A Arte e o Motoqueirismo

Aug 31st, 2013 | By | Category: Destaques, Engenharia & Estudos, Livros, Motoqueirismo, Posts

Dizem que a arte é incapaz de expressar a sensação de pilotar uma moto. Isso porque, mesmo que os filmes tragam as imagens e os sons que vemos e ouvimos nas ruas; e mesmo que os livros tragam as ideias e os sonhos que turbilhonam na nossa cabeça; a verdade é que os filmes, os livros, as fotos, as músicas, as esculturas, as poesias e as danças não conseguem transmitir o aroma das florestas, a mudança repentina de temperatura, a vibração do motor, a aceleração nas ultrapassagens, e o equilíbrio tênue que se sente nas curvas, entre a inércia que nos joga para fora e a gravidade que nos puxa para dentro. Além disso, a arte não traz consigo o risco físico, e, portanto, não permite que o sujeito desafie filosoficamente a morte – como o faz em cima de uma moto.

Concordo parcialmente com isso, porque, embora seja verdade que a arte não expresse todas as sensações físicas, é certo que andar de moto não é uma experiência unicamente corporal. Andar de moto tem também dimensões sociais, políticas e psicológicas, que são muito bem representadas pela arte, como o enfrentamento às autoridades, as roupas erotizadas, a solitude do piloto, o conflito entre os usuários das vias, e o companheirismo na estrada. Tanto isso é verdade que há vários livros e filmes muito legais sobre a experiência de andar de moto, como, por exemplo, aqueles que comentei no texto A Garota e o Selvagem. Isso sem contar que só a moto em si já é um objeto de arte, o que a transforma em um modelo perfeito para quadros e fotografias, o que a transforma em um objeto perfeito para o design, o que a transforma na inspiração perfeita para músicas e poesias e danças.

O que eu mais gosto da arte, no entanto, não é a sua capacidade de representar o mundo para quem não pode vivê-lo; como quando alguém curte a foto de uma estrada legal pela qual nunca passou. O que eu mais gosto da arte é o seu total descompromisso com as soluções fáceis e pobres. A missão do artista não é encontrar soluções, mas sim compreender a realidade em toda a sua complexidade. E é isso que, embora não seja um artista, tento fazer no meu gabinete enquanto imagino um novo seminário, rascunho a estrutura de um texto, ou quando crio um novo caminho para essa eterna linha de estudos. Jogo todo o material na mesa, misturo com as minhas experiências de rua, solto só um pouco da imaginação, e então tento criar o maior número possível de pontos de vista para os fenômenos que formam o mundo das duas rodas. Claro que depois os resultados terão que ser enquadrados em uma estrutura formal, lógica e ordenada – mas não no início. E a arte sempre é bastante inspiradora em todo esse processo.

Mas é preciso tomar cuidado com esse pêndulo que oscila entre o caos e a ordem. Pois o caos pode ser destrutivo. A ordem pode ser aprisionadora. O caos pode ser criativo. A ordem pode ser criadora. É preciso saber navegar entre o caos e a ordem, adorar Apolo e Dionísio, conviver entre as humanidades e a tecnologia. A arte nos ensina a aceitar esse eterno jogo entre o caos e a ordem. Na arte, o caos criativo é a matéria prima de uma futura obra ordenada, que por sua vez inspirará um novo caos, até que nova ordem apareça. O mesmo acontece nas revoluções tecnológicas, quando as velhas máquinas já não nos servem mais e novos inventores criam infinitas novas soluções, até que esse caos tecnológico convirja para apenas algumas tecnologias maduras. O mesmo ocorre na turbulência social que sempre surge para provocar as novas leis que nos ordenarão de forma mais razoável para o nosso tempo. O mesmo ocorre na pesquisa filosófica, onde se estuda aparentemente sem rédeas até que nova teoria desponte naturalmente, trazendo consigo pelo menos uma modesta nova compreensão das coisas.

Isso me faz lembrar uma frase que o Milan Kundera, autor que eu gosto muito, certa vez escreveu para fazer uma crítica a alguém – embora eu ache que neste nosso contexto a frase seja um elogio. Parafraseando, seria algo assim: “As obras filosóficas são expressões apolíneas de um êxtase dionisíaco”. É por aí mesmo. Há todo um caos criativo durante o estudo e o rascunho, mas depois tudo é organizado na construção de bancadas, na realização de experimentos, no desenvolvimento de modelos computacionais, na apresentação de seminários e na escrita de livros. Após o término desse ciclo, exatamente como na arte, esses trabalhos irão inspirar o caos criativo em outras pessoas, que por sua vez buscarão certa ordem em suas obras acadêmicas, que então irão provocar o caos em outrem, e assim até o infinito.

