O Universo em Duas Rodas

Oct 22nd, 2016 | By | Category: Bicicletismo, Destaques, Divulgação, Editoriais, Livros, Motoqueirismo, Papo Geral, Posts

O ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ vai fazer dez anos agora em janeiro de 2017. Foram várias encarnações. No início eu publicava minhas histórias só nos fóruns, um pouco depois passei para um blog desses que ficam hospedados em algum website comercial, e, desde 2009, moramos aqui neste espaço próprio (www.fabiomagnani.com). Mesmo aqui ele já teve diversas formas. Primeiro foi tipo um blog mesmo, com muitos textos pequenos e frequentes, depois ficou mais parecido com uma revista, com menos textos só que bem maiores. Nisso, o papel de blog acabou indo para a fanpage (www.fb.com/motomagnani), que serve tanto para comentários efêmeros quanto para a incubação de ideias que depois serão publicadas por aqui.

Não só a forma, mas o conteúdo do ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ também mudou durante esses dez anos. Veja como, grosso modo, as coisas foram aparecendo, foram crescendo. Em 2007, os textos eram praticamente só sobre passeios de moto, 2008 apareceu com A Grande Viagem e a Viagem ao Sertão. Em 2009 as minhas preocupações estavam na Preparação para o Atacama e chegando 2010 o destaque foram as Crônicas do Atacama. Em 2011 me permiti ser mais acadêmico, com comentários sobre minha biblioteca e as disciplinas de duas rodas na universidade, em 2012 surgiram as bicicletas, em 2013 gastei muita energia com as notícias que saíam na imprensa mundial, em 2014 falei bastante de engenharia e filosofia, e em 2015 sobre política energética e modelagem. Em 2016, ainda olhando as coisas de forma bem superficial, parece que o tema principal do ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ foi a universidade. Acho que tanto me senti mais à vontade para falar do meu trabalho como também dei mais espaço para comentar os livros que tenho sobre a vida acadêmica.

Adoro observar como eu mudei nesses dez anos. Claro que não é fácil, nem preciso, nem saudável, fazer isso observando só o que se escreve, pois escrever acaba sendo uma mistura dos interesses que a pessoa tem no momento, de como ela quer ser vista, do que ela defende como visão de mundo, das suas buscas interiores, das tentativas de tirar algo da cabeça e, principalmente, acredito, escrever é uma expressão do que a pessoa já está pronta para revelar a si mesma. Aquele que escreve é uma mistura de quem atua com quem confessa. Quem escreve não é totalmente confiável, nem para si mesmo, nem para os outros. Mas, acredito de verdade, ao perceber que é impossível ser completamente honesto, quem escreve acaba sendo mais honesto que aqueles que se acham autênticos, originais e éticos, do que aqueles que não percebem que também atuam, que também contam histórias o tempo todo, que também acreditam nas histórias que lhe são contadas.

De qualquer forma, ao observar o que escrevi neste último ano, parece que o que eu estava tentando fazer era revelar, ao menos parcialmente, o que penso da vida acadêmica. Claro que sempre com muitas motos, bicicletas e livros, pois esse é o meu dia a dia. A universidade não é uma substituta do mundo real. A universidade é uma companheira do mundo real. Falando especificamente da engenharia, não temos os mesmos equipamentos e os mesmos softwares que as indústrias, também não temos tantos recursos tecnológicos para o desenvolvimento que as empresas. Nosso negócio é outro. Nosso negócio é criar novos pensamentos, é educar as pessoas para que conservem o que há de bom no mundo e melhorem o que precisa ser melhorado. Falando agora de todas as áreas da universidade, nossos grandes diferenciais são a isenção, a opinião, a visão, os fundamentos, a teoria e os valores. Claro que há perigos em assumir que a universidade é tão superior assim. Há o risco da desatualização, da irrelevância, da super especialização, da valorização exagerada de um currículo acadêmico que só tem valor para os outros acadêmicos, do descompromisso com o mundo real, do descompromisso com a real qualidade acadêmica. Conseguir aliar a vida acadêmica com uma vida de verdade é como andar no fio de uma navalha, é como se equilibrar em duas rodas. É perigoso. É divertido.

Neste ano que está acabando, meus escritos se dividiram em duas frentes: um monte de posts na fanpage e alguns poucos textos maiores aqui no website. Por aqui, destaco o Duas Rodas de Prosa, que compilou o que eu havia escrito em drops em 2014-15; Visões Sobre Duas Rodas: Termodinâmica, o primeiro capítulo de um livro que pretendo escrever sobre as duas rodas; Pesquisa em Duas Rodas, sobre a minha vida como professor universitário; A Ideologia Fofociclística, uma sátira sobre os que exageram na defesa das bicicletas; uma nova lista de livros, agora falando da Vida Acadêmica; e Equilíbrio em Nove Quadros e Uma Caixa, sobre o presente fantástico que ganhei de aniversário.

Falei ainda sobre as disciplinas que foram oferecidas na UFPE: Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas (2015.2), Engenharia da Motocicleta (2016.1), Propulsão de Bicicletas e Motocicletas (2016.1), e Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas (2016.2).

Embora a fanpage seja bem prática para escrever textos rápidos, ela dificulta bastante a busca de textos antigos e a classificação por ordem de importância. Gosto muito dela para testar e guardar ideias, mas não gosto que se percam. Por isso, este post é basicamente uma coletânea revisada do que escrevi por lá no último ano. Escolhi só os que mais gostava, e tomei a liberdade de mudar o texto aqui ou acolá. Para quem tiver interesse, ao final de cada texto eu deixei o link para o post original. Espero que gostem de ver tudo encadeado por aqui.

Para terminar esta introdução, lá no final do texto tem um sumário com os links para todos os textos.

The Tao of Steve

No filme ‘The Tao of Steve’ (‘O Tao de Steve’, 2000), Dex é um motoqueiro que condensou toda a sabedoria dos ‘Steve’s’ ao criar a receita ideal para a sedução das mulheres. Como modelos, usou Steve McGarrett, personagem principal do Hawaii Five-O; Steve Austin, o homem de seis milhões de dólares; e, acima de tudo, é claro, obvia e evidentemente, o maior motoqueiro de todos os tempos, o ator Steve McQueen – simplesmente considerado ‘the king of cool’.

Para Dex, ‘Steve’ não é um nome, mas sim um estado de espírito. James Bond, por exemplo, é um ‘Steve’.

As Três Regras do Tao de Steve são:

#1 Aprenda a eliminar o seu desejo (as mulheres podem farejar o seu desespero à distância).
#2 Faça algo excelente na presença delas, demonstrando assim o seu valor sexual.
#3 Bata em retirada (as mulheres perseguem o que lhes oferece alguma resistência).

Legal que toda essa falação durante o filme é sempre baseada em citações de pensadores clássicos.

Bem, voltando ao filme, tudo ia muito bem na vida de Dex até que aparece Syd, e daí as regras não funcionam, e daí o filme engrena.

Falando sério agora, pode até parecer um filme besta, sobre um cara metido a besta que cria um monte de barreiras bestas porque na verdade tem é medo de não ser amado. Mas há mais. Mesmo sendo uma comédia romântica, dá para perceber o tema do filme em várias camadas, como no seguinte diálogo:

– “Eu não busco a iluminação, só quero uma namorada”.
– “Está tudo conectado”.

Quer dizer, lá no fundo, o ‘Tao do Steve’ não é sobre pegar muitas mulheres. É sobre sermos as melhores pessoas que pudermos ser, mesmo que no caminho tenhamos que passar por alguns momentos ridículos.

Um detalhe caprichoso do filme é a música que toca quando Dex e Syd rodam de moto em clima de romance: ‘I Just Want To Be Your Steve McQueen’ (‘Eu Só Quero Ser o Seu Steve McQueen’).

Um filme leve. Um filme normal sobre pessoas normais. Recomendo.

[N.E.: veja mais sobre filme, assista ao trailer, ouça a música, e conheça a letra (publicação original: 29.07.2015)]

 

This is My Generation, Baby

‘My Generation’ é a música mais famosa da banda inglesa ‘The Who’. Lançada em 1965 e considerada um dos hinos do rock’n’roll, representa a angústia de ser adolescente. Do ponto de vista da cultura motoqueirística, a banda foi uma das principais representantes dos ‘Mods’, um importante movimento contracultural, talvez o primeiro a ter separado claramente, por bem ou por mal, os jovens das crianças e dos adultos.

[N.E.: assista ao vídeo, saiba mais sobre a música, e conheça os Mods (publicação original: 30.07.2015)]

 

Perfect Sense

‘Perfect Sense’ (‘Sentidos do Amor’, 2011) é um filme que explora o que significa ser humano. Durante o filme, as pessoas vão perdendo seus sentidos, um a um. E se as pessoas não pudessem mais sentir o cheiro das coisas? Então, não haveria mais o aroma do café, a fragrância da mulher amada, o perfume da grama cortada. Como seria o mundo se não tivéssemos mais as lembranças que vêm junto com o olfato, como quando o cheiro da fumaça nos lembra de uma viagem de moto que fizemos anos atrás? E se não houvesse mais o paladar? Não haveria mais o gosto refinado de um bom jantar, nem o seco do vinho, nem o salgado do suor do seu amante. E sem audição? Não mais música, não mais o som do vento ao pedalar, não mais a voz dos seus filhos. E se perdêssemos todos os sentidos, será que perderíamos a arte, será que perderíamos o que define a humanidade? Ou será que descobriríamos, ao contrário, a essência do que é ser humano? Quem penderia para o lado da luz, quem penderia para a escuridão? Nos momentos mais difíceis, quais de nós se entregam ao desespero e quais ao amor? Será que odiaríamos os deuses por essas pragas ou aproveitaríamos cada momento com se fosse o último? A violência advinda do medo pode ser perdoada? Pode ser consertada? O que há de essencial dentro de nós quando tudo o mais se vai? O tecido social que tomamos como garantido pode ser destruído por uma epidemia? Sem poder nos comunicar uns com outros, será que nos sentiríamos sozinhos no mundo ou finalmente descobriríamos o que realmente significa termos a companhia de outros seres enquanto vagamos pelo universo? Certamente, ‘Perfect Sense’ não é um filme para os fracos. Ah… embora só apareçam bicicletas maneiras e carros queimados no filme, o protagonista é o motoqueiro Ewan McGregor.

[N.E.: leia mais sobre o filme e assista ao trailer que causa a distorcida impressão que o filme é romântico (publicação original: 30.07.2015)]

 

La Vie de Jésus

‘La Vie de Jésus’ (pt: ‘A Vida de Jesus’) é um filme de 1997 que trata – de forma bastante complexa, violenta e perturbadora – , da vida de um grupo de motoqueiros de cinquentinha que vivem em uma pequena cidade da França. Um filme sobre a miséria cultural, moral e intelectual em que vivem os jovens em muitos cantos do mundo; inclusive nos países do primeiro mundo, onde não há a miséria econômica [Pierre Bourdieu].

Essa miséria cultural (estou usando aqui ‘cultura’ no seu sentido amplo [Chris Barker]) explica, ao menos parcialmente, o comportamento temerário dos jovens motoqueiros de vários lugares do mundo. Foi assim com os ‘Mods’ e os ‘Rockers’ na Inglaterra, com os ‘Bosozokus’ no Japão, com os ‘Mat Rempits’ na Malásia e por aí vai [Equilíbrio em Duas Rodas].

Trazendo para o Brasil, onde os jovens também se arriscam de moto nas cidades pequenas e nas periferias, espero que um dia as autoridades e a elite intelectual/cultural do nosso país compreendam que nossos jovens vivem na mais completa miséria cultural, que suas motos são a única forma de lazer e de significado, e que, para minimizarmos o comportamento arriscado deles, o caminho é lhes dar acesso ao esporte, à cultura e ao engrandecimento intelectual. Esse é o caminho. Fazer apenas mais leis e mais campanhas professorais não irá melhorar o comportamento deles – como estamos cansados de ver nas estatísticas.

Voltando ao filme, é realista e enfadonho. Os únicos momentos de alguma intensidade são quando eles estão nas suas motocas barulhentas ou em alguma atividade violenta. Penso que essa foi a intenção do diretor, que conseguiu expressar muito bem como é a vida desses jovens e justificar porque agem de forma tão arriscada.

Mas a coisa não é tão simples, mesmo no filme, pois em muitos momentos parece que o comportamento deles, ao humilhar mulheres e imigrantes, talvez seja algo muito mais profundo. Talvez uma falha de caráter ou então um defeito humanístico da cidade. Por isso, no final das contas, é difícil saber, em cada situação, qual a medida certa entre punição ao indivíduo, oportunidade ao indivíduo, ou reforma da sociedade. Penso que é uma mistura dos três.

Vindo para o mundo real, em um passado muito distante eu conheci uma cidade miserável assim. Naquela época os jovens podiam fazer três coisas:

(1) beber,
(2) correr de Mobilete, ou
(3) beber e correr de Mobilete.

Ah… uma das ‘opções’ culturais que eles tinham naquela cidade era tocar em uma fanfarra militaresca, o que guarda uma macabra semelhança com o filme. Sinistro.

Bem… pelo tom deste texto, acho que dá para perceber que esse não é um filme para você se sentir melhor. É um filme pesado, com vários pontos de vista contraditórios. Um filme para a gente sair pensando na situação dos jovens motoqueiros temerários, não para sair satisfeito como se a vida fosse um conto de fadas.

[N.E.: saiba mais sobre o filme e assista ao trailer (publicação original: 31.07.2015)]

 

One Week

O que você faria se tivesse apenas uma semana de vida?

Há alguns anos atrás, eu estava no sofá quando começou um filme de moto que eu nunca tinha ouvido falar: ‘One Week’ (‘Uma Semana’, 2008). Ben Tyler era um rapaz acomodado. Quando criança desistiu de cantar depois da crítica de uma professora. Também desistiu de jogar beisebol por causa de uma simples bronca do treinador. Quando adulto, desistiu de publicar seu livro porque dois ou três editores não estavam interessados. Acabou virando um professor infeliz. Pelo menos parecia ter encontrado a noiva perfeita. Até que descobriu que tinha um câncer muito agressivo.

Naquele momento de loucura/lucidez, Ben comprou uma moto. Sua ideia era passar alguns dias na estrada antes de começar o tratamento. Nada demais. Iria apenas refletir sobre a doença e aprender a ser um paciente. Era para ter sido tudo muito simples. Só que na estrada, na companhia de sua moto, vieram pensamentos sobre aventura, riscos e amor. Conheceu estranhos, visitou lugares, sentiu raiva, dançou e cantou. O que começou como uma história de doença, acabou se transformando em uma busca pela compreensão da vida. O melhor filme de moto que eu já assisti. Melhor que melhor, já que foi descoberto pelo mais simples acaso.

[N.E.: leia o texto no Equilíbrio em Duas Rodas e assista ao trailer (publicação original: 05.08.2015)]

 

The Bicycle Book

‘O Livro da Bicicleta’ é um livro de mulherzinha – ainda bem! O título de Bella Bathurst não podia ser menos criativo: ‘The Bicycle Book’ (‘O Livro da Bicicleta’). Acho que comprei na época só porque estava interessado em fazer uma mini-coleção de livros com títulos iguais. Assim que a encomenda chegou, coloquei o livro em seu lugar de honra, onde podia desempenhar plenamente a sua função neste mundo: expor a sua lombada ao lado dos seus irmãos homônimos. Quietinho.

Acontece que eu nunca saio sem um livro em minhas mãos. Vai que a reunião demora para começar, o pneu da moto fura, a fila da lanchonete está muito grande ou há mais uma daquelas palestras de alguém de alto cargo que tenta me convencer que o futuro do estado é a produção de carros, petróleo e viadutos. Para esses momentos inglórios, eu antes de sair sempre escolho um livro da minha estante, apenas com a intenção de dar uma folheada enquanto o mundo se encarrega de dissipar da minha visão esses eventos irrelevantes. E foi em uma dessas ocasiões em que, ao sair correndo da minha sala, peguei esse tal livro que havia comprado só pelo título. Que bela surpresa.

‘The Bicycle Book’ (Bella Bathurst, 2011) é um livro diferente por várias razões. Primeiro, Bella Bathurst é uma escritora, não é uma especialista em bicicletas, por isso sua primeira intenção não é vomitar informações fáceis, mas sim levar o leitor em uma viagem de primeiras emoções. O segundo aspecto que distingue o livro é que ele não nos poupa da verdade. Por exemplo, quando descreve o papel do ânus dos ciclistas profissionais nas táticas para se livrarem do antidoping, quando explicita que alguns ciclistas usam a bicicleta como remédio para algum tipo de neurose ou ainda quando entrevista cientistas que comprovam que o ciclismo tem sim certos malefícios para a saúde. O terceiro ponto especial do livro é o seu caráter fragmentado, sem a intenção de ser uma grande enciclopédia. Os capítulos individuais são como pinceladas, que formam um quadro único quando vistas como um todo. É uma sensação deliciosa. Você vai lendo os capítulos sem aparente conexão. Ao final do livro você percebe que adquiriu uma visão integradora do bicicletismo – uma visão construída pelas emoções, não pelas informações ou por uma narrativa estruturadora.

Não me sinto à vontade para falar sobre o quarto aspecto que faz este livro diferente. Odeio quando alguém carimba uma obra como “feita por um homem” ou “feita por uma mulher”. O gênero do artista não é importante, a obra é que é. Mas neste caso sou obrigado a me render a essa visão retrógrada. Parece sim que há uma visão feminina neste livro, que o faz diferente dos outros. Isso fica bem claro quando ela fala sobre as brigas de trânsito sem sentido, sobre a necessidade que alguns ciclistas têm de “realizar algo” durante as suas férias e principalmente na vida dos atletas profissionais. Se bem que posso estar errado. De repente a visão de Bella Bathurst seja na verdade completa, mas pareça ser apenas feminina por ser diferente dos textos machistas que comumente encontramos por aí. É isso! Retiro o carimbo “feito por uma mulher”. O certo é “feito por uma pessoa inteligente”.

Recomendo a leitura deste livro – muito. Não é daqueles livros que falam exatamente o que você queria ouvir. Também não é um livro definitivo. Ao ler este livro, muitas vezes fiquei bravo com a irrelevância do que estava escrito, ou então com a idiotice das opiniões defendidas. Mas bastavam alguns parágrafos para que eu percebesse que eu estava na realidade aprendendo sobre novos mundos, sobre novos argumentos e sobre novas formas de ver as coisas. O processo do real aprendizado nunca é fácil, pois tira o chão debaixo dos seus pés. Mas a ideia não é tirar o chão para fazer você cair. A ideia é fazer você voar.

[N.E.: leia o texto completo no Equilíbrio em Duas Rodas (publicação original: 13.08.2015)]

 

Autorretrato

Em agosto de 2015 fiz uma pequena viagem sozinho para o agreste de Pernambuco. Prática incomum, parei no acostamento para uma ‘selfie’. Gostei da foto, embora o sol tenha me feito apertar os olhos e franzir a testa, o que passou a impressão de que eu estava bravo, o que certamente não estava. Dias depois, em um rompante artístico pós-refeição, gastei 30 segundos para desenhar a cena da foto usando a famosa técnica do autorretrato em lápis sobre guardanapo. Claro que ficou sem técnica alguma, mas por sorte ficou bem expressivo. Para falar a verdade, achei que ficou bem legal.

 

A Love Song for Bobby Long

‘A Love Song for Bobby Long’ (‘Uma Canção de Amor para Bobby Long’) é um filme do ca***** sobre as paixões de se viver no mundo das palavras, o que pode tanto transformar a vida real no mais triste dos desertos quanto criar no mundo de verdade o mais caótico dos carnavais. Afinal, nossa vida nada mais é que a soma de todas as pequenas histórias que escrevemos, e nosso maior desejo é que essas histórias sejam compartilhadas pelos que amamos. Buscamos um sentido e queremos ser vistos pelo que realmente somos. Só isso. Tudo isso. O caminho mais curto para o paraíso é aquele que passa bem no meio do inferno, e se tudo o que você fez na vida lhe valeu ao menos uma canção, então valeu a pena. Um trago para Bobby Long.

[N.E.: leia sobre o filme e assista ao trailer (publicação original: 21.08.2015)]

 

Milo Manara

No final da década de 80 e começo da de 90, eu tinha uma coleção bem legal de graphic novels: Frank Miller, Will Eisner, Bill Sienkiewicz, Moebius, Neil Gaiman, Katsuhiro Otomo, Peter Milligan e muitos outros. Um dos meus preferidos era Milo Manara, um italiano desenhista de HQ conhecido pelo erotismo associado às mulheres fascinantes em cenários fantásticos. Entre seus desenhos há apaixonantes bicicleteiras, motoqueiras e letreiras.

[N.E.: Saiba mais sobre Milo Manara (publicação original: 01.10.2015)]

 

Garotas Fofinhas

‘Kawaii’ é um termo japonês que quer dizer ‘lindinha’, ‘fofinha’, ‘jeitosinha’. Muitas vezes esse adjetivo está associado a uma estética infantilizada, que pode ou não ser acompanhada de erotização. O livro ‘Bicycle Life with Kawaii Girls’ (‘Vida de Bicicleta com Garotas Kawaii’, 2011) traz uma série de desenhos nesse estilo, retratando a cultura das bicicletas no Japão. Como a minha versão é em japonês, não consegui pescar nada do objetivo do livro. Pior, além de não entender a língua, eu também, definitivamente, não entendo nadica da cultura japonesa: onde termina a brincadeira e começa a exploração, onde termina o lazer e começa o comércio, onde termina o bom gosto e começa a pornografia, onde termina a inocência e começa a pedofilia. Mas sei que gostei do livro… pelo menos até o momento em que alguém vá me explicar o que realmente está escrito naquelas páginas.

[N.E.: saiba mais sobre o livro, leia uma resenha, e tente entender o que é kawaii (publicação original: 01.10.2015)]

 

Michiko & Hatchin

Descobri a série motoqueirística ‘Michiko & Hatchin’ pelo mais puro acaso e, talvez exatamente por isso, estou adorando. É um desenho japonês que se passa em um país fictício bem parecido com o Brasil. A improvável dupla de motoqueiras é formada por Michiko, uma ‘sexy diva’ que tenta não voltar para a prisão, e Hatchin, uma garota que foge da família adotiva. Estilo Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Cool. Very cool!

[N.E.: assista ao trailer, veja a abertura e obtenha mais informações (publicação original: 03.10.2015)]

 

Evel Knievel

Na internet, principalmente no mundo das motos e das bicicletas, há uma tendência à concentração das informações. Quer dizer, todo mundo sabe e repete as mesmas coisas, sem muita novidade ou originalidade. O que é bom para eliminar irrelevâncias, o que é ruim porque afasta a originalidade. Por isso é muito legal quando a gente, por acaso, bate com uma alguma coisa realmente nova. Por exemplo, achei fantástica essa visão do Evel Knievel descendo uma rachadura na parede, grafismo feito pela artista Fawn.

[N.E.: conheça mais sobre a arte de Fawn (publicação original: 05.10.2015)]

 

Vila Velha

O lugar que eu mais gosto nas cercanias do Recife é Vila Velha, que fica na Ilha de Itamaracá. Não é nada mais que uma vila com uma igreja antiga no canto, um campinho de futebol no meio, e uma porção de casas em volta. O lance é que a vista é linda e a simplicidade é silenciadora. Em outubro de 2015, depois de um bom tempo sem sairmos de moto na estrada, eu e a Renata demos um novo rolê por lá.

[N.E.: saiba mais sobre Itamaracá (publicação original: 10.10.2015)]

 

Companheiros de Papel

Em outubro de 2015, eu fiquei umas tantas horas preso no meu gabinete fazendo simulações e escrevendo o capítulo de termodinâmica do ‘Visões em Duas Rodas’. Quando terminei, antes de apagar a luz, percebi que precisava de um descanso das palavras. Mas mais do que isso, caiu a ficha de como os livros da minha biblioteca são meus grandes companheiros. Tirei uma foto para guardar o momento. Voltei de moto para casa, o que sempre serve para aliviar a cabeça. Ao estacionar, me sentindo bem leve, bati uma outra foto. Livros e motos, talvez seja esse balanço entre os dois mundos que faça o tal do Equilíbrio em Duas Rodas. 8)

[N.E.: (publicação original: 23.10.2015)]

 

Fanpage do Equilíbrio em Duas Rodas

10.000 curtidas! Quem diria! Obrigado a todos vocês que gostam de motos, bicicletas e livros, e que têm a tolerância com a minha ranzinzice, e que têm a generosidade com as minhas ideias malucas sobre o mundo das duas rodas, mundo que costumo chamar de MBL: motoqueirismo, bicicletismo e livrismo.

O ‘EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS’ é um projeto pessoal nascido em 2007, no qual registro meus estudos, viagens, pesquisas e aulas na UFPE, impressões, opiniões e também o meu cotidiano sobre duas rodas. Acho que o diferencial para outros websites sobre motos, bicicletas e livros é a visão. Uma visão nem melhor nem pior que a de ninguém, mas certamente uma visão diferente. Tento mesclar os olhares de escritor de araque com o de professor mediano, mas, principalmente, tento sempre usar o olhar de um indivíduo comum que roda pela cidade. Afinal, nada sou além disso.

Tenho uma moto, três bicicletas e uma biblioteca com quase 500 livros sobre duas rodas (e mais uns 1.000 sobre outros assuntos), tenho rodado bem menos do que gostaria, e tenho estudado bem mais do que deveria. Mas isso é fase. Daqui aqui a pouco o pêndulo volta para o outro extremo.

Por falar nisso, e roubando um texto que publiquei outro dia, ‘EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS’ – o nome desta bodega –, não significa de jeito algum que eu defenda o equilíbrio, que eu busque o equilíbrio, ou que eu seja equilibrado. Muito pelo contrário. O equilíbrio sobre duas rodas só é possível por alguns momentos, e desde que você esteja em movimento. O equilíbrio em duas rodas é apenas uma ilusão, assim como são todas as certezas desta vida. O nome do website é, então, uma homenagem à vida: que não é segura, que não é certa e que não é estática; mas que, de um jeito ou de outro, oscilando para cá e para lá, sempre dá um jeito de ir para frente.

