Equilíbrio em Nove Quadros e Uma Caixa

Aug 17th, 2016 | By | Category: Bicicletismo, Destaques, Livros, Motoqueirismo, Papo Geral, Posts, Viagens

Este ano ganhei de aniversário um presente super original e autêntico, que me permitiu uma grande viagem pelo mototoqueirismo, pelo bicicletismo e pelo livrismo. Acho que poderia dizer que até conheci melhor o fabiomagnanismo. Foi uma viagem tanto para lugares que já conhecia, mas que agora pude ver com olhos diferentes, quanto para lugares completamente novos.

O presente foi assim. Minha mulher, a Renata Nunes, escolheu nove fotos aqui do ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ que, por alguma razão, ela julgou serem importantes. Daí, encomendou à artista Thamy Pacheco uma série de nove ilustrações que revisitassem aquelas fotos.

Eu não tenho a mínima ideia do que a Renata tinha na cabeça ao escolher essas fotos, nem do que a Thamy tinha na cabeça ao fazer essas ilustrações. O que eu escrevo daqui em diante é a história de cada foto do meu ponto de vista e também a minha reação pessoal ao ver cada uma das ilustrações. Foi uma oportunidade de revisitar eu mesmo alguns momentos da minha vida.

Adorei este processo. Primeiro pelas emoções novas e antigas. Segundo pelo processo em si. Olha que doido: uma determinada viagem foi parcialmente guardada em uma foto que por alguma razão foi escolhida pela Renata que depois foi reinventada pela Thamy e finalmente reescrita por mim. Quanto se perdeu nessas “traduções”? Quanto se criou durante toda essa “conversa”?

A Thamy é estudante de engenharia mecânica da UFPE, mas a Renata a conheceu como artista, na exposição Autofagia (http://bit.ly/2btjl7H) que ela fez alguns meses atrás. Acho que elas se gostaram muito, pois a Renata comprou um quadro da exposição e depois ganhou outro de aniversário. O fato é que temos três obras da Thamy em casa: o quadro da exposição, o quadro que a Renata ganhou e agora a caixa com nove ilustrações. Vão ser a nossa aposentadoria quando ela ficar famosa. Não falo de aposentadoria financeira, pois não venderemos de jeito nenhum. Digo da aposentadoria emotiva, artística, intelectual, das lembranças dos momentos valiosos de nossas vidas. Quem quiser conhecer melhor o trabalho da Thamy, é só entrar na página dela (http://bit.ly/2b1NQR9).

Os textos a seguir foram publicados na fanpage do Equilíbrio em Duas Rodas (http://bit.ly/2bC9Sya). Durante uma semana, eu apresentei cada um dos nove quadros que ganhei. Como nem todo mundo lê todos os textos, há uma certa repetição entre eles. Por exemplo, em quase todos eu conto de novo sobre a caixa e os desenhos. Podia ter editado agora quando os juntei, mas achei mais legal manter o frescor do momento em que eu ia abrindo a caixa e curtindo cada novo quadro.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #1

Começo hoje a mostrar os nove desenhos que ganhei de presente de aniversário da Renata. Ela escolheu nove fotos e depois contou umas histórias para a artista Thamy Pacheco, que fez então as releituras artísticas baseadas nessas imagens e nessas conversas, e baseadas também em alguns textos que ela pinçou lá do Equilíbrio em Duas Rodas. Eu não tenho nada a ver com todo esse processo das duas a não ser ter ganhado o presente.

Como são desenhos que vieram soltos dentro de uma caixa, eu não faço a mínima ideia da ordem em que foram encontrados ou criados, então escolho aleatoriamente como publicá-los.

Cada um dos desenhos tem uns 30×20 cm, montados sobre algum tipo de cartolina para dar mais rigidez. Todos vêm com a foto original colada na parte de trás. Em cinco das nove lâminas há também um pequeno texto batido à máquina.

(Acabei de aprender que “à máquina” tem crase não por ser a contração de uma preposição ‘a’ com um artigo ‘a’. Trata-se aqui só da preposição. Só que, por clareza, parece que é tradição colocar a crase mesmo assim. É uma tal de locução circunstancial feminina. Coisa chique.)

Ainda não olhei se os textos datilografados têm a ver exatamente com o que escrevi quando publiquei a foto ou se veio de algum outro lugar do Equilíbrio em Duas Rodas. Certamente são textos meus – estão assinados “Fábio Magnani”. hehehe.

O desenho de hoje vem de uma foto tirada no caminho de volta da Cachoeira do Roncador, um passeio que eu e o Denny fizemos em 2008 (http://bit.ly/2aRCYWz). Naquele tempo eu viajava bem mais de moto, pois não havia ainda os textos grandes do website (http://bit.ly/2aWi2l6) nem as postagens rápidas da fanpage do Equilíbrio em Duas Rodas; também não havia as disciplinas ‘Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas’, ‘Propulsão de Bicicletas e Motocicletas’ e ‘Engenharia da Motocicleta’; não havia a integração do estudo da engenharia com filosofia, mobilidade, sociologia, cultura, política etc etc; nem tampouco a abertura dos meus interesses, que antes eram concentrados só no motoqueirismo, mas hoje incluem também o bicicletismo e o livrismo.

Agora é mais gostoso, mais íntegro e mais pleno.

O texto que a Thamy escolheu para ilustrar a figura, no entanto, não tem a ver com essa viagem à Cachoeira do Roncador. Vem de um ano depois, 2009, época em que eu me preparava para ir ao Atacama. Nesse texto (‘Visões do Deserto’, http://bit.ly/2aRDd48) eu falava sobre porque eu tinha escolhido viajar para um deserto e, principalmente, porque eu buscava (busco) a integração entre as viagens externas e as internas.

“Foi a minha geração de 69 que começou a viver a transição entre os adolescentes que vagavam soltos pelo mundo e os de hoje que crescem dentro dos condomínios. Eu vim de uma cidade pequena, mas que não tinha cultura rural a não ser para quem trabalhasse diretamente no campo. Cheguei a brincar de pião e búrica. Vagava a cidade toda de bicicleta. Mas também brincava de video game, assistia vídeo cassete, programava computadores e passava tardes e tardes na piscina do clube da cidade. Bibliotecas, videogames, computadores e vídeo, todos conspiram para a diminuição do que chamam de experiência de vida. Mas por outro lado estimulam a imaginação. Quem é mais pobre, o menino que não nadou em um rio ou um que nunca leu um livro? Os dois são miseráveis na mesma medida. Quem é mais rico, o homem que caminha por todo o mundo ou aquele que leva o mundo todo em sua cabeça literária? Os dois são reis.”

O interessante é que a Thamy, ao bater esse texto à máquina (olha a crase chique de novo) na parte de trás do desenho, mudou a última palavra. Ao invés de escrever “Os dois são reis”, escreveu “Os dois são reais”. Será que foi o cansaço? Será que foi um mero acaso? Um ato falho? Uma ressignificação consciente? Será que ela quis fazer uma releitura do texto da mesma forma que tinha feito com a foto ao redesenhar o momento, e com o próprio momento ao escolher um texto de outra viagem?

Não sei.

Também não quero saber. Adoro esses pequenos detalhes curiosos, essas pequenas trocas de palavras que às vezes não têm explicação – e que não precisam ter.

Mais uma vez, minha amada Renata, eu adorei essa surpresa que você me fez. Primeiro vem a própria surpresa de ganhar algo tão diferente, depois a riqueza ao viajar pelos vários desenhos cada um com um estilo tão diferente do outro, depois vem a exploração dos detalhes de cada um.

Parece uma viagem de moto, que no início excita pelo próprio fato de ser uma novidade; que depois te leva para lugares superficialmente tão diferentes; mas, que, finalmente – a partir dos detalhes do dia a dia na estrada, e a partir das pequenas conversas que você tem com quem conhece no caminho -, muda o seu espírito irremediavelmente.

Adorei mesmo.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #2

O segundo desenho que veio na caixa que ganhei de aniversário ilustrava a minha biblioteca pessoal. Pelo menos a parte dela que fica no meu gabinete da universidade. Comecei essa biblioteca mais fortemente em 1996, época em que defendi o doutorado. Todo mundo sabe que na hora de escrever a tese dá uma vontade danada de ler outros assuntos, de lavar roupa, começar um hobby, qualquer coisa menos escrever a tese.