Pena que não há muitos livros de arte sobre as motos e sobre as bicicletas que nos inspirem a viver nesse processo. Mas ainda bem que volta e meia aparece um maluco que consegue publicar algo interessante. No início deste mês foi lançado o livro Motorcycle Graphics, de Gary Inman, que traz uma coleção de 30 artistas que usam a arte para expressar o tribalismo e a subcultura das motocicletas – sempre em superfícies 2D. Cada seção vem com uma pequena biografia do carinha e então uma amostragem do seu trabalho. Muito legal.

Ao todo são 250 páginas, com trabalhos que nos inspiram a compreender, por exemplo, a determinação dos pilotos de competição, a leveza das motoqueiras, a tempestade de informação que nos atinge nas grandes cidades, a infinita diversidade dos indivíduos que andam de moto, a coragem das mulheres que são exatamente o que querem ser, e a individualidade daqueles que andam de moto. Bem… não há palavras para descrever completamente a arte, como também não há palavras para descrever totalmente as sensações físicas de pilotar uma moto. Fique então com algumas amostras do livro. Talvez ele ajude a compreender de onde nós motoqueiros fugimos, o que desejamos, com o que sonhamos, e para onde estamos indo.






11 Comments to “A Arte e o Motoqueirismo”

  1. Cassio Toledo says:

    Caro Fábio, sou motociclista ha 40 anos, meu filho também é e meu pai é o símbolo de uma postura atual dos motociclistas de respeito e segurança ( meu pai é o Coronel Carlos Miranda ou “O Vigilante Rodoviário”). Desculpe insistir no termo MOTOCICLISTA, mas o termo motoqueiro se refere mais aos que sem muito comprometimento com segurança ou falta de conhecimento do assunto se arriscam desnecessariamente arriscando a vida de outros.
    Trabalho ha 32 anos com produção de cinema, fotografia e faço também algumas avaliações técnicas de veículos entre eles motocicletas e vivo entre os “irmão dos motoclubes” que ao contrário do que muitos pensam não precisam ter motocicletas grandes, todos são tratados como irmãos desde que se comportem como tal. Caso precise de alguma ajuda em material sobre motociclismo é só me contactar.
    Atenciosamente; Cassio Toledo Pullin Miranda

  2. magnani says:

    Prezado Cássio Toledo Pullin Miranda. Eu não divido quem anda de moto em dois grupos: motoqueiros de um lado e motociclistas de outro. Primeiro, porque eu teria que julgar quem é “mauzinho” e quem é “bonzinho”, coisa que não vou fazer porque não sou juiz. Segundo, porque essa separação entre motoqueiros e motociclistas serve na realidade para as autoridades e para as fábricas lavarem a mão de suas responsabilidades. Afinal, para eles, só os motoqueiros se matam, motociclistas nunca! Para eles, a culpa é sempre do motoqueiro, portanto, ainda para eles, não é preciso melhorar o projeto das motos e não é preciso trabalhar direito na fiscalização-legislação-educação e não é preciso melhorar as vias. Além disso, dividir quem anda de moto em motoqueiros e motociclistas serve para a classe média se sentir “diferenciada”. E serve para a mídia vender jornais e revistas e programas de TV e corridas e roupas e motos para “pessoas diferenciadas”. Para mim, todos que andam de moto são motoqueiros. Simples assim. Mas outro dia conversamos sobre isso com mais calma, pois o texto de hoje é sobre a liberdade de pensamento – não sobre sectarismos ou julgamentos morais. Vamos saudar a arte e a sua capacidade de captar o mundo em toda a sua diversidade, complexidade e beleza. Um abraço. Fábio Magnani, motoqueiro.

  3. eddie says:

    Muito boa sua resposta Fabio. Concordo plenamente que a divisão entre motoqueiro e motociclista é apenas uma falácia criada por interesse de alguns. Hoje em dia quando alguem me chama de motociclista (ou ciclista) eu imediatamente respondo que sou motoqueiro (ou bicicleteiro).

    Parabéns pelo trabalho jornalistico. Gostaria de ler uma materia sobre nichos mercadologicos com maiores demandas. Ou mercados em que uma empresa iniciante tenha maior probabilidade de sucesso. (relacionado a duas rodas / transporte urbano).

    Abraços.

  4. Antônio Fernandes says:

    Boa noite Fábio,

    Tenho acompanhado suas matérias há um bom tempo, mas acredito que este é o momento importante para os comentários que você mesmo provoca. Afinal de contas, não esqueça que o seu site e todas as postagens nele, são sim, formadores de opinião de valor e isso instiga em muito seus leitores. Ser ou não juiz de algum acontecimento é resultado do que você faz nas suas matérias, acreditando eu que quem as lê, está preparado para filtrar muito de sua argumentação. Fazemos juízos de valores sim. É uma realidade presente nas redes sociais, caso contrário não teria ela essa finalidade. Temos é que filtrar.