O projeto ‘EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS’ é composto por um website (www.fabiomagnani.com), com textos consolidados, e uma fanpage no facebook (www.fb.com/motomagnani), com drops quase que diários. Por coincidência, essas 10.000 curtidas na fanpage estão ocorrendo simultaneamente com o lançamento do subprojeto VISÕES SOBRE DUAS RODAS, uma coleção de textos que já tem três volumes programados: “Vol.1: Uma Visão Técnica”, “Vol.2: Uma Visão Pessoal”, e “Vol.3 Uma Visão Acadêmica”.

Hoje à noite (27.10.2015) vai ser publicado eletronicamente o primeiro capítulo do primeiro volume: Termodinâmica, com 52 páginas. Fiquem à vontade para fazer o download. Os outros textos sairão ao longo dos próximos três anos.

É isso. Para os 10.000 que já acompanham o ‘EQUILÍBRIO EM DUAS RODAS’, muito obrigado pela companhia. Para os que estão conhecendo agora, fiquem à vontade para bisbilhotar no website (www.fabiomagnani.com) e na fanpage (www.fb.com/motomagnani). Uma boa semana a todos.

[N.E.: (publicação original: 26.10.2015)]

 

Sobre Árvores e Desertos

“As florestas plantadas no deserto do qualis trarão a grandeza necessária para destruir as muralhas do lattes” – Equilíbrio em Duas Rodas

Para quem não é da área acadêmica, ‘qualis’ é uma lista que classifica as revistas acadêmicas e ‘lattes’ é um banco de dados com a produção dos pesquisadores brasileiros. Com esses dois sistemas, os professores são ‘qualificados’ e ‘quantificados’. Para esse sistema, o que importa é quantas vezes você publicou e onde você publicou. Não importa o que você publicou, não importa se você dá aula direito, não importa se você tem ideias originais, não importa se você tem a coragem de inovar o pensamento, não importa se você fala algo direto para a comunidade externa, não importa se você pensa fora da caixa. O ‘qualis’ e o ‘lattes’, embora tivessem boas intenções, acabaram criando um deserto de ideias (é mais fácil publicar ideias antigas) e uma grande muralha que dificulta atividades alternativas (já que só as publicações valem alguma coisa, por que os professores fariam algo diferente?).

[N.E.: (publicação original: 27.10.2015)]

 

Cinco Anos de Estudos da Bicicleta

Estamos entrando no 5o ano de Estudos da Bicicleta na UFPE. Nesse tempo já tivemos as disciplinas “Estudos da Bicicleta”, “Propulsão de Bicicletas e Motocicletas” e “Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas”; trabalhos de iniciação científica, de conclusão de curso, de mestrado e, em andamento, doutorado. No “Equilíbrio em Duas Rodas” também há bastante coisa sobre bicicletas, com textos falando sobre mobilidade, tecnologia, cultura, política, dinâmica e por aí vai. Um dos meus orgulhos é a minha biblioteca, com 118 livros sobre bicicletas, 331 sobre motocicletas, e 158 técnicos ligados ao tema de duas rodas (motores, dinâmica veicular, tráfego, mobilidade, etc.). Sem contar mais uns 800 acadêmicos de outras áreas e os de literatura. Voltando às magrelas, hoje foi o dia de arrumar os livros, começando a preparação para o ano que vem. A novidade é que planejamos uma renovação nessa linha de pesquisa. Então, se você quiser participar, venha bater um papo. Para fazer parte da equipe não é preciso pedalar todo dia, muito menos se fantasiar de biker novaiorquino. A única coisa que conta é gostar de estudar. Ah… e um obrigado para Renata Nunes pelo registro fotográfico.

[N.E.: sobre a biblioteca, vejam a parte de bicicletas, motos motos, e de livros técnicos e acadêmicos (publicação original: 29.10.2015)]

 

Bicicleta na Praia de Boa Viagem

Depois de algumas semanas trancado no gabinete para escrever o capítulo de termodinâmica do ‘Visões Sobre Duas Rodas’, limitando as duas rodas só às indas e vindas de moto, ter um tempo para pedalar a bicicleta na praia foi muito bem vindo nessa sexta-feira de feriadão.

Não é realmente necessário escolher entre a teoria e a prática, entre o trabalho e o lazer, ou entre a luta política, a reflexão e o reconhecimento. Pois aquele que é livre de verdade se permite transitar por todos os mundos que desejar.

[N.E.: (publicação original: 30.10.2015)]

 

Livros e Miniaturas

No final de outubro de 2015, a Renata foi até o meu gabinete na UFPE para tirar uma porção de fotos com meus livros e miniaturas. Gostei tanto que, depois disso, todos os meus posts sobre livros passaram a ter fotos personalizadas – antes eu só pegava alguma foto promocional que encontrava na internet. Isso fez com que eu tivesse mais gosto por falar dos livros.

[N.E.: (publicação original: 30.10.2015)]

 

Suave na Nave

Sem qualificações esportivas ou pretenções políticas, suave na nave é como o ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ pedala em Boa Viagem.

Ese daí é um ônibus que fica o tempo todo estacionado na frente do Parque Dona Lindu, prestando serviços de manutenção aos bicicleteiros que circulam por ali. A ciclovia de Boa Viagem é bem interessante, pois tem três tipos de ciclistas: os que vem e vão para o trabalho, os que passeiam e os que praticam esporte. Eu sou dos que passeiam. 8)

[N.E.: (publicação original: 31.10.2015)]

 

Vegetarianismo

‘The Culinary Cyclist’ (‘O Ciclista Culinário’, 2015) é um livro muito legal sobre a boa vida: pedalar sempre que possível, comprar produtos locais e comer o que é da estação. Eu não gosto muito de carne vermelha, mas não sou nenhum vegetariano. Para falar a verdade, eu nem sabia que o ponto principal do vegetarianismo fosse a defesa dos animais. Sempre pensei que fosse por uma questão de saúde. Vivendo e aprendendo. De qualquer forma, vegetariano ou não, o livro é bem inspirador para uma vida mais simples. Principalmente porque junta o texto com figuras muito legais. Ah… e ler o livro na beira da praia, ao som das ondas e ao balanço da rede, ajuda bastante a entrar no clima.

[N.E.: (publicação original: 01.11.2015)]

 

Brew to Bikes

‘Brew to Bikes’ (‘Dos Fermentados às Bicicletas’, 2010) é um livro muito bom sobre a economia dos artesãos de Portland, a cidade mais bicicleteira dos EUA. O livro fala de cerveja, comida, moda, bicicletas, café, destilados, música, literatura, tricô, couro, reciclagem, instrumentos musicais, tecnologia da informação, e mais. Sem contar capítulos gerais sobre estilo de vida, economia, cooperação, incentivos governamentais e organização. O legal é que cada capítulo foi escrito por um pesquisador diferente. Recomendo.

[N.E.: (publicação original: 03.11.2015)]

 

Arquitetura e Urbanismo para Bicicletas

Minha área não é arquitetura e urbanismo, mas por gosto pessoal e necessidade profissional, acabo lendo um pouco sobre o assunto. Sobre urbanismo e arquitetura para bicicletas, recomendo estes livros: ‘Cities for People’, ‘Velo City’, ‘Cycle Infrastructure’, ‘Cycle Space’ e ‘Urban Bikeway Design Guide’. Bem… agora deixo um pouco de lado a minha biblioteca para pedalar. Bom final de semana a todos. 8)

[N.E.: (publicação original: 06.11.2015)]

 

Motoqueiros no Corredor

Motos dão poder ao povo como ferramenta de trabalho, instrumento de mobilidade e tela para expressão. Os riscos são grandes, o preconceito maior ainda, mas nenhuma conquista é fácil.

[N.E.: (publicação original: 09.11.2015)]

 

A Política das Duas Rodas

Duas rodas e política formam uma mistura explosiva. Alguns livros: ‘Coletivo canal*Motoboy’, ‘ Pedaling Revolution’, ‘Pedal Power’, ‘One Less Car’ e ‘Bikers: Culture, Politics and Power’.

[N.E.: (publicação original: 09.11.2015)]

 

A Filosofia do Motoqueirismo

Livros com motos e filosofia são poucos, mas bons: ‘Zen and the Art of the Motorcycle Maintenance’, ‘Philosophical Ridings’, ‘Shop Class as Soulcraft’, ‘Harley-Davidson and Philosophy’ e ‘Guidebook to Zen and the Art of Motorcycle Maintenance’

[N.E.: (publicação original: 09.11.2015)]

 

Promoting Walking and Cycling

Muitas vezes me criticam por não trabalhar com os outros, por ser personalista, orgulhoso e vaidoso. E, por mais que eu lute contra isso, às vezes acabo introjetando a crítica, pensando que deveria me esforçar mais para me enquadrar no que os outros estão fazendo.

Só que, quando eu conheço alguém realmente interessante, com pensamento original, ou então quando leio um trabalho com escopo e profundidade, minha admiração é tão grande, meu prazer intelectual tão forte, que daí eu tenho certeza que a razão por eu não trabalhar mais em equipe não é uma questão de vaidade e de personalismo, mas sim de total intolerância à mediocridade e à mesmice.

Percebi isso ao estudar o livro ‘Promoting Walking and Cycling’ (‘Promovendo a Caminhada e o Ciclismo’, 2013), que é o resultado de um trabalho de vários anos que incluiu levantamento físico (e.g., centralidade, conectividade), socioeconômico (e.g., diversidade da atividade econômica, idade, gênero) e etnográfico, com questionários, entrevistas, acompanhamentos e vivências. Tudo quantificado com técnicas estatísticas e qualificado com técnicas das humanas. Fora a revisão bibliográfica de projetos governamentais e de trabalhos acadêmicos com perspectivas sociológicas, antropológicas, psicológicas, bem como da engenharia de transporte, sustentabilidade e meio ambiente. Literalmente, a gente sente um prazer danado ao ler um trabalho assim. Parabéns ao pessoal que trabalhou em equipe. Algumas equipes valem a pena.

[N.E.: (publicação original: 13.11.2015)]

 

Transit Metropolis

O livro que me abriu os olhos para a mobilidade urbana, em 2001, foi ‘Transit Metropolis’ (‘A Metrópole do Transporte Público’, 1998), do Robert Cervero. Tem teoria e estudos de casos. Três pontos me chamaram a atenção na época: carros não são uma boa solução quando o fluxo de pessoas é muito grande, cada cidade tem uma solução ótima diferente (algumas com metrô centralizado, outras com vans espalhadas), e a forte relação entre a forma da cidade, o sistema imobiliário, e o sistema de transporte. Recomendo. Recomendo muito.

[N.E.: (publicação original: 13.11.2015)]

 

Mobilities

‘Mobilities’ (‘Mobilidades’, 2007), de John Urry, é um livro para renovar tudo o que você já tinha pensado sobre mobilidade. Ela pode ser de pessoas, dinheiro ou informação, pode ser do bem ou do mal, pode servir para manter o status quo ou para revolucionar o mundo. Do ponto de vista teórico, ele propõe simplesmente uma sociologia não mais baseada na geografia física (e.g., casas, cidades, países), mas na própria mobilidade. Uau!

[N.E.: (publicação original: 13.11.2015)]

 

Sapato Furado

Atenção! Imagens fortes do mundo real do bicicletismo.

Nas minhas análises técnicas, financeiras e ambientais entre os vários modais (e.g., carro, moto, bicicleta, “diapé”, ônibus), nunca levo em conta o desgaste do pisante. Está na hora de começar, pois o tênis que uso na bicicleta já deu o que tinha que dar.

[N.E.: (publicação original: 15.11.2015)]

 

The Go Girls

‘The Go Girls’ é o mais difícil dos livros de moto, tanto para comprar quanto para descrever.

O livro de moto que tive mais dificuldade para encontrar foi ‘The Go Girls’ (Will Laurence, 1963). Era um ‘Pulp Fiction’, um gênero de ficção popular baseado na exploração de esteriótipos para vender. Mas nem tudo era sensacionalismo barato ou emburrecimento cultural na era dos ‘pulp fiction’. Algumas dessas estórias tiveram uma grande importância social e cultural. Um exemplo disso foi um novo subgênero que apareceu já no final da época de ouro das ‘pulp fiction’: o ‘Lesbian Pulp Fiction’.

Essas estórias de lésbicas traziam as principais características do gênero, como a exploração barata da nudez, do sexo e da violência. A grande maioria era escrita por homens, apenas para satisfazer as fantasias de leitores heterosexuais. Nessas estórias, as lésbicas eram associadas à bruxaria, satanismo e orgias. Para não serem consideradas obras de proselitismo ao homosexualismo, no final de cada aventura as mulheres tinham que se apaixonar por homens ou então morrer. Para as autoridades, o lesbianismo não deveria trazer felicidade a ninguém.

Hoje em dia esse tipo de estória é considerado uma porcaria que denigre a imagem das mulheres, qualquer que sejam suas preferências sexuais. Mas naquela época eram o único sinal, para incontáveis mulheres solitárias, de que em algum lugar no mundo havia alguém igual a elas.

O ‘Lesbian Pulp Fiction’ fez sucesso entre 1955 e 1969. Depois o interesse diminuiu, com o fortalecimento do feminismo e dos direitos dos homosexuais, com a revolução sexual e com o fim da censura de material pornográfico. Tudo agora podia ser falado abertamente, não sendo mais necessário esconder um assunto sério no meio de aventuras sensacionalistas.

Eu não consigo me lembrar de como descobri o livro ‘The Go Girls’ (Will Laurence, 1963). Só sei que foi super difícil comprar. É um livrinho de bolso bem simples, só vendido usado, mas que normalmente não sai por menos de R$ 120,00. Eu consegui uma cópia por R$ 50,00, mas procurei por quase dois anos. O livro mistura tudo do melhor: motos, viagem no deserto e mulheres independentes.

[N.E.: leia o texto completo no blog (publicação original: 16.11.2015)]

 

O Mapa

Na parede do meu gabinete mantenho um mapa com fotos e trajetos que já percorremos de moto. Em destaque ‘A Grande Viagem’, uma aventura de moto de 8.200 km que eu e a Renata fizemos em 2008. Quase oito anos depois, o mapa que fizemos para o planejamento ainda anima o meu dia a dia.

[N.E.: faça o download gratuito do livro (publicação original: 16.11.2015)]

 

Ordem e Caos

Penso que essa montagem dos meus livros de bicicleta, mostrando uma pilha de livros pela frente e depois a mesma pilha por trás, simboliza perfeitamente o conhecimento acadêmico. Pela frente tudo organizado e ordenado, mas por detrás caótico e misturado. Pela frente o que ressalta é o formalismo, mas na fonte o que vale é a complexidade.

[N.E.: (publicação original: 16.11.2015)]

 

Nossos Corpos, Nossas Bicicletas

Acabou de chegar pelo correio o livro ‘Our Bodies, Our Bikes’ (‘Nossos Corpos, Nossas Bicicletas’, 2015), escrito por mulheres que pedalam. Claro que o título é uma alusão a um dos principais slogans do feminismo: ‘Nossos corpos, nossas regras’. ‘Our Bodies, Our Bikes’ é uma coletânea de textos sobre mulheres e bicicletas. Elas não tem medo de nada. Falam sobre machismo, vulva, segurança, sexo, obesidade, esporte, menstruação, gênero, política e todo e qualquer outro assunto que possa interessar às mulheres, por menores ou maiores que esses assuntos possam parecer. Um livro para abrir a mente. Sempre é muito bom ouvir novas opiniões, saber de novas visões, principalmente em um mundo machista enrustido como é o do ciclismo, ao contrário do motociclismo, onde o machismo é escancarado.

[N.E.: (publicação original #1: 04.11.2015) e publicação original #2: 17.11.2015)]

 

Moto em Cordel

 

O Grande Canyon

Deu o maior trabalho montar (e principalmente guardar tudo depois) o cenário dessa foto. Gostei muito do efeito. A moto dentro do canyon representa bem a minha busca intelectual no meio dos livros e das ruas da cidade.

[N.E.: publicação original: 18.11.2015)]

 

Termovisão

O LOST (Laboratório de Otimização de Sistemas Térmicos e de Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas da UFPE) tem como uma das linhas de pesquisa o estudo das aplicações da termovisão. Uma ideia que temos é monitorar o arrefecimento corporal e o metabolismo muscular de um bicicleteiro em ação. Pesquisadores interessados em trabalhos colaborativos, entrem em contato.

[N.E.: (publicação original: 19.11.2015)]

 

Origem Universitária

Hoje, o Fabiano, um grande amigo da época de graduação, postou duas fotos antigas. Trouxeram lembranças e provocaram reflexões. São de 1987 ou 88, quando fizemos um trabalho para a disciplina de geometria descritiva. O professor, do qual infeliz e imperdoavelmente não me lembro o nome agora, me marcou bastante. Ele era engenheiro mecânico, mas fazia parte do departamento de desenho. Mostrava teoria e prática, trazia livros ripongas de geodésicas e nos levava em viagens até grandes instalações industriais. O cara morava na frente da praia, e imagino que, antes das aulas, saia para surfar ou para mergulhar ou para conversar com os pescadores ou para fazer ioga. Interessante como alguns professores ficam para sempre, não é?

Outro lance interessante dessas fotos (eu sou o do meio na foto de cima e o da direita na foto de baixo, segurando a prancha – os outros são o Fabiano, Mário e Grilo), é que eu pareço bastante sociável, coisa que certamente não era, não mesmo! Nessa época eu viva bastante sozinho, rodando a Ilha de Santa Catarina de bicicleta, perambulando pelos costões, lendo livros de antropologia na biblioteca central, indo direto em todos os seis cinemas espalhados pela cidade, nadando na piscina da universidade e correndo na beira-mar.

Curioso (Freud explica) é que hoje, quase 30 anos depois, é exatamente isso que eu faço no meu tempo livre, com as únicas diferenças que agora tenho minha própria biblioteca para me esconder, meus filhos para fazer companhia, e também um pouquinho de dinheiro para ter uma motinha. Por falar nisso, eu não tinha moto nessa época, que só veio mesmo em 1992. Bem… aí está um registro da mistura do ‘Equilíbrio em Duas Rodas’, com a engenharia mecânica, a união das humanas e das exatas, os livros e as duas rodas.

Ao ler este texto acima, o Fabiano respondeu que a minha recordação de ser um eremita solitário não era totalmente realista. Veja: “Perfeito Fábio! Concordo com tudo.. Ou quase tudo.. Você era (e imagino que continue sendo) bastante sociável sim! Com seus momentos mais introspectivos como todos nós.. Muito boa aquela época.. Fizemos muito juntos.. Natação, remo, caminhadas, expedições pelos costões e praias da ilha .. Você mais ciclismo.. Eu mais basquete.. Lembrei agora de quando fomos em um grupo para a lagoinha do leste acampar.. Bons tempos! Enfim.. Você foi um dos meus melhores amigos (talvez o mais próximo) naquela época.. E.. pelo acidente (por minha imprudência de garoto) tenho uma dívida contigo??.. Bom ver que sua vida está animada e completa! Um grande abraço!”

Para a qual respondi: “Muito legal, Fabiano. Tinha esquecido do tempo que fizemos remo. A Lagoinha do Leste era uma das minhas praias preferidas, ao lado da Praia dos Naufragados. Você certamente era o meu melhor amigo na universidade, e só tenho boas lembranças. Vejo pelas fotos do seu facebook pessoal que também tem uma vida bem animada. Sobre o acidente, coisa de adolescentes. Meu nariz é meio torto (será que já não era antes?), dente frontal remendado, mas, como dizia um professor meu, são histórias que você tem para contar para os seus netos. Me diverti muito. Abração.”

[N.E.: (publicação original: 21.11.2015)]

 

Cidades Famosas

No final de novembro de 2011, eu e a Renata rodamos de moto por cidades de Pernambuco que têm nomes famosos: Nazaré, Guadalajara e Buenos Aires. São cidades pequenas, que, como todas as cidades pequenas, têm como característica mais comum o grupo de motoqueiros em volta da praça aguardando para oferecer um pouco de mobilidade aos cidadãos. Aproveitamos também para passear por Paudalho e Tracunhaém.

[N.E.: (publicação original: 22.11.2015)]

 

O Inferno é Aqui

Retrato do Recife: cadeirante acompanhando criança precisa rodar no meio dos carros porque a calçada é esburacada e não tem rampa e é imunda e ocupada por barracas. Sem contar que durante muito tempo não havia iluminação pública nesse trecho da Avenida Caxangá, uma das mais importantes da cidade. Mas não tem tanto perigo assim, já que o trânsito é super lento, quase parado com tantos automóveis. Todo mundo foge para os carros, pois não há ciclovias, os ônibus são lotados, as ruas quentes porque não há árvores, e rodar de moto é suicídio nessa cidade sem lei. Vai continuar assim enquanto dermos importância demasiada aos prédios, viadutos, petróleo e automóveis. Triste.

[N.E.: (publicação original: 23.11.2015)]

 

Anarquito

Creio que toda revolução nasce do somatório de incontáveis pequenos atos de anarquia. Uma ideia aqui, uma provocação ali, uma resistência acolá. Esse é o Anarquito, meu eterno companheiro nas brigas, paixões e aventuras.

[N.E.: (publicação original: 25.11.2015)]

 

Modelagem das Motocicletas

Começo hoje a preparação para ‘Engenharia da Motocicleta’, que será oferecida pela sexta vez no Curso de Graduação em Engenharia Mecânica da UFPE. Agora com duas novidades, uma boa e outra ruim. A boa é o horário, 2as e 4as das 17 às 19h, mais apropriado para quem está fazendo estágio. A ruim é que neste semestre o Prof. Ramiro Willmersdorf não vai poder participar, então serei o único professor. Os pré-requisitos são Termodinâmica Aplicada e Mecanismos. O núcleo principal é a modelagem matemática, que é baseada principalmente nos livros do Cossalter, Cocco, Ferguson & Kirkpatrick, Tanelli e Bradley.

[N.E.: (publicação original: 26.11.2015)]

 

O Mundo das Motocicletas

A disciplina ‘Engenharia da Motocicleta’ é bem geral, incluindo, além da modelagem matemática, a descrição da tecnologia, história, cultura, indústria, mercado, acidentes e pilotagem. Na imagem vão os livros que formam o núcleo geral da disciplina.

[N.E.: (publicação original: 26.11.2015)]

 

Reconsidering the Bicycle

‘Reconsidering the Bicycle’ (2013) é uma reflexão acadêmica baseada em um conceito chamado Antropologia das Coisas, onde um objeto é colocado no centro e estudado de todos os pontos de vista possíveis. É bem diferente do comumente realizado, pois em geral os acadêmicos usam um único ponto de vista (teoria que dominam) para analisar uma enormidade de objetos diferentes. Já me disseram que o que faço no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’, e que chamo de Motobicentrismo Acadêmico, seria algo parecido com essa tal de Antropologia das Coisas. Sei não… sou tosco demais para saber.

[N.E.: (publicação original: 26.11.2015)]

 

Bosozoku

Um movimento cultural importante foi o formado pelos ‘Bosozokus’ (Tribos da Velocidade), que floresceu nos anos 80 no Japão (origem nos anos 50). Eram jovens de 15 a 17 anos que rodavam em suas motos modificadas, vestidos de kamikazes. Havia briga entre gangues, estupros coletivos, uso de drogas e muitos acidentes. Claro que nada parecido com o que temos no Brasil, mas mesmo assim é um estudo que pode iluminar o nosso entendimento de porque alguns (uma minoria!) jovens se arriscam sobre suas motos. Três livros dedicados a eles são ‘Kamikaze Bikers’, ‘Speed Tribes’ e ‘Bosozoku’. Os livros ‘The Art of Motorcycle’ e ‘Motorcycle’ (Alford e Ferriss) também têm artigos interessantes.

[N.E.: (publicação original: 26.11.2015)]

 

Jaquetas

Etiqueta motoqueirística #35: jaquetas. Um motoqueiro pode viver muito bem com um par de botas, duas calças, três jogos de meias, quatro camisas e quatro cuecas. Sempre lembrando que essas últimas podem ser usadas do lado certo e do avesso, viradas para frente e para trás, antes de serem lavadas. Quanto às jaquetas, a história é diferente, pois fazem parte do seu estilo e você precisa estar preparado para todas as ocasiões: couro marrom para aventuras na natureza, cordura para pilotagem na estrada, jeans para pagar de hipster, nylon fino para o cinema e couro preto clássico para casamentos. Para que durem mais, guarde em um amontoado caótico. Falando sério agora, eu tenho bem poucas roupas, só o mínimo necessário. Mas, ao arrumar meu guarda-roupa para a mudança, fiquei assustado com tantas jaquetas. Isso porque não coloquei a capa de chuva e ano passado doei uma outra de cordura. Curioso como nem percebemos que temos certas neuroses. 8)

[N.E.: (publicação original: 26.11.2015)]

 

Ghost Rider #1

A autopiada do ano: “Eu levo uma vida frugal, não sou controlado pela ideologia do consumo (com exceção dos livros). Creio que somos definidos pelo que produzimos, não por aquilo que compramos”. kkkkkk. Daí eu chego despretensiosamente na livraria e dou de cara com um bloco de anotações com a capa da primeira edição do ‘Motoqueiro Fantasma’. (Ghost Rider #1, 1973). Claro que me curvei ao deus do consumo, sob o pretexto de que aquele era um objeto de primeira necessidade. Claro que me endividei mais ainda e comprei o tal o bloco a preço de ouro: R$ 47. Puts… o império capitalista está cada vez mais sofisticado. Sacanagem, tanto para o meu bolso quanto para minha imagem de motoqueiro despojado. Droga!

[N.E.: (publicação original: 28.11.2015)]

 

Estrada da Fúria

O programa da noite de domingo foi rever ‘Mad Max: Road of Fury’ (‘Mad Max: Estrada da Fúria’, 2015). As estrelas do filme são as ‘Vuvalini of Many Mothers’, um grupo de motoqueiras que resolvem a parada. Não tem para mais ninguém no filme. Por falar nisso, só agora eu percebi uma coisa legal (e óbvia). A personagem principal é a Imperatriz Furiosa, essa aí no centro da foto, que no filme comanda todas as ações enquanto são perseguidas por, e batalham com, quatro outras gangues. O Mad Max não é muito mais que um simples ajudante, um dos soldados. Isso deu para perceber quando assisti o filme no cinema na primeira vez. Só que nunca tinha me ligado no título. Pensando agora, como é protagonizado por uma mulher, é certo que escolheram ‘Estrada da Fúria’ para significar algo como ‘O Caminho da Imperatriz Furiosa’. Legal. 8)

[N.E.: leia mais sobre as Vuvalini’s (publicação original: 29.11.2015)]

 

Sociabilidade ou Solitude?