Há cerca de 1600 livros. Uns 350 de ficção, 330 de moto, 130 de bicicleta, 210 de engenharia e 600 de tudo que se puder imaginar: física, química, matemática, biologia, computação, xadrez, sociologia, urbanismo, sexo, política, economia, geografia, mobilidade, filosofia, arte, crime, psicologia, prostituição, vida acadêmica, escrita, jornalismo, biografias, violência, fotografia, música, viagens, mais um monte de assuntos, até livros sobre livros.

Fazendo umas contas por alto, 1600 livros em 20 anos significa a compra de sete livros por mês. Considerando que cada livro custou US$ 25, incluindo a remessa, contabiliza um investimento pessoal de R$ 120.000,00. Ainda, se eu lesse um livro por semana, o que não consigo, demoraria 31 anos para ler todos.

Para que tantos livros? Por que esse exagero?

Penso que há várias razões. Ego. Me sinto muito bem por ser visto como “aquele professor motoqueiro que tem uma sala cheia de livros”. Fonte. Boa parte dos meus estudos são feitos com esses livros, junto com o acesso à internet e aos periódicos digitais que o governo disponibiliza para a comunidade acadêmica. Ambiente. É bastante inspirador trabalhar cercado de tantos livros. Conforto. De uma forma meio maluca, considero como amigos os autores da minha biblioteca, é como se estivesse conversando com eles enquanto faço alguma pesquisa ou quando descanso com alguma leitura. Identidade. O fato de investir tanto tempo e tanto dinheiro nessa biblioteca, de certa forma fortalece meus valores e a visão que eu tenho da vida, de que estamos aqui para contemplar o universo e para criar coisas belas.

Engraçado que até bem pouco tempo eu não tinha o costume de mostrar a minha biblioteca no Equilíbrio em Duas Rodas, como se ela não tivesse nada a ver com motos ou bicicletas. Engraçado mesmo, pois esses livros são a base teórica das minhas várias disciplinas de duas rodas.

Fui então atrás de alguns registros fotográficos que fiz dessa biblioteca. A primeira foto que encontrei foi tirada por volta de 2006 (http://bit.ly/2b8Dfb). Os livros estavam todos certinhos. Eu estava todo arrumadinho. Talvez naquela época eu ainda achasse que a ordem tinha mais a ver com o ambiente acadêmico do que o caos. Hoje acho que é uma mistura. Por falar nisso, outra foto que encontrei da minha biblioteca foi de 2013 (http://bit.ly/2b81uHT), em que os livros estão todos espalhados em minha mesa, sem a vergonha de escancarar um livro de arte motoqueirística bem na frente dos livros técnicos. Essa foto foi feita para ilustrar um texto exatamente sobre isso, sobre a relação entre a arte e o motoqueirismo (http://bit.ly/2b81p6Y), entre a ordem e o caos, tanto durante a criação artística quanto nas atividades acadêmicas.

Em 2015, a Renata teve a ideia de tirar uma coleção de fotos temáticas com meus livros. A partir dali eu então perdi toda a vergonha, misturando completamente o livrismo com o motoqueirismo e o bicicletismo. De forma mais profunda do que isso, essas fotos livrescas também misturavam minha vida acadêmica com minha vida pessoal com minha vida espiritual.

Lembrando que uso o termo espiritualidade para representar um tipo de filosofia praticada pelos pré-socráticos, que não distinguiam entre a compreensão do mundo e a compreensão do indivíduo, nada a ver com as religiões “modernas” que se distanciam da ciência e da arte, ou que buscam conforto em mitos infantilóides.

Nessa fase, em que eu comecei a tirar várias fotos com meus livros para ilustrar os posts ou apenas por interesse estético mesmo, registrei uma foto da minha biblioteca (http://bit.ly/2aGIHAN) que considero muito representativa da minha relação com os livros.Foi tirada durante o desenvolvimento do primeiro capítulo de ‘Visões em Duas Rodas’ (http://bit.ly/2aUB755). Naquele dia, eu estava bem cansado por ficar tantas horas no meu gabinete fazendo contas e escrevendo o texto. Quando acabei a primeira versão, ao fechar meu gabinete, me senti meio sentimental, meio existencial. Foi naquele momento que percebi que eu passo uma boa parte dos meus estudos amparado por todos aqueles autores que moram na minha biblioteca. Essa foto do canto dela, parte organizada parte bagunçada, uma parte que é invadida por duas linhas de miniaturas de motos, é a foto que melhor representa isso que eu sinto.

Foi essa foto da biblioteca uma das nove que a Renata escolheu para que a Thamy revisitasse na forma de ilustração.

Eu não conheço nada de pintura, nem das técnicas nem dos estilos, então vou fazer uma referência literária. Ao ver essa ilustração pela primeira vez, o desenho final me lembrou de um ambiente kafkiano. Curioso. Embora eu adore Kafka e embora minha mente seja povoada por muitos elementos kafkianos, não é essa a visão que eu tenho da minha biblioteca, que vejo ao contrário como um lugar bastante harmônico, nada dissonante.

Por outro lado, pensando melhor agora, quando deixo a biblioteca para mergulhar dentro de um livro, daí sim o universo muda. Para mim, a leitura tem como principal propósito expandir meus horizontes, por isso é sempre algo de certa forma temeroso, caótico, cansativo e incerto. Sei que parece coisa de maluco, mas a minha zona de conforto fica no desconforto intelectual, ao quebrar meus preconceitos, ao perceber que eu não sabia algo, ao ver as coisas de um ponto de vista que eu não tinha visto ainda. Para mim, ler é como navegar em um barco frágil, que balança sobre as ondas revoltas do universo real. Ler é, como diria Nietzsche, um conforto artístico apolíneo que nos permite vivenciar, nós humanos limitados, o universo real dionisíaco.

Talvez agora eu tenha entendido porque o desenho revisitado ficou tão diferente da foto original.

A foto original da biblioteca era uma visão apolínea do “mundo real e organizado” dos livros, enquanto o desenho revisitado da biblioteca era uma expressão dionisíaca das tormentas pessoais pelas quais vivemos ao rompermos as portas da percepção, quando, ao lermos algo interessante, nossas mentes se libertam de algumas de suas amarras e se lançam ao desconhecido. Mais ou menos como disseram, em outro contexto, meus também amigos William Blake, Aldous Huxley e Jim Morrison.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #3

O terceiro desenho é uma ilustração da Mão do Deserto, obra que conheci no Atacama em 2010, em uma viagem de moto me traz sentimentos mistos, e que, talvez por isso, eu evite trazer de volta à memória. Bem, agora que tenho que comentar essa ilustração não tem mais jeito, vamos reviajar.

A roteiro teve uns 15.000 km, metade no Brasil, metade na Argentina e no Chile. Durou 38 dias. Fiz quase o trajeto todo com dois amigos motoqueiros. Como o Dante ainda era bebê, a Renata só pôde participar de uma parte, rodando na minha garupa por 3.000 km, entre o interior de São Paulo e Valparaíso, no Chile.

Tudo está registrado no Equilíbrio em Duas Rodas, em três partes: Planejamento (http://bit.ly/2aJ8KGb), Diário (http://bit.ly/2aIOEQC) e Crônicas (http://bit.ly/2b9msWL).

Ok, eu disse que tinha sentimentos mistos. Gostei de alguns aspectos da viagem, não gostei de outros. Vamos primeiro às partes que não gostei.

Como metade da viagem foi dentro do Brasil, mas com o objetivo de conhecer o Chile, na maior parte do tempo em que estava em nosso país eu, ou queria chegar logo na fronteira, ou queria chegar logo em casa. Na volta, por exemplo, fizemos 3.600 km em apenas quatro dias, o que é bastante de moto. Foi interessante como um desafio de resistência física e mental, mas não foi curtido.

Outro ponto negativo é que eu gosto sim dos amigos que me fizeram companhia na viagem, mas a questão é que não gosto de atividades em grupo. No caso dessa viagem, viajar com amigos foi algo necessário, pois eu tinha medo de ter uma queda ou de quebrar a moto no meio do deserto, mas a verdade é que acho muito mais legal viajar sozinho, como foi na Grande Viagem (http://bit.ly/2b5D6Ge) e na Viagem ao Sertão (http://bit.ly/2b9oQgc). Se bem que não gosto de viajar sozinho sozinho, gosto de viajar sozinho com a Renata na garupa.

O pior aspecto da Viagem ao Atacama é que foi uma típica viagem turística. Passamos por trajetos pré-determinados, seguros. Bons para tirar fotos, ótimos para colocar no currículo de aventureiros, mas artificiais.

