos de segurança no Brasil pode até diminuir as consequências dos acidentes, mas certamente aumenta a ocorrência dos mesmos, pois essas roupas quentes causam desidratação, cansaço e diminuem a agilidade do motociclista. É preciso fazer um estudo sério para ver se o efeito global é positivo ou negativo. Mas vamos confiar que os senadores se basearam em algum estudo científico para tomar essa decisão de obrigar os motociclistas a andarem como múmias no deserto escaldante.

Tive uma grande surpresa em um texto que falava sobre acidentes de trânsito, no qual um professor dizia que o risco de morrer de moto nas cidades é 30 vezes maior do que de carro. Inicialmente achei estranho, já que pelas minhas contas o risco de morrer de moto seria “apenas” 2.25 vezes maior que de carro. Mas daí caiu a ficha: o professor falava de acidentes urbanos, enquanto eu calculava acidentes em geral. Putz, entendi depois, claro que a maior parte dos acidentes fatais de carro ocorrem nas estradas, enquanto os de moto são nas cidades. Legal quando se aprende uma coisa nova.

Fontes Internacionais

Nesse garimpo internacional, o primeiro passo é escolher as fontes. Do ponto de vista da tecnologia, os países que mais nos interessam são o Japão (porque as suas fábricas dominam o nosso país) e os Estados Unidos (por causa da tecnologia em sensoriamento, comunicação entre veículos, motos elétricas e células combustível). Se bem que não necessariamente esse país desenvolva tudo isso, mas sempre está no meio, por isso seus órgãos de imprensa noticiam as novidades.

Mas são os países em desenvolvimento, no entanto, que têm as características mais próximas às nossas, como uma frota numerosa, uso das motos para commuting e alto índice de acidentes. São eles: China, Índia, Indonésia, Paquistão, Nigéria, Bangladesh, Rússia, México, Filipinas, Vietnã, Turquia, Tailândia, Taiwan, Myanmar, Colômbia e Malásia.

Outros países até têm produção de motos, como a Espanha, Alemanha, Inglaterra e França, mas não lideram o desenvolvimento tecnológico do que realmente é representativo nas ruas. Além disso, o desenvolvimento tecnológico nesses países é muito bem coberto pela imprensa tradicional. Mesmo assim, claro que esses países podem nos ensinar muito em relação ao trânsito e à qualidade de vida. Já a Itália, com a Piaggio, é um país especial, pois, ao mesmo tempo em que é desenvolvido, também tem muitas motos de baixa cilindrada circulando em suas ruas.

Jornais do Mundo

As notícias internacionais vão na mesma balada que as nacionais: acidentes, crimes, lançamentos e competições. Mas dá para garimpar alguma coisa boa. Na Nigéria, o assunto do mês foi a proibição em várias regiões das Okadas, que são os mototáxis deles. Essa proibição veio meio que repentinamente, causando muito desemprego. A argumentação do governo foi que a medida era necessária para diminuir acidentes e crimes, mas não há base científica para isso. Os jornais de lá discutem muito o assunto, apresentando os dois lados.

No Myanmar houve um fato sangrento, mas também curioso. É que bandos de motoqueiros budistas atacaram muçulmanos. Eu achei isso estranho porque sempre que penso em budistas me vem à cabeça monges, que seriam pessoas muito improváveis de participarem de ataques. Curioso que não penso em monges quando leio sobre católicos, judeus ou macumbeiros. Por falar nisso, continuando com ataques sanguinários, na Nigéria um bando de 150 motoqueiros invadiu uma cidade, matando 32 pessoas. E na China, na região de Xinjiang, dividida etnicamente pelos Chineses Han e pelos mulçumanos Uighurs, mais de uma centena de pessoas, pilotando motos e portando facas, atacou uma estação policial. No Paquistão, motobombas suicidas são usadas pelo Talibã para atacar apoiadores do governo. Em vários países do mundo as motos vêm sendo usadas como veículos de guerrilha nas guerras étnicas. Triste.

Na Indonésia o assunto foi o aumento dos combustíveis. O governo vinha segurando o preço havia muito tempo, o que estava quebrando o país. Agora, de uma hora para outra, aumentaram o preço da gasolina em 45%. A questão do subsídio é uma questão politicamente complexa, pois a população tem a impressão de que é uma coisa boa, mas que na realidade não é, pois o subsídio cria monopólios, ineficiências e injustiças. Por exemplo, no Brasil, usamos carros como meio de transporte, o que é extremamente ineficiente. No entanto, somos levados a isso pelos subsídios à gasolina, às vias públicas e ao tratamento aos acidentados.

