Motoarteiros

Sep 12th, 2013 | By | Category: Engenharia & Estudos, Livros, Mais Destaques, Motoqueirismo, Posts

Semana passada dei um pulo em São Paulo para ver o que os motoboys andavam aprontando. Estavam fazendo arte, para variar. Uma exposição no MASP, um museu bem chic que eles têm por lá. Muito legal, pois apresentar algo nesse museu significa um grande reconhecimento sobre o trabalho de alguém. Por outro lado, esse museu chiquérrimo é o oposto perfeito do motoqueirismo, já que, se você quiser dar um rolê por lá, tem que respeitar um monte de ordens, seguir na linha, andar devagar, fazer silêncio, esperar a fila, pagar a entrada, aceitar a hierarquia burocrática, não pode comer ou fumar enquanto se move, e está sempre sendo vigiado. Até os roteiros são fixos, não dando muita liberdade para você escolher seu próprio caminho. Bem… talvez todo esse controle seja o preço que temos que pagar pela arte. Talvez não.

O mesmo sentimento de controle eu tive quando andei pelos metrôs da cidade. Ao contrário do caos que estou acostumado por aqui, por lá tudo é organizado. Quem quer ficar parado na escada rolante fica na direita, quem quer andar mais rápido ultrapassa pela esquerda. Agem como se fossem carros sujeitos ao Código de Trânsito Brasileiro. Se bem que isso é bem menos grave que a mocinha do metrô do Recife, que fica o dia todo falando no microfone coisas do tipo: “Não joguem papel no chão”, “Não fiquem parados na porta”, “Não vendam produtos dentro do metrô”, “Não! Não! Não!”. Não sei qual metrô é o mais controlador.

 

Controle, Segurança e Liberdade

Essa história do controle excessivo no MASP e no metrô me fez pensar um pouco mais sobre o controle da sociedade sobre os indivíduos. Esse é um tema importante para mim porque ele sempre aparece quando eu escrevo ou falo qualquer coisa defendendo a tecnologia V2V (vehicle-to-vehicle communication, comunicação entre veículos).

Quando penso nessa tecnologia, a primeira coisa que me vem à cabeça é a diminuição radical de acidentes que teremos, uma vez que esses sistemas eletrônicos reduzem automaticamente a velocidade dos veículos nas faixas de pedestre, nos cruzamentos, quando passam perto de bicicletas e também nas vias mal cuidadas. Além disso, alertam o condutor quando esse está distraído ou adormecido. Portanto, é óbvio que esse sistema, se bem feito, vai aumentar enormemente a segurança no trânsito.

Antes de implementar o V2V, precisamos identificar quais as principais causas de acidentes com motos, bicicletas e pedestres. Segundo estudos científicos, esses acidentes são cometidos em sua maior parte pelos carros quando fazem conversões erradas, passam direto em cruzamentos ou quando não respeitam pedestres cruzando a rua. Por isso, o primeiro passo é usar o V2V para regulamentar os cruzamentos e travessias de pedestres. Em outras palavras, quando um veículo perceber que está chegando perto de outro veículo (ou pedestre) em um cruzamento, sua velocidade diminui automaticamente para dar passagem a quem tem preferência (ou maior fragilidade).

Agora, eu tenho certas impressões (só impressões, pois não tenho dados), de que os V2V poderiam servir também para outros casos, como por exemplo limitar a velocidade das motos nos corredores, tanto para evitar colisões com carros quanto para evitar atropelamentos. Embora eu não tenha dados sobre acidentes em corredores, sempre fico meio preocupado com atropelamentos. Outro caso são as largadas nos sinais. As motos em geral ficam na frente para saírem antes dos carros, que são perigosos. Na abertura do sinal, o motoqueiro precisa olhar para os lados para ver se não vem um pedestre ou então um carro cruzando no sinal vermelho. O problema é que o carro de trás muitas vezes não tem essa compreensão, e joga o carro para cima da moto, ou então buzina histericamente. Seria interessante que o V2V impedisse a saída do carro até que a moto saísse. Ah… desabilitar a buzina também ajudaria.