Essa relação que tenho com o turismo sempre me incomodou. Por que não gosto de viajar de moto para locais turísticos? Por que não gosto de fazer turismo acadêmico, que são essas viagens que os professores fazem anualmente para congressos em cidades turísticas? (Sobre o turismo acadêmico, recomendo a sátira ‘Small World’, de David Lodge.) Não dizem por aí que o turismo é o melhor investimento que você pode fazer com o seu dinheiro? Não dizem que viajar é a única maneira de realmente enriquecer a sua existência? Por que então eu não gosto?

Descobri a resposta ao ler o livro ‘Mobilities’, de John Urry, que me ensinou que o turismo nada mais é que um comércio, nada mais que uma ilusão de uma grande aventura. Tudo no turismo é superficial, fake, cômodo e previsível. É uma experiência que tenta simular uma aventura, mas é apenas um simulacro, nada mais.

Mas o que mais me incomoda mais no turismo não é o turismo em si, mas sim a minha própria reação quanto ao turismo, quanto às modinhas, sejam as modas populares sejam as modas cults. Isso porque, pior do que não gostar da artificialidade do turismo, o que eu odeio mesmo é pensar que alguém pode estar pensando que eu me submeti a tal engodo mercantilista. Uma amiga psicanalista diz que tenho uma identidade reativa. Por um lado identifico facilmente quando uma ideologia política ou cultural está me controlando, mas por outro lado faço de tudo para não parecer controlado – faço então o oposto. O problema é que essa reação, no final das contas, não deixa de ser também uma prisão, uma forma de controle. Portanto, pior do que não gostar de ser controlado pelo turismo, me odeio mais ainda por me esforçar para demonstrar que não gosto do turismo – como podemos ver pela energia que estou gastando para escrever este texto.

Do ponto de vista geográfico, durante a viagem não deu para conhecer algumas regiões importantes para mim, como o interior de Goiás e Mato Grosso do Sul, e as estradinhas ao leste da Cordilheira dos Andes, próximo a Salta – ao norte para Humahuaca, ao sul para Cafayete e Los Cordones. Uma pena que não fomos.

Também faltou a Serra do Rio do Rastro, a Estrada da Graciosa e a Rio-Santos, que eu conhecia de carro, mas não de moto. Seriam mais três pontos para colocar no meu currículo de moto aventureiro. Ainda bem que não fomos.

Em resumo. Não gostei de ter que rodar o Brasil de forma tão rápida, não gostei de viajar em grupo, não gostei de fazer turismo, e não gostei de não gostar de fazer turismo.

Vamos agora às partes que gostei.

Primeiro, gostei de viajar um trecho com a Renata na garupa, de namorar com ela em Valparaíso. Gostei também de tê-la o tempo todo em minha mente e em meu coração quando ela já tinha voltado para o Brasil, como quando eu imaginava como ela teria gostado de se hospedar em alguma pousada isolada no Pacífico, ou então quando eu cantarolava alguma música no capacete pensando nela, em geral aquela que diz algo como “por você eu amaria todo dia a mesma mulher”.

Gostei também de viajar acompanhado de alguns autores que tinha lido antes de partir, que me permitiram compreender um pouco melhor o que vivi no Chile em tão poucos dias. Ariel Dorfman (‘Desert Memories’), Hernan Rivera Letelier (‘O Fantasista’), Isabel Allende (‘Mi País Inventado’), Antonio Skarmeta (‘O Carteiro e o Poeta’) e Ernesto Che Guevara (‘The Motorcycle Diaries’). Tinha ainda os motoqueiros aventureiros que passaram por outros desertos, como Adrian Scott (‘The Road Gets Better From Here’), Timothy Severin (‘Tracking Marco Polo’) e Robert Edison Fulton Jr. (‘One Man Caravan’). Acima de tudo, tive como companhia o motoqueiro, filósofo, militar e escritor T. E. Lawrence (‘Seven Pillars of Wisdom’).

Esses amigos dos livros, além de permitirem que eu compreendesse melhor o Chile e o Deserto do Atacama, fizeram com que eu sentisse melhor o que estava vivendo. Isso mesmo. Pois o que você sente não depende apenas do que você está percebendo naquele momento com seus olhos, ouvidos e pele. Depende também da sua atitude, do seu conhecimento, das suas experiências passadas. O que você sente não depende apenas do mundo lá fora, depende também de você, talvez principalmente de você. Esse sentimento não tem nada a ver com o turismo, esse sentimento não pode ser repassado para outras pessoas, não pode ser colocado em uma caixinha, não pode ser vendido em guias e programas de TV.

Por exemplo, um dos momentos mais legais da viagem foi uma hora que eu estava rodando pela estrada sinuosa do Pacífico. De uma hora para outra me faltou o ar. Percebi então que eu estava tão maravilhado com uma duna quilométrica que crescia na minha frente que eu simplesmente esqueci de respirar. Mas não era só uma experiência geográfica, pois não senti algo tão intenso quando vi os Andes, por exemplo, que são uma formação muito mais grandiosa. Ali naquela duna em que me faltou o ar juntaram-se o mar, o deserto, a minha imaginação de ver T.E. Lawrence a qualquer momento escorregando pela areia com seu camelo, a lembrança dos milhares de mortos na extração do salitre e na ditadura do Pinochet que foram tão bem retratados pelo Dorfman, juntaram-se o frio do Pacífico e o calor do Atacama. Foi uma experiência existencial, que depende tanto do mundo “real” (percepção) quanto das suas experiências prévias (mente), que se juntam para formar um momento único (existência).

Além dos meus amigos autores, penso que boa parte do que eu senti durante a viagem foi fruto também de todas as outras viagens que havia feito em 2007-2009 com os PEBAS, sozinho ou com a Renata, me preparando para o Atacama. Regiões semi-deserticas como a Serra da Capivara, Sete Cidades, Catimbau e Lajedo do Pai Mateus.

A Viagem ao Atacama, então, não foi apenas a viagem física, mas também tudo o que eu tinha vivido até ali. E talvez isso, vejo agora, seja o que mais me incomoda ao falar dela. Creio que eu deixei que o turismo, que a possibilidade de colocar essa aventura no meu currículo, de certa forma escondesse o que vivi aqui perto do Recife, como se a distância fosse algo relevante para uma aventura, que de certa forma diminuísse o que eu tinha lido, como se a percepção do mundo físico fosse algo mais importante que a mente para viver um grande momento.

Uma parte da viagem que eu gostei bastante, exatamente por ser inesperada, foi uma região semi-desértica que encontramos ainda na Argentina, 200 km entre Quines e Encón. Talvez porque a Renata ainda estivesse comigo, talvez porque não soubéssemos o que ia acontecer, talvez porque não tivessemos esperado aquele trecho, talvez por tudo isso eu tenha gostado.

Voltando ao desenho da Thamy, que é o assunto deste texto, ele representava a Mão do Deserto, o ponto mais turístico de toda a Viagem ao Atacama. Uma parte da viagem em que a Renata não estava mais ali comigo. A Mão do Deserto era o ponto mais previsível de toda a viagem, era o objetivo formal dela. Afinal, era a própria mão que estava no logotipo feito para a aventura.

Eu gostei da Mão do Deserto?

Vamos ver o que escrevi sobre o momento alguns dias depois de chegar da viagem. A Thamy extraiu dos meus relatos dois trechos datilografados para colar na parte de traz do desenho. Vamos ver o que eu escrevi.

“Eu pensei que fosse menor e que ficasse próxima da cidade, amontoada com outras construções. Mas não, é bem grande e instalada em um lugar completamente isolado do deserto. Você a vê bem de longe. Vai se aproximando aos poucos, torcendo para não acordar o gigante.”

Talvez esse seja um ponto importante do que vivi ali. Percebo que o que eu gostei quando vi a mão é que não era tão turística assim, que ficava em um lugar isolado. Acima de tudo, quando olhei para ela não fiquei preocupado em ser algo pré-determinado, algo turístico. O que me impressionou foi o seu lado artístico, o que me impressionou foi como o autor tinha conseguido criar a impressão de que um gigante enterrado sairia da terra a qualquer momento.

No segundo trecho que escrevi, “tudo agora era muito simples e direto”, parece agora que deixo bem claro que, depois de ter visto a Mão do Deserto, que era um objetivo da viagem que me controlava tanto, que me atraía tanto, eu poderia finalmente curtir a viagem de uma forma mais simples e direta.

Então, o que aprendi com a Mão do Deserto?