    O comentário do sr. Cássio Toledo é muito pertinente e seria interessante continuar este diálogo, dentro ou fora do mundo acadêmico, claro que mantendo sempre a ética no processo de conversação.

    Penso eu, que os termos, “motoqueiros”, “motociclistas” e o seu [“motoqueirismo”], em nada desmerece esta qualidade de esporte/trabalho/lazer (…) que fazemos cotidianamente ou não.

    Não podemos colocar todos em tábua rasa, fique certo disso, ou mesmo negligenciar o que você mesmo diz “realidade para as autoridades e para as fábricas lavarem a mão de suas responsabilidades”. Juízo de valor?

    Penso que colocar isso em pauta seria de grande importância para exigir mais segurança nas máquinas, mais responsabilidade das montadoras e mais leitura sobre o tema que é interdisciplinar e que levaria não a uma uniformização do termo, mas a compreensão sobre o porque estamos sobre uma moto.

    Quanto ao seu artigo, grato pois novamente tivemos uma aula de história, entre outras coisas.

    Antônio Carlos Fernandes
    Motociclista / Historiador

  5. magnani says:

    Oi Antônio Carlos Fernandes. Concordo plenamente quando você diz que precisamos “exigir mais segurança nas máquinas, mais responsabilidade das montadoras e mais leitura sobre o tema que é interdisciplinar”. No entanto, o tema deste post é a nobreza da arte. Vamos saudá-la com todo o respeito que merece. Se vocês quiserem conversar sobre “motoqueiros e motociclistas”, recomendo o post Motoqueirismo e “Motociclismo”, entre vários outros em que discuti esse assunto. Espero que compreendam que não estou fugindo da conversa, muito pelo contrário, mas também não quero desvirtuar um tema (arte do motoqueirismo) para o qual dediquei várias horas de estudo e mais outras tantas para desenvolver o texto, e sobre o qual penso ser muito mais relevante do que a muito relevante guerra cultural para dividir os motoqueiros em duas classes. Agora, caso queiram falar sobre a arte do motoqueirismo mesmo, daí o lugar é aqui. Abraço. Fábio Magnani, motoqueiro. 8)

  6. magnani says:

    Oi Eddie. Em um primeiro momento, parece que a melhor forma de entrar no mercado é produzir veículos exclusivos a partir de componentes já existentes. Isso porque (1) a maior parte do custo está na criação (sua, que não precisa inicialmente de um grande salário) e porque (2) sempre há pessoas dispostas a investir em um design exclusivo. Depois, com a capitalização do negócio, daí sim será possível investir em pesquisa e desenvolvimento para produzir veículos mais maneiros, eficientes, leves, baratos, leves e inteligentes. Abraço. Fábio. 8)

  7. Neide says:

    Olá Fábio.
    Você tem toda razão. A cultura é dinâmica.
    Por que diferenciar motoqueiros e motociclistas?
    Você é sim, formador de opinião e tem juízos de valot, mas não um juiz para julgar. Você tem toda a razão. Continue assim.
    Agora, sobre o texto em tela, muito boa a análise sobre sobre o processo criativo partindo do caos para a obra e da obra para o caos criando noba obra. É o círculo da Vida.. Você o é descreveu muito
    bem. Parabéns.

  8. Fabio Luiz Palhari says:

    Essa balela de “Sou Motociclista e não Motoqueiro” já está ultrapassada e muita gente como eu prefere ser chamado pelo termo mais antigo e tradicional. EU SOU MOTOQUEIRO.

  9. magnani says:

    Isso, xará. Somos todos motoqueiros. 8)

  10. Jonathan Vilar says:

    Sempre que alguém me vem com essa de motociclista eu já tenho salvo nos meus favoritos o seu texto sobre motoqueiros x motociclista. Acabei inclusive de postar em um grupo de Intruders que participo.
    Um abraço aê, Fábio. Moro logo do lado em Campina Grande (PB). Dá próxima vez que for em um congresso na UFPE a gente troca uma ideia ou dá uma volta de motoca!

  11. magnani says:

    Combinado, Jonathan. Ah… sobre o texto, não gosto muito desse que você falou. É bem confuso. Isso que dá quando se escreve algo movido pela emoção, não pela razão. Como te falei no facebook, mas para deixar registrado aqui, gosto mais de um texto que escrevi recentemente:

    http://blog.fabiomagnani.com/?p=29801

    Abraço.

Leave a Comment

This blog is kept spam free by WP-SpamFree.