Será que as bicicletas aumentam a sociabilidade de uma comunidade?

O gostoso de andar de bicicleta é ser a propulsão do veículo, já o gostoso de andar de moto é ser a direção. Mas eu gosto mesmo das duas rodas porque posso ficar em solitude, sozinho com meus pensamentos. Sempre foi assim, desde quando era criança, quando todo dia pegava minha bicicleta para rodar na minha cidadezinha no final da tarde. Depois na adolescência, para praticar esporte na estrada ou passear de madrugada. Na vida adulta, viajando com minhas duas rodas motorizadas. E agora, próximo à velhice, quando uso minha moto e minha bicicleta para vagar por aí. Bicicletas e motos, para mim, nunca foram símbolo de sociabilidade. Muito pelo contrário!

Por isso acho muito estranho quando alguém diz que as bicicletas fazem as pessoas mais sociáveis. Segundo esse argumento, quando todos andarem de bicicleta, automaticamente todos se cumprimentarão e conversarão amenidades. Será? Se fosse assim, as pessoas conversariam nos ônibus e nas calçadas, mas não é isso o que eu vejo.

Uma cidade mais sociável depende de outros fatores, como atividades locais (trabalho, educação, comércio) e mais tempo livre (tempo para conversar com o balconista, com um amigo que você cruza na rua, com o vizinho).

Eu gosto das duas coisas. Bicicletas para ficar em solitude E comunidades integradas com maior qualidade de vida. Só não concordo que as bicicletas causam comunidades integradas e pessoas mais sociáveis. O contrário, sim, eu concordo. Comunidades integradas fazem as pessoas andarem de bicicleta. As bicicletas são o efeito de comunidades saudáveis, não a causa.

Por mim, se um dia tiver a sorte ($) de viver em uma sociedade mais integrada, coisa difícil para um simples trabalhador, irei circular por ela “diapé”, e continuarei reservando minha bicicleta para meditações solitárias.

[N.E.: (publicação original: 01.12.2015)]

 

Culinária

Um dos prazeres da velhice tem sido a culinária. Para variar, tenho até alguns livros sobre o assunto, claro que sempre envolvendo motoqueirismo, bicicletismo e livrismo. ‘Forks’, ‘Feasting on Asphalt’ e ‘Eating Up Italy’ são viagens de moto em busca de boa culinária. ‘The Culinary Cyclist’ é sobre a convergência do vegetarianismo e do bicicletismo no dia a dia. ‘Eating People is Wrong’ foi uma brincadeira minha, já que não tenho nenhum livro de culinária. Na verdade, é um livro que critica, usando o humor, a vida dos acadêmicos do tipo “queijos e vinhos”, “filmes africanos”, “cerveja artesanal”, “sabe para quantos lugares viajei esse ano?” e outros animais que procriam e crescem em campi universitários. 8)

[N.E.: (publicação original: 01.12.2015)]

 

Argumentos Macabros

Argumentos macabros… ou, a que ponto chega a criatividade humana. Vejam só dois argumentos que li ultimamente por aí. Só rindo mesmo. E ganha um doce quem adivinhar quem são os beneficiários dessas falácias.

#1- “O cigarro faz bem para a economia”. Segue a suposta explicação: já que os fumantes morrem mais cedo, eles não usarão na aposentadoria todo o dinheiro que contribuíram na juventude. Isto é, deixarão para a sociedade todo o montante que recolheram mas não retiraram.

#2 – “O uso do carro causa menos emissões que a bicicleta”. Que é defendido assim: uma vez que os ciclistas são mais saudáveis, e, portanto, vivem mais, eles irão consumir muito mais recursos naturais durante suas longas vidas do que os sedentários que morrem mais cedo.

Claro que eu não concordo com esses argumentos. Nem devia repetí-los por aqui, só quis compartilhar as gargalhadas que dou com o cinismo das fábricas de cigarro, das montadoras de automóveis e das exploradoras de petróleo.

[N.E.: (publicação original:
04.12.2015)]

 

Anjos e Demônios

Não tenho a mínima paciência com os que demonizam as motos ou com os que santificam as bicicletas. Motoqueiros e bicicleteiros não são nem anjos nem demônios. São apenas humanos, demasiadamente humanos. São seres em busca do equilíbrio.

[N.E.: (publicação original: 08.12.2015)]

 

Oclismo

Tenho de todos os tipos: óculos para longe, óculos para perto, para meia distância, sol, água, multifocal. Óculos para rodar com a minha moto, óculos para pedalar minha bicicleta, óculos para ler meus livros. Nem sou tão cego assim, algo como 1.25, mas me dá uma agonia danada não conseguir ler ou pilotar da melhor maneira possível. E, sim, eu uso óculos para não entrar com a minha moto pela contramão. Equilíbrio em Duas Rodas é motoqueirismo, bicicletismo, livrismo e… oclismo.

[N.E.: (publicação original: 12.12.2015)]

 

A Última Pedalada

O campus da UFPE fica um silêncio delicioso quando tem algum piquete que impede a entrada dos carros ou então quando é feriadão. No último dia do ano, aproveitei ao máximo para rodar calmamente com a minha bicicleta, só ouvindo os pássaros e as folhas se mexendo ao vento.

[N.E.: (publicação original: 31.12.2015)]

 

Zona Norte

Feriado, trânsito tranqüilo, dá para pedalar até a Zona Norte do Recife, terra dos bacanas. A nata intelectual, artística, política (tanto a pseudoesquerda quando os descendentes dos coronéis), cultural, histórica e tradicional mora toda lá. Já a elite econômica prefere a Zona Sul. Gosto de pedalar na Zona Norte porque tem árvores, asfalto bom, cortesia (relativa) no trânsito, proteção policial, parques etc. O interessante é que essa divisão norte/centro/sul só vale para os ricos. Olhando Recife como um todo, regiões pobres e ricas, essa tal Zona Norte fica no centro, o Centro fica no leste, e a Zona Sul fica no sul. Do ponto bicicletístico, a Zona Norte é interessante pois é o habitat natural da subcultura dos hipsters cicloativistas e neourbanistas. Quando eu crescer quero morar na Zona Norte. Mim também quer ser bacana.

[N.E.: (publicação original: 01.01.2016)]

 

Retrato

Olha só que presente super especial do amigo Renan Alves, lá de Campina Grande. Fábio Magnani e Renata Nunes na estrada, parecendo até o poster de algum filme do Robert Rodriguez. Adoramos!

[N.E.: (publicação original: 01.01.2016)]

 

De Volta à Estrada

Estou morando de novo no Cordeiro. Perdi a ciclovia e o coco de Boa Viagem, ganhei a proximidade do trabalho (4,5 km) e, principalmente, da estrada. Aqueço 3 km e já estou na BR232. Os primeiros 5 km são difíceis, pois o acostamento do Curado (região de indústrias) é todo esburacado. Muitas vezes tive um pneu furado por ali, o que desanima bastante. Depois disso é uma beleza. Na forquilha você pode escolher o norte (via São Lourenço da Mata, BR408) ou o oeste (via Moreno, BR232), os dois caminhos com acostamento bem cuidado, bom para pedalar.

Hoje escolhi o primeiro caminho, que passa por uma matinha bem fresca, como dá para ver na foto. Já foi bem mais gostoso, antes da duplicação – mesmo assim ainda vale a pena. Aos domingos, você encontra todo tipo de ciclista por ali. Os que carregam passarinhos na gaiola, os corredores de lycra, os passeadores como eu, e os trabalhadores.

Por várias razões eu não consegui praticar atividades físicas nos últimos quatro meses. Ganhei cinco quilogramas (o que é terrível para andar de bicicleta) e perdi muito da capacidade cardiovascular (principalmente por não nadar). Por isso, os 25 km de hoje, com velocidade média de apenas 20 km/h, foram um martírio. Tento ver pelo lado bom, essa minha limitação atlética, já que assim posso estudar o comportamento do ciclista comum. Isto é, como os buracos, as subidas, o vento, o sol e as paradas nos cruzamentos aumentam o cansaço de quem precisa pedalar. Brincadeira… é que estou ficando velho e, para falar a verdade, não tenho e nunca tive um biotipo atlético (e tinha tomado quatro latinhas de cerveja quatro horas antes de pegar a estrada).

Bom voltar ao Cordeiro e poder pedalar na estrada novamente, como fazia lá no interior de São Paulo há 30 anos atrás, em Florianópolis há 25, e aqui mesmo no Recife até 2013. Encontro vocês por aí.

[N.E.: (publicação original: 03.01.2016)]

 

Vida de Professor é Difícil

Eu gosto muito de ser professor universitário. Tenho a oportunidade de estudar, pesquisar, dar aula e por aí vai. Só que tem uma coisa que é muito chata: corrigir provas. Por várias razões. Primeiro porque é muito difícil (impossível?) avaliar alguém de verdade. Segundo porque provas levam em conta apenas uma pequena parte do conteúdo e são feitas em momentos específicos (como avaliar de outra forma o aprendizado de 60 estudantes?). Terceiro porque corrigir provas não é uma atividade criativa, é repetitiva e maçante. Agora, essa prova em particular que estou corrigindo tem um quarto aspecto chato. É que em uma das questões os estudantes tinham que calcular o custo mensal com gasolina de um carro convencional que roda 12 km por dia. O resultado foi de R$ 169 por mês! Isso sem contar IPVA, seguro, manutenção, prestações, impostos, construção de vias, acidentes, tratamento dos efeitos da poluição, etc etc etc. Que horror. Bem que dizem que o conhecimento traz a infelicidade. Deixando a brincadeira de lado, espero que esses estudantes aproveitem esse conhecimento – de como os carros atuais são imundos, perigosos e perdulários – para, no futuro, projetarem veículos limpos, baratos, seguros, inteligentes e maneiros. Agora deixa eu voltar para a lida. Lê-rê, lê-rê, lê-rê-lê-rê-lê-rê. 8)

[N.E.: (publicação original: 04.01.2016)]

 

A Volta da Velocidade

Outro dia comentei como rodar apenas 25 km na estrada tinha sido um martírio depois de tanto tempo sem pedalar (e de ter dormido apenas duas horas e tomado algumas cervejas a mais). Bem… no segundo dia passei para 50 km, e com prazer, mesmo com minha bicicleta urbana pesadona. Animei. Tirei minha ‘speed’ do gancho em que estava há quase dois anos e levei para a revisão. Ainda não deu tempo para pegar a estrada, mas só de rodar na cidade já deu gosto. Tive que diminuir a mesa para re-acostumar as costas, quase caí com o firma pé na parada do sinal, e meu batimento foi a 734 BPM. Mas nada que não se resolva com o tempo. Aliás, ninguém aqui está com pressa.

[N.E.: (publicação original: 07.01.2016)]

 

A Mais Completa das Pistas

Pernambuco tem a pista de ciclismo mais diversificada da América do Sul.

As pessoas tem o costume de reclamar das estradas de Pernambuco. Buracos, falta de visibilidade, piso ruim e muito movimento. Como eu já disse dia desses, o começo da minha pedalada na estrada é ruim, pois preciso passar uns cinco quilometros no acostamento do Curado, uma região industrial. Não sei se o acostamento ali é ruim por projeto mal feito, manutenção mal feita ou uso indevido pelos caminhões pesados. Só sei que é um acostamento vergonhoso. Os caras que correm bem, e em grupo, vão pela estrada mesmo. Mas eu, lerdo e solitário, tenho que ir pelo acostamento. O maior problema por ali é uma possível queda e os brochantes pneus furados.

Tento o ver o lado bom. Afinal, que outro lugar do mundo me daria essas condições para treinar, em poucos quilometros, para competições tão diversas como Paris-Roubaix, Giro d’Italia, corridas de cyclocross e pegas de alleycat?

Brincadeira. Na verdade, eu cansei desse primeiro dia de retorno para a ‘speed’, então resolvi passear e tirar fotos nos últimos três quilometros. Estava cansado e com a lombar dolorida. É que a volta para a ‘speed’ tem alguns problemas com postura, força muscular e ritmo. Você fica na postura errada porque não se lembra como é direito, ou então porque simplesmente não tem mais elasticidade para ficar na postura correta. Usa os músculos errados porque não se lembra como é direito, ou então porque os músculos principais estão sem preparo, ou então por causa da postura errada. Mas o principal no meu caso foi a cadência errada (rotação muito baixa), a falta de ritmo (corri demais em algumas subidas, depois não aguentava pedalar no plano a seguir) e desconhecimento da pista (não lembrava quando devia usar ou armazenar energia para o que vinha depois). Não é reclamação, só registro da minha volta à ‘speed’ mesmo. Estou curtindo e não estou com a mínima pressa a ter um mínimo de condicionamento – que no meu caso é mínimo mesmo, por mais que treine. Também, não resisti a zoar da qualidade patética das nossas vias.

Obs.: o título deste ‘post’ é uma referência cultural, pois aqui em Pernambuco tudo tem que ser ‘o maior’ ou ‘o melhor’.

[N.E.: (publicação original: 08.01.2016)]

 

Cycling and Society

Grosso modo, os trabalhos acadêmicos sobre o ciclismo se dividem em quatro grandes abordagens: histórica, esportiva, técnica (infraestrutura, equipamentos) e médica (saúde, acidentes). Embora outras abordagens existam, são relativamente dispersas e desconexas.

O livro ‘Cycling and Society’ (‘Ciclismo e Sociedade’; ed. Horton, Rosen e Cox; 2007) teve como missão abrir novas visões (e.g., cultural, política, filosófica, psicológica) a partir de uma coletânea de pensadores de várias áreas do conhecimento. A ideia deu certo, pois essa é uma das obras mais citadas na área acadêmica do ciclismo – ao lado dos trabalhos de Pucher, Parkin, Herlihy, Pooley, Norcliffe e David G. Wilson. O duro é o preço, já que mesmo usado não sai por menos de US$ 180.

Eles tratam os vários ‘ciclistas’: os que pedalam porque não têm outra opção, os que pedalam para se sentirem ‘maneiros’, os que pedalam porque vivem onde pedalar é mais cômodo do que dirigir, os que pedalam porque querem competir, os que pedalam porque querem passear, os que não pedalam porque não são permitidos, os que pedalam para se divertir, os que pedalam para trabalhar, os que pedalam sozinhos, os que pedalam em grupo, os que pedalam para se diferenciar, os que pedalam para se juntar, os que pedalam para se distanciar – todos eles. Recomendo.

[N.E.: (publicação original: 16.01.2016)]

 

A Bicicleta e o Calor

Hoje saí para pedalar na estrada bem de manhãzinha, assim que o sol nasceu. Levei também bastante água. Ainda bem que eu posso escolher o horário e o percurso em que rodo de bicicleta.

No caminho, enquanto o sol subia, mais uma vez pensei que um dos maiores inconvenientes de pedalar em cidades quentes é o calor. Isso por duas razões: uma social e outra fisiológica. A social é o preconceito contra o suor. Mesmo que moremos em um país tropical, esperamos que as pessoas sempre estejam bem vestidas (cobertas) e fresquinhas.

A razão fisiológica é que pedalar no calor cansa. Cansa muito. O nosso corpo tem que se esforçar muito para manter a temperatura no calor, levando o sangue para uma região mais externa (abrindo os vasos sanguíneos) e evaporando parte da água (abrindo os poros para permitir a evaporação do suor).

Então, vemos que para promover o uso das bicicletas em cidades quentes como o Recife, são necessários três passos.

O primeiro é reconhecer que aqui é quente pra caramba, e por isso não podemos simplesmente copiar cidades mais fresquinhas. Também não adianta ficarmos com chiliques moralistas dizendo que quem não quer suar é elitista. Não é uma questão de caráter. Chegar suado no trabalho traz prejuízos ao trabalhador e pedalar no calor cansa muito.

Segundo, consertarmos essa nossa cultura ridícula de esperarmos que todos estejam sequinhos o tempo todo, como se vivêssemos nos Alpes. Pior ainda, como se morássemos em um hospital – o que representa bem o nosso estado patológico de não aceitarmos a nossa natureza.

Terceiro, podemos sim tornar a nossa cidade um pouco mais fresca, com maior cuidado na preservação das áreas verdes, da manutenção dos fluxos naturais de ar, menos aparelhos de ar condicionado (que esfriam os ambientes internos mas esquentam as ruas) e menos carros (a energia da gasolina vira calor no final das contas).

Enquanto nada disso muda, quem quer pedalar por aqui, e pode escolher o horário, sai logo de manhãzinha, com o sol nascendo. Quer dizer, 5:20 da matina. Ah… também é bom levar muita água.

Ajuda também usar roupas claras e que protejam da radiação solar ao mesmo tempo que facilitem a convecção evaporativa. Em outras palavras, roupas caras e que te deixam diferente dos “não ciclistas” – o que nem todo mundo deseja. É… não tá fácil pra ninguém.

Por tudo isso, vemos que a bicicleta não é perfeita para todas as pessoas, em todas as condições e em todos os lugares. O que não significa que não seja a melhor opção em alguns casos. O que também não significa que as condições (sociais, culturais e físicas) não possam ser mudadas para promover a bicicleta em um número maior de situações.

É importante aprender o que podemos fazer para favorecer a bicicleta (que consome menos, polui menos, mata menos, custa menos) nos casos em que ela é a melhor opção, e não forçarmos a barra, com cruzadas moralistas chiliquentas santificadoras, no caso em que ela não é a melhor opção.

[N.E.: (publicação original: 17.01.2016)]

 


A Bicicleta e a Chuva

Eu adoro a chuva. A chuva que limpa, refresca, diminui a luminosidade e que relaxa. Adoro ler ao som da chuva, correr na chuva, voltar para casa pilotando minha moto na chuva. Adoro andar de bicicleta na chuva. Será?

Bem… quanto a pedalar na chuva eu tenho sentimentos mistos – e claro que esta não seria uma opinião de Fábio Magnani se não contivesse alguma rabugice.

Primeiro algumas considerações. Eu uso a bicicleta principalmente para passeio, esporte e acúmulo de capital cultural, muito pouco para questões utilitárias. Mesmo quando vou ao trabalho de bicicleta, em geral posso esperar parar a chuva, ou escolher ir de carro, ou pagar de salvador do mundo ao livrar os pecados da humanidade só porque pedalo. Por isso tudo, minha relação com a chuva é muito menos problemática do que para quem depende da bicicleta para estar em determinado lugar em determinado horário, principalmente para quem não aumenta seu prestígio social ou político só por pedalar.

Ainda, eu não moro em um local com risco de desabamento ou de alagamento, então acho a chuva um fenômeno lindo. Mesmo as tempestades me acalmam – já que posso me proteger.

Voltando à bicicleta, como eu disse aí em cima, eu adoro a chuva que refresca e que acalma. Mas não gosto de todos os efeitos da chuva. Fico irritado com os meus óculos, que ficam embaçados, dificultando a visão. Segundo, a pista fica escorregadia, o que demanda maior concentração no chão que atrai. Pior, como eu ando com firma pé, fico mais preocupado ainda de dar uma escorregadela e não ter tempo de colocar o pé no chão.

Terceiro, na escola me colocaram um medo danado de água da chuva, que teria leptospirose. Não que isso me impeça de pedalar na chuva, mas não vou negar que penso nisso de tempos em tempos quando a água é jogada para cima. A educação infantil se baseia muito mais no medo do que no esclarecimento. Se você não rezar vai ser assombrado por fantasmas, se você pedalar na chuva vai pegar leptospirose (nem sei o que é isso, mas tenho medo mesmo assim), se você desrespeitar uma autoridade vai ser preso.

O maior inconveniente de pedalar na chuva, no entanto, são os carros. E sinto isso também quando piloto a minha moto. É que os veículos de quatro rodas têm muito mais facilidade em fazer curvas e manobras que os veículos de duas rodas – não só por terem quatro rodas, mas também por terem pneus mais largos e com pressão mais baixa. Em geral a gente não liga muito, pois o fato das motos e bicicletas serem mais leves e compactas acaba compensando a aderência dos carros, nos distanciando deles. Só que na chuva, com atrito mais baixo, a gente sente muito. Os carros ficam relativamente mais ligeiros, colando o tempo todo, nos forçando a andar mais rápido do que gostaríamos. Pior é que você nunca sabe o que tem embaixo de uma poça ou de uma lâmina d´água – e o carro te coagindo a entrar nela sem muito tempo para pensar.

Por essas e outras é que pedalar uma bicicleta ou pilotar uma moto na chuva não é tão legal quanto poderia ser.

Tudo seria muito melhor se as pistas fossem bem cuidadas, se houvesse separação do tráfego de bicicletas, motos e de carros, e se os carangueiros tivessem treinamento para compreender as especificidades dos veículos de duas rodas. Daí seria uma maravilha, teríamos apenas o lado bom da chuva. Pelo menos para quem prefere chuva do que sol, como eu. 8)

[N.E.: (publicação original: 19.01.2016)]

 

Fumaça de Café

O legal de viajar é conhecer ideias novas e pessoas novas, o que convenhamos está cada vez mais difícil com o enlatamento do turismo. Quero dizer, viajar está cada vez mais parecido com assistir a um enlatado da Discovery, onde tudo é pré arranjado. Sim, viajar PODE ser uma grande experiência, mas nem sempre (quase nunca) é. Assim como uma imagem PODE dizer mais que as proverbiais 1000 palavras, mas nem sempre (quase nunca) diz. Bem como conhecer novas pessoas PODE alargar o seu horizonte, mesmo que na realidade a maior parte das pessoas seja bem previsível e mais do mesmo. Livros também entram nessa história. Ler realmente PODE criar novos mundos na sua vida, mas não é só porque está lendo qualquer coisa que isso necessariamente vá acontecer.

Dia desses estávamos passeando em Japaratinga-AL (fomos de carro, pois estávamos com nosso filho), quando paramos para comer um peixe na beira do mar. Havia muitas moscas no restaurante, daí o carinha perguntou se queríamos uma “fumaça de pó de café” para espantá-las. Sem saber o que era, mas incomodados com os insetos, respondemos que sim. O garçom então veio com uma vasilha com pó de café em brasa, que soltava uma fumaça sem cheiro que realmente espantava as moscas. Que legal!

O legal mesmo nesse caso é que ele não vendia aquilo ali como se fosse “cultura local”, “inteligência popular”, “repelente orgânico” ou qualquer outro produto de marketing cultural. Era algo que eles simplesmente usavam por ali e pronto. Ponto final. Pode até ser que eles aprenderam em uma reportagem do Fantástico, ou então que seja a última moda entre os alternativos, mas para nós não importa de onde veio, pois eles não estavam vendendo aquilo para aumentar a nossa “experiência”. O que importa é que foi algo autêntico, não necessariamente original (não sei dizer), e que foi algo novo para nós. 8)

[N.E.: (publicação original: 21.01.2016)]

 

Desertos

Adoro todos os desertos. Os famosos que só têm areia, os mares que só têm água, os espaciais que só têm pedras voadoras, as ruas noturnas que só têm fantasmas, as estradas que só têm a esperança, os clássicos literários que só têm essências. Por isso gosto tanto da minha moto, da minha bicicleta e da minha biblioteca, que me levam para alguns desses desertos. Um par de dias atrás estava uma chuva danada aqui na praia de Japaratinga-AL. Dia perfeito. Pouca luminosidade, temperatura gostosa, barulho de vento e silêncio de gente. Perfeito.

[N.E.: (publicação original: 22.01.2016)]

 

Bikers

Ao contrário das bicicletas, que têm defensores e estudiosos em toda esquina, as motos em geral são representadas de forma bastante simplória, seja negativamente pelos que as condenam, seja de forma ingênua pelos que as consomem. O livro ‘Bikers: Culture, Politics and Power’, de Suzanne McDonald-Walker (2000), é uma das raras exceções inteligentes. Claro que é uma visão parcial, voltada mais para os consumidores de classe média que rodam de moto por escolha – mas já é muita coisa. Afinal, é impossível englobar todos os aspectos de um fenômeno em apenas um trabalho.

[N.E.: (publicação original: 23.01.2016)]

 

Livros Sobre Livros

Essa é uma pequena biblioteca sobre a paixão pelos livros. Sobre o amor pelos livro propriamente, como artefato, não necessariamente pelo seu conteúdo. São: ‘A Gentle Madness’, ‘Library’, ‘A Paixão Pelos Livros’ e ‘A Passion for Books’. Para não fugir das duas rodas, inclui também alguns livros que misturam palavras com viagens (‘A Book of Traveller’s Tales’; ‘A Sense of Place’), com motos (‘Riding With Rilke’; ‘Ghost Rider’) e com bicicletas (‘The Literary Cyclist’).

Esse último não é sobre livros, mas textos sobre bicicletas que aparecem em livros. Foi o que deu para arranjar para a foto em família. Curioso que é difícil encontrar textos sobre bicicletas e o amor pelos livros, provavelmente porque é difícil carregá-los. Os dois de moto também não são exatamente sobre livros, mas pelo menos misturam o ato de pilotar com o pensamento literário. No alforje da moto é mais fácil levar esses amigos pesados, embora a adrenalina ao final do dia na estrada nem sempre traga a calma necessária. Nesse sentido, a endorfina da pedalada é melhor companheira de leitura.

[N.E.: (publicação original: 26.01.2016)]

 

Congestionamento

Qualquer criança sabe das consequências do incentivo exagerado à produção, aquisição e uso de automóveis: congestionamentos, imundície, poluição, acidentes, e muito, muito mesmo, do seu suado dinheiro indo para o bolso do governo, montadoras, concessionárias, construtoras, seguradoras, planos de saúde e petrolíferas. Puts… essa foto deu trabalho.

[N.E.: (publicação original: 30.01.2016)]

 

Capacete de Bicicleta

Um dos assuntos mais polêmicos no mundo das bicicletas é o uso do capacete, que envolve várias dimensões e muitas questões em aberto.

Segurança física durante o acidente. Será que realmente protege no caso de uma queda? E em uma colisão com um carro? Faz alguma diferença nos principais tipos de queda de bicicleta? Por que as competições que aparentemente requerem capacete (e.g., down hill e bmx) usam capacete de moto e não de ciclismo?