Primeiro, parece que agora perdi o medo de pensar nessa viagem, que eu não preciso ser tão reativo assim, não preciso me preocupar tanto em parecer que não me submeto a ideologias culturais, sejam mercantilistas sejam comunistas, sejam populares sejam cults. Aprendi que por trás das máscaras do turismo às vezes há uma obra de arte legal ou um artefato cultural legal. Principalmente, aprendi que não devo valorizar tanto a distância para viver uma aventura e que não preciso ter vergonha do meu lado intelectual. Por bem ou por mal, é assim que sou.

Refletindo um pouco mais sobre o papel das viagens, penso que, por mais que não goste de viajar para congressos e locais turísticos, no final talvez eu seja um eterno viajante. Saí do interior de São Paulo aos 17 anos, vivi 10 anos ao sul em Florianópolis e 20 anos ao norte no Recife. Talvez eu seja um viajante, só que um viajante que precisa de um pouco mais de tempo para realmente sentir o lugar pelo qual passa.

Ao final deste texto volto para o desenho da Thamy e percebo uma diferença crucial.

Para ver que o que vivemos não depende apenas do que está na nossa frente, mas também do que está dentro da gente. Só agora percebi que, enquanto na foto original há uma moto na frente da Mão do Deserto, na ilustração há um homem caminhando.

Talvez essa seja a mensagem deste texto. A Viagem ao Atacama teve um lado turístico e curricular e controlado e superficial, como mostrado na foto com a moto e no adesivo com a moto. Mas também teve um lado espiritual, como representando pelo homem que caminha no deserto. Gostei.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #4

Segue a séria série dos quadros que encontrei quando abri a Caixa de Pandora, digo, a caixa de desenhos que ganhei de aniversário. Depois da moto rodando no caminho da Cachoeira do Roncador, depois da minha biblioteca esquizofrênica e caótica em estilo kafkiano, e depois da Mão do Deserto que me fez refletir sobre o turismo, o quarto achado foi a pintura de uma bicicleta imersa em uma nuvem difusa, verde, cinza e branca.

Essa pintura, uma entre as nove que a Renata encomendou da Thamy, desta vez revisita uma foto que tirei alguns meses atrás na estrada que cruza uma mata em São Lourenço, aqui perto do Recife, uns 12 km de casa.

Esse é um dos lugares que mais gosto de pedalar aos domingos um pouquinho depois que o sol nasce. Ao contrário das motos, que me atraem mais para os desertos, acho que as bicicletas me atraem mais para o verde. Hoje em dia, gosto de pedalar pelo pouco de verde que dá para encontrar, ali por São Lourenço da Mata, pelo Parque Dois Irmãos, pelas margens do Rio Capibaribe, pela florestinha que cerca a Oficina Brennand, pela Rua Amélia, pela Benfica, e por dentro do Campus da UFPE.

Falando em verde e falando de bicicletas, lembrei agora de 2008, quando, durante a motoviagem ‘A Viagem ao Sertão’ (http://bit.ly/2b9oQgc), eu voltei a pedalar uma magrela. Foi lá no Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí (http://bit.ly/2b4S2Dz). Acho que fazia uns vinte anos que eu não pedalava, desde acho que lá pelos idos de 1988, quando ainda morava em Florianópolis e o verde ficava principalmente pelos vários caminhos que levam para a Lagoa da Conceição e pelo mangue pertinho de onde eu morava (não gostava dos pernilongos do mangue). Mas eu gostava mesmo era de pedalar na estrada que passa perto da Praia de Moçambique.

Antes disso, quando eu ainda morava no interior de São Paulo, às vezes pedalava na Estrada da Jangada, de chão batido e com verde em volta.

Muito antes, na infância, o verde pedalante ficava em uma matinha de uns trinta metros quadrados, um canteiro da pracinha de Osvaldo Cruz. Dentro dessa matinha tinha um espaço que as crianças chamavam de caverninha. Ao subir o barranco dessa tal matinha/caverninha, empurrando a bicicleta, o mundo se abria na imensidão, pelo menos para nós crianças, da linha do trem. O pátio da estação e de manobra dos trens era um puta espaço para pedalar a Monareta.

O Brasil é um país quente e com trânsito horrível.

Para uma pedalada valer a pena, é preciso caminhos verdes e tranquilos, trajetos arejados e seguros.

Não temos isso por perto. Para chegar nesse lugar da foto, lá em São Lourenço, eu tenho que pedalar uns oito quilometros margeando uma estrada muito movimentada, cheia de caminhões pesados e carros apressados. Tem dias em que topo o desafio, porque chegando lá dá para pedalar ligeiro, já que o asfalto do acostamento fica largo e bom. Mas o que é gostoso mesmo é a sombra daquelas árvores.

Legal quando eu estou disposto, mas a verdade é que em geral não vale a pena pedalar por aqui. Chegar suado, cansado e estressado no trabalho? Ter que pedalar dez quilometros por uma pista perigosa só para começar um passeio rural? Só um dia ou outro, quando já estou com a cabeça boa e tempo livre.

Embora seja no nordeste, no dia dessa foto, um pouco antes daquele retrato, eu tinha pegado uma neblina bem forte por ali, daquelas que a gente não vê nem dez metros adiante. A pintura acabou expressando bem o momento: uma bicicleta envolta pelo verde da mata fresca, pelo cinza do asfalto liso e pelo branco da neblina acolhedora. Tudo bem que neblina não é algo sempre bem-vindo, principalmente para quem pedala de óculos como eu, mas é bem gostoso quando você sabe que dali a pouco aquele fresquinho vai acabar assim que o sol ressurgir.

Não é só pelo calor e pelo tráfego que eu não pedalo diariamente. Para falar a verdade, continuando com a conversa do último texto (sobre a Mão do Deserto), minha tal individualidade reativa faz com que odeie ser rotulado. Tenho pavor que alguém pense que sou um hipster (“Sou tão diferentão só porque pedalo”), consumista (“Minha bicicleta tem 54 marchas”, ou “Minha bicicleta é retrô”, ou “Minha bicicleta é artesanal”), moralista (“Não pode! Não pode! Tem que! Tem que”) ou militante (“Vou mudar o mundo com a minha bicicleta”). Muitas vezes deixo de fazer o que quero (pedalar) porque não quero ser colocado na caixinha dos elitistas, seja um elitista cultural, econômico ou político. Coisa de doido, né? Mas cada um tem a psique que merece.

Às vezes dá um certo desânimo, uma descrença que um dia ainda será legal pedalar no Recife, com todo esse calor e esse tráfego, e com todos esses bicimoralistas que deturpam o significado original da bicicleta: um veículo simples para pessoas comuns. Bem, não sei. Que pelo menos esses raros momentos de imersão no verde, distante dos fofociclistas, do tráfego e do calor, sirvam como fonte de inspiração para continuar pedalando. Se não der certo, pelo menos terei aproveitado alguns instantes como esses, pedalando sozinho em uma estrada lisa, fresca e verdinha. E o que é a vida a não ser a sucessão de um montão de instantes? Viva o verde. Viva a bicicleta.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #5

O que Van Gogh faria se alguém lhe pedisse que desenhasse um motoqueiro? Certamente representaria um homem sozinho, em um espaço aberto, seria com cores claras, pinceladas largas, excesso de tinta, traços impressionistas e uma visão psicodélica. Talvez algo expressionista, dando mais atenção para as emoções do que para o sensorial. Talvez ficasse como ficou o quinto desenho que estava dentro da tal caixa que ganhei de presente de aniversário.

Essa pintura é a releitura de uma foto que tirei no Chile, no caminho entre o Deserto do Atacama e a Costa do Pacífico, no caminho de uma cidadezinha chamada Piságua (http://bit.ly/2b4Sjn4). Fica ao norte da Mão do Deserto, então ali eu já estava mais relaxado depois de ter passado do ponto turístico mais importante da viagem. O trecho total do dia foi de uns 400 km. Como não havia como abastecer e minha moto estava consumindo muito, tive que usar um pouco da gasolina que levava no bidón. Falo um pouco desse trecho de Piságua no texto O Garoto Perdido (http://bit.ly/2bhoggo), lá nas Crônicas do Atacama (http://bit.ly/2b9msWL).

A ideia da foto com a moto sozinha no meio da estrada eu roubei das fotos que o Neil Peart tirava durante a viagem solitária de moto que registrou no livro Ghost Rider (http://amzn.to/2bjH1M3).