Outro detalhe importante sobre o V2V é que essa tecnologia, embora diminua os acidentes, também permite maiores velocidades dos veículos. O conceito por trás disso é que uma certa ordem sempre ajuda. A ordem só atrapalha quando é excessiva. Por exemplo, pensem na ordem de que os carros em um sentido devem andar de um lado da rua e os no outro sentido do outro lado da rua. É claro que é uma ordem que limita o movimento dos veículos, mas certamente aumenta a segurança e também a velocidade média de todos.

Mas tem o lado negro dessa tecnologia, pois a segunda coisa que me vem à cabeça quando penso nela é que com esse sistema eu serei controlado 24 horas por dia. O governo irá me rastrear o tempo todo. As empresas usarão essas informações para me vender quinquilharias. Meus adversários políticos vão fazer dossiês sobre a minha vida. Minha segurança estará à mercê de um computador sujeito a falhas. Os bandidos poderão me rastrear. Eu não terei mais a liberdade de fazer meu próprio caminho. Será o inferno!

Um inferno mesmo, pois se tem uma coisa que me irrita profundamente é o controle excessivo. Odeio mortalmente qualquer pessoa que enfie uma dessas expressões no meio de uma discussão: “Xs são M”, “Ys têm que N”, “Zs não podem P”. Por exemplo, “Motoqueiros SÃO irresponsáveis”, “Carangueiros TÊM QUE desistir dos seus carros e andar de ônibus”, “Bicicleteiros NÃO PODEM andar na estrada”, “Motoqueiros TÊM QUE usar uniforme”, “Bicicleteiros TÊM QUE usar capacete”, “Motoqueiros NÃO PODEM andar no corredor”.

Ou então me irrito com esses políticos que volta e meia acordam de manhã sem ter o que fazer e inventam umas leis para encher o saco dos motoqueiros, sem qualquer base científica: “Motoqueiros NÃO PODEM carregar garupa”, “Motoqueiros TÊM QUE usar sinalizadores”, “Motoqueiros TÊM QUE usar equipamentos de segurança”. Se bem que segurança só na cabeça desses políticos, pois na verdade são equipamentos de engessância e esquentância, que causam mais acidentes ainda.

Não que eu esteja livre desses julgamentos generalizadores, pois às vezes solto uns “Harleys SÃO máquinas muito mal projetas”, “Aqueles que se chamam ‘motociclistas’ SÃO preconceituosos”, “Autoridades TÊM QUE responder pela eficácia de suas campanhas de prevenção de acidentes”, “Colisões envolvendo carros NÃO PODEM ser consideradas acidentes, pois sempre SÃO tentativas de homicídio”. É, como diria Cazuza, eu também cheiro mal.

O tema do controle da sociedade sobre o indivíduo está bem vivo agora com o aparecimento das novas tecnologias, como a câmera digital e a internet. Com a facilidade de produzir e divulgar filmes, qualquer um se sente no direito de julgar se o carro deveria ter estacionado ali, se o professor deveria ter defendido aquela posição política na sala de aula, se a bicicleta deveria ter passado tão perto do pedestre, e se a moto estava certa ao passar naquela distância do carro. Não gostou? Filma e posta na internet. A mesma pessoa se sente juiz, júri e carrasco. Agora, será que essa pessoa está praticando a cidadania ou o dedo-durismo moralista?

Por outro lado, como fica essa questão quando uma pessoa filma um ato de violência policial ou de abuso de poder econômico por parte de uma empresa? Bem, nesses casos parece que a divulgação dos vídeos é completamente justificável, pois certamente não é um ato de moralismo, mas sim de proteção. Além disso, nesses casos a ação não é contra um indivíduo em particular, mas contra uma instituição. Sem contar que esses últimos casos são crimes, como agressões, estelionatos ou apropriações indébitas. Estacionar na calçada não é um crime. O fato é que dá medo viver em um lugar sem lei e dá mais medo ainda viver entre carolas moralistas policialescas.