Prevenção de acidentes. Quando um carangueiro vê um ciclista com capacete, passa mais perto porque o capacete expressa mais confiança ou passa mais longe porque pensa que o ciclista com capacete é de uma classe mais alta? Um ciclista com capacete, por se sentir mais seguro, se arrisca mais?

Política do medo. O fato de usar um capacete não cria uma mensagem de que é perigoso andar de bicicleta, afugentando quem gostaria de experimentar?

Discriminação. Rodar de capacete ao pedalar é um reconhecimento de que o ciclista é considerado um cidadão de segunda classe, diferente dos pedestres e dos que usam automóveis?

Bem, há centenas de páginas, com milhares de discussões sobre esse assunto. Não sou eu quem vai fechar a questão. Primeiro porque não tenho opinião formada, segundo porque não sou especialista. Mas, para não ficar em cima do muro, vou falar sobre o meu uso particular. Em geral sigo a maré, confiando nas sugestões das autoridades. Uso capacete na moto. Não uso capacete para dirigir carro ou para caminhar, mesmo sendo uma possível vítima. No caso da bicicleta, as autoridades são dúbias. Em geral não obrigam, mas aconselham. Por isso, e também baseado nos artigos acadêmicos que estudo, eu decido caso a caso.

Na cidade eu não uso capacete, pois a velocidade é baixa. Na estrada uso uns tempos, não uso em outros. Minha principal razão para usar capacete na estrada não é a bem a segurança, mas sim a proteção térmica. Esses capacetes protegem do sol e permitem a ventilação ao mesmo tempo, ao contrário dos bonés, que são bem quentes. Por outro lado, me sinto meio inseguro por rodar de capacete, pois as vezes penso que eventuais ladrões de estrada poderiam achar que sou um bacana, e não um pobre professor.

Interessante como uma questão que parece simples pode ter tantos lados e tanta incerteza. Claro que há extremistas nas duas pontas, completamente a favor e totalmente contra, mas não perco meu tempo com quem tem preguiça de pensar.

[N.E.: (publicação original: 30.01.2016)]

 

On the Map

Que explorador, seja urbano ou natural, de moto ou de bicicleta, não é apaixonado pelos mapas? Qual melhor companheiro para te fazer sonhar, te guiar e depois fazer lembrar das andanças?

Adorei o livro “On the Maps” (Simon Garfield, 2013), que conta a história dos mapas desde o tempo dos gregos até hoje em dia. Fala de tudo que pode estar por detrás da construção de um mapa: crenças religiosas, interesses comerciais, domínio político. Tem até mapas de mundos literários fictícios, ladrões de mapas e grandes artistas.

Um ponto que achei bem curioso é que os humanos não conseguem suportar o nada. Bastava uma região desconhecida no mapa, vazia, para alguém logo inventar uma ilha ou uma montanha – que depois por séculos seriam copiadas de mapa para mapa como se fossem de verdade.

Também gosto dos mapas que vêm nos GPS, mas com uma ressalva. Os mapas de antigamente tentavam descrever o mundo, mas não comandavam o caminho do aventureiro. Os mapas de celular de hoje, ao contrário, querem controlar até a esquina em que você vai virar.

Prefiro os mapas antigos mesmo. Afinal, mapas interessantes, assim como as pessoas interessantes, são aqueles que abrem o seu horizonte, criam grandes sonhos na sua imaginação e depois dão várias alternativas de aventura. Bem diferentes dos mapas que tentam restringir todos os seus passos, seja com pouca informação, seja com monstros imaginários.

[N.E.: (publicação original: 05.02.2016)]

 

The Flamethrowers

Estou terminando de ler THE FLAMETHROWERS (Rachel Kushner, 2013) – um livro de ficção, coisa meio rara por aqui ultimamente. Acho que a última boa ficção que li foi em 2012: CLOUD ATLAS, que depois virou um filmão de cinema.

O que me atraiu originalmente ao Flamethrowers (Os Lança-Chamas), claro, foi que tinha moto no meio. Mas depois descobri que o livro é muito mais do que isso. A história se passa a maior parte do tempo nos anos 1970, parte nos EUA, parte na Itália. Vem com toda a mistura daquela época, com as performances artísticas e os movimentos sindicais, a aristocracia européia e a exploração do terceiro mundo, a arte e a engenharia. Outros temas que aparecem são vários -ismos, como o futurismo, o modernismo, o socialismo, o colonialismo e o fascismo.

No meio da leitura, o que chamou a atenção foi a descrição das experiências físicas e emocionais que se tem sobre uma moto – descrição muito difícil na literatura e no cinema -, e, também, a exploração do paradoxo entre a imagem do motociclismo (com sua pretensa liberdade e individualidade) e a produção industrial das motocicletas (que carece de repetição e exploração do trabalho).

No entanto, apesar de tantos temas, como diz a autora em algum local do livro quando comenta um filme que está passando na TV, a história do livro, na verdade, é sobre uma mulher: “O ponto do filme não era a vida difícil em uma cidade mineradora de carvão, embora Sandro tivesse entendido assim, o elemento humano na indústria. A história era sobre uma mulher, sobre se importar ou não se importar com o que acontece com você. Era sobre não se importar realmente”.

O fio condutor da história é a Moto Valera, uma fábrica de motos italiana fictícia, propriedade de uma família tradicional que desde do início do século XX vinha ligada ao Estado se aproveitando de grandes construções de estradas e canais. A protagonista, uma menina americana interiorana, que só quer fazer filmes e rodar de moto, navega (pilota) nas incongruências desse mundo de poder ao conhecer por acaso um dos integrantes de tão aristocrática família.

Em particular, o livro traz três cenários distintos: as tentativas de recordes de velocidade no deserto, a vida artística em Nova Iorque e as batalhas dos Brigadas Vermelhas na Itália.

Bem… nada fácil de explicar essa história, como sempre acontece com os livros bons. Afinal, assim como é impossível descrever a experiência que se tem sobre uma moto, também é impossível descrever a experiência que se tem lendo um livro de verdade.

Ah! A foto é uma montagem minha. Coloquei uma motinha sobre o livro e depois apliquei um filtro. Outra observação legal é que esse livro foi traduzido para o português – só não sei dizer se a tradução ficou boa. Para terminar, li por aí que a autora, assim como a protagonista, também adora pilotar. 8

[N.E.: (publicação original: 20.02.2016)]

 

Frankenstein

Esse foi o cartaz mais legal que já fiz para promover a disciplina ‘Engenharia da Motocicleta’, na edição de 2014. Tentei misturar a imagem técnica das motocicletas enquanto objeto com a imagem meio subversiva do uso que se dá para essas máquinas. O problema é que, ao contrário dos outros anos em que a procura sempre foi muito boa, daquela vez não houve nenhum matriculado. Será que foi por causa da propaganda com o monstro Frankenstein? Eu pensava que sim, mas depois o amigo Roberto Nogueira escreveu que talvez o ‘monstro’ de verdade tenha sido a forma como representei a matemática da motocicleta. Se foi isso, os estudantes não precisavam se preocupar, pois a disciplina é bem tranquila para quem já fez mais da metade do curso de engenharia mecânica.

[N.E.: (publicação original: 24.02.2016)]

 

Detalhes

Eu não dou muita importância para a capa ou para a encadernação dos livros que compro. Na realidade, até prefiro capas lisas, para não atrair curiosos sobre a minha intimidade intelectual enquanto leio; e até prefiro livros de capa mole, pois são mais leves para segurar.

Gosto é dos detalhes que diferenciam os livros, principalmente os livros usados, que vêm com dedicatória, autógrafo, marcações, anotações, ex libris, marca d’água e até cartão com a lista de quem já pegou aquele livro emprestado na biblioteca.

Os livros novos têm poucas personalizações possíveis, por isso gosto de prestar atenção nos detalhes, como por exemplo nos marcadores de livro que as livrarias enviam junto com os pacotes.

Agora a pouco parei para me distrair da leitura do ‘Critical Geographies of Cycling’ – obviamente um livro sobre bicicletas. Meus olhos caíram sobre o marcador que tinha sido enviado de uma livraria lá de Londres. E não é que no meio de tantas figuras não havia uns ciclistas minúsculos passeando pelos livros?

Não sei se foi coincidência, ou se essa livraria é famosa por apoiar bicicletas, ou se foi capricho de quem fez o pacote ao escolher um marcador do mesmo tema. Só sei que gostei. Muito. A vida está nos detalhes. 8)

[N.E.: (publicação original: 24.02.2016)]

 

A Origem das Bicicletas

Precisamos conversar sobre de onde vêm as bicicletas

Ao contrário do USO das bicicletas, que é sim local e sustentável, a sua produção deixa muito a desejar. A bicicleta é um dos maiores exemplos da globalização. A coisa é mais ou menos assim.

PRODUÇÃO. As grandes varejistas (e.g., Walmart) ou as grandes “marcas” (e.g., Schwinn) decidem que bicicletas serão vendidas no próximo ano. Elas então entram em contato com agentes asiáticos, que contratam grandes fábricas, que por sua vez subcontraram pequenas fábricas que têm muito pouco cuidado com questões trabalhistas, de segurança e ambientais. Como o mercado é controlado pelos compradores, não pelos fabricantes, é chamado de oligopsônio, não de oligopólio.

TRANSPORTE. Depois disso vem o transporte, já que as bicicletas precisam sair das fábricas asiáticas para chegarem nas grandes lojas. Esse transporte é feito por grandes navios que queimam combustível a base de petróleo.

VENDA PELOS VAREJISTAS. Para o negócio valer a pena, todo ano as atacadistas e as grandes marcas lançam ‘novas tecnologias’, ‘novos designs’, ‘novas culturas’, ‘novos movimentos’, e ‘novos tipos’ de bicicletas, que fazem com que as antigas sejam descartadas e novas bicicletas compradas.

VENDA PELAS PEQUENAS LOJAS. As pequenas empresas locais não conseguem competir com essa grande indústria, seja na fabricação, seja na venda. Para sobreviverem financeiramente, essas pequenas empresas locais também jogam o jogo, apostando em produtos de “novíssima tecnologia” (de utilidade duvidosa) ou de forte apelo cultural (em geral, fortalecendo “culturas” simplesmente copiadas das grandes empresas de marketing).

A verdade, sabemos então, é que as bicicletas não são construídas pelo Papai Noel para serem entregues no dia do Natal.

Precisamos quebrar essa imagem de que TUDO relacionado às bicicletas é fofinho, pois só dessa maneira poderemos corrigir os problemas E aproveitar as vantagens das bicicletas.

Isso não acontece apenas no Brasil. Todos os países ficaram reféns dessa indústria globalizada.

O que podemos fazer como consumidores? Algumas sugestões são: (1) comprar a bicicleta pela sua utilidade – não pela sua marca ou pelo seu preço – e usar a bicicleta o maior tempo possível fazendo a manutenção correta.

Para isso, precisamos prestigiar as bicicletarias locais, tanto por causa do conhecimento que eles (presumivelmente) têm para nos fazer recomendações da melhor bicicleta para o nosso caso, tanto pelo serviço de manutenção.

Só que as bicicletarias precisam ajudar também!

Pois se não fizerem um bom serviço, nos enganando com modismos ou deixando a bicicleta estragar só para venderem mais peças, daí é melhor comprar as bicicletas asiáticas mesmo.

[N.E.: (publicação original: 28.02.2016)]

 

Xadrez em Duas Rodas

Um dos meus hobbys do passado era, toda hora do almoço, estudar um pouco de xadrez. Até lia sobre o lado técnico: ataques e defesas, aberturas, meio de jogo e finais, combinações, táticas e estratégias; mas o que gostava mesmo era conhecer algo sobre os próprios enxadristas, tanto os famosos quanto os anônimos. Aqui no Brasil as pessoas preferem jogar dominó, damas ou truco. Tudo bem, mas a verdade é que achei super legal quando viajávamos de moto pela Argentina e muitas vezes víamos pessoas jogando xadrez nas praças.

Outro hobby que tenho é assistir filmes, de preferência no cinema. Principalmente quando é um filme surpresa, do qual nada sei de antemão. E foi isso que aconteceu no último sábado, quando eu e a Renata fomos assistir ao filme “O Dono do Jogo”. Pelo cartaz tínhamos percebido que era algo sobre xadrez, mas só quando começou é que vímos que se tratava do histórico combate entre o americano Bobby Fischer e o russo Boris Spassky.


Trailer

Já tinha lido a história em 2004, no livro “Bobby Fischer Goes to War” (Bobby Fischer Vai à Guerra”). No filme eles meio que ridicularizam o russo Spassky e incensam demais o povo americano, o que é meio chato mas de certa forma representa bem como a história foi contada no ocidente naquela época de guerra fria. O livro é bem mais legal, mostrando os dois lados: dois indivíduos valorosos cada um tentando viver sob um regime opressor.

Meus dois livros preferidos sobre xadrez são duas ficções: “The Queen´s Gambit” e “Carl Haffner´s Love of the Draw”. O primeiro mostra a história de uma garota com dificuldades de adaptação na sociedade dita normal (isso foi um elogio à menina!), e que usa o xadrez para poder viver. O outro é baseado na história de Carl Schlechter, um grande mestre austríaco que vivia em enorme dificuldade financeira, precisando do xadrez para sobreviver. O seu “amor pelo empate” na verdade representava a necessidade de subsistir em condições adversas.

Bem, assim como o motoqueirismo, o bicicletismo e o livrismo, o xadrez também é uma grande metáfora para a vida. Para quem tiver interesse sobre o mundo do xadrez, seguem alguns livros legais na lista abaixo.

The Queen’s Gambit: A Novel
Carl Haffner’s Love of the Draw
The Royal Game & Other Stories
The Defense
The Tower Struck by Lightning
The Chess Artist: Genius, Obsession, and the World’s Oldest Game
Bobby Fischer Goes to War: How the Soviets Lost the Most Extraordinary Chess Match of All Time
Emanuel Lasker: The Life of a Chess Master
The Human Comedy of Chess A Grandmaster’s Chronicles
Kings, Commoners and Knaves Further Chess Explorations

[N.E.: (publicação original: 02.05.2016)]

 

Só Sei Que Nada Sei

Há 20 anos atrás, no dia 03 de maio de 1996, eu recebia o meu título de doutor. Alguns anos antes, quase no mesmo dia, 02 de maio de 1992, eu me formava engenheiro mecânico.

Junto com os dois diplomas, dentro de um envelope pardo, eu mantenho guardado um cartão com três palavras gregas: σοφία (gr. sophía: sabedoria), φιλο + σοφία (philo+sophía: amor à sabedoria) e φιλο + τιμία (gr. philo+thimía: amor às honrarias).

Sempre volto a esse cartão para nunca me esquecer a diferença entre essas três palavras, para nunca me esquecer que o caminho do meio é o correto. Pois uma coisa é ter sabedoria (não tenho), outra coisa diferente é amar a sabedoria (eu amo), e outra muito diferente é amar as honrarias (são fúteis).

Um doutorado não deve ser tomado como um sinal de que tal pessoa possui sabedoria, muito menos que aquela pessoa merece algum tipo de honraria. Muito pelo contrário, o doutorado é um título bastante humilde. Significa apenas e tão somente que quem o possui pretende dedicar a sua vida à contemplação (estudo), à busca (pesquisa), à inspiração (ensino) e à utilização (extensão e cidadania) do conhecimento. Na prática, o título de doutor é apenas uma autorização para que alguém possa fazer parte do corpo acadêmico de uma universidade. É um ingresso, nada mais.

Eu tenho muita sorte de viver em um tempo em que a humanidade está disposta a gastar parte dos seus recursos para manter as universidades, que são instituições dedicadas à sabedoria. Tenho também muita sorte de viver em um país no qual um garoto qualquer pode subir os proverbiais degraus acadêmicos até fazer parte do corpo acadêmico de uma dessas instituições acadêmicas.

Hoje e amanhã são os aniversários desses meus dois diplomas. Gostaria de compartilhar esse grande contentamento por poder dedicar a minha vida a este amor pelo conhecimento. E não que isso seja algo de especial em relação a qualquer outro tipo de trabalho que qualquer outra pessoa realize. Não é. Só que é especial para mim, pois é o que eu gosto de fazer. Feliz aniversário, caros diplomas. 8)

[N.E.: (publicação original: 02.05.2016)]

 

Congestionamento Experimental e Computacional

Há várias teorias e modelos computacionais que tentam explicar o comportamento do tráfego. O problema de testá-los é que o tráfego real é bastante complicado, mudando de momento a momento. Em 2008, um grupo de pesquisadores conseguiu montar um experimento controlado bem simples, que permite a verificação dos modelos computacionais. Em particular, o experimento demonstrou que os congestionamentos podem ser formados mesmo sem qualquer obstáculo (e.g., buraco, carro quebrado, semáforo) na rua. Isso ocorre pela certa aleatoriedade nas frenagens. Para quem quiser brincar um pouco com essas simulações, segue também um microsimulador computacional que permite mudar a velocidade dos carros, a agressividade dos condutores e outras variáveis. Ah… e para quem quiser fazer o seu próprio simulador, tem também um link para o livro do Treiber.

[N.E.: saiba mais sobre o experimento, o artigo, o simulador computacional e sobre o livro de modelagem (publicação original: 10.05.2016)]

 

Domesticação

Um artigo polêmico sobre homens, mulheres e bicicletas foi publicado em 2007. Trata-se do oitavo capítulo do livro ‘Cycling and Society’, ‘Men, Women and the Bicycle’ (Mackintosh and Norcliffe). Polêmico porque, em geral, os artigos sobre mulheres e bicicletas no final do século XIX trata aquele movimento como progressista, emancipador e conflituoso. Já Mackintosh e Norcliffe, ao contrário, defendem que a maior parte das mulheres burguesas naquela época estava mais tentando domesticar a cidade do que simplesmente se emancipar. Quer dizer, não teria sido apenas um movimento de emancipação das mulheres para que pudessem aproveitar a cidade que antes era só dos homens, mas sim um movimento de tomada e transformação completa da vida na cidade, que antes era imunda, violenta, caótica e promíscua, e, talvez, também mais livre e divertida. Polêmico! Segue um trecho do prefácio do livro ao comentar o capítulo em questão:

“Temas como auto identidade e construção social também estão evidentes nas preocupações de Phillip Mackintosh e Glen Norcliffe, no Capítulo 8, ao tentarem desvendar as complexidades de ciclismo e gênero no final do século XIX. As narrativas existentes do ciclismo nesse período tendem a enfatizar o ciclismo entre as mulheres como simbolizando oposição e resistência ao patriarcado, assim como sobre a luta pela emancipação das mulheres (Holt 1989, 121-4; Simpson 2001). Essas narrativas ressaltam como o uso da bicicleta pelas mulheres permitiu mudanças progressistas, por exemplo, nos códigos de vestimenta, de conduta e mobilidade. Mackintosh e Norcliffe desafiam essas narrativas. Eles vêm o ciclismo das mulheres no final do século dezenove relacionado com conformidade e restrição, ao invés de conflito e emancipação. Para Mackintosh e Norcliffe, as mulheres norte americanas burguesas no fim do século estavam lutando para domesticar a esfera pública – para “civilizá-la” de acordo com valores conservadores, cristãos e feminizados. Há então em curso uma feminização da cidade, mas isso decorre não tanto via uma crítica política aberta sobre a marginalidade das mulheres, mas sim como uma domesticação da esfera pública pela implantação de qualidades femininas sobre ela. Um aspecto que a análise de Mackintosh e Norcliffe ilumina é como diferentes grupos usam a bicicleta no esforço para alcançarem seus objetivos específicos; a narrativa deles sobre as mulheres no passado lutando para domesticar a cidade através do ciclismo certamente traz à mente tanto os ambientalistas de hoje tentando ‘esverdear’ a cidade pelo uso das bicicletas (Horton, 2006), quanto os anarquistas modernos buscando subverter a cidade e seus ritmos automobilizados através de protestos ciclísticos (Ferrell, 2001; Carlsson, 2002).”

[N.E.: (publicação original: 10.05.2016)]

 

Excesso de Velocidade

Eu costumo andar pela cidade de moto, de carro e de bicicleta. Por isso, creio ter uma certa noção de onde é mais ou menos perigoso para o ciclista. Lá no Cais Santa Rita, por exemplo, nos finais de semana, logo depois do almoço, há poucos carros e também poucos ciclistas (sol a pino). Sem contar que quem se mete por ali é em geral mais adulto e experiente, já que é um lugar meio que no meio do nada. Para reforçar meu argumento, por ali a ciclofaixa é relativamente longe da via. Por isso, muito embora eu sempre ande devagar perto das ciclofaixas quando estou de carro ou de moto, por acreditar ser um local seguro para os ciclistas, nem me toquei que ali a velocidade também era reduzida no domingo, de 60 para 40 km/h, por causa da ciclofaixa de turismo e lazer.

E não é que tomei uma multa? Correta, claro.

Mesmo assim, por ser humano, assim que recebi a multa preparei uma grande desculpa para limpar moralmente a minha consciência. Pensei comigo mesmo: tudo bem existir uma lei genérica sobre a velocidade naquele trecho, mas pelo menos eticamente estou tranquilo já que não havia risco algum. Pô… a rua estava completamente vazia. E não é que ao examinar a foto direito vi que tinha um ‘miserávi’ de um ciclista bem ali do ladinho do carro? Sacanagem do ciclista! Lá se vai a limpeza que estava fazendo na minha culpa! Por outro lado, considerando que havia um portal multidimensional na frente do carro, como se vê na foto, então talvez… Melhor parar com as desculpas. Não tem jeito. Eu também cheiro mal. 8)

[N.E.: (publicação original: 11.05.2016)]

 

Gibiteca em Duas Rodas

Como eu disse um pouco acima, eu costumava ter uma grande gibiteca lá nos anos 80/90, com mais de uma centena de graphic novels. Deixei lá em Florianópolis quando mudei para o Recife. Agora venho construindo uma outra pouco a pouco, ligada às duas rodas. É o começo de uma pequena gibiteca dentro da minha biblioteca. Seguem os títulos:

Motorcycle Samurai: Volume 1 – Chris Sheridan
The Humans: Volume 1 – Humans for Life – Tom Neely and Keenan Marshall Keller
The Humans: Volume 2 – Humans Till Deth – Tom Neely and Keenan Marshall Keller
Tokyo Ghost: Volume 1 – Atomic Garden – Remember, Murphy and Hollingworth
Steve McQueen: Full-Throttle Cool – Dwight Zimmerman
The Reason for Dragons – Chris Northrop and Jeff Stokely
The Beats: A Graphic History – Harvey Pekar
The Bicycle – Cheah Sinann
Paper Girls – Brian K. Vaughan and Cliff Chiang
Yehuda Moon and The Kickstand Cyclery – Rick Smith

[N.E.: (publicação original: 23.05.2016)]

 

Contraste

Por que será que as ambulâncias andam com sirene ligada? Por que será que as motos andam com a luz acesa? Por que será que os ciclistas pedalam com roupa colorida? Para chamar a atenção. Claro! No caso das ambulâncias, elas precisam chamar atenção porque há alguém que necessita de cuidados especiais dentro dela. No caso das motos e das bicicletas, elas precisam chamar atenção porque são veículos frágeis que também necessitam de cuidados especiais dos outros veículos que trafegam pelas ruas. Como será que eles conseguem essa atenção? Fácil, né? Fazendo mais barulho que o restante do tráfego ou então se tornado mais visíveis que os outros veículos. Ou seja, a ideia, simples e genial, é que chamem mais a atenção que os outros veículos. Porque precisam de cuidados especiais. Porque são frágeis.

Tudo certo até aqui no meu raciocínio?

Bem, daí alguém esperto, sob o pretexto de que “segurança nunca é demais” teve a incrível ideia de fazer com que todos os veículos passem a chamar atenção. Como assim? Se todos os veículos chamarem a mesma atenção, então nenhum vai chamar a atenção! Não é mesmo? Pois é. Só que agora, com a aprovação da lei 13290/2016, todos os carros terão que rodar pelas estradas com os faróis acesos, o que significa que chamarão mais a atenção que as motos e que as bicicletas. O que significa que diminuirão a atenção que antes era voltada para as motos com faróis acesos e para os ciclistas com roupas coloridas.

Vai dar errado. É sabido que, em época de chuva, quando os carros rodam com luz acesa, aumentam as colisões com motocicletas, bicicletas, cadeirantes e pedestres. Isso ocorre exatamente porque os carros aumentam seu contraste em particular, diminuindo o contraste de quem mais precisa. Bem, já não bastasse as autoridades recomendarem que os carros circulem com luz acesa na cidade em dias de chuva, agora vem essa lei obrigando todos os carros a circularem o tempo todo com luz acesa nas rodovias. Será que pensaram nos motociclistas? Será que pensaram nos ciclistas? Será que pensaram nos pedestres? Parece que não.

Parabéns aos carangueiros, que agora estão mais seguros com essa nova lei. Aos motociclistas, ciclistas, pedestres e cadeirantes, só posso desejar boa sorte.

COMENTÁRIOS:

#1-Talvez um dia alguém tenha a ideia de não permitir que carros saiam de fábrica com velocidade maior que 120 km/h, já que essa é a velocidade máxima no Brasil. Mas daí as vendas de carros potentes diminuiria, os lucros diminuiriam, os impostos diminuiriam, o consumo de combustível diminuiria…

#2-O Brasil é um país especial em relação ao tráfego. Em geral, os países ricos não têm motos e os países pobres não têm carros. O Brasil, diferentemente, tem tráfego misto com muitos carros e também com muitas motos, o que não permite copiar simploriamente a legislação de outros países.

[N.E.: (publicação original: 25.05.2016)]

 

Bicicletas e Cachorros

Sobre bicicletas e cachorros

Hoje na minha pedalada matutina na estrada peguei uma chuva danada, com direito a chuveirada de ônibus e de caminhão. Em geral não gosto de pedalar na pista escorregadia, mas desta vez algo me acalmava. Demorei para perceber que era a ausência dos malditos cachorros. Pois é, se tem uma vantagem pedalar na chuva é que os cachorros ficam com preguiça de seguir a gente.

Gosto dos cachorros que gostam de mim: Diana, Pixote, Kika e Catatau. Não gosto nada dos que me olham atravessado. Principalmente esses cachorros que perambulam pelas estradas no final da madrugada, procurando confusão com os ciclistas. Sei que eles devem estar ali porque estão com fome, estão desamparados, ou talvez seja da sua própria natureza. Só que o que parece é que me perseguem só por diversão, só para ver a minha cara de assustado, torcendo para eu me estatelar no chão. Posso estar enganado sobre isso, mas é muita coincidência que a velocidade deles seja só um pouquinho menor que a minha, suficiente para me fazer fugir em disparada, mas insuficiente para terem que me morder de verdade.