Não entendo nada de pintura, mas falando no Van Gogh me lembrei de uma história legal que li décadas atrás. Dizem que uma das cores que ele mais usava era o amarelo. Só não sabiam porquê. Então começaram a levantar algumas hipóteses. A primeira é que o amarelo era mais propício para ele expressar a sua arte. A segunda é que as drogas que ele usava faziam com que tivesse mais sensibilidade para o amarelo. A terceira, mais prosaica e engraçada, era que ele usava mais o amarelo só porque aquela era a tinta mais barata.

Gosto muito de um livro da minha biblioteca chamado ‘The Outsider’ (http://bit.ly/2b4UAOX), que o Colin Wilson escreveu em 1956 quando tinha apenas 24 anos. Nesse livro ele fala sobre como os grandes artistas e pensadores têm uma sensibilidade muito forte, tão forte que é capaz de destruí-los psicologicamente, socialmente e fisicamente. Fala de caras bem legais, como meus amigos Nietzsche, Hermann Hesse e Camus. Dois me chamaram mais a atenção naquele livro: T.E. Lawrence, o grande motoqueiro-filósofo-militar, que já citei em outro texto, e o nosso Van Gogh. O primeiro seria um gênio intelectual, o segundo um gênio intuitivo. Não há espaço aqui para falar deste livro, mas certamente é um dos livros que mais influenciou a minha forma de olhar para os grandes gênios, seus sofrimentos, seus sacrifícios e suas epifanias. Em geral eles têm final trágico, a morte se tiverem sorte, o desprezo em vida se tiverem azar. Não importa, creio, pois talvez o fato de criarem algo profundo faça tudo valer a pena. Jamais saberemos, nós humanos comuns. Mas tenho quase certeza de que eles não têm escolha alguma. São o que são. São o que são.

Voltando à pintura, acho legal que a parte azul permite duas impressões. Em uma primeira olhada parece que estamos vendo a moto de frente, então o azul é o céu, do jeito que está na foto. Só que depois tudo se move, e daí passamos a ver a estrada do alto, o céu se transformando no mar, naquele próprio mar do Pacífico que encontraríamos um pouco depois ali no final daquela estrada. Talvez então o desenho não esteja apenas nos moldes do impressionismo e do expressionismo, mas também buscando algo do cubismo, com tantos pontos de vista simultâneos – e isso sem contar os padrões geométricos. Não sei. Sou completamente ignorante em teoria artística. Não importa. O que importa é que eu gostei. O efeito ficou fantástico.

 

INTERLÚDIO

Hoje é 11 de agosto, dia do meu aniversário. Logo de manhã a Renata e o Dante vieram me acordar com um bolo de motinha. Adorei. Quando publiquei a foto na fanpage, o amigo Roberto Nogueira lembrou de uma música do Humberto Gessinger, ‘Segura a Onda Agora, Dorian Gray’ (http://bit.ly/2bys0Gk), que tem uma letra bem apropriada para o momento. Em 2013 eu e a Renata fomos a esse show. Legal a lembrança. Começa assim:

“Que susto eu levei quando olhei o espelho
Caralho, como estou ficando velho!
Ainda bem que ela está comigo
Cada vez mais bela, cada vez mais velha
Cada vez mais linda, agora mais ainda
Cada vez mais

Que sarro, aquela cara no espelho
Velho, saca só esse moleque!
Fazendo seu caminho pelo mundo
Cada vez que volta, tá cada vez mais longe
Cada vez mais

Segura a onda agora, Dorian Gray
‘It’s better to burn out, than to fade away’
Segura a onda, sai dessa agora, Dorian Gray”

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #6

Depois do interlúdio do dia do meu aniversário, quando fui mais uma vez lembrado que “caralho, como estou ficando velho” e que sou um moleque que a cada vez que volta do seu caminho pelo mundo está mais longe ainda, mas também que por outro lado “it´s better to burn out than to fade away” (algo como “é melhor morrer em chamas do que desbotar”), volto a desbravar o interior da caixa misteriosa que ganhei. O sexto quadro que descobri foi uma pintura com fundo bicolor, azul e vermelho, sobre o qual tem um desenho meu e da Renata. Essa imagem foi baseada em uma foto (http://bit.ly/2aF1mP0) que tiramos na ponte entre Juazeiro e Petrolina, no Rio São Francisco. Foi em 2008, durante a Viagem ao Sertão (http://bit.ly/2b9oQgc).

Mais precisamente, essa foto foi bem no meio da viagem. Até ali eu tinha rodado sozinho, eu e a minha moto, por Pernambuco, Paraíba, Ceará e Piauí. De todas as minhas viagens, esse primeiro trecho de seis dias e 2.200 km talvez tenha sido o mais legal, porque fiz completamente sozinho e também porque o roteiro era bem livre.

Visitei mais uma vez a cidade de Icó. Conheci o Parque Nacional de Sete Cidades, aquele cujas formações rochosas teriam ajudado um dos meus ídolos da adolescência, Erich von Däniken, a provar que boa parte dos nossos seres mitológicos na verdade foram extraterrestres, o que claro não é verdade, mas não deixemos a realidade estragar uma boa história. Tive que atravessar um rio de moto porque a gasolina estava acabando. Conheci a montanha em forma de galinha que tinha visto quando adolescente em um filme dos Trapalhões. Vi pegadas de dinossauros, tomei banho de cachoeira, confundi os refletores da pista com faíscas que saíam da minha moto, compartilhei a estrada com calangos, carcarás, bodes, vacas e jumentos, conheci um açude que jamais ficou cheio, vi desenhos pré-históricos, fui perseguido de bicicleta por uma cobra, e corri de uma onça imaginária. Isso só para contar um pouco, pois o melhor da viagem mesmo são as pessoas com quem a gente conversa, as curvas e os cumes da estrada, o nascer do sol no retrovisor, a lua no final do dia, detalhes que realmente são o mais importante de uma viagem, mas que não podem ser comunicados.

Voltando ao quadro que achei na caixa, dois detalhes me chamaram mais a atenção. Primeiro o fundo. Gosto de faixas largas com cores sólidas que me lembram dos capacetes e das jaquetas esportivas de antigamente. A minha jaqueta atual, que eu uso desde 2010 na Viagem ao Atacama, tem esse estilo. É basicamente preta, mas com uma faixa azul larga horizontal e uma outra faixa branca mais fina (http://bit.ly/2aN3qzE). A jaqueta que eu usava na hora da foto da ponte que agora virou um quadro era totalmente monocromática, só preta mesmo. Se bem que dava para colocar um colete militaresco por cima, um colete que não tinha qualquer tipo de funcionalidade a não ser tornar a jaqueta algo totalmente estiloso (http://bit.ly/2aKjmDc).

O segundo detalhe que adorei na pintura foi a minha barba, que ficou meio no estilo daqueles vagabundos de filmes americanos, aqueles que andavam de trem em busca de trabalho, amor e aventura. Parece que eram chamados de ‘hobos’, os trabalhadores viajantes, que por sua vez me fizeram lembrar dos escritores da ‘Beat Generation’, que na década de 40 vivam pelas estradas americanas escrevendo prosas e poesias que revolucionavam a narrativa, destruíam as regras literárias clássicas, rejeitavam o materialismo, e que faziam apologia às drogas e à liberdade sexual. Os mais famosos foram Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac. Esse último escreveu o livro ‘On the Road’, uma ficção semibiográfica dessa turma toda, contando como era aquela vida sem regras, largando a universidade, curtindo ‘bebop’ (um estilo de jazz), testando novas drogas, fazendo sexo livre e, principalmente, como o próprio título diz, vivendo na estrada a procura de sexo, drogas e …jazz.

Tem três filmes recentes muito legais sobre esses carinhas da ‘Beat Generation’: ‘Howl’ (2010, http://bit.ly/2boagxv), ‘On the Road’ (2012, http://bit.ly/2bdvrG8) e ‘Kill your Darlings’ (2013, http://bit.ly/1eYAlxV). Esse ‘On the Road’, baseado no livro do Kerouac, foi dirigido pelo Walter Sales, que antes tinha dirigido o filme ‘Diários de Motocicleta’ (2004, http://bit.ly/1vEIXWW), um outro ‘road movie’, recriando a viagem de moto feita pelo Ernesto Che Guevara na juventude.