 


 

Eu não quero viver em um mundo policialesco, onde qualquer um pode julgar meus atos e me executar em praça pública, bastando para isso ter o poder da polícia ou o de uma rede de comunicações, seja um jornal, a fofoca do bairro ou as manhas da internet. Por outro lado, também não quero viver em um mundo inseguro, onde qualquer um pode me atropelar com seu carro de uma tonelada. A questão aqui é: qual é a medida certa entre a segurança e a liberdade?

Benjamim Franklin tem uma frase legal sobre esse assunto, algo como “Aqueles que desistem da liberdade essencial para obter uma pequena segurança temporária, não merecem nem a liberdade nem a segurança”. Esse pensamento deixa muito claro que não podemos usar a falácia da “segurança nunca é demais” para subverter as nossas liberdades essenciais. Em outras palavras, não devemos aceitar sistemas eletrônicos que nos transformem em robôs imbecis e vigiados. Por outro lado, também não podemos aceitar que 40.000 pessoas morram por ano no nosso trânsito.

É uma discussão muito importante, da qual não adianta fugir, pois, se “deixarmos rolar” estaremos ou sujeitos aos acidentes ou ao controle excessivo do estado. Escolha o seu inferno. Também não adianta escolher um lado, pois neste caso não há um lado certo. A solução está no meio. É um assunto importante e complexo, cuja solução tem que nascer de uma ampla discussão da sociedade. Uma discussão baseada em estudos científicos. Por exemplo, o uso de dispositivos eletrônicos que reduzem automaticamente a velocidade de um carro ao passar perto de uma bicicleta salvará quantas vidas? Isso sem contar uma questão mais simples ainda, técnica, que é saber se esses sistemas eletrônicos serão realmente mais seguros que o cérebro humano no controle dos veículos. Queremos um sistema V2V que reduza a velocidade do nosso veículo contra a nossa vontade?

Às vezes aceitamos uma decisão vindo de cima sem quase tomarmos ciência, como no caso dos celulares modernos. Por um lado eles nos permitem comunicação instantânea e acesso à informação, mas por outro lado somos rastreados o tempo todo. As empresas sabem onde estamos, o que conversamos e o que acessamos na internet. Essa liberdade à comunicação vale a perda da privacidade?

A decisão sobre o nível de controle e a perda de liberdade aceitáveis será certamente trabalhosa se quisermos uma boa solução. Não há outra maneira. Queremos um sistema eletrônico que controle totalmente os veículos, mas que tire totalmente a nossa liberdade? Queremos deixar tudo como está, com liberdade mas acidentes? Ou queremos algo no meio?

E antes que os bicicloativistas gritem “É isso mesmo que queremos, os veículos motorizados que esperem a nossa passagem!”, peço que imaginem que um sistema como esse pode ser usado para diminuir automaticamente a velocidade da bicicleta toda vez que passar perto de um pedestre que esteja na calçada, ou pode ser usado para soar um alarme toda vez que um pedestre saudável passar perto de um idoso, ou ainda para travar uma cadeira de rodas toda vez que passar perto de um cachorro. Lembrem que um sistema como esse pode cair nas mãos de um legislador ou um burocrata neurótico, e daí o limite da loucura controladora será o próprio inferno.

Só espero que nossos governantes tenham a sabedoria para incluir todas as esferas nessa discussão, que nos deem tempo para refletir sobre o assunto e que invistam em muitos estudos acadêmicos que nos orientem nas nossas decisões. Espero que essas decisões não sejam tomadas apenas pelos “experts” das fábricas e apenas pela vontade pessoal dos legisladores, que nem sempre compreendem e respeitam a vontade da sociedade.

Fiquei em cima do muro? Talvez quanto ao conteúdo, pois ainda não sei qual é o ponto de equilíbrio. Ninguém sabe, na verdade, pois a tecnologia ainda não está madura. Além disso, o sistema híbrido V2V+veículos+vias+humanos+regras é um sistema complexo e adaptativo, de quase impossível previsão. Mas sobre a forma não tenho dúvidas: é preciso a participação de todos nessa discussão.