Ultimamente fui perseguido dois dias seguidos por matilhas de quase uma dezena de cachorros. Na última delas, quando vi estava pedalando em uma subida a 45 km/h, o que é muito para um velhinho pesado como eu. O coração quase saiu pela boca.

Por falar em subida, claro que eles só correm atrás da gente na subida, né? Porque é a parte que nós estamos mais devagar. Safados esses bichos.

Outro dia estava em uma subida quando dois cachorros começaram a latir. Eu acelerei a pedalada, mas mesmo assim o som ficava cada vez mais próximo. Pedalei mais ainda. Nada de afastar os bichos. Só pensei: desta vez não vai ter jeito, vou levar uma mordida. As latidas cada vez mais perto, quase no meu ouvido. O final era inevitável. Não haveria escapatória. Ou eu cairia, ou seria mordido, ou teria um infarto. E eu nem tinha me despedido pela última vez dos meus filhos. Adeus mundo cruel.

Era só esperar o fim. Só que, dali a pouco, os dois cachorros, ao invés de me atacarem, simplesmente me ultrapassaram. Como assim? Isso mesmo. Os putos estavam em cima do reboque de um carro, latindo para mim só de sacanagem.

Agora, falando sério, por mais que eu reclame, se eu fosse cachorro faria exatamente a mesma coisa, mataria o meu tédio correndo atrás dos ciclistas bobalhões. Mas só em dia que não estivesse chovendo. Ninguém é de ferro.

[N.E.: assista a cena do ‘American Flyers’ com o cachorro perseguindo as bicicletas (publicação original: 26.05.2016)]

 

Corridas de Bicicleta

Tem horas que até parece que a gente assiste as corridas de bicicleta para ver o visual, a torcida, os carros de apoio, as motos dos batedores e os novos recordes que o doping químico vem produzindo ano a ano. Isso sem contar os efeitos duvidosos dos produtos que são propagandeados nos uniformes e nos comerciais durante a transmissão. Falando só da poluição, tem ainda os helicópteros que fazem as imagens aéreas, os caminhões de apoio e os aviões que transportam as equipes de esportistas e de jornalistas. Tem também as bicicletas que eles usam, que não acrescentam nada às necessidades dos ciclistas de verdade que se movem diariamente pelas ruas das cidades. Esportivamente, há o moralmente condenável uso de equipes para ajudar na proteção aerodinâmica dos líderes. Parece ser um bom negócio.

Ah.. e que fique claro que eu adoro corridas de bicicleta. Desde que seja uma corrida de bicicleta, i.e., vários ciclistas pedalando nas estradas para ver quem chega primeiro, usando para isso o melhor equipamento que a mente humana puder produzir. Sem carros, sem motos, sem helicópteros, sem regras que limitem o desenvolvimento das bicicletas.

[N.E.: veja uma notíca sobre acidente de moto com bicicleta durante uma corrida (publicação original: 28.05.2016)]

 

Fotografia Histórica

Extra! Extra! Em um furo de reportagem investigativa, o Jornal Equilíbrio em Duas Rodas descobre uma foto histórica do grande acadêmico italo-brasileiro Dante Magnani estudando as motos e as bicicletas. Alguns meses depois, ele seria flagrado no meio de gibis.

[N.E.: (publicação original: 30.05.2016, foto na banca de 09.10.2016)]

 

Dislexia

Sobre a elite disfarçada de povo. Entre as coisas que mais me incomodam estão os que defendem o desenvolvimento orgânico das cidades mas que estão sempre com um plano arquitetônico ou urbanístico prontinho dentro da pasta; os que vomitam discursos sobre a liberdade das bicicletas só que através de discursos moralistas cheios de ‘tem que’ e ‘não pode’; os que defendem os movimentos populares desde que sejam devidamente representados por comissariados e comitês escolhidos a dedo; os que defendem a arte popular desde que o povo apareça só como objeto representado nunca como produtor da arte nunca convidado para as vernissages; os que defendem a inteligência das pessoas comuns mas que só fazem congressos em locais elitistas e fechados forçando a barra para que o mundo real caiba nas suas mini teorias e mini ideologias. Nesse sentido, adoro o texto que encontrei no livro ‘Bike Art’ (Kiriakos Iosifidis, 2012):

“Chega. Meu espaço público não precisa de advogados autonomeados nem de abordagens acadêmicas. Meu espaço público não precisa de embelezamento nem de reconstruções verbais. Ele é disléxico, perturbado e insuportavelmente feio. É que ele foi deixado aos seus próprios meios para se tornar como é. E assim como ele, eu.”

Ou, como diria Renato Russo:

Ei, menino branco, o que é que você faz aqui?
Subindo o morro pra tentar se divertir
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
Agora você quer que eu fique assim igual a você
Por que você não me deixa em paz?
Por que você não me deixa em paz?

Embora eu tenha uma origem popular e tenha posses populares, minha personalidade introspectiva e a doutrinação acadêmica que usaram na minha educação formal certamente não me deixam (infelizmente!) ser um popular. Em outras palavras, sou um pobre metido a besta. O que não significa que eu não possa me incomodar com quem também não é popular mas finge ser.

[N.E.: (publicação original: 01.06.2016)]

 

Bike Art

Um dos destaques da minha biblioteca é o livre livro “Bike Art – Bicycles Around the World” (Kiriakos Iosifidis, 2012). E quando digo que é um dos meus preferidos, não é somente entre os de bicicleta, ou entre os de duas rodas, nem mesmo entre todos os que tenho na minha biblioteca sobre os mais variados assuntos. É um dos livros que mais gosto entre todos os livros que existem. Simples assim.

É dividido em várias partes: Arte Urbana (principalmente murais, usando técnicas diversas), Pinturas (pinturas de bicicletas e pinturas nas bicicletas), Ilustrações-Desenhos (posters, gravuras), Tatuagens (a pele como tela), Esculturas (composições tridimensionais), Tipos (dedicada a designs diferentes), e Extras (com performances de cicloativistas, acessórios, e curiosidades).

Se tivesse só as fotos já seria muito legal, mas tem muito mais. Tem a biografia dos artistas, contando como suas vidas são pautadas pelas bicicletas. Tem uma penca de textos contando (tentando contar) os pensamentos por trás das obras de arte. Tem as diferentes personalidades dos artistas: tímidos, elitistas, gregários, ativistas, mães de família, guerreiros urbanos.

O mais legal, no entanto, é que não há julgamentos. Há feminismo e exploração do corpo feminino como objeto, há anarquia e ordem urbana, há cafés chiques e viadutos em desgraça. Também não há qualquer tentativa de ser representativo de toda a arte bicicletística, nem representativo de todos os artistas do mundo, nem representativo de todas as técnicas já inventadas. Não é um livro acadêmico, é um livro de arte.

Não há julgamentos. Afinal, a arte pode até ser uma ferramenta do ativismo e do estudo urbano, mas não pode estar a serviço destes. A arte deve estar acima de tudo, entranhada em tudo, destruindo e descobrindo a base de tudo. Se não for livre, se não for total, então não é arte.

[N.E.: (publicação original: 01.06.2016)]

 

As Culturas do Bicicletismo

A chuva aqui no Recife está bem forte. Como a cidade fica no nível do mar, basta uma chuva média coincidir com a maré alta para encher tudo. Lá se vai minha pedalada de amanhã.

Por sorte chegou mais um livro para a minha biblioteca, “Cycling Cultures” (Peter Cox, ed.; 2015). A ideia é usar as ferramentas dos Estudos Culturais (uma área das Ciências Sociais) para estudar o bicicletismo. É o que eu tento fazer nas minhas disciplinas ‘Estudos da Bicicleta’ (graduação) e ‘Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas’ (pós-graduação) na UFPE.

Parece ser um livro legal. São oito capítulos de diversos autores falando sobre a teoria social, a diversidade das políticas da bicicleta, a diferença entre a retórica e a prática, e por aí vai. Pelo o que está escrito na contracapa, ele é mais voltado para a Inglaterra e a Holanda, mas tá valendo.

Boa pedalada para quem está na época de seca, boa leitura para quem como eu está no tempo de chuva.

[N.E.: (publicação original: 03.06.2016)]

 

As Culturas do Motoqueirismo

Dia desses, comentei aqui no Equilíbrio em Duas Rodas sobre o estudo do bicicletismo sob a ótica dos Estudos Culturais, quando falei do livro do Peter Cox. Não posso deixar então de mostrar mais uma vez um dos livros que mais me influenciaram nas duas rodas. É o ‘Motorcycle’ (2007), dos professores Steven Alford e Suzanne Ferriss. Além de professores, eles também são editores do ‘International Journal of Motorycle Studies’, no qual publiquei um dos artigos dos quais mais tenho orgulho, contando um pouco dos motoboys para o pessoal dos outros mundos.

Quando li esse livro ‘Motorcycle’, logo na primeira página aprendi que qualquer fenômeno cultural pode ser visto de muitos pontos de vista diferentes, usando muitos sistemas de valores. Foi ali que aprendi que existia a tal área Estudos Culturais, que me levou ao livro ‘Cultural Studies’ (Chris Barker, 2008), que por sua vez alargou minhas ideias sobre Materialismo, Articulação, Poder, Cultura Popular, Textos e Leitores, Subjetividade, Identidade, Marxismo, Culturalismo, Estruturalismo, Pós-Estruturalismo, Pós-Modernismo, Psicanálise, Feminismo, Pós-Colonialismo, Questões de Raça e Etnia, Subculturas, Ideologia, Reducionismo, Complexidade, Economia, Tecnologia, Globalização, Estado, Governo, Movimentos Sociais, Nacionalismo, Sexo, Arte, Televisão, Internet, Audiência, Performance, Espaço Urbano, Estilo, Política Cultural, ufa, e por aí vai.

Foi então a partir desse livro dos professores Alford e Ferriss que montei as disciplinas ‘Estudos da Bicicleta’, ‘Estudos da Motocicleta’ e ‘Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas’. É uma tentativa de trazer um pouco das humanidades para um curso de engenharia. É uma tentativa de abrir a mente dos estudantes (e principalmente a minha!) para outras possíveis visões desses artefatos de duas rodas. Não tenho nenhuma pretensão de encaixar o que fazemos dentro dos cânones teóricos dos Estudos Culturais. São disciplinas anárquicas, nada normalizadoras. É o que posso fazer.

Por falar nelas, ainda não descobri se o certo seria ‘Estudo da Motocicleta’ (um estudo apenas do conceito motocicleta), ‘Estudo das Motocicletas’ (um estudo apenas sobre todas as bicicletas), ou ‘Estudos da Motocicleta’ (vários estudos sobre o conceito motocicleta). Escolhi esse último, mesmo sob o risco de parecer um erro de concordância. Mas acho que pode estar certo, já que existe, por exemplo: ‘Estudos da Bíblia’. Sei lá.

Aumentando agora o escopo da discussão, as três áreas que mais gosto de estudar são Filosofia, Física e Sociologia. Por razões diferentes. A Filosofia porque simplesmente não tenho escolha. Como todas as crianças, nasci com curiosidade filosófica, mas por algum tipo de retardo mental jamais consegui me livrar dessa curiosidade, de deixar de me sentir fascinado pelo universo. A Física porque tem a ver com movimento, com vida, com os motores, com as bicicletas, com as motos, com as transformações de energia, porque é meu trabalho e ainda bem que gosto. A Sociologia porque é a minha lente para entender as pessoas, já que por personalidade tenho muito pouco contato empírico com seres humanos organizados.

Há várias vantagens de estudar humanas sendo da engenharia, de ser um leigo simplório: não preciso citar os grandes referenciais teóricos, não preciso enquadrar os meus pensamentos em caixinhas acadêmicas, posso esconder o pouco da teoria que conheço por trás de textos mais literários e, principalmente, posso me dar o luxo de ser o mais completo burro nessas áreas e mesmo assim continuar feliz na caminhada, ou pedalada, ou motocada.

Sobre os Estudos Culturais, vejo dois perigos. Primeiro, eles dão valor demais para as relações entre Cultura e Poder, o que é legal. Mas às vezes eles super glorificam o poder das subculturas ou, então, por outro lado, agigantam demais as ideologias hegemônicas. Tudo bem, não estou aqui dizendo que não existe o poder ou que não existe a reação ao poder. Só que uma coisa é observar o poder como Nietzsche o fazia, distinguindo o poder do universo, o poder da arte e o poder da mesquinharia (termos meus). Outra coisa é ver o poder de uma forma mais neurótica, como Foucault, para o qual todo poder é uma forma de controle a serviço da mesquinharia. O segundo risco é a tal pós-modernidade. Gosto muito da complexidade, da relatividade e da adaptabilidade, que são marcas registradas desses novos tempos. Mas não gosto quando esse argumento é usado para dizer que nada pode ser estudado, que nada pode ser julgado, que nada pode ser priorizado. Afinal, uma coisa é reconhecermos nossas limitações de compreender o mundo, outra bem diferente é ficar em cima do muro, é tirar o furico da reta, é não ter opinião.

[N.E.: (publicação original: 04.06.2016)]

 

Livros, Professores, Música e Motos

Não tenho mais muita paciência para livros de ficção. No máximo leio por interesse acadêmico quando falam de motos, bicicletas ou livros. Mas abro uma exceção para um subgênero chamado ‘Campus Novel’ (algo como Romance de Campus), que são histórias meio dramáticas, meio satíricas, que falam da vida dos professores universitários. Lá estão todas as nossas manias, nossas maluquices, nossas estranhezas, nossas reuniões, nossas viagens, nossas honrarias, nossas solidões, nossas lutas sindicais, nossas vidas, nossas risadas, nossos romances, nossas intrigas. Tenho uma mini biblioteca com uns trinta títulos desse tipo.

Hoje estou lendo ‘Rookery Blues’ (John Hassler, 1995). É a história de cinco professores de uma faculdade americana nos anos 60. Cada um com sua personalidade, cada um com sua área de conhecimento, não podiam ser mais diferentes. Mas quando se juntam para formar um quinteto musical, as coisas começam a fazer mais sentido.


Mood Indigo

A parte que estou lendo agora fala de um sábado de chuva, como aqui, em que passam o final da tarde ensaiando a música ‘Mood Indigo’. Adoro quando o autor fala sobre a música que os personagens estão ouvindo, ou, melhor ainda, como neste caso, tocando. Putz… você coloca a música para rolar na sua casa e até parece que está lá no meio deles, ouvindo a chuva lá fora, lançando sorrisos e trocando palavras.

Outro detalhe interessante é que comprei esse livro usado, por apenas US$ 3.99. Gosto de saber que o livro que está em minhas mãos já teve uma vida de aventuras além daquela que está escrita em suas páginas.

Para não dizer que não tem moto nem bicicleta neste post, tempo atrás li um livro que juntava ‘Campus Novel’ com Motoqueirismo: ‘Throttling the Bard’ (‘Acelerando o Bardo, Jay Barry, 2010). Os dois personagens principais são Don Vendicarsi e Quentin Mann. A história se passa nas redondezas de Las Vegas, onde foi criada a “Faculdade Escolástica, Tecnológica e de Dança” para lucrar com as dançarinas dos cassinos. No começo do livro, a administração de um banco descobre que o professor Vendicarsi havia, durante muitos anos, alterado o cadastro de alunos carentes para facilitar que conseguissem crédito educativo. Ele era uma espécie de Robin Hood universitário. Tinha sido divertido enquanto ninguém descobrira, mas agora o banco queria reunir-se com ele para uma conversa séria, em Reno, dali dois dias. Desta vez Vendicarsi não tinha escolha a não ser cumprir a ordem dos poderosos. Para companhia, convidou Quentin, um doutorando da faculdade, para pegarem a estrada juntos. Para encurtar uma longa história, na curta viagem de moto por 500 milhas, os dois personagens conseguiram queimar a fazenda de um culto religioso, sequestrar uma menina de 17 anos, demolir o andar de um prédio com bomba caseira, confundir uma rebanho de ovelhas com um exército, passar uma noite no deserto bebendo peiote, corrigir todos os erros gramaticais que encontraram nos banheiros, puxar briga com um motoclube inteiro e se hospedar em um bordel onde a cafetina era graduanda em literatura. Tudo isso enquanto a polícia perseguia os dois por achar que eram os maiores criminosos que já passaram pelo estado de Nevada. Difícil resumir tudo por aqui. Mas, para se ter uma idéia, o livro tem sido descrito como uma mistura de Dom Quixote, Easy Rider, Pulp Fiction e On the Road.

Voltando ao ‘Rookery Blues’, em outro momento do livro, após um dia de greve, brigas e romance, o quinteto passou a ensaiar “Don’t Blame Me”. Teve que ser na casa de Leland, já que o campus foi fechado. Depois percebi que cada um dos capítulos tinha o título de um jazz que eles ensaiavam: These Foolish Things, I´ll Get By, Mood Indigo, Don´t Blame Me e My Blue Heaven.

[N.E.: conheça melhor os livros Rookery Blues e Throttling the Bard, veja a minha minha mini-biblioteca e aprenda o que é o tal do campus novel (publicação original: 04.06.2016)]

 

Ainda Sobre Livros Acadêmicos

Dia desses comentei que estava lendo o livro ‘Rookery Blues’ (1995, Jon Hassler). Assim que terminei peguei a sua continuação, ‘Dean´s List’ (1998). No nosso mundo foi escrito três anos após o primeiro, mas no universo da história se passa 23 anos depois, no início da década de 1990.

Comprei os dois livros em 2011. Usados. Em geral gosto de examinar os livros assim que chegam do correio, ver se o dono antigo deixou alguma marca interessante ou se já foi de alguma biblioteca. Tem alguns que vem até com a ficha de leitores, o que já é uma história em si mesma. O que me lembra de algo que li sobre o Projeto Manhattan, no qual os Estados Unidos convocaram os maiores cientistas, engenheiros, administrados e militares do país para construir a bomba atômica. Era algo tão secreto que os integrantes, ao aceitarem o convite, não podiam contar para ninguém que estavam indo para Los Alamos, que fica no estado do Novo México. Assim que aceitavam o convite, eles iam simplesmente desaparecendo, deixando os jornais e os amigos perplexos com o sumiço de tanta gente inteligente. Só que, toda vez que alguém era convidado, ia direto para a biblioteca pegar um guia turístico para descobrir onde afinal ficava essa tal cidade chamada Los Alamos. De forma que o que era para ser super secreto ficou então singelamente registrado na ficha de empréstimos do livro da biblioteca. Bastava qualquer novo convidado pegar o livro emprestado para saber onde todos os outros cientistas estavam.

Voltando ao livro ‘Dean´s List’, ele por alguma razão foi para a estante sem que eu pudesse examinar direito. Talvez tenha sido uma época em que eu estava mais ocupado, preocupado ou algo assim. O certo é que só agora vi que era uma cópia autografada pelo próprio Jon Hassler, que ficou escondida nas minhas coisas até que o peguei nesta semana. Assim dá bem mais gosto ler. É como se o autor não tivesse morrido em 2008.

Esse tipo de coisa me faz pensar em como certas pessoas são completamente imbecis – não apenas parcialmente imbecis como todos nós. Tentam passar a vida juntando dinheiro, construindo prédios, mendigando relações com gente importante, ganhando comendas, participando de eventos, tudo para ser destruído poucas horas depois das suas mortes. Se alguém quer realmente ser grande, que pense em ficar para a posteridade a partir das suas ações e das suas palavras. É a única forma.

Por falar em livros de professores, acabei me empolgando para fazer uma lista com os livros que tenho sobre a vida acadêmica. Tem de tudo um pouco: ficção, escrita, biografias e até livros sérios. Acho bem interessante estudar, tanto a partir da visão literária quanto da mais acadêmica, sobre os vários sistemas que formam a universidade: político, administrativo, acadêmico e simbólico. Ainda, como cada um desses sistemas é formado por vários subsistemas paralelos, como o político, por exemplo. Tem a política dos gabinetes e a política das reuniões públicas, a política interna dos departamentos e a externa dos órgãos financiadores. Quando você vê como esses vários subsistemas variam na história, tudo fica bem mais interessante ainda.

Falando um pouco do livro, ‘Dean’s List’ continua contando a vida de uma faculdade no interior dos EUA, assim como no primeiro volume. Por ser um campus novel, mostra os dramas, as comédias e as tragédias dos professores de lá. Interessante que pode até ser em outro país e em outra época, mas as angústias e as felicidades dos indivíduos são as mesmas que por aqui. Outra curiosidade é que o livro foi editado pela Ballantine Books, da família do Richard Ballantine, que escreveu talvez o mais famoso dos livros sobre o bicicletismo: ‘Richard’s Bicycle Book’, editado e reeditado entre 1973 e 2001. No mais, recomendo o livro ‘Dean´s List’. Não é tão cômico ou grandioso como os outros da minha lista, mas consegue mostrar bem o lado humano dos professores universitários. É um bom livro para ler no domingo à tarde. 8)

[N.E.: (publicação original: 19.06.2016)]

 

A Moto Urbana Perfeita

A Moto Urbana Perfeita

No início do semestre, na disciplina Engenharia da Motocicleta (UFPE), os estudantes tiveram que pesquisar alguma moto do mercado, analisar suas virtudes, seus defeitos, e defender porque seria ‘A Moto Urbana Perfeita’. Todos aspectos deveriam ser vistos, como a probabilidade de vencer no mercado, produção local ou importação, sustentabilidade, segurança, ética, marketing, design, e por aí vai. Foram quatro grupos, que defenderam mais ou menos o seguinte:

Grupo 1: e-bike, por ser mais limpa.

Grupo 2: moto 125cc convencional, mas com bastante investimento em equipamentos e acessórios de segurança

Grupo 3: Honda Grom, por ser uma moto divertida.

Grupo 4: moto 50cc convencional, já que é o tipo mais barato.

Vários pontos levaram para a elétrica: maior probabilidade de apoio governamental (investimento no desenvolvimento da tecnologia e isenção fiscal), simplicidade (é muito mais simples construir um motor elétrico do que um motor de combustão interna) e ética tecnológica (nossa empresa se preocupa com o meio ambiente e com a segurança de seus clientes). Penso que é impossível concorrer com a Honda com uma moto com motor de combustão interna. Não estávamos pensando como consumidores, mas sim como empreendedores.

Como todas as motos propostas tinham inconvenientes (preço, segurança, poluição, etc), no final do nosso pequeno workshop tentamos propor uma moto que juntasse as boas características de todas as propostas. Resultou em uma moto com o design da Grom, com propulsão elétrica, baixa velocidade e tecnologia de comunicação entre veículos para evitar as colisões. Legal que agora a Suzuki lançou uma ideia parecida com a que chegamos no seminário, a Extrigger. Falta a tecnologia V2V, mas significa que tem bastante gente pensando na mesma direção.

[N.E.: (publicação original: 19.06.2016)]

 

Picasso e Duchamp

Dois dos maiores artistas do século XX usaram peças de bicicleta para suas obras. Pablo Picasso com ‘Cabeça de Touro’, Marcel Duchamp em ‘Roda de Bicicleta’. Os dois artistas não podiam ser mais diferentes sobre o papel da arte:

“Se nós apenas pudéssemos arrancar nosso cérebro e usar apenas nossos olhos.” (Pablo Picasso, o Pintor)

“Eu estava interessado em ideias, não em produtos visuais. Eu queria colocar a pintura novamente a serviço da mente”. (Duchamp, o Cérebro)

Tudo bem, os dois podem ter até sido grandes rivais conceituais. Problema deles. Nós ficamos com o trabalho dos dois! Melhor ainda que usaram bicicletas.

[N.E.: leia sobre Picasso vs. Duchamp, Bull´s Head e Bicycle Wheel(publicação original: 21.06.2016)]

 

Filmes, Tragédias e Paixões

Outro dia escrevi sobre livros que tenho lido que falam da vida dos professores universitários. Eles formam uma pequena biblioteca de uns trinta livros que fica dentro da minha biblioteca maior. Ao buscar na internet outros títulos, os livros me levaram aos filmes, os professores aos escritores, e, quando vi, estava olhando para uma lista de filmes que gosto muito: ‘Uma Simples Formalidade’, ‘Garotos Incríveis’, ‘Encontrando Forrester’, ‘O Escritor Fantasma’ e ‘Meia-Noite em Paris’. Sem contar alguns filmes que eu nem sabia que existiam, como ‘A Fome’, baseado em um dos meus livros preferidos, escrito por Knut Hamsun.

Nessa lista de filmes sobre escritores aparecia um poster em miniatura para cada filme comentado. Claro que o que mais me chamou a atenção foi um que tinha uma mulher bonita na capa, e claro que ela estava pilotando uma moto – uma mobylette para ser mais exato. Era um tal de ‘Lucía y el Sexo’ (‘Lúcia e o Sexo’, 2001), que eu nunca tinha ouvido falar.

Acabei de assistir agora. O filme usa o sexo para representar o início do romance, mas depois passa para outros temas, como a confiança, o amparo, ou então a falta destes.

Lucía é uma mulher bonita que se apaixona por um escritor em crise, o sexo é ardente, o mar é presente, há cenas de restaurante e de estrada, a trilha sonora é linda, tem pelo menos uma tentativa de suicídio, o filme é europeu, Lucía tem cabelo curto e vai atrás do homem que deseja.

Impossível não lembrar de um outro filme que tem todos esses assuntos, ‘Betty Blue’ (1986). Assisti assim que mudei para Florianópolis, e de certa forma condensa boa parte das minhas recordações que tenho de lá, principalmente dos anos em que estava na graduação. Gostava mais e me lembro mais do inverno, principalmente quando era dia de vento sul, pois o frio deixava as praias desertas – bem melhor assim! Minhas praias preferidas eram Naufragados, Pântano do Sul, Barra da Lagoa e Solidão.

Assisti ‘Betty Blue’ no Centro Integrado de Cultura, de onde eu ia caminhando da minha casa sempre que podia. A trilha sonora do filme se tornou minha companheira para sempre. Em vinil no começo, depois em CD, e agora no celular. Sempre presente.

São dois filmes com muitas semelhanças, mas com algumas diferenças importantes. ‘Lucía y el Sexo’ tem mais personagens e conta uma história mais longa. ‘Betty Blue’ é mais estético, é aqui e agora. Ainda, Lucía é um raio de sol. Betty, ao contrário, é blue.