Sobre os ‘beats’, tem uma música dos Engenheiros do Hawaii que meio que explica alguns lances importantes. Diz assim: “Eu posso ser um beat, um beatnik, ou um bitolado”. Vamos lá. ‘Beats’ eram os artistas de verdade, ‘beatniks’ eram os boyzinhos e boyzinhas que tentavam imitar o estilo dos ‘beats’, e ‘bitolados’ eram os cidadãos quadrados normais. É muito maneiro ser um ‘beat’. Agora, entre ser um ‘bitolado’ autêntico e um ‘beatnik’ farsante, melhor ser um ‘bitolado’, né?

Falando sobre farsantes pseudo-cults, é interessante a evolução do termo ‘hipster’. Hoje em dia usamos esse termo para representar os ‘diferentões’, os jovenzinhos de classe média que consumem qualquer coisa que tenha rótulo de ‘alternativo’, podendo ser música, comida, roupa, e por aí vai. Se tiver o rótulo, eles compram. Já na década de 40, na época dos ‘beats’, os ‘hipsters’ eram os amantes do ‘bebop’. Interessante como os termos mudam de significado com o passar do tempo, né? Antes era maneiro ser ‘hipster’, hoje é o pior xingamento que pode existir.

Eu sou um ‘bitolado’, um funcionário público comum. Minha vida não tem nada do glamour desses artistas revolucionários e viajantes destemidos. Agora, pelo menos nas minhas leituras posso conversar com gente interessante, como esses ‘beats’ daí. Se bem que não é só isso. De vez em quando até faço uma viagem de moto que me tira um pouco da caixinha. E agora ainda? Com esse quadro retrô e essa barba de andarilho, posso até reprogramar a minha memória para torná-la um pouco mais aventureira. Gostei.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #7

Nós humanos estamos acostumados a ver a nós mesmos em situações meio que especiais. Primeiro, em geral nos vemos na frente do espelho. Como nosso rosto não é simétrico, ele fica invertido em relação à forma como os outros nos veem. No espelho, nosso rosto fica ao contrário do jeito que saímos nas fotos. Por isso é que nos achamos estranhos nas fotos – pelo menos foi o que aprendi em um livro de psicologia. De qualquer forma, é assim, ao contrário do que nós nos vemos no espelho, que todo mundo vê a gente.

Segundo, quando nos observamos no espelho, claro que estamos prestando atenção. Em geral estamos fazendo pose, então quase nunca nos vemos de forma desarmada. Mesmo sozinhos, o que vemos no espelho é a máscara social, a fantasia que preparamos para mostrar para os outros.

Terceiro, nós sempre nos avaliamos em função da narrativa que criamos para nós mesmos, razão pela qual sempre achamos injusto quando alguém fala sobre a gente, quando alguém rotula a gente, porque esse alguém vai usar outra referência, outro ponto de vista daquele que temos o costume de usar para nós mesmos.

Em resumo, não é porque estamos acostumados a termos uma certa visão de nós mesmos que ela é uma visão real do que essencialmente somos e não é porque nos vemos de determinado jeito que os outros nos verão assim também.

Em outras palavras, às vezes a gente leva um baita susto quando percebe que não somos vistos do mesmo jeito que nos vemos. Digo tudo isso porque levei esse baita susto quando vi o sétimo desenho que a Thamy fez. Esse sétimo quadro da caixa que ganhei de presente me representava sentado, escrevendo algo, com olhos baixos fixos no papel, sem qualquer expressão facial, como um robô.

Estranho, pois nesse dia eu e Renata estávamos no Boqueirão, um açude na Paraíba. Eu estava bem tranquilo e relaxado com a passeio de moto. Se você confiar em mim, e precisa confiar porque esse espírito tranquilo que estou falando está lá registrado no relato que escrevi sobre esse passeio (http://bit.ly/2aAUJc6), concordará então que a ilustração da minha face não tem nada a ver com o que eu sentia. Mas admito que pode haver uma prova em contrário, pois o desenho foi baseado em uma foto na qual estou exatamente com essa expressão. Pior, a Renata já tirou outras fotos, em Vila Velha e em Tamandaré, em momentos em que eu estava escrevendo – de novo, exatamente com aquela expressão. Melhor, exatamente com aquela não-expressão.

Olhando as fotos alguém também poderia concluir que eu só uso ou camiseta preta ou camisa xadrez, mas isso é outra história. Outro aspecto que gostei do desenho foi que ele ficou assimétrico. Adoro assimetria. Como a imagem tinha que ser quadrada para caber no Instagram, na versão digital aproveitei para exagerar mais ainda o desequilíbrio.

Voltemos a esse lance do desenho com cara fechada, pois, interessante, nas três situações (Boqueirão, Vila Velha e Tamandaré), quando as fotos foram tiradas, eu estava bem humorado, fazendo piadas, rindo. Mas no momento em que começo a escrever, o meu rosto fica sem qualquer tipo de expressão. Será que é assim que pareço sempre que estou concentrado? Pareço bravo?

Na verdade estou só com o rosto meio desligado.

O Jung (e a torcida do Flamengo) costumava dizer que não conseguimos ver uma pessoa de fato (na verdade não conseguimos ver nada de fato, pois sempre filtramos a realidade com os nossos modelos mentais). O que fazemos é projetar as nossas expectativas sobre as outras pessoas. Como se o rosto das pessoas fossem telas de cinema. Pode ser uma tela de cinema passando um filme (a máscara social que a pessoa veste), situação que faz com que a vejamos como uma mistura de como ela quer ser vista e de como nós a queremos ver. Pode ser também como uma tela de cinema desligada, quando a pessoa está sem expressão, caso em que estamos então limitados a observar aquela pessoa apenas, total e completamente, com o que temos na nossa imaginação. Pode ser algo encantador, pode ser algo assustador.

A julgar pela ilustração, no meu caso parece que fico assustador quando estou concentrado. Parece que não tenho emoções, quase como se não fosse humano.

Essa é uma questão estudada no caso dos motoqueiros. Como eles usam capacete, não podem expressar as suas emoções. Isso faz com que os outros condutores os vejam como objetos, como máquinas, como criminosos, como enganadores, como aproveitadores. Por não mostrarem a sua face, os motoqueiros não são vistos como humanos, o que facilita que um carangueiro tenha a coragem de jogar o carro em cima, tenha a coragem de xingar aquela pessoa de quem não sabe nada, o que facilita também com que o carangueiro pense que todos os motoqueiros são iguais. Tanto isso é verdade que uma das técnicas que nós motoqueiros usamos é tentar sempre fazer contato visual com os outros condutores. Isso tem duas razões. A primeira é ter certeza que o cara está vendo a nossa moto no tráfego. Mas a segunda razão, a mais importante, é que quando essa outra pessoa olha para os nossos olhos, não pode mais negar que está lidando com um humano ali debaixo do capacete. A troca de olhares cria empatia.

Interessante. Baseado nos relatos que fazem sobre mim, pelo menos por parte de quem não me conhece direito, de que sou frio, impessoal e distante, estou começando a entender o que se passa. Uma razão, talvez, é que eu tenha o costume de andar com o rosto desligado. Como foi o caso da ilustração, em que certamente eu estava muito tranquilo e animado, mas não passei essa impressão. Talvez eu ande por aí muito voltado para os meus pensamentos, sem vestir uma expressão social, como se estivesse o tempo todo vestindo um capacete que esconde o meu rosto. Legal. Sou um motoqueiro 100% do tempo!