Um Pouco de História

Sim, mas por que eu estava no MASP vendo a arte dos motoboys? É uma curta história. No início de 2011 eu publiquei um texto sobre os motoboys onde eu comentava que as três principais razões que alguém pode ter para andar de moto são: vivenciar experiências interiores, participar de uma comunidade ou suprir a necessidade de transporte. Ainda, que existem quatro tipos principais de uso para as motos, que são o esporte, lazer, transporte e trabalho. Em algum lugar do texto, eu escrevi que pensava que os motoboys harmonizavam a experiência da individualidade, a construção de uma imagem e a satisfação de uma necessidade. Disse também que eles usavam as motos para o lazer, esporte, transporte e trabalho. E que por isso talvez fossem os motoqueiros mais completos por aí. Continuo acreditando nisso.

Naquele texto coloquei algum material sobre motoboys que eu estava estudando na época: notícias, músicas, teses, documentários e filmes. Por alguma razão, o Neka descobriu esse texto e falou sobre o projeto deles no Coletivo canal*MOTOBOY, que tem página na internet (Megafone.net), livro (Coletivo canal*MOTOBOY), e vários eventos culturais, como a Exposição canal*MOTOBOY e a Semana de Cultura Motoboy, que já teve três edições (1a Semana em 2008, 2a Semana em 2010 e a 3a Semana em 2012).

 


 

Na medida do possível, mesmo que de longe, tento acompanhar o trabalho dos motoboys. Como uma espécie de contribuição, publiquei um artigo sobre o livro deles no International Journal of Motorcycle Studies, que espero ter sido útil para divulgar a cultura dos motoboys ao mundo, mostrando a luta contra o preconceito, a exploração no trabalho e os acidentes dos quais são vítimas. Quem tiver interesse nesse artigo pode acessar a versão em inglês ou em português.

Depois fui até convidado para falar na Terceira Semana de Cultura Motoboy, uma das maiores honras acadêmicas que já tive na minha vida. Além da fala, aproveitei aquela viagem para conhecer um pouco mais os motoboys em São Paulo. Uma grande frustração minha é que nunca consegui fazer o Fórum UFPE de Estudos da Motocicleta, que traria toda essa discussão aqui para o Recife. Se bem que a realização do website da Rede de Estudos em Duas Rodas já é um primeiro passo, como conto em uma entrevista ao programa #papo EXTENSÃO.

 

FotoBienalMASP

A exposição dos motoboys faz parte da FotoBienalMASP, que vai de 15 de agosto a 03 de novembro de 2013. Nessa exposição, o curador juntou trabalhos fotográficos de 35 fotógrafos. No estande dos motoboys, um vídeo mostra ininterruptamente imagens captadas no website do pessoal. É muito legal ver o dia a dia dos motoboys, registrado de forma totalmente anárquica, tanto nos temas quanto na estrutura. E, quando você para para pensar que tudo começou em 2006, pode até chegar à conclusão que eles são os precursores do Instagram e da Mídia Ninja. Claro que isso é uma brincadeira, pois há muitos trabalhos anteriores desse tipo, mas não deixa de ser legal perceber que os motoboys contribuíram para a hipermodernidade.

 


 

Entrei na página deles e pesquei dois relatos. Um de 2006, bem no comecinho do projeto, que mostra uma clara preocupação com a opressão que se sente em uma grande cidade, opressão essa que vai muito além dos problemas do trânsito. O outro relato, que deixo aqui como provocação, mostra que os motoboys também são bicicleteiros, e que não há uma divisão clara entre os que andam em veículos de duas rodas com motor de combustão mecânica, motor elétrico ou motor humano.

 

 

São Paulo

“Quem é seu dono? Ninguém, São Paulo”

Mas nem só de museu foi a minha estada em São Paulo. Aproveitei para experimentar um pouco o trânsito por lá. Muito mais fluido e muito mais organizado do que Recife. Isso mesmo, é possível fazer algo mais rápido e mais seguro. Se bem que só passei pelos locais mais centrais, como a Consolação, Nove de Julho, Paulista, Augusta e Marginal do Tietê. Talvez na periferia a coisa seja diferente. Fui também a alguns pontos turísticos clássicos, como a 25 de Março, que é bem parecida com a nossa Rua das Calçadas; Galeria do Rock; Liberdade; Praça da Sé; Mercado Municipal; e o Teatro Raul Cortez.

