Os Vingadores de Pandora – parte 3

Apr 28th, 2010 | By | Category: Ficção, Posts

Este texto faz parte da história “Os Motoqueiros do Sertão – Episódio 4: Os Vingadores de Pandora“. Para ler toda a história, desde o primeiro episódio, vá para a seção Ficção.

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A Fazenda Boi Forte era um imenso empreendimento comercial na Bahia. O seu proprietário, Coronel Gentil, não confiava em bancos, governo ou polícia. Por isso, concentrava na medida do possível todas as suas operações dentro de sua propriedade. Toda a procriação era feita na própria fazenda. O boi entrava como espermatozóide em uma matriz premiada e saía como hamburger em um caminhão frigorífico da própria fazenda. O lucro era dividido em duas partes: pagamentos de despesas e aumento do negócio. Desta forma, o dinheiro não ficava no banco. Dinheiro para salários e despesas mensais ficava em um cofre na sede. O restante era rapidamente transferido para fornecedores de ração, matrizes, energia elétrica e vacinas. Qualquer lucro maior era usado para comprar mais terras ou mais cabeças de gado.  No total havia centenas de funcionários por suas terras: peões, veterinários, contadores, seguranças, vendedores e compradores.

Tudo isso era de conhecimento público. Bomba tinha conseguido as informações na internet. Faltavam apenas detalhes sobre a rotina de segurança da fazenda. Isso seria relativamente fácil, não havia tanta preocupação pois o grosso do empreendimento era materializado em terras e cabeças de gado. Isso só podia ser roubado por juízes ou políticos. Sobrava apenas o dinheiro de “troco” para pagar os salários e pequenas despesas. Mas mesmo assim, perto do dia do pagamento, o valor podia chegar a um quarto de milhão de reais.

Para pagar o salário, o gerente da fazenda simplesmente abria o cofre no dia 25 de cada mês enquanto formava-se uma fila de funcionários na frente da agência. No local havia poucos seguranças, sendo bastante fácil dominá-los. O maior problema é que a agência ficava no meio da fazenda.  Como os Vingadores de Pandora entrariam sem ser percebidos? Pior ainda, como sairiam depois do assalto sem serem perseguidos pelos seguranças espalhados pela fazenda? Ainda, chamariam a polícia ou os exterminariam por ali mesmo caso os capturassem?

Existe uma verdade, quase mais velha que a humanidade, que a melhor mentira é aquela que fica bem perto da verdade. Entrariam na fazenda como bandidos.

Enquanto todos se reuniam em volta da fogueira, Bomba repassava o plano.

“Vamos entrar na fazenda vestidos com nossos uniformes do motoclube. Isso vai chamar a atenção dos seguranças. Vamos dizer que temos horário com o Coronel Gentil e entramos na fazenda rumo à agência. Fazendo isso, todos os seguranças vão ser deslocados para lá. Vão esperar que o nosso grupo queira arrumar confusão, mas nunca um assalto em plena luz do dia. Por isso vão apenas nos acompanhar, sem confronto.”

Glóqui se levanta, toma a palavra e continua:

“Se tivermos sorte, o Coronel Gentil vai estar lá. Sacamos as armas, tomamos o velho como refém e ordenamos que nos entreguem o dinheiro. Se estivermos com azar, usaremos as granadas para ameaçar todos os trabalhadores da fila do caixa. Os seguranças não vão querer ser responsáveis pela morte de centenas de pessoas.”

Nisso o velho Chapadão pede para falar, na última tentativa de desmobilizar o grupo.

“Até aí tudo bem, mas como fugiremos com o dinheiro?”

Glóqui abre um sorriso enquanto Bomba chuta a bola quicada.

“Aí é que entra a parte divertida. Subimos em nossas motos e corremos o mais rápido o possível para as várias saídas da fazenda. Não teremos resistência, já que todos terão se deslocado para a agência no início do golpe. Chegando na estrada, entrem em alguma trilha da caatinga, tirem a roupa do motoclube e ativem o rastreador das motos. Voltem caminhando até a estrada, onde uma van irá pegá-los. Tragam o dinheiro no saco de milho no qual estão levando seus disfarces de peão. Com o tempo voltaremos para pegar as motos.”

Numa última tentativa de triunfo, Chapadão lança o apelo desesperado.

“E se alguém cair da moto? E se alguém levar um tiro?”

Mais uma bola quicada para Bomba disparar o petardo.

“Se alguém cair, pega carona com um companheiro. Se alguém levar um tiro, torça para ser no colete a prova de balas.”

Bomba bate o punho fechado no peito, dá uma gargalhada e dispara.

“Mas não se esqueçam que isso aqui é coisa para motociclista macho!”

Todos gritam enfurecidamente, como que para dissipar a ansiedade pelo golpe. As armas, granadas, munição e coletes são distribuídos. Abrem-se garrafas de whisky. Começa a festa!

(continua)

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