‘Lucía y el Sexo’ me lembrou também de um outro filme que gosto muito, ‘Voyager’ (1991), que é baseado no livro ‘Homo Faber’ (Max Frisch, 1957). Os dois falam de filhas, de desencontros e, principalmente, de como não podemos fugir do nosso destino, que não há coincidências e que, lá no fundo, livre arbítrio é apenas uma ilusão.

‘Voyager’ é com a Julie Delpie, que também fez os meus preferidos ‘Before Sunrise’ (‘Antes do Amanhecer’, 1995), ‘Before Sunset’ (‘Antes do Anoitecer’, 2004) e ‘Before Midnight’ (‘Antes da Meia-Noite’, 2013). Filmes que agora me fizeram lembrar de Ethan Hawke: ‘Dead Poets Society’ (‘Sociedade dos Poetas Mortos’, 1989), ‘Gattaca’ (1997) e ‘Boyhood’ (2014). O próximo filme dele, que já está na minha lista para assistir, é ‘Born to be Blue’ (2015), sobre a vida do Chet Baker, que foi um dos maiores artistas do jazz de todos os tempos, com sua música calma que escondia sua vida violenta.

Outra diferença entre ‘Lucía y el Sexo’ e ‘Betty Blue’ é a imagem. O primeiro é mais movimentado, vivo; já o segundo é contemplativo, com a câmera andando bem lentamente pelo cenário. Um livro super legal sobre essas diferenças é ‘How to Read a Film’ (‘Como Ler um Filme’, 2009), que fala de tudo em relação aos filmes: teoria, estética, política, economia, linguagem, filosofia, técnica, indústria e por aí vai.

Quando alguém faz uma busca com os dois filmes, da Lucía e da Betty, encontra que o que têm em comum é o erotismo, as cenas de sexo explícito. Não concordo. Os filmes apenas retratam a paixão inicial, que sempre, sempre, é bastante sexualizada.

Na verdade os dois filmes são tragédias. Tragédias no sentido nietzschiano, dionisíaco, que mostra como nada mais somos que frágeis barcos flutuando em um mar revolto. ‘Lucía y el Sexo’ é uma tragédia sobre forças externas, ‘Betty Blue’ internas. A mensagem final, no entanto, não é de desconsolo. São tragédias que mostram que a arte, no caso o cinema e a literatura, nos permite tanto ter consciência da nossa insignificância quanto contemplar a grandiosidade do universo.

‘Lucía y el Sexo’ é muito bom, mas não bom o suficiente para entrar na minha lista dos dez filmes preferidos, onde ‘Betty Blue’ é rainha.

Por outro lado, Lucía anda de moto, Bettty não. E agora?

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TRAILERS:
Lucía y el Sexo
Betty Blue
Voyager
INFO:
Lucía y el Sexo
Betty Blue
Homo Faber
Voyager
Julie Delpie
Ethan Hawke
MÚSICA:
Betty Blue [soundtrack]
REFERÊNCIA:
How to Read a Film
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[N.E.: (publicação original: 25.06.2016)]

 

Faculty Towers

O final de semana prolongado coincidiu com a chegada do livro ‘Faculty Towers – The Academic Novel and Its Discontents’ (‘Torres Docentes – O Romance Acadêmico e os Seus Discontentes’, 2005), de Elaine Showalter. Deu para ler entre uma jogada e outra de videogame com meu filho.

Para começar, um pouco sobre o título, que traz falsos cognatos e referências. ‘Faculty’ no caso americano é o corpo docente (professores e pesquisadores) de uma universidade ou de um ‘college’, não a faculdade como um todo; por falar nisso, para eles ‘College’ é o que nós chamamos de faculdade, não um colégio de ensino médio; ‘Novel’ é o termo que usam para o nosso romance literário, não significa novela de TV; ‘Ivory Tower’ (‘Torre de Marfim’) é um termo bíblico usado para designar um ambiente de busca intelectual desconectado das preocupações práticas do dia a dia, mas nos EUA é também meio que um apelido para as universidades; a autora escolheu o título ‘Faculty Towers’ em referência ao livro ‘Barchester Towers’ (Trollope, 1857) e ao programa de TV ‘Fawlty Towers’ (não sei do que se trata); o trecho do título ‘… and its discontents’ vem do livro mais lido e importante do Freud (‘Civilization and Its Discontents), mas a referência neste livro não é diretamente freudiana, sendo usada em alguns momentos para o descontentamento dos docentes e suas famílias com o ambiente acadêmico, e em outros para o descontentamento dos jovens dos anos 60 com a estrutura arcaica das universidades; ‘Academic Novel’, ou ‘Campus Novel’, é um subgênero literário que fala sobre a vida acadêmica, principalmente do ponto de vista dos professores.

‘Faculty Towers’ é um livro relativamente fino (124 páginas), com a visão pessoal da autora Elaine Showalter. Bem legal que ela mistura a vida acadêmica dela com os livros que analisa. Mais legal ainda é que ela conta como aqueles livros foram importantes para ela, por bem ou por mal, para saber como um professor universitário deveria falar, se vestir, agir, e não agir. Hoje em dia há um monte de guias sobre isso, livros sérios, mas na época dela os romances literários eram a única opção.

O livro é dividido em seis décadas, que servem tanto para mostrar a evolução do subgênero literário quanto das próprias universidades reais. Um ponto interessante que ela coloca é que em geral aqueles livros refletiam mais a década anterior à que foram publicados, não a década corrente. Por exemplo, só nos livros dos anos 70 é que os conflitos sociais e culturais nascidos nos anos sessenta passaram a ser representados, assim como só nos anos 80 o feminismo e o pós-modernismo dos anos 70 apareceram com mais força.

O capítulo ‘Ivory Towers’ (‘Torres de Marfim’, anos 50s) mostra o final da época em que as universidades eram vistas como elitistas e isoladas. ‘Tribal Towers’ (‘Torres Tribais’, 60s) vem com o crescimento das universidades e sua consequente subdivisão em departamentos. ‘Glass Towers’ (‘Torres de Vidro’, 70s) fala dos livros que retratam a abertura da universidade para outros pensamentos, culturas e classes sociais. ‘Feminist Towers’ (‘Torres Feministas’, 80s) com mulheres no papel de protagonistas. ‘Tenured Towers’ (‘Torres da Estabilidade’, 90s) no qual a difícil carreira docente é exposta, e também com o tema do assédio sexual bem presente. ‘Tragic Towers’ (‘Torres Trágicas’, 2000s) traz a entrada de grandes autores para o gênero acadêmico (e.g., Francine Prose, Philip Roth e Saul Bellow), juntamente com uma visão mais áspera e realista.

Uma preocupação da autora é a representação das mulheres nessas histórias. Nada mais natural, já que ela é uma feminista teórica renomada. Ela reclama um pouco das feministas estereotipadas, mas na verdade fala isso sobre todos os professores retratados, independente do gênero. Como eu disse antes, ela não escreve apenas como teórica, mas também como professora, como estudante, e como esposa de professor, criando uma visão bem rica.

A foto que acompanha este texto é o prédio em que trabalho. Uma construção modernista imponente, que provavelmente foi escolhida por representar o progresso que se espera de um centro de tecnologia (CTG). A UFPE tem muitos outros prédios, alguns com mensagens bem diferentes, como o prédio da faculdade de direito, bem antigo e tradicional. Mas talvez o mais emblemático seja o prédio do CFCH (Centro de Filosofia e Ciências Humanas), que aparece na minha foto entre o livro e o capacete. Infelizmente, esse prédio é conhecido por ser palco de vários suicídios. Não sou capaz de compreender muito menos explicar porque isso ocorre por ali, mas penso que torna o prédio bastante simbólico dos paradoxos da vida acadêmica, que por um lado propõe levar a humanidade aos céus, mas que nesse caminho às vezes leva algumas pessoas ao desespero.

Voltando ao nosso assunto, ‘Faculty Towers’ não é um livro profundo sobre a vida acadêmica. É apenas um livro sobre livros literários, livros que na maioria das vezes trazem apenas sátiras ou idealizações. Mesmo assim é um livro importante, pois alarga a nossa visão sobre essa vida dedicada ao conhecimento, que ora promete o paraíso, ora remete ao inferno.

Particularmente, eu gosto mais dos livros dos anos 60/70/80, com suas sátiras ao pós-modernismo exagerado, ao turismo acadêmico, aos professores celebridades, à desesperada vida sexual nos congressos acadêmicos e por aí vai. Mas meu preferido mesmo é ‘Straight Man’ (‘O Homem Quase Perfeito’, 1998), do Richard Russo.

REFERÊNCIAS:
Elaine Showalter
Faculty Towers
Ivory Tower
Vida Acadêmica no Equilíbrio em Duas Rodas

SOBRE O SERIADO FAWLTY TOWER
Vídeo
Informação

[N.E.: (publicação original: 27.06.2016)]

 

Sobre as Irregularidades

Sábado é dia de tomar cerveja com os amigos imaginários, aqueles que vivem dentro dos livros.

Aqui no mundo real não dou bola para onde moram meus amigos, se é em um barraco no morro, uma casa em cima da árvore ou um gigantesco condomínio popular. Da mesma forma, também não ligo para a forma do livro onde moram os meus amigos fictícios.

Acontece porém todavia que, como eu gosto de ler deitado na rede quando estou em casa, segurando o livro para cima, não curto muito as encadernações de capa dura, já que são mais pesadas. Só que não vou negar que tenho uma certa quedinha quando o livro de capa dura vem com a margem irregular, do tipo ‘deckle’. Não sei como se chama essa técnica em português (na verdade não sabia nem como se chamava em inglês ou alemão até uns cinco minutos atrás), mas olhem o que descobri na wikipedia.

Antes do século XIX, todos os livros eram assim, já que as páginas eram feitas individualmente, colocando a pasta líquida dentro de um molde. Como eles não conseguiam vedar totalmente esse molde, parte da pasta vazava pelas bordas, fazendo com que cada folha ficasse com um tamanho um pouquinho diferente. Claro que as folhas podiam ser cortadas depois, mas isso encarecia o livro, então em geral não faziam. Daí, no início dos anos 1800s, as folhas de papel começaram a ser fabricadas em rolos. Como então tinham que ser cortadas de qualquer maneira, passaram a ter tamanho regular, todas iguaizinhas, como estamos acostumados nos livros de hoje em dia. E não é que daí em diante ter páginas irregulares fez os livros serem considerados chiques? Volta e meia compro algum livro usado com essa tal de margem ‘deckle’, como esse que estou lendo agora aí da foto.

Na hora que tirei essa foto, no livro eles estavam em um bar chamado Hit-Hat, em Pittsburgh, tomando todas e dançando a música Shake a Tail Feather. Um detalhe que eu gosto desse livro é a jovem estudante e talentosa escritora Hannah, que sempre está com suas botas de cowboy vermelhas, independente do resto da vestimenta. Os carros do livro são bem legais também. Um Citroën DS 23 conversível vermelho e um Galaxie verde 1966.

Outro detalhe foi que minha cópia usada veio com o carimbo de uma biblioteca, deixando claro que ele teve bastante história antes de chegar nas minhas mãos.

Não sou um materialista, mas assim dá mais gosto de ler, um livro com margens irregulares. Isso tanto pelo toque quanto pelo visual. Da mesma forma com as cervejas. Em geral não tenho frescuras com marcas, fabricações artesanais ou fontes d’água. Mas quando o amigo de dentro do livro é daqueles bem inventados, viro até um dinheirista ao caçar moedas perdidas para comprar alguma cerveja que promete ser especial.

[N.E.: (publicação original: 03.07.2016)]

 

How Colleges Work

Contei outro dia como gosto de livros de ficção que se passam nas universidades. Além dessas histórias inventadas, que dão bastante cor para a vida vivida nos campi, também gosto muito de estudar as universidades, tanto observando a prática do dia a dia, quanto lendo os livros teóricos.

Acabei de ler o livro ‘How Colleges Work’ (‘Como as Faculdades Funcionam’). Embora o livro seja de 1988, dá para tirar uma ou outra lição. Estou brincando, aprendi prá caramba.

Ah… é sempre bom lembrar que ‘college’ para os americanos não é o nosso colégio, mas sim ‘faculdade’; então dá para ver que se trata de uma análise das instituições de ensino superior, não de ensino médio.

O autor apresenta a universidade em toda a sua complexidade. Para começar, cria quatro faculdades/universidades fictícias. Uma pequena, ‘Heritage College’, em que todas as decisões são tomadas em colegiados. Já ‘People’s Community College’ é totalmente burocrática. Depois vem ‘Regional State University’, em que tudo é decidido pela política. Por último temos ‘Flagship University’, uma anarquia organizada. Em cada uma dessas instituições, ele comenta as vantagens e desvantagens de uma universidade funcionar de um jeito ou de outro.

Mais para o fim do livro, mostra que as universidades reais são um conjunto de todas essas, com decisões tomadas por consenso em colegiados, por articulações políticas, baseadas em regras escritas e na tradição. Ele propõe então uma tal de universidade cibernética, formada por um conjunto de subsistemas autorregulados quase autônomos que seriam tanto responsáveis pela estabilidade das universidades frente a crises quanto pelo seu poder inovador para aproveitar as oportunidades.

Outro aspecto legal do livro é a visão que o cara tem dos vários sistemas que formam as universidades: sistema político, burocrático, social, técnico e simbólico. Quando funcionam, para ele, esses sistemas devem buscar a racionalidade (sistema burocrático), o consenso (sistema colegiado), a paz (sistema político), e sentidos e propósitos (sistema simbólico).

Logo no começo do livro, explica como as universidades são diferentes das empresas. Empresas têm um objetivo único (lucro), enquanto as universidades têm vários objetivos (e.g., diversidade, excelência) de difícil quantificação. Ainda, empresas são sistemas fechados, enquanto as universidades são sistemas abertos que sentem a influência externa em todos os seus níveis. Mais, nas universidades a posição hierárquica na administração certamente não é sinônimo de status e de competência (muito pelo contrário!). Finalmente, os empregados das universidades não podem ser facilmente deslocados para outros setores. Todos esses fatores fazem com que técnicas de administração desenvolvidas para as empresas não possam ser usadas nas universidades.

Outra diferença é que, nas universidades, os empregados (professores) representam vários papéis e têm vários interesses. São professores, administradores, sindicalizados, fazem parte de um conselho profissional e de uma disciplina acadêmica. O livro ainda diferencia professores cosmopolitas (muito mais ligados a redes externas) e professores locais (mais comprometidos com o funcionamento da instituição). Os dois são importantes.

Tem muito mais, como a importância apenas simbólica (não instrumental) dos grandes líderes acadêmicos, a visão da universidade como um sistema complexo adaptativo não-linear, a limitação cognitiva dos seres humanos, as manias, como os conflitos nascem quando os “líderes” burocratas tentam forçar mudanças simplórias, como os novos professores que entram influenciam na cultura do local, e por aí vai.

Como é um livro com uma visão mais forte na administração, comenta como o papel do líder é compreender a universidade a que serve. Afinal, cada universidade tem uma cultura diferente, está sujeita a um ambiente externo diferente, tem uma história diferente e é formada por pessoas diferentes. Além disso, analisa como líderes que se acham mais inteligentes que a coletividade ou então que escondem informações são perniciosos para as universidades. Em outras palavras, um líder em um coletivo tão diverso como a universidade não tem tanta influência no que dá certo, mas pode fazer grandes estragos. O líder de verdade compreende a organicidade da sua instituição e a deixa florescer.

Não é daqueles livros cheios de certezas e respostas. Muito melhor, é daqueles livros que abrem sua mente. Recomendo muito.

[N.E.: (publicação original: 10.07.2016)]

 

Universidades na América e na Europa

Hoje é dia de sorte. Depois de muito tempo chegaram, exatamente no mesmo dia, dois livros sobre as universidades. Demoraram tanto assim porque são cópias que comprei usadas e que foram enviadas por correio comum. ‘A History of the University in Europe – Volume IV – Universities Since 1945’ (2011) conta todas as mudanças que ocorreram nas universidades européias desde ao final da segunda guerra mundial, como a expansão para acomodar a crescente demanda, mudanças causadas pelas revoltas sociais, e a absorção de certos valores empresariais na sua governança. ‘Higher Education in America’ (2015) fala particularmente das universidades americanas, tanto do ponto de vista do ensino da graduação, da profissionalização e da pesquisa. Interessante que os dois livros não se limitam à elite das universidades, pois cobrem todo o sistema de educação superior. Coisa para ler com tempo.

[N.E.: (publicação original: 15.07.2016)]

 

The Professor

‘The Dresser’ (2015) é um puta filmaço do caralho, com Ian McKellen e Anthony Hopkins. A história se passa no último dia de vida de um velho ator shakespeariano, durante sua última apresentação da peça Rei Lear.

Uma curiosidade é que o Anthony Hopkins considera seu personagem preferido o motoqueiro Burt Munro. Segundo ele, os dois têm o mesmo estilo de vida. Legal.

De forma meio triste, muito alegre, o personagem de Anthony Hopkins me lembrou o Professor Ney Quadros. Autêntico, apaixonado, excêntrico, inteligente e exuberante. Por vezes ele era ridicularizado pelos imbecis, mas não é essa sempre a regra na reação que os medíocres têm dos especiais?

Bem, sendo eu apenas mais um entre os simplórios, só posso dizer que o Prof. Ney Quadros foi a única pessoa que conheci na UFPE – ao contrário do bando de carreiristas do lattes na melhor das hipóteses e burocratazinhos limitados na pior – que realmente fez jus ao título de Professor com ‘P’ maiúsculo.

Boa noite, caro amigo, esteja onde estiver.

[N.E.: assista ao trailer e saiba mais sobre o filme (publicação original: 24.07.2016)]

 

Get Lost!

Alguns anos depois de chegar na UFPE ajudei a fundar um grupo de pesquisa chamado GET, o Grupo de Engenharia Térmica, que era formado por meia dúzia de professores que pesquisavam fenômenos como transferência de calor, transporte de massa e mecânica dos fluidos. Com o passar do tempo, em 2010 achei melhor sair desse grupo para formar o LOST, o mundialmente desconhecido Laboratório de Otimização de Sistemas Térmicos e de Estudos Sobre Bicicletas e Motocicletas. Nunca havia feito a ligação, mas quando contei essa história para um estudante, ele começou a dar muita risada. Isso porque juntando os dois acrônimos aparecia a expressão ‘GET LOST’, que em inglês é algo bem rude, algo como um ‘vá embora’ quase em tom de ‘vá se f****’.

Então, mesmo que a coincidência fosse engraçada, sempre deixei a coisa meio de lado, pois certamente o meu sentimento em relação a esses dois grupos não tinha nada de agressivo. Muito embora, não vou negar, eu tenha escolhido sim o ‘LOST’ porque iria seguir o meu próprio caminho dali em diante. Solitude, introspecção, liberdade, independência, tudo bem, mas certamente nada belicoso.


Let´s Get Lost

A vida segue. Estamos agora em 2016. Acabamos de assistir ao filme ‘Born to Be Blue’, aquele sobre o Chet Baker que comentei outro dia. Depois que o filme acabou, uma música não queria sair da minha cabeça de jeito nenhum. Sem escolha, para me livrar dela e poder dormir, fucei na internet até descobrir que se chamava ‘Let´s Get Lost’. ‘Get Lost’? Como na união dos meus dois grupos de pesquisa? Seria uma música hostil? Pela melodia não parecia. Ao estudar a letra, vi que o tal ‘get lost’ nela não significava ‘vá embora’, mas algo como ‘vamos nos perder’. O Chet Baker cantava para a sua amada: vamos nos perder nos nossos braços, vamos dizer ao mundo que somos loucos, para celebrar esta noite nós encontramos um ao outro… vamos nos perder.

Pronto, agora que conheci outra possível interpretação para a expressão ‘get lost’ posso então recontar a história dos meus estudos com calor e energia, com leituras e palestras, com motos e bicicletas, com experimentos e modelos teóricos. O meu ‘Get Lost’ não é ‘Vá embora! Me deixa sozinho!’. O meu ‘Get Lost’ é ‘Deixa eu me perder’. Gostei.

Depois de ler este texto, um um amigo me ensinou agora há pouco que um poeteiro americano famoso, um tal de Roberto Congelado (‘Robert Frost’), teria dito que ‘Poetry is What Gets Lost in Translation’ (‘Poesia é aquilo que se perde na tradução’).


I Get Along Without You Very Well

E por falar em Chet Baker, outro dia estava ouvindo o JazzRadio em um dos raros dias que vou ao trabalho de carro quando começou uma música familiar, mas em um arranjo e interpretação que eu não conhecia. Depois reconheci ‘I Get Along Without You Very Well ‘ uma das minhas músicas preferidas com o Renato Russo. Adoro a letra: “Estou indo muito bem sem você, claro que sim. Exceto quando as gotas de chuva caem das folhas e eu me lembro como é estar protegido em seus braços. Exceto quando é primavera. Mas eu nunca deveria pensar na primavera, pois isso certamente partiria o meu coração no meio.”

[N.E.: leia a letra e ouça a música (publicação original: 26.07.2016)]

 

The Gate of Angels

Hoje em dia a bicicleta virou celebridade para vender qualquer coisa que se queira. Gasolina limpa, burguês amigo de pobre, até livros. Isso mesmo, o que mais tem na livraria é livro com bicicleta na capa. Só que depois que você compra percebe que a gasolina poluía do mesmo jeito, que o burguesinho continuava elitista do mesmo jeito apesar de postar fotos de bicicleta o dia inteiro, e que a história do livro no final das contas não tinha nada a ver com bicicletas.

Há exceções.

Outro dia eu estava procurando livros de ‘campus novel’ (ficção sobre a vida dos professores universitários) para a minha coleção quando apareceu a capa desse ‘The Gate of Angels’, escrito pela Penélope Fitzgerald em 1990. Bicicleta? Vida universitária? Comprei na hora.

A história se passa em 1912, contando as desventuras do professor cientista ateu e racional Fred Fairly, e a enfermeira trabalhadora realista e generosa Daisy Saunders. Um acidente de bicicleta é usado para representar a colisão dos dois mundos, das duas classes sociais, das duas culturas, das duas crenças, das duas personalidades. No decorrer do livro cada um dos enamorados coloca o coração e a filosofia do outro de cabeça para baixo. Mas não é só nesse evento importante que a bicicleta aparece. Na verdade ela é presente durante toda a história, que acaba servindo até para aprendermos como era a mobilidade em Cambridge antes da Primeira Guerra Mundial. Sufragistas, bondes super lotados, marxistas, assédio no transporte público, e bicicletas libertadoras.

Estou gostando muito desse livrinho que estou lendo nessas mini férias na Praia de Tamandaré. Uma história bem levinha, descompromissada, mas que não deixa de provocar novos pensamentos e ensinar uma coisa ou duas. Para ver que às vezes vale a pena julgar um livro pela capa. 8)

[N.E.: (publicação original: 28.07.2016)]

 

A Quarta Onda

Estou passando pela minha quarta fase de desenhos animados. Quando era criança eu gostava de “Devlin, o Motoqueiro”, “Os Herculóides” e “Speed Racer”. Na juventude, ao invés de estudar para o vestibular, curtia “Thundercats” e “A Caverna do Dragão”. Depois que a Bela nasceu eu passei a acompanhar “Pinky e o Cérebro”, “As Meninas Superpoderosas” e dava uma boa forçada para ela gostar das reprises de “Doug”. Eu adorava, ela não. Agora é a vez do Dante, com “O Incrível Mundo de Gumball”, “Vingadores Unidos” e a “A Hora da Aventura”.

De longe, o desenho que eu estou mais curtindo é “Os Jovens Titãs em Ação”, uma paródia deliciosa aos super heróis. Ouvi dizer que eles vão lançar um filme “sério e realista”, mas aposto que vai ser broxante e frustrante, impossível de assistir depois de ter vivenciado esta obra prima que passa na TV.

Hoje os Jovens Titãs em Ação atingiram o píncaro da glória com a “Privada Mortal”. Ouso dizer que é o ponto máximo artístico da civilização ocidental, cume que jamais será superado. Tudo bem que era só uma personagem terciária no episódio, mas a cena da privada aventureira rodando de moto vai marcar para sempre a forma como julgo a arte. A partir de hoje meu senso estético está irremediavelmente expandido.

É por isso que dizem que você deve tomar cuidado com o que deseja. Depois que a sua prece é atendida você não tem mais para onde ir a não ser se satisfazer com menos. Temo que jamais conseguirei observar qualquer outra expressão artística sem a inevitável comparação com este momento. Só posso pedir graças aos deuses por terem inspirado os produtores de “Os Jovens Titãs” na hora em que criaram “A Privada Motoqueira da Morte”.

[N.E.1: segundo o Wikipedia, Thundercats passou no Brasil de 1986 a 1990. Como o autor deste texto entrou na universidade em 1987, é bem possível que, além de ter desviado a sua atenção durante a preparação para o vestibular, Thundercats também tenha atrapalhado os seus estudos da universidade. Nada como uma memória falha, um lapso no discurso, um ato falho, para pegar o cara em flagrante delito, né não?
N.E.2: ria com episódio dos Jovens Titãs em Ação: ‘Beast Man’ e chore com o filme “sério e realista” (publicação original: 31.07.2016)]

 

Duas Rodas na Cultura

Sempre escrevo que o Equilíbrio em Duas Rodas é sobre motoqueirismo, bicicletismo e livrismo. Pior que isso, porque, além de obsessões, essas não são simples paixões separadas entre si. Elas são completamente integradas. Por exemplo, uma das minhas diversões desestressadoras preferidas é ir de moto até a Livraria Cultura para caçar todas as duas rodas que eu conseguir encontrar por lá.

Tipo um Pokémon Go.

Em geral, eu compro meus livros novos na Amazon e os usados na Abebooks. Só quando são títulos nacionais é que procuro na Cultura ou na Estante Virtual. Isso porque, infelizmente, as nossas livrarias não têm tanta diversidade, preço competitivo e, principalmente, vêm com bem poucas análises, críticas e recomendações dos outros leitores. Se bem que, por outro lado, a Amazon e a Abebooks não têm o ambiente real para caçar as minhas curiosidades motobicicletísticas.