 


 

Em certos aspectos São Paulo é bem parecido com o Recife, como na diversidade das pessoas e nas grandes aglomerações. Agora, há coisas muito diferentes: trânsito mais rápido, calçadas sem buracos, jornais ao menos semi-livres, diversidade política, cultura contemporânea e menor divisão entre as classes sociais. Toda vez que vejo um paulistano dizendo que a sua cidade é a pior do mundo, penso que ele deveria caminhar aqui na Av. Caxangá à noite, uma das principais avenidas da cidade: esgoto aberto, buracos na calçada, urina, gases de escapamento, pontas de vergalhões prontas para furar os pés dos cidadãos, postes apagados, lixo jogado por todo lado, ausência de passarelas, obrigação de andar no meio dos carros porque partes das calçadas estão em obras, bancas com jornais que só sabem elogiar o “progresso promovido pelo governo” ou então incensar os velhos “novos lançamentos” em duas rodas, e por aí vai.

 

Cultura Motoqueirística

O motoqueirismo já teve muitos movimentos culturais ao longo do tempo. Os mais famosos são os Pioneiros do início do século XX, que adoravam velocidade e fuçar em suas motos; os Bikers americanos; os Mods & Rockers na Inglaterra; os Bosozokus no Japão; os Mat Rempit na Malásia; os Riders que só querem saber de rodar pelo mundo; os Esportistas com suas motos de corrida ou de trilha; os Aventureiros; e os Posers, que são formados por burgueses endinheirados que tentam imitar qualquer outro grupo, mas sem os riscos associados, sejam físicos, sociais ou econômicos. Cada um desses grupos tem todo um discurso cultural, que os define e os protege.

Há outros grupos, no entanto, que são bem mais numerosos, mas que não têm a mesma proteção cultural, e que por isso são vítimas de preconceito, violência, marginalização, criminalização e exploração. Entre eles estão os Commuters, que usam as motos para ir e voltar ao trabalho, e que são as maiores vítimas dos acidentes e da violência moral policial. Também há os que eu chamo de Temes (temerários), que são grupos de jovens motoqueiros que habitam as pracinhas das pequenas cidades e das periferias, e que, por falta de alternativas, usam as suas motos em corridas e malabarismos. Os participantes desses dois movimentos (commuters e temes), nem se reconhecem como tal. E claro que há os Motoboys, que são os motoqueiros que usam as motos no trabalho. Esses sim se reconhecem e são reconhecidos como um grupo, mas de forma bastante distorcida e estereotipada.

O trabalho do pessoal do Coletivo canal*MOTOBOY é criar um discurso cultural para os motoboys. Um discurso que represente esses motoqueiros como seres humanos completos, complexos, únicos e éticos. Essa resistência cultural é muito importante, principalmente neste momento em que os motoqueiros sofrem um grande ataque cultural. Um ataque feito pela mídia e pelas autoridades. Um ataque no qual os motoqueiros são quase sempre representados como imprudentes, drogados, incapazes e criminosos. Chegou a hora de virar a mesa, e esse trabalho do canal*MOTOBOY é parte dessa virada.

Para quem mora em São Paulo, recomendo a exposição do MASP. Para quem quer conhecer o dia a dia dos motoboys, a página deles na internet (Megafone.net). Agora, para quem quiser conhecer toda essa história com um pouco mais de calma, em uma análise mais profunda, então só lendo o livro. Recomendo mesmo.

 

Guerra Motocultural

Continuando nessa linha de guerra cultural, mas agora dando os meus pitacos e estendendo para todos os motoqueiros, ao meu ver são quatro os resultados imediatos que precisamos atingir: (1) os motoqueiros passarem a ser vistos como cidadãos, (2) acabar com essa separação besta entre “motoqueiros e “motociclistas”, (3) as autoridades começarem a respeitar os motoqueiros, e (4) terminar com esses conflitos destrutivos entre os vários usuários de veículos de transporte individual (motos, bicicletas, cadeiras de roda, sapatos, patins, skates, segways, etc). Posso até pensar em alguns slogans.