Sobre a China, no mês passado aprendemos que a Lifan está se preparando para entrar nos EUA. Para isso, pretende se fortalecer primeiro na África, onde não há demanda por uma tecnologia tão avançada. Outra notícia interessante da China foi que suas motos têm apresentado ótimos níveis de qualidade. Aprendi também que na China os sentimentos anti-Japão prejudicam as vendas de veículos japoneses. Isso é mais forte no norte, devido à ocupação japonesa durante a guerra. Por isso, fábricas japonesas pensam em concentrar esforços de venda no sul da China, onde não há tanta restrição. Os distribuidores chineses, por outro lado, estão se aproximando mais das fabricantes europeias. Já do ponto de vista da produção, houve o anúncio que Chongquing (China), a cidade que mais fabrica motos no mundo, faturou R$ 15 bilhões nos primeiros cinco meses do ano. Isso corresponde a quatro vezes a receita que as fábricas japonesas exploram aqui no Brasil. Mas lá na China a produção é feita por fábricas locais, o que não acontece aqui no Brasil, que prefere dar facilidades para manter o oligopólio de fábricas japonesas. Outra novidade foi uma colaboração entre a Shineray e a Huachen, um investimento de R$ 1.6 bilhão que deve render R$ 3.6 bilhões por ano. Bom ter uma indústria local, não?

Outros países motoqueiristicamente importantes geram poucas notícias em inglês, como o Vietnã, Myanmar e as Filipinas. A Tailândia, embora também com poucas reportagens, veio com uma ideia muito boa, que é o moto-taxímetro, que já está até sendo homologado aqui no Brasil.

A Índia tem um jornalismo econômico muito interessante, que representa bem a luta entra as suas grandes fabricantes: Honda, Yamaha, Bajaj, Hero e TVS. Esse é um país que tem muito a nos ensinar, pois, embora as motos não sejam muito avançadas e a sua burocracia seja pior que a brasileira, a Índia tem forte concorrência, preços baixos e desenvolvimento tecnológico local. Por exemplo, uma moto de baixa cilindrada por lá é vendida por R$ 1.600,00 e uma moto de 44 CV é vendida por R$ 6.700,00, preços muito mais baixos que aqui no Brasil. O mais interessante é que todas as fabricantes investem em pesquisa local para produzir motos apropriadas para os seus clientes. Por falar nisso, a Nigéria também apresentou uma moto produzida localmente.

A grande discussão nos EUA foi sobre colocarem 15% de álcool na gasolina. Embora o governo diga que essa nova mistura NÃO deve ser usada em motocicletas, as associações de motociclistas estão fazendo muitas manifestações. As discussões envolvem questões técnicas, políticas, culturais e econômicas. Para piorar, ninguém sabe quem está dando uma opinião livre, que está sendo pago pelo lobby do álcool, e quem está sendo pago pelo lobby do petróleo. O mesmo problema daqui. Bem… segue a opinião de Kevin Cameron, jornalista que eu respeito bastante – mas com quem nem sempre concordo.

Os EUA também vêm discutindo muito as motos elétricas e as tecnologias V2V (comunicação veículo a veículo). Por exemplo, em Ann Arbor, Michigan, 3.000 veículos com tecnologia V2V fizeram parte de um “estudo no mundo real”. Já no Brasil o dinheiro do governo é gasto com propagandas para convencer a população que os motoqueiros sempre são os culpados de todos os acidentes, como se não fosse possível exigir uma tecnologia mais segura das fábricas, e como se não fosse possível exigir resultados mais concretos das ações governamentais. Não, por aqui o governo é perfeito e as fábricas são perfeitas, só os motoqueiros erram. Interessante que, ao mesmo tempo em que defende a livre concorrência, o governo dos EUA investe muito em desenvolvimento tecnológico.

Falando um pouco sobre a Honda, vimos que ela se prepara para entrar no mercado de aviões a jato, além de investir em tecnologias V2V (vehicle-to-vehicle) e em células combustível. A questão é que nenhum desses desenvolvimentos tecnológicos foi feito aqui no Brasil. Não, aqui é lugar para ganhar dinheiro e enviar todo o lucro para o Japão. De qualquer forma, essas notícias provam que a Honda domina tecnologias avançadas – coisa que já sabíamos. Agora, lembrando que essa mesma Honda vende motos a R$ 1.600,00 na Índia, chegamos à conclusão de que, se ela quisesse ou se tivéssemos concorrência no Brasil, seria possível vender motos muito mais baratas e muito mais seguras por aqui. Seria interessante uma reportagem explicando porque as motos são tão caras por aqui. Seria interessante uma reportagem explicando que para diminuir os acidentes não basta fazer propagandas na TV colocando a culpa nos motoqueiros. É preciso baixar o preço das motos. É preciso investir em tecnologia para diminuir os acidentes.

Deixando um pouco de lado a pesquisa acadêmica e lembrando que também sou motoqueiro, uma das reportagens mais legais que encontrei foi a de um jornalista que saiu de moto pelo Paquistão para ver o que o povo realmente precisava. O mundo não está totalmente perdido.

Convite

Esse texto não teve nenhuma pretensão de ser um grande levantamento da mídia mundial, pois isso levará mais tempo. Foi apenas um convite para que vocês acompanhem essa nova seção de notícias aqui do EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS (muitas notícias, sem comentários) ou então a Fan Page no Facebook (menos notícias, com comentários). Basta clicar em uma das caixas abaixo, dependendo das suas preferências. Espero vocês por lá.

         

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