Não é bem verdade que não compro na Cultura. No final das contas até faço algumas compras por lá. Primeiro porque, nesses momentos de crise, aproveito que eles parcelam as compras, coisa que as gringas não fazem. Isso me permite multiplicar em muitas vezes a dívida que contraio para manter o meu vício livresco.

Obrigado, viu?

Outra razão é que o meu cartão de crédito é da própria Cultura, então a cada compra ganho um bônus para pegar algo por lá.

Perfeito.

Compro livros na Amazon/Abebooks, depois ganho bônus para comprar livros na Cultura.

Provavelmente eu pago mais de anuidade do que ganho com bônus, mas não deixemos a realidade estragar a minha felicidade.

Voltando à caça ao tesouro, encontro motos e bicicletas nos livros de design e de fotografia, nos gibis, brinquedos, capas de discos e pôsteres de filmes. Elas estão em todos os lugares da livraria.

De vez em quando eles têm até uns livros específicos sobre motos e bicicletas, mas ainda está para aparecer um livro bom de duas rodas na Cultura que eu já não tenha na minha biblioteca. Os que eles têm por lá são sempre os mesmos, uns quatro ou cinco títulos, sempre na seção de design.

Tenho uma teoria sobre isso.

Acho que quem recomenda os livros para a Cultura gosta muito de design e de bicicletas, então encomenda esses livros para poder ler na hora de folga. Deve acontecer a mesma coisa na área de cinema, fotografia e moda, mas daí não posso dizer nada porque não os sigo.

Eu faria isso se trabalhasse por lá.

Agora, o que eu gosto da Cultura é o espaço físico. Como as duas lojas daqui do Recife ficam em shoppings, elas são legais para encontrar um pouco de silêncio. Principalmente na parte dos filmes, que em geral é bem silenciosa. Volta e meia estou quietinho por lá quando aparece um vendedor perguntando se procuro algo. Para o qual respondo que só estou curtindo um pouco do silêncio. O legal é que, ao invés de ficarem putos porque não vou comprar nada, eles sorriem em cumplicidade, como se dissessem “eu faço a mesma coisa”.

Mas o que eu gosto mesmo de verdade é ficar olhando os malucos que perambulam por lá nos sábados à noite. Esquisitos, curiosos, desarmados e desarrumados.

Como eu.

Minha juventude teria sido muito mais acolhedora e criativa se eu tivesse tido a sorte de ter um espaço assim na minha cidade. Sorte que agora eu tenho.

Depois do assopro, a mordida.

Para não dizer que não falei dos espinhos, eles bem que podiam dar um jeito no estacionamento, que não aceita nem bicicletas nem motos. Que feio! Também podiam baixar um pouco o preço dos livros, porque daí eu compraria mais por lá. Se bem que essa é uma decisão financeira deles, né?

De qualquer forma, mesmo que sejam empresas comuns interessadas no lucro, as duas lojas da Cultura estão entre os lugares mais legais aqui do Recife. Não são metidas ou limitadas ou metidas e limitadas como as outras pouquíssimas opções culturais. Também não são simplórias como as outras muitíssimas opções comerciais.

[N.E.: o Equilíbrio em Duas Rodas não ganha nada para falar bem ou mal de qualquer empresa ou de qualquer produto, nem tampouco tenho qualquer tipo de contato com eles. O que eu tento por aqui é apenas retratar a nossa vida em duas rodas, o que às vezes envolve fazer alguma referência (publicação original: 31.07.2016)]

 

Os Motoqueiros do Sertão

O Dante não conseguiu esperar o meu aniversário para entregar o presente. O fato é que agora nós dois temos Nerfs, uma pistola de elite com mira a laser e a outra para caçar mortos-vivos. Legal mesmo ficou a nossa foto. Vai servir como capa para a minha obra-prima incompreendida ‘Os Motoqueiros do Sertão’. Para ler esse clássico da literatura moto-pulp-fiction-sertaneja, basta clicar no Jornal Equilíbrio em Duas Rodas.

Logo depois tentamos o tiro ao alvo, caçamos zumbis e jaguatiricas minecraft, desodorantes e shampoos. Não contem para a Renata! Ela vai ficar doida se souber o que estamos fazendo em casa. A bronca vai ser histórica, mas vai valer cada momento.

[N.E.: (publicação original: 05.08.2016)]

 

Jason Bourne e Tom Ripley

Sobre livros, filmes e o motoqueiro Jason Bourne

Hoje a equipe do Equilíbrio em Duas Rodas vai ao cinema conhecer o novo filme do Jason Bourne. Vamos ver se ele continua um bom motoqueiro.

Conheço esse personagem desde 2005, quando li a trilogia escrita pelo Robert Ludlum: ‘The Bourne Identity’ (1980), ‘The Bourne Supremacy’ (1986) e ‘The Bourne Ultimatum’ (1990). Um pouco depois, em 2006, comprei ‘The Bourne Legacy’ (2004), com a história sendo retomada agora pelo Eric Van Lustbader, autor que gosto por causa do ‘The Ninja’ (1980).

Não consigo me lembrar se cheguei ao livro do Bourne por causa do filme ou se descobri o filme por causa do livro. Este que vamos assistir hoje já é o quinto da lista, que contém: ‘The Bourne Identity’ (2002), ‘The Bourne Supremacy’ (2004), ‘The Bourne Ultimatum’ (2007), ‘The Bourne Legacy’ (2012) e ‘Jason Bourne’ (2016).

Muito provavelmente eu assisti o filme antes do livro, já que fico meio ligado com os lançamentos do ator Matt Damon desde que assisti o seu ‘Good Will Hunting’ (1997).

Outro filme que eu gosto muito com o Matt Damon é ‘The Talented Mr. Ripley’ (1999). Por coincidência, em 2004, um pouco antes de conhecer os livros do Bourne, eu tinha lido a “trilogia de cinco” da Patricia Highsmith: ‘The Talented Mr. Ripley’ (1955), ‘Ripley Under Ground’ (1970), ‘Ripley’s Game’ (1974), ‘The Boy Who Followed Ripley’ (1980), and ‘Ripley Under Water’ (1991). Em 2002, lançaram um segundo filme do Ripley, ‘Ripley’s Game’ (2002), mas agora com John Malkovich no papel principal.

A Patricia Highsmith é uma das minhas autoras preferidas, com seus suspenses psicológicos e seus personagens misantropos. Tenho ainda dela ‘Strangers on a Train’ (1950), que virou um filme do Hitchcock em 1951, e ‘The Selected Stories of Patricia Highsmith’ (2001), com um monte de contos deliciosos. Outro livro famoso dela, que não li, é ‘The Price of Salt’ (1953), que virou filme com a Cate Blanchet (que por acaso fez o ‘The Talented Mr. Ripley’ junto com o inesquecível Philip Seymour Hoffman), intitulado ‘Carol’ (2015), que ainda não assisti além de não ter lido.

Voltando aos filmes com o Matt Damon baseados nas duas trilogias (uma de três, outra de cinco), acho o seguinte. Os primeiros filmes, ‘The Bourne Identity’ e ‘The Talented Mr. Ripley’, estão certamente entre os meus filmes preferidos, além de serem bem parecidos com os livros.

Sobre as sequencias, a história é mais complicada. Não gosto muito da sequência literária do Bourne. Os filmes da sequência, por outro lado, são ótimos. Ainda bem que os filmes não têm nada a ver com os livros. É, às vezes os filmes são melhores que os livros. No caso da sequência do Ripley, não gosto muito nem dos livros nem do filme. Quer dizer, não é bem que eu não goste dessas sequencias do Ripley e do Bourne, apenas não acho especiais.

É isso.

Para quem gosta, fica aí a dica dos livros do Bourne e do Ripley. E vamos torcer para boas cenas de moto hoje no cinema.

[N.E.: veja os trailers do Bourne #5 e do Ripley #1 (publicação original: 08.08.2016)]

 

Touched with Fire

O que é a normalidade? A resposta de Oscar Wilde foi que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril. Concordo. Concordo porque para definirmos uma normalidade teríamos que comparar as pessoas, e então cairíamos no problema lógico de ter que escolher um padrão. O que se faz, então, é tirar uma média das pessoas. Se você é parecido com a média então é uma pessoa comum.

Mas isso é ser comum, não é ser nomal.

Outro problema é que o comportamento de uma pessoa em particular também muda com o tempo. Às vezes estamos alegres às vezes tristes, animados ou com preguiça, esperançosos ou pessimistas. Qual é o nosso estado normal? O que é normal? Quem é normal?

Não dá para saber. Por isso acho que gostamos tanto de ouvir a história de quem não é comum, de quem vive nos extremos. Isso porque talvez essas pessoas possam nos ensinar a aceitar que ninguém é normal e que ninguém é constante.

Ontem assistimos um filme bem legal sobre um casal bipolar: ‘Touched With Fire’. Ele é meio baseado em um livro de mesmo título que li em 2000. Um livro bem marcante, pois discute o preço a pagar pelo tratamento de uma pessoa bipolar. A questão é que, segundo a autora, há uma maior proporção de bipolares entre os grandes artistas do que na população comum. Portanto, poderíamos concluir que a bipolaridade seria uma das causas ou um dos efeitos dessa genialidade. O problema é que junto com uma maior atividade artística vem também o sofrimento, as dificuldades em se enquadrar socialmente, a automedicação com uso de drogas, e, muitas vezes, o suicídio. O suicídio podendo ser do tipo clássico (e.g., tiro na cabeça, veneno) ou do tipo moderno (e.g., se meter em situações de risco no trânsito, overdose). Então, será que ao fazer um tratamento com alguém não estaríamos matando a genialidade ao mesmo tempo em que oferecemos a essa pessoa uma melhor qualidade de vida? A humanidade tem o direito de fazer isso consigo mesma, tem o direito de matar a arte para salvar um indivíduo?

Questões complicadas, para as quais eu não faço a mínima ideia de quais são as respostas. Não tenho contato com muitas pessoas com essas características, nem tampouco sou treinado para ajudá-las. Mesmo assim não deixo de ficar fascinado com os grandes artistas que se sacrificaram para nos trazer novas visões, para que nós compreendessemos melhor o mundo e as nossas emoções.

As bicicletas e as motos tem um pouco a ver com esses lances psicológicos. No caso da bicicleta, há autores (e.g. Bike for Life) que acham que o ciclismo pode tanto atenuar a depressão, por causa da endorfina, quanto piorar, por causa da solidão das estradas. Não que a solidão das estradas cause a depressão, mas muitas vezes esconde que a pessoa precisa de ajuda. No caso das motos, há muita gente que se arrisca muito mais do que deveria. Fazem isso porque se meter em situações arriscadas é uma das características da fase maníaca dos bipolares. Muitas vezes alguém se arrisca porque precisa de ajuda, não porque é imoral. O grande exemplo de ciclista bipolar é Graeme Obree, que é bem descrito no filme ‘The Flying Scotsman’. No caso dos veículos motorizados o exemplo é James Dean, embora eu não saiba se ele tinha traços neuróticos ou psicóticos. É um exemplo de qualquer forma, seja pelos filmes seja pela vida pessoal.

Esse é um outro lance interessante. A história muitas vezes é incapaz de contar com precisão o que aconteceu. O grande Boltzmann da Termodinâmica, por exemplo, se matou porque foi incompreendido ou porque tinha algum problema psicológico? Se tivesse algum problema e se tivesse sido tratado, teria produzido teorias mais legais ou não teria feito nada de valor?

Eu é que não sei. Mas gosto de ler e assistir filmes que tratam dessas questões. O que é a normalidade? A partir de que ponto é preciso um tratamento? No caso de tratamento, qual é o melhor em cada situação? Pensando no motoqueirismo, no bicicletismo e no livrismo, a pedalada e a leitura tranquilizam ou favorecem a depressão, os motoqueiros temerários são assim por um desajuste social ou porque precisam de ajuda?

Seria legal se os psicólogos fossem um pouco mais ouvidos nas questões comportamentais no tráfego. O que ouvimos por aí são quase sempre só achismos de não-especialistas.

Se bem que os psicólogos tem uma certa mania de achar que a constância e a tranquilidade de uma pessoa são características mais “normais” que as oscilações de humor e as fortes emoções. Mas quem sou eu para dizer se estão certos ou errados, né?

Gosto de vários livros sobre pessoas com atividade psíquica incomum, todos que viraram filmes. O próprio Touched With Fire (1996) com a biografia de grandes artistas bipolares; A Beatiful Mind (1998) sobre o economista John Nash; Bobby Fischer Goes to War (2004) sobre o enxadrista Bobby Fischer; e Flying Scotsman (2005) sobre o ciclista Graeme Obree.

Os respectivos filmes dos livros aí de cima são Touched With Fire (2015), A Beatiful Mind (2001), Pawn Sacrifice (2014) e The Flying Scotsman (2006).

Tem outros filmes legais também, mas não sei se são baseados em livros. Betty Blue (1986), Mr. Jones (1993), Shine (1996) e Pi (1998).

Dos maluco (‘maluco’ para mim é um elogio!), as mais adoráveis são a Audrey Tautou em À La Folie… Pas Du Tout’ (2002), empatada com a Jennifer Lawrence de Silver Lining Playbook (2012). Esse último acho que vem de um livro, ou originou um livro, mas não li de qualquer forma.

Esta semana vamos assistir The Dark Horse (2014). Dizem que é bom.

[N.E.: (publicação original: 15.08.2016)]

 

Motos, Filmes, Mulheres Lindas e Professores de Música

Há cinco anos atrás eu estava interessado em filmes sobre a Itália e o amor, e que tivessem guerra, música e motos. Nessa busca acabei encontrando a Sophia Loren, e depois até relembrando meus dois professores de música, a Giovana e o Antonio. Engraçado que parece mais que escrevi isso há 100 anos, não agora em 2011, já que relendo vejo que não senti amarras ao dizer como eram lindas a Sophia Loren e a Renata Nunes. Hoje talvez eu evitasse esse texto com medo de parecer machista. Ah vá! São lindas mesmo. Está tudo lá no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’, no texto ‘Os Girassóis da Rússia’.

[N.E.: (publicação original: 19.08.2016)]

 

Um Homem Sério

Não entendi porríssima nenhumíssima de ‘A Serious Man’ (2009), dos irmãos Joel and Ethan Coen. Mas três lances pagaram o filme. Primeiro quando o professor Lawrence “Larry” Gopnik demonstrou no quadro negro o ‘Princípio da Incerteza’, provando que nós não podemos realmente saber o que está acontecendo. O segundo foi a música ‘Somebody to Love’, do Jefferson Airplane. O terceiro lance é de certa forma a ligação dos dois primeiros, quando o rabino ancião Marshak citou a letra da música: ‘When the truth is found to be lies, and all the joy within you dies, don’t you want somebody to love?’ (‘Quando a verdade revela-se como mentira, e toda a alegria se esvai, você não quer alguém para amar?’). Não entendi nada do filme, mas gostei pra caramba. Principalmente porque o filme não tem um fim propriamente, exatamente como deveriam ser todos os outros filmes, em respeito à nossa imaginação. 8)


Somebody To Love

[N.E.: assista ao trailer (publicação original: 21.08.2016)]

 

LOBO LOKO é 66.666 🏍

Não sabe em quem votar para vereador? Você é motoqueiro? Então vote em Lobo Loko, o candidato dos cachorros selvagens. E não esqueça da musiquinha:

“Lobo Loko é meia meia, é meia meia meia 🎵
Meia meia, é meia meia meia🎵
Lobo Loko é louco louco, é louco louco louco🎵
Louco louco, é louco louco louco 🎵

É Lobo Loko!🎵
É meio louco!🎵
É meia meia!🎵
É meia meia meia!🎵”

PEDURO 66, o Partido dos Equilibristas em Duas Rodas

[N.E.: (publicação original: 22.08.2016)]

 

NINA BAIQUE é 66 🚵

Nina Baique é a prefeita das bicicletas. Sua primeira ação será proibir todos os carros. Afinal, todo mundo que é contente e inteligente sabe que somente as bicicletas podem trazer a alegria e a amizade, criar a saúde na nossa cidade. Não pense, sinta. Agora cante com a gente.

“Se você está contente é Nina Baique 🎵
Se você está contente é Nina Baique 🎵
Se você está contente, quer mostrar 🎵
Pra toda gente 🎵
Se você está contente é Nina Baique 🎵”

PEDURO 66, o Partido dos Equilibristas em Duas Rodas

[N.E.: (publicação original: 23.08.2016)]

 

Deixa eu Gostar de Você

Eu sei que vivo escrevendo que o importante para um veículo é a sua eficiência energética, sua segurança e sua dinâmica. Só que, na prática, quando compro meus veículos eu uso outros critérios. Gosto que meus veículos tenham um projeto bem comum, estética antiga, sejam máquinas simples, tenham história, sejam baratos para aquisição e de fácil manutenção. Por isso tudo, meu carro é FIAT, minha moto é Honda e uma das minhas bicicletas é Caloi. Como bônus, meus veículos acabam até virando objetos dos meus estudos, já que são veículos bem populares no Brasil.

Minhas críticas à Honda e à Caloi não são comparativas. Quer dizer, não acho que os seus produtos sejam mais porcarias que os produtos das outras fábricas. São a mesma porcaria. O serviço da Honda é até melhor. A Caloi, então, só monta quadros com componentes da Shimano assim como fazem todas as concorrentes. São tudo a mesma coisa. Minha crítica com essas empresas é outra. Como líderes, creio que a Honda e a Caloi têm a responsabilidade de melhorar a eficiência, a segurança e a utilidade dos seus veículos, seja pela sua força no mercado seja pela sua influência no governo.

Em relação à FIAT eu tenho um comportamento bem parecido. Acho o carro deles uma porcaria, na verdade um pouco mais porcaria que os das outras fábricas, mas tem as características que eu gosto, como simplicidade, popularidade, design antigo e bom preço. Tem mais, pois no caso da FIAT há um componente emocional que não existe em relação à Honda e à Caloi, que é a sua origem italiana. Isso me traz um certo aconchego, já que meus antepassados vieram da Itália. Para fortalecer esse sentimento, a Itália tem aquele ar de gambiarra, de jeitinho e de improvisação que nós brasileiros tanto achamos familiar.

O fato é que, como cidadão, estava feliz com o meu carro da FIAT. Certo que tem um consumo vergonhoso, 7 km/litro, muito abaixo do que o prometido no selo que veio colado quando comprei. Tudo bem, eu não esperava coisa muito melhor com aquele motor antigo e aquele conjunto de uma tonelada. É o máximo que a FIAT sabe fazer, tudo bem. Pelo menos foi relativamente barato para comprar e tem uma mecânica simples, fácil de consertar.

Por exemplo, uns dias atrás a seta parou de funcionar de vez em quando. Depois parou de funcionar o tempo todo, a não ser que apertássemos o botão do alerta. Até que finalmente a seta parou completamente e o alerta disparou.

Que chato.

No problema.

A Renata colocou uma fita adesiva no botão do alerta e tudo voltou a funcionar. Por isso é legal ter um carro simples. 😎

Só que estava meio chato andar com aquela fita colada, então resolvemos ir na concessionária trocar a seta. Se nós consertamos com uma fita, para eles seria bem mais fácil, né?

Confesso que fiquei meio chateado no trajeto até a oficina.

Embora a concessionária que vende o carro fique em uma rua bonitona, a oficina fica em uma rua cheia de lama e de buracos, e de tão difícil acesso que para chegar lá precisei fazer um retorno que me tomou 40 minutos (!). Já tinha ido lá outras vezes, o que me deixou mais chateado ainda, pois agora só os carros da Jeep podem entrar pela porta da frente. Nós plebeus com carros da FIAT temos que entrar pela porta nos fundos. Demorado e humilhante. Mas tudo bem, pois seria simples o conserto simples da seta simples do carro simples.

Não foi simples.

A seta que a Renata tinha arrumado com uma simples fita adesiva custa R$ 1.100,00!!!!!

Por que? Por que, FIAT, você se meteu a usar um sistema integrado quando só sabe fazer coisas simples? Agora ficamos com um carro que tem um consumo horrível ($) aliado a uma manutenção horrenda ($$). Estamos no pior de dois mundos.

Não precisa se preocupar que não vou sair espalhando que vocês tentam empurrar alarmes afirmando que a fechadura de vocês é fraca, que explicam que o carro consome muito porque ainda “não aprendeu” a ser econômico, que é normal o reservatório de arrefecimento romper por fadiga com apenas 18.000 km rodados, que se eu arrumar a seta fora da concessionária depois o air bag vai explodir na minha cara enquanto dirijo. Fica entre nós. Tamo junto. Fica tranquila.

Voltando à seta, eu até compreenderia que a FIAT caísse na tentação de usar uns componentes integrados chiques e umas eletrônicas modernosas se fosse para tornar o carro mais eficiente, mas esse claramente não é o caso. Por que então, FIAT? Por que você não usou uma seta simples que combinasse melhor com o carro simples que você costumava fazer? Por que foi fazer algo que não sabe fazer direito?

Minha FIAT italiana, não destrua o carinho que eu tenho por você. Não faça mais essas loucuras de tentar copiar as outras fábricas mais competentes. Continue simples. FIAT, deixa eu gostar de você.

[N.E.: (publicação original: 02.09.2016)]

 

Leporello

Chegou mais um livro para a biblioteca do ‘Equilíbrio em Duas Rodas’, só que dessa vez não deu para tirar uma foto. É ‘Bicycle’, de Ugo Gattoni. Para mostrar, tive que (tentar) fazer um vídeo (tremido, sem foco, ritmo sincopado e enquadramento caótico). O grande diretor cinematográfico Dante Magnani chama esse processo de “vidjar”. A música emprestei da trilha sonora do filme ‘Captain Corelli’s Mandolin’, que eu já tinha comentado em 2011. O livro é leporello, um tipo de encadernação em forma de sanfona. O desenho de quatro metros (!) e com milhões de detalhes me lembrou da infância, quando eu passava horas descobrindo os segredos que os desenhistas haviam escondido nas suas ilustrações. Um dia espero contar quantas bicicletas há neste livro. Aguardo também o dia em que teremos uma cidade assim toda anárquica, maluca e divertida. Enquanto isso, encontro vocês aqui ‘Equilíbrio em Duas Rodas’.

 

Legends of the Tour

Chegou mais um integrante para a gibiteca do Equilíbrio em Duas Rodas: Legends of the Tour (‘Lendas do Tour’). O autor, Jan Cleijne, conta em quadrinhos a história do Tour de France do ponto de vista dos seus grandes personagens – Anquetil, Mercks, Hinault, Armstrong, Indurain, Cavendish e muitos outros. Interessante que para contar toda a história, desde 1903, o autor vai mudando a cor dos desenhos, meio que representando a evolução da fotografia durante esse tempo todo. Para falar a verdade, eu tenho duas grandes dificuldades para me interessar pelas competições em geral – qualquer competição. A primeira é que as regras são arbitrárias, autoritárias, simplórias e inflexíveis. A segunda dificuldade é que as competições comparam pessoas com diferentes sortes genéticas, culturais e tecnológicas, comparam pessoas com diferentes valores e interesses, o que torna a comparação meio esquisita – muito esquisita. Por tudo isso, o Tour de France não me chama muito a atenção como competição. Pior ainda que eles são super retrógrados no desenvolvimento tecnológico mecânico e super hipócritas no uso do dopping. Por outro lado, gosto do espetáculo nas estradas e dos desafios pessoais que cada corredor enfrenta. Então não tive problema algum em gostar desse gibi, já que ele fala muito mais dos infernos e paraísos internos do que dos frios e cegos números que não servem para nada. O título deste texto ‘A vida não cabe no Tour’, é uma referência à frase ‘A vida não cabe no Lattes’. Esse tal de Lattes faz parte do sistema usado no Brasil para quantificar em números a produção acadêmica dos pesquisadores e professores. Assim como no Tour de France, o sistema de quantificação acadêmica usa regras arbitrárias, autoritárias, simplórias e inflexíveis, além de comparar pesquisadores com histórias diferentes, que estudam problemas diferentes, usando técnicas diferentes, em condições diferentes e gerando conhecimentos diferentes. Incomparáveis. A vida não cabe no Lattes e a vida não cabe no Tour de France. A vida real de cada indivíduo é muito maior que um grupo de regrinhas feitas por burocratas limitados. Vida longa às lendas do Tour de France. Vida longa a todos os ciclistas que não viraram lenda. Vida longa a todos os indivíduos que são a sua própria medida.

 

Os Dedinhos

Nunca deixe um motoqueiro preso em um carro por muito tempo. Ele vai ficar entediado, aborrecido, pode até entrar em um estágio de delírios fantasmagóricos. Ou, talvez, em um processo freudiano de sublimação, ele consiga transformar o ócio em criação artística. Veja o que acontece quando, trancados no carro por mais de uma hora pela malvada Renata Nunes, os motoqueiros Fábio e Dante Magnani, em um rompante artístico, compõem, dirigem, atuam e produzem o épico ‘Os Dedinhos’.

[N.E.: (publicação original: 04.09.2016)]

 

Não É o Gato, É a Escuridão

Na imagem está escrito:

“Filosofia é como estar em um quarto escuro procurando um gato preto. Metafísica é como estar em um quarto escuro procurando um gato preto que não está ali. Teologia é como estar em um quarto escuro procurando um gato preto que não está ali e sair gritando ‘Encontrei! Ciência é como estar em um quarto escuro procurando um gato preto com a porra de uma lanterna”

É engraçado, mas é falso, pois parte do princípio que o importante é somente ver o gato. A vida é mais completa do que isso.

Pensando melhor então, deveriam ter escrito:

“Filosofia é procurar a pessoa que vaga pela escuridão. Metafísica é aprender a conviver com a vasta escuridão. Teologia é criar a história que nos conforta na escuridão. Arte é se lançar na escuridão. Ciência é iluminar pelo menos um cantinho da escuridão.”

Que todos tentemos ser filósofos, metafísicos, teólogos, artistas e cientistas – tudo ao que temos direito. Não somos obrigados a escolher apenas umas das alternativas. Ainda bem.

 

The British Museum is Falling Down

Ultimamente um dos assuntos aqui do Equilíbrio em Duas Rodas tem sido os ‘campus novels’, que são livros de ficção que falam da vida universitária, em geral usando tom satírico. Tenho uma porção deles na minha biblioteca.