Motoqueiros são cidadãos, não criminosos.

O primeiro passo é fazer com que todos vejam os motoqueiros como cidadãos, como vítimas dos acidentes, como trabalhadores, e não como maloqueiros. Os motoqueiros precisam de normas regulamentadoras que os protejam, da mesma forma como todos os outros trabalhadores que operam máquinas têm normas. Se uma fatiadora de mortadela começa causar muitos acidentes, as autoridades não colocam simplesmente a culpa no operador. Não, eles regulamentam o treinamento, as condições do local de trabalho, o projeto das máquinas e por aí vai. Por que não é assim no caso dos motoqueiros? Ah… é mais fácil colocar a culpa no operador da máquina do que criticar uma administração pública que não projeta/cuida direito das vias, ou então criticar as fábricas por projetarem motos tão ineficientes, beberronas, caras, cansativas, pesadas e inseguras. Essa nova norma regulamentadora para o uso de motocicletas irá prever sensores eletrônicos nas motos (V2V), equipamentos de segurança que não causem desconforto térmico ou que reduzam a agilidade, educação mínima para os motoqueiros, educação mínima para os carangueiros, motocicletas com boa ergonomia, e projeto seguro das vias – no mínimo.

Andou de moto é motoqueiro. Ponto.

Segundo, acabar com essa besteira de separar quem anda de moto em “motoqueiros” e “motociclistas”. Para mim, todos que andam de moto são motoqueiros. Simples assim. Essa divisão, na prática, tem três serventias:

(A) Separar os motoqueiros em duas classes sociais. Essa divisão permite que quem tem moto grande, roupas chiques ou educação formal, possa estufar o peito, soltar a voz e julgar moralmente os seus inferiores. “Eu sou motociclista, você é motoqueiro”. “Eu sou ordeiro, você é irresponsável”. “Eu sou bonzinho, você é mauzinho”. “Eu posso andar nos elevadores com minhas roupas chiques, você com essa capa fedida deve andar no elevador de serviço”. “Eu posso estacionar em qualquer lugar com minha moto cara e bonita, você tem que estacionar o seu lixo debaixo da escada”. “Eu sou ajudado pelos irmãos motociclistas no caso de uma quebra, você é desprezado na beira da estrada”. “Eu sou rico, você é pobre”.

(B) Vender mais motos. Imagine um carinha que está em dúvida se compra um carro ou uma moto, pois está muito preocupado com os acidentes que vê na TV. Por isso vai fazer uma pesquisa em uma concessionária de motocicletas. O discurso do vendedor, doutrinado pelo think tank da fábrica, é mais ou menos assim: “Não precisa se preocupar com os acidentes. Esses que batem na rua são motoqueiros irresponsáveis. Como dá para ver pela sua roupa limpinha, você é um motociclista, não é um motoqueiro. Motociclistas não se acidentam. Pode comprar a nossa moto com toda a tranquilidade. Só os motoqueiros morrem”.

(C) Esconder a ineficácia das ações para prevenção de acidentes de moto. O discurso das autoridades é que eles já fazem tudo o que podem: blitz contra motoqueiros alcoolizados, blitz contra motoqueiros sem habilitação, apreensão de motos, proposição de leis que obriguem o uso de mais “equipamentos de segurança”, multas, proposição de novos cursos obrigatórios e por aí vai. Daí você pergunta porque os acidentes continuam existindo, e eles respondem: “São esses motoqueiros irresponsáveis. Não podemos fazer nada contra isso”. Sim, mas e os carros que colidem com as motos? E os buracos nas vias? E os “equipamentos de segurança” que diminuem a audição, mobilidade e concentração dos motoqueiros? E as motos que não têm comunicação entre veículos? E os veículos com motor de combustão interna, que gastam 100 vezes (isso mesmo, 100!!!) mais gasolina do que seria necessário, e que por isso provocam a emissão de 100 vezes mais poluentes, causando desconcentração, acidentes e mortes? Bem mais fácil colocar a culpa nos motoqueiros, não é?