Portanto, concluímos que o rosto impassível de Fábio Magnani quando está concentrado não significa que ele não tenha emoções lá dentro do seu capacete ou então lá dentro da sua face desligada. Por outro lado, aviso, mesmo tendo sim emoções, e mesmo não sendo um sociopata, não significa que ele esteja a fim de bater papo ou de ouvir o que os outros têm a dizer. Hahahaha.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #8

Eu adoro estudar as bicicletas, escrever sobre esses estudos, gosto de ensinar sobre as bicicletas e muito mais de andar com as minhas magrelas. Só que não gosto de falar sobre o meu bicicletismo. Na verdade, não gosto nem de pensar sobre a minha pedalada, nem de trazer para o consciente, analisar, achar uma razão para ela. É como se fosse algo meio que sagrado, que não deve ser poluído. A bicicleta durante muito tempo foi a minha única amiga para rodar por toda a cidade. Isso desde a infância no interior de São Paulo até a juventude na Ilha de Santa Catarina. Eu matava aula para pedalar, rodava de madrugada enquanto os outros jovens estavam na balada, fazia isso tanto para fugir quanto para encontrar, para me excitar quanto para me tranquilizar. De repente, aos vinte poucos anos, larguei a bicicleta de uma hora para outra. Não sei porque, mas hoje creio que era porque não me sentia mais íntegro o suficiente. Lembrando que uso essa palavra integridade não no seu sentido restrito, moral, mas significando que a pessoa é plena, completa, integral, integrada, íntegra. Passam mais uns 20 anos. Em uma viagem de moto para o Piauí eu tive a coragem de pedalar novamente. Mas seriam mais quatro anos para que, em 2012, eu comprasse de novo uma bicicleta. Estava motivado principalmente pelo estudo que fazia delas, tinha que estudar, já que comungam da mesma história, da mesma dinâmica, da mesma fragilidade, e da mesma mobilidade que suas irmãs mais novas as motocicletas. Mesmo assim, nunca me senti à vontade em me mostrar pedalando de novo. Primeiro porque a minha cidade em geral tem trânsito muito estressante, é quente e imunda. Segundo porque não quero ser tomado por um hipster, um militante ou um exibido. Terceiro porque ainda não acho que sou valoroso o suficiente. Por isso minhas pedaladas se resumem a alguns passeios pela cidade quando tem pouco movimento e às carreiras que dou pelas estradas aqui nas bandas de casa – moro perto da saída da cidade, então é fácil escapar. Gosto mais de pedalar de manhãzinha, logo que o sol nasce. Às vezes vou encontrar com ele lá na praia.

Se não gosto de falar da minha relação pessoal com as bicicletas, por que então estou falando sobre tudo isso? Porque o oitavo quadro que encontrei na caixa que ganhei de presente era baseado em uma foto que tirei lá na praia de Boa Viagem, em um desses dias de saudação ao sol (http://bit.ly/2borDin).

Como fundo, a pintura tem três faixas. Uma marrom representando a areia ainda na penumbra da madrugada, uma faixa azul para o mar, e outra laranja para o céu queimando em chamas pelo sol. O azul do mar me lembrou de outro assunto do qual não gosto de falar. É a natação. Por ter tendência a engordar, por ter pé chato, por não gostar do convívio com outros seres humanos, e por ter coordenação motora negativa, nunca tive muitas opções de esporte. Por isso a natação e o ciclismo sempre me acompanharam, tanto por favorecerem a solitude quanto por exigirem mais esforço do que habilidade (já tentei por tempos o Remo e o Ju Jitsu na juventude e o Kendo na velhice). Eu gosto muito de correr também, acho que correr pela cidade, trilhas e estradas é o esporte mais libertário que existe, mas as dores no meu caso são grandes. A corrida é dor e o ciclismo é movimento. Já a natação é como uma meditação para mim. Coloco a cabeça embaixo da água e não penso em mais nada. Evito ao máximo falar sobre a minha natação e o meu bicicletismo e o meu filosofismo, embora eu reconheça que às vezes uso minhas pedaladas e minhas leituras como divulgação dos meus estudos e dos meus textos. Talvez seja uma busca de atenção pública, talvez seja uma forma de retribuir as oportunidades que tive na vida. Sei lá. Durante muito tempo andei/ando de bicicleta e pratiquei/pratico a natação, mas nunca participei de qualquer tipo de competição.

Não é disso que elas tratam.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #9

Nos últimos dias de 1991, nossa turma de graduação fez uma festa de despedida em uma casa de praia lá em Florianópolis. No final da tarde, eu, a Alice e o Daniel, meus amigos, fomos caminhar na praia. Um de nós lançou a questão de um milhão de dólares.

“Finalmente vamos nos formar em engenharia. Foi o que o destino nos reservou. Vocês já pensaram como seria a vida de vocês se pudessem escolher qualquer coisa que quisessem?”

Claro que já tínhamos pensado, né? A Alice seria dona de uma pousada no nordeste. O Daniel queria ter uma casa sempre pronta para receber artistas e intelectuais. Eu queria ser um andarilho.

Não daria muito certo.

A pele do meu pé tem uma característica que provavelmente deve ser invejada por um monte de gente. Ela não fica grossa. Sempre fina e macia. Legal, né? Você não precisa ir ao salão nem lixar no banho. Que tudo. Não. Não é legal e não é que tudo. Como ela não fica grossa, ela não protege. Tenho que andar com sapato especial, com meia especial, e minha quilometragem a pé é limitada. Um dos meus medos da bicicleta quebrar na estrada é não conseguir voltar empurrando. Qualquer atrito um pouco maior já é o suficiente para criar bolhas imensas. Uma costura no sapato é suficiente para fazer um rasgo na carne. Na época que eu tentei fazer Kendo, que é uma luta em que o tempo todo a gente arrasta o pé descalço no chão, a sola do meu pé simplesmente descolava uma vez por mês. É um inferno para quem quer ser andarilho. Isso sem contar o pé chato que machuca, o sobrepeso que cansa, e a sudorese excessiva que faz você cheirar mal não puder tomar banhos constantes. Um andarilho não pode.

Outro amigo da graduação, o Samuel, foi quem sacou quem seria o andarilho perfeito. O Bruce Banner lá dos seriados do Hulk da nossa infância. Sempre no final do episódio, após ajudar alguém em necessidade, para não ser descoberto ele pegava novamente a estrada. Sempre a pé. Sempre com a mesma música ao piano. Eu nunca consegui achar aquilo triste, como acho que deve ter sido a intenção do criador. Na verdade, sempre achei super maneiro. Sempre achei aquela partida a pé do Bruce Banner algo muito tranquilo e harmonioso. Olha o vídeo aqui: http://bit.ly/1suqsx2

Essa pintura que a Thamy fez para a já famosa caixa de aniversário foi baseada em uma foto tirada no Boqueirão (http://bit.ly/2aAUJc6). Ao contrário da outra pintura do Boqueirão que comentei outro dia, em que eu fui pego concentrado na escrita, essa daí foi totalmente posada. Pior que posada, foi chupada da capa de um livro que eu sempre quis comprar. Até encomendei em 2006, mas deu algum problema na remessa e acabei desistindo de tentar comprar de novo. É um livro chamado ‘Vagabonding: An Uncommon Guide to the Art of Long-Term World Travel’ (http://amzn.to/2bhcAFQ). Não faço a mínima ideia se é bom, mas a capa e o título são muito legais.

Agora, se a foto em que caminho de costas foi posada, certamente não era uma encenação. Na verdade, era a tentativa de expressar uma parte importante minha. Desde criança eu sempre adorei perambular. De Monareta, de trem, de ônibus. Só não gosto dos aeroportos porque são muito militarescos, cheios de regras, são muito hospitalarescos, cheios de higienizações.

Minhas motos e minhas bicicletas sempre foram companheiras nessas perdições sem rumo. Acho que uso essas ‘muletas’ porque não consigo caminhar direito. Mesmo assim já andei muito quando morava na Ilha de Santa Catarina. Adorava cruzar sozinho todos os costões que separam as praias. Principalmente no inverno, quando não tinha quase ninguém.

Adoro perambular sozinho.

Mas, o que significa estar sozinho? Será que é a mesma coisa quando você busca voluntariamente o isolamento e quando você se sente triste por estar distante dos outros? Em inglês, eles usam dois termos para isso. ‘Solitude’ é quando você escolhe estar sozinho, como um monge em uma montanha, um estudioso em sua biblioteca, um motoqueiro na estrada ou um bicicleteiro em um caminho deserto. ‘Solidão’ é quando você está triste por não receber visitas para conversar, por não ter companhia para alguma atividade, por não se sentir compreendido, e por aí vai. Poderíamos definir as duas como se segue. Solitude: estado ou situação na qual você está sozinho porque você quer estar assim. Isolamento voluntário. Solidão: estado de tristeza por estar sozinho, por estar distante das outras pessoas. Distanciamento involuntário. Um lance curioso do isolamento ou do distanciamento é que não necessariamente estão ligados a você estar perto de outras pessoas ou não. Você pode estar em solitude lendo um livro em um ônibus lotado, e pode se sentir solitário no meio de uma festa animada. Então, voltando a se é bom ou ruim, respondo: o que eu mais gosto das motos, das bicicletas e dos livros é que são tanto ferramentas para a solitude quanto remédios contra a solidão. (N.A.: este parágrafo já havia sido publicado no texto ‘Duas Rodas de Prosa’, http://bit.ly/2bfSKPh)

Como em outras quatro pinturas, nesta daqui a Thamy datilografou um texto meu na parte de trás, junto com a foto original. Talvez ela não soubesse onde a foto foi tirada, então escolheu um texto sobre o Atacama (‘A Mão do Atacama’, http://bit.ly/2aN5bAw).