Antigamente não havia essa bobagem de separar “motoqueiros” e “motociclistas”, “mauzinhos” e “bonzinhos”, “pobres” e “ricos”. Naquela época, todos que andavam de moto eram MOTOQUEIROS. Ponto. Como prova, por exemplo, olhe esse livro abaixo, o “Manual do Motoqueiro – Normas Para Exame”, de 1977, que foi garimpado em um sebo pelo Prof. Maurílio dos Santos. Duas curiosidades da capa do livro são o motor rotativo Wankel e a fumaça psicodélica. Tempo muito doido aquele.

 


 

Claro que hoje em dia existe essa lenda que vendem por aí (com campanhas pagas pelo governo e pelas fábricas), de que “motociclista” é bonzinho e “motoqueiro” é mauzinho; e todo um discurso para dizer que essa divisão artificial não tem nada a ver com classes sociais. Balela! Na prática essa divisão serve sim para separar pobres e ricos, para vender mais motos, e para dizer que não é possível fazer mais nada sobre os acidentes.

Os responsáveis pela vida dos motoqueiros têm que compreendê-los e respeitá-los.

(Sacou o “têm que”?) Eu não tenho muito contato com as autoridades que cuidam da vida dos motoqueiros, por isso minhas impressões são baseadas no que leio nos jornais e nas audiências públicas em que permitem a minha presença (mas não a minha fala). Por isso, para não generalizar, vou contar apenas alguns episódios, para ilustrar como algumas autoridades agem:

(A) Em uma reunião pública, uma autoridade soltou a seguinte pérola: “Vamos aumentar o IPVA das motos, porque daí os pobres não poderão mais andar de moto”. Em outras palavras, essa autoridade acredita que os acidentes são causados por pobres sem educação.

(B) Em uma entrevista para o jornal, uma autoridade falou: “30% dos acidentados estavam embriagados, os outros 70% estão aqui por imprudência”. O problema é que esse carinha trabalha no hospital. Então, embora ele possa fazer exames laboratoriais para ver se alguém estava embriagado, certamente está sendo leviano ao afirmar que os outros motoqueiros eram imprudentes. Como ele poderia saber isso se não estava na rua na hora do acidente? Isso demonstra claramente o seu pré-conceito. Quer dizer, para ele os motoqueiros são sempre imprudentes ou bêbados, e ponto final. Tudo bem se fosse só uma opinião, mas esse cara é um dos responsáveis pelas campanhas de prevenção de acidentes em um certo estado. Claro que com esse preconceito ele só vai propor ações para acabar com a imprudência e a bebida alcoólica. E as outras causas de acidentes, como a imprudência/imperícia dos carangueiros, vias mal projetadas/cuidadas, e motos mal projetadas? Para ele essas causas não existem, e portanto nada será feito.

(C) Uma outra autoridade, em sua página do Facebook, outro dia escreveu algo do tipo: “Minha mãe foi quase atropelada por uma bicicleta que andava na calçada. Por isso que eu digo que todas as bicicletas deveriam ter placa, para podermos identificar esses bandidos. Se minha mãe tivesse morrido, eu iria propor a LEI MARIA DA SILVA para obrigar o emplacamento das bicicletas, em sua homenagem”. Bem… o que dizer sobre essa autoridade? Pelas palavras, parece que ela tem sangue nos olhos ao falar dos bicicleteiros, os quais deveria estar protegendo.

De novo, não quero generalizar, pois não tenho muito contato com as autoridades. Mas, seria muito bom que todas as autoridades responsáveis por nossas vidas tivessem um claro respeito e compreensão pelos motoqueiros e bicicleteiros. Na realidade, o ideal mesmo seria que essas autoridades fossem usuárias desses veículos de transporte individual.

Os veículos de transporte individual têm muito mais semelhanças do que diferenças.

Quarto. As motos, bicicletas, cadeiras de roda, patins, skates, sapatos, segways e similares, têm muito mais semelhanças do que diferenças. Todos são veículos de transporte individual bastante desprotegidos no caso de colisão com automóveis. Todos são discriminados como veículos de pobres – com a exceção das motos dos “motociclistas” e das bicicletas dos “ciclistas”. Daqui para a frente, com a convergência tecnológica e com o uso de motores elétricos, as motos, bicicletas e cadeiras de roda vão ficar cada vez mais parecidas, como eram no início. Tecnologias de equilíbrio, como a do segway, irão permitir que pessoas com dificuldade de locomoção aproveitem melhor a mobilidade urbana. Por isso tudo, não faz muito sentido jogar esses veículos uns contra os outros. As motos são sujas e rápidas demais? Sim, mas não é uma questão de odiar os motoqueiros, mas sim de reduzir sua velocidade e aumentar a sua eficiência. Alguns bicicleteiros ameaçam os pedestres ao andar na contramão ou sobre as calçadas? Sim, mas não é uma questão de odiar os bicicleteiros, mas sim de aumentar as ciclovias e melhorar o acesso das bicicletas ao transporte de massa, para que os bicicleteiros não precisem mais andar na contramão ou nas calçadas. Tudo é uma questão de decidir entre realmente resolver um problema ou então procurar inimigos imaginários em todas as esquinas.

 

Armas de Guerra

Sim. Legal que você já tem os seus slogans e seus alvos, mas, quais as armas dessa guerra?

Primeiro, uma produção cultural que represente os motoqueiros/bicicleteiros/cadeirantes/etc. em toda sua complexidade, fragilidade e inteligência: filmes, seminários, festas, músicas, livros, cursos, feiras, websites, entrevistas, artigos, teses, documentários, reportagens honestas e inteligentes, grafites, partidos políticos, intelectuais, reuniões, congressos, competições esportivas, competições culturais, exposições, espaços culturais, pesquisa acadêmica, oficinas coletivas, passeios…

Segundo, exigir que as ações sejam baseadas no conhecimento científico e no respeito ao outro. A verdade é que vejo muito mais gente “amando odiar” ao outro do que realmente tentando resolver os problemas. Não gosto muito de falar bem dos engenheiros, mas eles têm alguns traços interessantes. Por exemplo, eles separam muito bem o problema da solução. Primeiro compreendem o problema, depois propõem soluções. Parece óbvio, mas quase ninguém pensa assim. Estou cansado de ouvir as pessoas dizerem “Claro que a culpa dos acidentes é dos motoqueiros, por isso a solução é proibir as motos”. Países autoritários, como a China, fazem isso em muitas cidades. Mas não é a solução, pois o problema não foi compreendido corretamente. Nessas cidades autoritárias, as pessoas que antes morriam nas motos agora morrem em bicicletas ou atropeladas. O problema não estava nas motos, mas sim nos carros! Propor uma solução antes de conhecer o problema é um grande erro que pode levar a consequências desastrosas.

A exposição do pessoal do Coletivo canal*MOTOBOY usa muito bem essas duas armas, pois expande o nosso conhecimento sobre o problema dos motoqueiros usando para isso a produção cultural. Perfeito. Que venha muito mais no futuro, de todos os cantos do mundo, de pessoas de todas as origens, e de todos os pensamentos. Temos grandes problemas com os acidentes, com o preconceito e com a exploração. Imensos. Acredito que só com o uso da democracia, da liberdade de pensamento, do estudo acadêmico, da arte, e do diálogo, é que teremos boas soluções.

No mais, para terminar essa conversa sobre ordem e cultura, toda vez que penso em como as motos, pela sua própria dinâmica, se recusam a andar exatamente paralelas às linhas retas das avenidas, e toda vez que penso no exagero de certas regras, e toda vez que me lembro de como as leis podem ser usadas para oprimir os mais fracos, e toda vez que penso em como as motos são o símbolo perfeito do equilíbrio entre as leis apolíneas e o mundo real dionisíaco, e toda vez que penso sobre o poder da palavra para transformar o mundo, então, toda vez que me lembro de tudo isso, me vêm também à lembrança alguns versos da música A Lei, do Hojerizah:

 

“Nas avenidas retas
Desgovernado irei
Qual a palavra certa?
Será aquela que
Atropela a lei”

 

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