“Você volta de uma viagem assim com a visão clara da vida. Você passa a distinguir facilmente o que é importante do que não é. O que é necessário do que é peso morto. O que é presente do que é passado. Você passa a ter foco e clareza. Assim como tudo é raro no deserto, você passa a valorizar cada bom dia que dá a um colega, cada árvore que vê no caminho. Ao ficar no meio de um lugar tão sem vida, você passa a ter consciência de como sua própria vida é única e rara.”

Hoje, seis anos depois de ter escrito isso, continuo concordando. Mas não acho que seja necessário ir ao deserto, nem mesmo fazer uma viagem. A própria vida vai se encarregando de mostrar como é prazeroso estar vivo nas situações mais mundanas possíveis do dia-a-dia. Quando a gente conhece alguém interessante, mesmo que nunca mais vá ver aquela pessoa. Quando a gente vai até a praia de bicicleta para ver o sol nascendo. Quando a gente faz uma curva perfeita de moto, equilibrando a inércia que nos joga para fora com a gravidade que nos puxa para dentro. Quando a gente bate uma foto para expressar algo a que damos muita importância. Quando a gente ganha uma pintura legal.

 

EQUILÍBRIO REVISITADO #10 (ou A PINTURA PERDIDA)

Se eu tivesse que escolher um único texto meu seria ‘Motoqueiros em Fuga’ (2014, http://bit.ly/1tkBblC). Acho que nele consegui juntar um monte de temas importantes para mim, como as motos, os livros, escritores, arte gráfica, música, política e filosofia. Mas o que gosto mesmo nesse texto é que não ficou com jeitão acadêmico, estruturado, sequencial e referenciado. Pelo contrário, nele a mensagem vai sendo criada a partir de uma viagem solta pelas ideias. Tenho muito orgulho desse texto. Tenho tanto orgulho que depois dele meio que perdi o tesão de escrever no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’. Até escrevo sobre meus estudos acadêmicos e sobre alguns aspectos pessoais, mas não da forma filosófica do ‘Motoqueiros em Fuga’. E gosto sempre de lembrar que uso o termo ‘filosofia’ como usavam os pré-socráticos, como a busca de um conhecimento sobre o universo e sobre o próprio indivíduo que faz a busca, misturando lógica e mitologia, arte e psicologia, física e metafísica, política e amizade, guerra e dia a dia – tudo de forma integrada. Não tem nada a ver com o que hoje em dia chamam de filosofia nas universidades. Isso que tentam ensinar hoje em dia não é filosofia, é história da filosofia – e uma história muito mal contada. Deixa pra lá.

Essa caixa que ganhei de presente me permitiu voltar a questões que são importantes para mim, me permitiu revê-las de uma forma não estruturada, sem qualquer compromisso com o encadeamento. Da mesma forma que eu tinha conseguido pensar naquele texto que gosto tanto. Penso que esse foi o maior presente que recebi neste meu aniversário. Através da arte permitiram que a minha cabeça se livrasse um pouco desse treinamento analítico para o qual fui treinado por tantos anos, atraído pela minha própria índole. O papel da arte é esse mesmo, abrir a nossa mente.

Por falar na caixa, acabei nunca mostrando como ela é. Bem, está aí na foto de cima. Uma caixa de madeira revestida com cópias em P&B das fotos que originaram as pinturas. Coloquei como fundo a minha jaqueta de couro mais antiga, uma que tenho há mais de 20 anos, e que usava (sem as peles) nas primeiras viagens quando voltei a rodar de moto em 2007. Depois passei a usar outras de cordura, mais frescas para o nosso clima, mas essa de couro ainda sai do armário de vez em quando. Talvez esteja ali esperando a próxima grande viagem de moto. Quem sabe?

Sinto desapontar a Thamy, mas pelo menos essa ideia a Renata já tinha tido. Lá por 2007, ela me deu uma caixa dessas cheia de motinhas coladas. A diferença é que eram fotos coloridas e tiradas de revistas, como dá para ver na imagem aí de baixo. A foto da direita é a minha preferida da Renata. Tirei lá em Valparaíso, em um boteco em que íamos todo dia tomar ‘Pisco Sour’. Depois a Renata me contou que, quando a Thamy foi pesquisar os textos no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’, encontrou essa foto e também adorou. Coincidências da vida. Ou não.

Acho que as nove fotos que a Renata escolheu para a Thamy revisitar conseguiram expressar quase todos os carinhas que moram dentro de mim. O Fábio Magnani escritor, o motoaventureiro, o solitário, o que pedala no meio das árvores e ao nascer do sol, o companheiro, o estudioso e o que tem a cara de bravo.

Faltou um.

Não é culpa de ninguém essa falta, pois não há foto registrando esse elemento. Quer dizer, a culpa é minha. Ele é tão fundamental na minha identidade que acaba nem se destacando.

Não quero passar por ingrato, mas não posso deixar de falar desse aspecto da minha vida. Afinal, é o único pedaço que está lá no ‘Motoqueiros em Fuga’ que não está aqui nesta série que vou chamar de ‘Equilíbrio em Nove Quadros e uma Caixa’. O que faltou foi a foto e a pintura do Fábio Magnani motoqueiro urbano. Aquele motoqueiro que roda todo dia de moto junto com todos os outros motoqueiros, recriando a mobilidade urbana. Fazendo parte de um coletivo de motoqueiros que propõe através do seu movimento novas formas de conduta social. Você nunca verá dois motoqueiros discutindo porque um tomou o lugar do outro, nunca verá um motoqueiro tentando derrubar o outro, nunca verá um motoqueiro desprezando o outro no elevador porque a capa de chuva dele está fedendo a suor humano. Humano! Também nunca verá um motoqueiro respeitando uma regra que não faça sentido.

Um dos momentos em que mais me sinto integrado em sociedade é quando abre o semáforo e todos nós motoqueiros largamos como se fôssemos uma revoada de andorinhas, cada um no seu ritmo na mais completa harmonia. Quando está chovendo e paramos debaixo de um viaduto para esperar o tempo estiar. Quando um de nós cai e o outro põe a moto perto para fazer a sombra que esfria o asfalto até a ambulância chegar. Quando estamos todos lá dentro dos nossos capacetes, sem importar se somos bonitos ou desdentados, artistas ou diplomados.

Obrigado Renata por escolher tão bem as fotos e obrigado Thamy por ter aceito a encomenda. Foi fantástica a viagem que essas ilustrações me proporcionaram nesta semana. Tive que mergulhar dentro de mim ao tentar explicar cada uma delas. Não gostei de tudo o que vi. Paciência, somos o que somos. Sei que alguns momentos foram clichês, e que a maior parte foi pior ainda, megalomaníaca e melodramática. Somos o que somos. Aliás, por que eu tinha que tentar explicar cada uma delas? Somos o que somos. O ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ existe para isso mesmo. Viva a pieguice.

4 Comments to “Equilíbrio em Nove Quadros e Uma Caixa”

  1. Horacio Acosta says:

    Bom … Li por alto pela curiosidade que me despertou o post no Face.
    Agora vou ler aos poucos, saboreando.

    Os três estão de parabéns !!!

    h

  2. magnani says:

    Valeu, Horácio. Volte sempre. 8)

  3. Eduardo Messeder da Silveira says:

    Muito boa leitura, comecei e não parei até terminar, compartilho em várias situações, uma bicicleta emprestada foi o meu passaporte para, aos doze anos, conhecer as praias do Rio que antes só ia quando meu pai me levava, e a partir daí sempre tive uma a meu lado. A partir dos 20, a moto também passou a fazer parte da vida. Me formei em engenharia mecânica mas fui trabalhar como engenheiro de produção o que acabou me levando para São Paulo. Encurtando, hoje sou taxista em SP, escrevo sobre lançamentos e testes de moto como free lancer para o site Carplace, onde meu filho é editor, e continuo tendo – as, moto e bicicleta, como fontes de lazer e prazer. Não posso deixar de comentar um dia de pedalada no parque Ibirapuera onde ensinei uma moça que tentava pedalar, em poucos minutos levando- a para um leve declive gramado e intruindo- a sem tocar na bicicleta nem equilibra-la . O ” Obrigada seu Eduardo” foi muito legal. É por aí vai
    Abs

  4. magnani says:

    Muito legal, Eduardo. Abraço e volte sempre.

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