Os mais queridos pelo público são os do David Lodge, principalmente a trilogia formada por Changing Places (‘Trocando de Lugar’, 1975), Small World (‘Mundo Pequeno’, 1984) e Nice Work (‘Trabalho Legal’, 1988). O primeiro conta a história de dois professores, um americano e um britânico, que trocam de universidade bem no fim dos anos 60, retratando assim as diferenças entre as duas culturas acadêmicas e principalmente o impacto da revolução cultural que acontecia na época. O segundo é sobre o turismo acadêmico e a busca pela celebridade acadêmica. O terceiro volta um pouco ao tema do primeiro, no qual uma professora substituta de literatura e um diretor de indústria mecânica acompanham o trabalho um do outro, revelando as diferenças entre o mundo corporativo e o acadêmico.

Outro livro bem popular é The History Man (‘O Homem da História’, 1975), do Malcolm Bradbury. Esse livro satiriza um departamento de sociologia, com todos os relativismos e todos os decorrentes imobilismos e egoísmos e infantilismos tão famosos hoje em dia nas universidades e nas redes sociais.

David Lodge (1930) e Malcolm Bradbury (1932) foram contemporâneos e colegas de departamento em Birmingham, no período 1961-65.

Dado esse contexto, há um tempo atrás comecei a procurar os primeiros livros desses autores que tivessem a ver com a vida acadêmica. Primeiro encontrei Eating People is Wrong (‘Comer Gente é Errado’, 1959), do Bradbury. Depois encontrei The British Museum is Falling Down (‘O Museu Britânico Está Despencando’, 1965), do David Lodge.

O meu interesse pelo ‘The British Museum is Falling Down’ se deu pela capa. Inicialmente nem sabia que tinha a ver com a vida acadêmica, mas achei aquela scooter irresistível. Na verdade este não é um campus novel clássico, pois não fala exatamente de professores universitários. O personagem principal (Adam Appleby) é um doutorando, um aspirante à vida acadêmica, que passa os dias estudando na sala de leitura do Museu Britânico.

Essa sala me traz boas lembranças literárias, pois foi ali que o Colin Wilson escreveu um dos meus livros preferidos, The Outsider (1956). Praticamente sem dinheiro, ele passava o dia lendo e escrevendo no museu, depois dormia no parque Hampstead Heath.

Voltando ao ‘The British Museum is Falling Down’, os seus temas principais são a vida sexual dos casais católicos e a vida dos doutorandos. O primeiro tema é interessante do ponto de vista histórico porque o livro se passa na época do Concílio Vaticano Segundo, no qual um dos pontos “importantes” era a vida sexual do rebanho. No livro, Adam Appleby (o doutorando), passa o dia todo incomodado porque está desconfiado que a sua mulher está grávida do quarto filho. E eles só têm 25 anos! Esse era um problema eterno para os casais católicos que não podiam (será que podem hoje em dia?) usar métodos contraceptivos. Quer dizer, eles podiam usar a matemática (tabelinha), mas não a química (pílula) e a física (camisinha).

Em um determinado momento, o portão da sala de leitura é comparado a uma vagina, e sua área principal com um útero protetor, representando assim como a vida acadêmica muitas vezes é usada como uma fuga das dificuldades do ‘mundo real lá fora’.

A história toda se passa em um único dia, contando os encontros, pensamentos e percalços de Adam Appleby. Essa é uma clara homenagem a Ulysses (James Joyce, 1922). Na verdade, um dos lances legais de ‘The British Museum is Falling Down’ é o pastiche. David Lodge, ao longo do livro, imita o estilo de vários autores, entre eles Graham Greene, Ernest Hemingway, Henry James, Franz Kafka, D. H. Lawrence, C. P. Snow e Virginia Wolf.

Falando um pouco da tal scooter da capa, é com ela que o protagonista se desloca pela neblina de Londres. É uma motinha velha, barulhenta, que não inspira qualquer confiança na hora da partida. É usada para representar as dificuldades que o doutorando tem em sua vida, com uma família para sustentar, sem a certeza de que terá um emprego em uma universidade, com a tese que não sai nunca e com a dificuldade em se concentrar.

Por falar em neblina, David Lodge queria que o título do livro fosse ‘The British Museum Had Lost Its Charm’ (‘O Museu Britânico Tinha Perdido Seu Charme’), que é um verso de A Foggy Day (‘Um Dia com Neblina’, 1937), uma música que David Lodge cantarolava durante a escrita do livro. Tudo a ver, pois a música fala de um dia em Londres, da neblina e do Museu Britânico. David Lodge diz que gostava particularmente da versão com a Ella Fitzgerald. Em geral eu adoro a Ella Fiztgerald, mas desta vez a sua versão intimista não casa muito bem com a correria atabalhoada que é o livro. Se eu fosse fazer um filme desse livro, escolheria várias versões dessa música, uma para cada cena. Charles Mingus para o tráfego, com buzinas e apitos, a gravação de Chet Baker para as cenas de correria, e Red Garland para as conversas sociais.

Aconteceu que a gravadora de ‘A Foggy Day’ não cedeu os direitos para usar o verso ‘The British Museum Had Lost Its Charm’ como título do livro, então eles mudaram para o tal ‘The British Museum is Falling Down’, que é bem parecido com o verso principal de uma música infantil super conhecida. Além disso, o título definitivo pode ser visto como uma certa alusão à sexualidade masculina. Se bem que invertida nesse caso, pois certamente Adam Appleby não sofre de impotência, mas sim de um grande apetite sexual.

Por falar nisso, gostei de uma curiosidade do livro. Em um certo momento, ao comentar sobre a beleza da sua mulher, ele diz que ela é uma calipígia, um termo que eu nunca tinha ouvido falar. Ao procurar na internet, descobri que vem de uma tal Vênus Calipígia, que significa nada mais nada menos que ‘A Vênus das Belas Nádegas’.

Bumbum também é cultura!

Desculpem a fuga do assunto principal. Neste momento, se estivéssemos no velho programa humorístico do Agildo Ribeiro, o Professor Aquiles Arquelau estaria recebendo uma campainhada da múmia paralítica pela digressão, se bem que uma bela digressão.

PIM!

Voltando pela enésima vez ao ‘The British Museum is Falling Down’, logo na abertura do livro, David Lodge já deixa clara a influência que teve do livro ‘Eating People is Wrong’, do seu amigo Malcolm Bradbury. Além de serem livros satíricos sobre a vida universitária, eles têm outras similaridades. Por exemplo, os dois protagonistas circulam em duas rodas (Adam Appleby em uma scooter, Stuart Treece em uma bicicleta motorizada). Outro lance legal é que ‘Eating People is Wrong’, o título, também veio do verso de uma música: ‘The Reluctant Cannibals’ (‘Os Canibais Relutantes’, música e letra).

Para quem tiver interesse pela mistura de universidades e duas rodas, lembro ainda de três livros que já comentei no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’: Riding with Rilke, In The Gate of Angels e Throttling the Bard.

[N.E.: (publicação original: 14.09.2016)]

 

Microcosmographia Academica

Há mais de um século, em 1908, F. M. (não é Fábio Magnani) Cornford publicou um panfleto chamado ‘Microcosmographia Academica’, ou ‘Um Estudo Sobre o Pequeno Mundo Acadêmico’ em grego. Era uma crítica pessimista à política universitária, escrita de forma bastante vívida, que logo virou um clássico. O livro fala de como a política transforma os jovens docentes em velhos desagradáveis, incompetentes e mesquinhos.

É um livro bem exagerado, por ser uma sátira, o que é legal. Só que acaba misturando a Política (com ‘P’ maiúsculo, que é a arte da construção coletiva a partir do diálogo) com a politicagem (a malandragem de enganar os outros para fins pessoais). O que é meio injusto com a nobre Política.

Por outro lado, é fato que no meio universitário (e no país como um todo) convivemos com muito mais politicagem e com muito menos Política do que seria desejável.

De qualquer forma, é sempre bom tomar cuidado com quem tenta bagunçar tudo, dizendo que toda Política é politicagem, ou que toda Política é perda de tempo. Precisamos sim da Política.

Bem, o livro chegou ontem e ainda estou no meio, mas recomendo para vocês que querem se tornar gangsters acadêmicos ou então que querem aprender a reconhecer o modus operandi dos velhacos universitários. E o legal é que tem ‘de grátis’ na internet. 8)

[N.E.: obtenha mais informações, saiba mais sobre o autor, e baixe o livro (publicação original: 20.09.2016)]

 

Set Free the Bears

Sobre as pilhas de livros de cabeceira para indecisos recursivos e temerários literários.

Sempre matenho uma pequena pilha de livros na minha cabeceira. Vai que tem uma guerra nuclear, uma tempestade solar ou uma invasão zumbi, me forçando assim a ficar um tempo sem sair de casa, né?

Esse aí de cima é ‘Setting Free the Bears’ (1968), um livro com dois motoqueiros muito doidos escrito pelo John Irving – o primeiro livro dele. Esse carinha é mais famoso por livros posteriores, como o ‘The World According to Garp’ (1978), que é um dos meus preferidos. Cinco romances dele viraram filmes. Acho que só assisti ao ‘The Cider House Rules’ (1999), com o Tobey ‘Homem-Aranha’ Maguire e o incomparável Michael Caine.

Sobre a pilha de livros na cabeceira, recomendo muito cuidado se você não tem experiência anterior. Coloque sempre os mais leves por cima, pois a pancada na cabeça é forte quanto a pilha despenca no meio da noite.

O que mais me preocupa é que ela costumava ser menor, bem educada, tranquila e contida. Só que agora está ficando fora de controle, adquirindo vida própria, se contorcendo na busca de dominar o espaço do quarto, se movendo em espasmos à menor brisa que entra pela janela. Estou com medo de ser obra do demônio. Medo. 👿

[N.E.: (publicação original: 24.09.2016)]

 

The Hipster Colouring Book

Os hipsters recifensis habitam a zona norte, vivendo com os pais até a meia idade. Migram de café em café usando bicicletas. Os machos portam barbichas ou bigodes, as fêmeas vestem roupa de padrão indiano. Consomem cerveja artesanal, ouvem música alternativa, assistem cinema francês, se encontram em mercados públicos e amam feiras orgânicas. Acreditam que a revolução será feicebuquionada. Escrevem textões e usam óculos de resina.

Do ponto de vista puramente estético, às vezes é bem difícil distingui-los dos nerds, geeks, radicais chics e new ripongas.

Como então saber se alguém realmente é um hipster recifensis?

Eu sempre tive essa dúvida. Não tenho mais. Hoje, em um lance de muita sorte, encontrei o ‘The Hipster Colouring Book’ (‘O Livro de Colorir dos Hipsters’). O livro vem até com jogos sobre hipsters. Olhe o nível das instruções: jogo #1- recorte as barbas e cole sobre os hipsters, jogo #2- ligue os hipsters aos seus bichinhos de estimação. Voltando à questão dos hipsters, há perguntas que não querem calar:

Onde moram?
Como vivem?
Do que se alimentam?

No final do livro, eles até apresentam um teste genérico para saber se você é um hipster, teste esse que adapto aqui para o caso recifense. Veja quantos pontos você faz:

[ ] Mora na zona norte
[ ] Já assistiu um filme argentino
[ ] Vota no PSOL
[ ] Anda de bicicleta
[ ] Usa barba ou saia indiana
[ ] Frequenta feira orgânica
[ ] Prefere o som do vinil
[ ] Usa óculos problematizador
[ ] Curte bike/truck food
[ ] Conheceu Amsterdã

Se você fez pelo menos 7 pontos, sinto dizer que é um hipster recifensis.

[N.E.: (publicação original: 01.10.2016)]

 

The Groves of Academe

‘The Groves of Academe’ (Mary McCarthy, 1952) é um dos primeiros (o primeiro?) livros do tipo ‘campus novel’ (romance acadêmico), um gênero (subgênero?) literário (formulaico?) que trata da vida dos professores universitários. Em geral os campus novels são sátiras irônicas que desmascaram as vaidades, as politicagens e as fraquezas humanas que, por mais que tentem esconder racionalizando, claro que os professores universitários também têm. Essa minha cópia usada fazia parte da ‘Okmulgee Public Library’, que, pelo que vi na internet, é a biblioteca de uma cidadezinha de 12 mil habitantes que fica lá no meio dos Estados Unidos. Desta vez o cartão de empréstimos não veio, só o porta-cartão, então não dá para saber se era ou se não era um livro popular. Melhor assim, posso imaginar todos os seus leitores.

[N.E.: leia mais sobre Grooves of Academe, lembre o que é campus novel e conheça Okmulgee publicação original: 02.10.2016)]

 

O Que Que Há, Velhinho?

É muito legal dar aula em uma disciplina que tem história. Saca só uns carinhas que me fazem companhia: Carnot, Maxwell, Gibbs, Boltzmann, Planck e Fermi. A Termodinâmica é a base para compreendermos lances como ordem e desordem, eficiência e desperdício, a passagem do tempo e as leis da natureza, porque o café esfria e a cerveja esquenta. Ah… e não é para qualquer um ter um demônio de estimação.

[N.E.: (publicação original: 04.10.2016)]

 

Termodinâmica Clássica, Livros e Notas

Este ano fui pego de surpresa para oferecer novamente Termodinâmica na pós-graduação (mestrado e doutorado). A última vez tinha sido em 2012. Não tem muito problema ter aparecido de repente, pois se trata de uma velha amiga. Velha mesmo. Cursei essa disciplina pela primeira vez em 1989 e sou professor dela desde 1997. Para se ter uma ideia, esta agora está sendo a 15o vez que ofereço essa disciplina na pós, sem contar as vezes que ofereci alguma termodinâmica na graduação, sendo 13 turmas de ‘Termodinâmica Aplicada’ e 26 turmas de ‘Termodinâmica 2’. Não sei o número exato, mas talvez uns 1500 estudantes tenham passado por elas. Legal.

Voltando à Termodinâmica da pós, o livro principal de referência é o Bejan (‘Advanced Engineering Thermodynamics’, 2006). Na parte de relações termodinâmicas pego um pouco do Callen (‘Thermodynamics and an Introduction to Thermostatistics’, 1985), e no cálculo de propriedades termodinâmicas, i.e., contrução de tabelas, o Sandler (‘Chemical and Engineering Thermodynamics’, 1989). São livros clássicos, relativamente antigos, mas não tem muito como fugir dos clássicos em uma disciplina que floresceu lá no século XIX.

O Callen foi o livro que meu professor usou quando eu fiz Termodinâmica no doutorado, o Bejan é o livro que quase todo mundo usa quando ensina termodinâmica na pós em engenharia mecânica, e o Sandler descobri meio por acaso na biblioteca quando ofereci pela primeira vez essa disciplina.

Como os pós-graduandos vêm de várias instituições, como nem todos fizeram engenharia mecânica, e alguns já se formaram há um certo tempo, então uma parte da disciplina acaba sendo a revisão do que foi ou poderia ter sido visto na graduação. Para essa revisão de engenharia mecânica vale qualquer livro: Van Wylen, Moran & Shapiro, ou Çengel.

Gosto ainda de fazer comentários nas aulas sobre as implicações da termodinâmica em outras áreas: história da ciência com Von Baeyer (‘Maxwell’s Demon’, 1998); política energética com Yergin (‘The Quest’, 2011); energia sustentável, tráfego e arquitetura com MacKay (‘Sustainable Energy Without the Hot Air’, 2009); e a termodinâmica da vida com Loewenstein (‘The Touchstone of Life’, 1999).

Minhas áreas de pesquisa são Otimização de Sistemas Térmicos, Termovisão por Infravermelho e Estudos em Duas Rodas (Bicicletas e Motocicletas). Quer dizer, eu não sou pesquisador em Termodinâmica, área na qual sou “apenas” um estudioso do trabalho dos outros. Isso traz alguns problemas práticos, pois nas universidades brasileiras os professores não são valorizados pelo ensino, apenas pela pesquisa. Em outras palavras, se você estudar algo que não pesquisa, “apenas” para ser um bom professor, você pode estar dando um tiro no pé, pois esse bom trabalho não vai ser tão valorizado quanto deveria. Você vai deixar de receber bolsas, deixar de aprovar projetos, deixar de ter aumento de salário, e por aí vai, já que todos esses processos dependem da sua pesquisa, não do seu ensino. Só que eu sou teimoso e estudo mesmo assim, e divulgo meus estudos no Equilíbrio em Duas Rodas mesmo assim, mesmo que esteja “desperdiçando” tempo que poderia ir somente para pesquisa.

Quando eu fiz vestibular – em uma cidade a 1000 km de distância de onde eu morava -, por ter vindo de uma cidade pequena, sem indústrias ou universidades, eu não fazia a mínima ideia do que fazia um engenheiro mecânico. Escolhi esse curso porque tinha física e matemática.

Aprendi o que fazia um engenheiro mecânico quando começou o profissionalizante, lá pelo quinto período da graduação. Só que, muito antes disso, já nos primeiros dias da graduação, eu sabia claramente que queria fazer doutorado na área de Ciências Térmicas (ou Energia, ou Engenharia Térmica, depende do lugar). Eu tinha assistido umas palestras em Introdução à Engenharia Mecânica, e ficado completamente fascinado.

Então, como eu já tinha escolhido meu futuro, sempre estava motivado para estudar, por isso sempre passava com ‘A’ em todas as disciplinas da área, tanto na graduação como no doutorado.

Com uma única exceção: Termodinâmica na graduação. Passei com ‘C’!

Depois tive a chance de pagar Termodinâmica no doutorado, com o mesmo professor da graduação, conseguindo passar com ‘A’. Por isso não fiquei traumatizado. Brincadeira. Eu nunca dei importância para notas. Quando gostava da disciplina eu estudava pelo gosto de aprender, quando eu não gostava da disciplina, eu estudava para passar logo e nunca mais precisar ver a cara do professor.

Não lembro porque fui mal em Termodinâmica na graduação. Talvez eu não tenha estudado direito, talvez não tenha praticado. Essa é uma boa hipótese, pois eu só estudava a teoria, não fazia exercícios antes das provas. Afinal, se eu teria que fazer o exercício na hora da prova, por que fazer na véspera? Em geral dava certo, mas talvez não seja uma boa ideia fazer uma prova de Termodinâmica sem ter praticado procurar nas tabelas e fazer interpolações. Outra hipótese é que muitas vezes eu resolvia as provas usando a lógica interna das questões, o que não carece de tanto estudo. Só que no caso de Termodinâmica as hipóteses externas, que não podem ser deduzidas pelo enunciado, são importantes. Não sei. O mais provável é que simplesmente fosse uma matéria difícil é por isso tive dificuldades.

Gosto de contar essa história do meu “fracasso”, exatamente na disciplina que eu ministro há tanto tempo, porque talvez sirva como exemplo para que os estudantes não se deixem dar valor pelas notas. Não é uma nota que diz o que você vale, nem por alto nem por baixo. Claro que as notas são necessárias na prática, pois os professores precisam medir a evolução dos estudantes para ver se podem progredir ou se vale a pena estudarem mais um pouco naquela disciplina antes dos próximos passos.

As notas são importantes para o sistema educational, só que o legal mesmo é aprender. E eu espero ter aprendido uma coisa ou outra de Termodinâmica para poder retribuir.

[N.E.: (publicação original: 05.10.2016)]

 

“Tanquilo”

Desde julho, nós do LOST estamos em um mutirão para publicar oito artigos sobre nossas pesquisas, nas áreas de duas rodas (3), otimização de sistemas térmicos (4), e infravermelho (1). Três já foram submetidos, um está sendo revisado, outro sendo escrito, e três estão em fase final de obtenção dos resultados.

E daí? Isso não é rotina?

Bem… para nós do LOST, um grupo pequeno, é um número bem alto de artigos. O trabalho é grande, mas a equipe é boa e temos boas chances de que sejam aceitos.

Esses artigos são a culminância de nove dissertações de mestrado (cinco parciais) e cinco doutorados (quatro parciais), envolvendo 11 estudantes ao todo. Trabalhos que vêm desde 2013, baseados em outros trabalhos que começaram em 2010. Muito legal!

Mas tem mais uma coisa que não é rotina. Pela primeira vez na história, não tem nenhum desses artigos na minha mesa. Quer dizer, consegui chegar em uma sexta-feira sem acumular trabalho.

Olha ali na foto. Todos estão marcados com ‘aguardando’. Aguardando a resposta da revista, aguardando a escrita do estudante, aguardando a revisão dos parceiros, aguardando rodarem os casos. Hehehe. Observando melhor ainda as fotos, bem que este texto poderia ser sobre carinhas que ganham por metro para instalar eletrodutos ou sobre a mandinga de colar as prioridades atrás da porta. Pode não funcionar como mágica, mas dá uma culpa danada quando o trabalho acumula.

De qualquer forma, só tenho uma coisa para dizer sobre a situação desses artigos: UFA! Agora é pegar a motoca e curtir o vento.

[N.E.: (publicação original: 07.10.2016)]

 

Nemesis

Estou com sorte. Mais um livro que compro usado que vem de uma biblioteca. Esse vem de uma tal de Los Gatos. Legais são os avisos. Multa de 10 cents por dia de atraso, não emprestamos para quem estiver devendo multa, se estragar o livro paga, e, pior do que ser condenado ao inferno: se você violar uma dessas regras poderá perder seus privilégios com a biblioteca. NÃO! Ah… o livro é um ‘campus novel’ (ficção baseada na vida acadêmica), neste caso se passando em uma faculdade de música. O título é ‘Nemesis’, e foi escrito pela Joyce Carol Oates, só que desta vez sob o pseudônimo Rosamond Smith, que ela usa para livros de suspense.


Beethoven – Cello Sonata No. 5 in D major, Op. 102, No. 2

Como a história é sobre professores de música, lendo o livro acabei descobrindo que o Beethoven tem uma sonata para cello e piano (op. 102, no. 2, 1815). Legal, já que uma das minhas músicas preferidas, se não a preferida, é uma outra sonata para cello e piano, só que do Brahms (op. 38, no. 1, 1862). Na minha ignorância, achei que essa última era algo de original, mas vejo agora a razão para não ouvirmos apenas esses músicos moderninhos, pops, ‘modinhas’ (AVISO DE USO DE IRONIA: claro que Brahms também é um clássico). Continuo gostando mais da sonata do Brahms. Isso não por alguma razão técnica, já que não entendo de música, mas simplesmente porque em geral gosto mais das músicas melancólicas que das alegres (razão pela qual não gosto muito do Mozart, e adoro Bach e Chopin). Vida longa aos clássicos BBB: Bach, Beethoven e Brahms. E ouça algumas outras músicas para cello e piano:

BEETHOVEN (op. 102, no. 2, 1815): música, texto.
BRAHMS (op. 38, no. 1, 1862): música, texto.
BACH (BWV 1007, 1717): música, texto.
CHOPIN (op. 65, 1846): música, texto.
MENDELSSOHN (op. 45, no. 1, 1838): música, texto.

Depois encontrei uma outra sonata do Beethoven (op. 69, no. 3, 1808). Só queria ver uma apresentação da Jacqueline du Pre (cello) e do Glenn Gould (piano). O palco ia pegar sair voando em labaredas.

[N.E.: (publicação original: 08.10.2016)]

 

Pneus Furados e Pneus Furados

Uma coisa é quando o pneu fura depois de 50 km, no maior solão. Ou então quando você está indo para o trabalho, todo atrasadão. Outra coisa, muito muito diferente, é quando você descobre que o pneu está furado em casa, com tempo para fazer o reparo, com espaço para espalhar as ferramentas, música tocando no som e uma cerveja te esperando na geladeira… 🚲🎵🍺😎

[N.E.: (publicação original: 08.10.2016)]

 

Mãos Sujas

Mãos sujas são sinal de dinheiro limpo… ou de que você não usa EPI, ou de que você não lava direito as mãos, ou que acabou a pasta de remoção de graxa, ou que você encostou onde não devia. 🏍

[N.E.: (publicação original: 08.10.2016)]

 

Os Estereótipos das Duas Rodas 🚲🏍

Por mais que queiramos e mereçamos viver em um mundo sem estereótipos autoritários e expectativas opressoras, por mais que eu tente problematizar a minha relação com as duas rodas na tentativa de desconstruí-la, por mais que a fluidez da pós-modernidade esteja destruindo as relativas certezas absolutas do passado, e por mais que eu tente me desvincular do zeitgeist hedonista e tribalista de nossa época, a verdade é que, ao olhar no espelho quando saio para pedalar, eu simplesmente não consigo deixar de constatar cada vez mais que quem nasceu para ser motoqueiro tosco não pode pagar de ciclista fofo. 😎

[N.E.: (publicação original: 09.10.2016)]

 

Bike & Art

[N.E.: (publicação original: 13.10.2016)]

 


Twisted – John Kay & The Sparrow

Twisted

Vai saber de onde vem as memórias. Lá estava eu procurando uma música para ouvir no computador. Em um momento de desatenção deixei os dedos soltos para digitar, e então… putz! Há décadas não ouvia ‘Twisted’, com o John Kay, um carinha que depois ficaria famoso cantando ‘Born to be Wild’ com o ‘Steppenwolf’ na trilha sonora do super mega power blaster motoqueirístico filme Easy Rider. Eles escolheram esse nome, Steppenwolf (‘Lobo da Estepe’), por causa do livro do Herman Hesse, que definitivamente está entre os meus preferidos. De volta à música ‘Twisted’, adoro a melodia, o vocal e o arranjo. Saca a letra, totalmente gráfica, literária e nonsense:

“At six a.m. this morning, oh the man knocked at my door
I screamed in his ear, I’m not the guy you’re looking for
But got taken, I got taken just the same
When it comes to getting sleep at night
Oh I just can’t seem to win

I went down to the zoo where I thought I might hide
There I met a friendly grizzly bear, who took me for a ride
And I got mangled, oh I got pushed all out of shape
When it comes to being sociable
Oh I just can’t seem to win

While climbing up Mt. Everest to get away from all the noise
I slipped on a banana peel and almost got destroyed
And I was worried all the way down to the ground
When it comes to holding safety nets
Nobody seems to be around

When I put myself together I found that it was best
If I no longer tried to be just like all the rest
Because I’m twisted, yeah but that’s the bag I’m in
When it comes to being normal
Oh I just can’t seem to win”

Morinchabike

Conheça o morinchabike. O clássico utensílio culinário morinchabike é um receptáculo para infusão de ervas, uma bebida comumente chamada de ‘chá’ no Brasil. O morinchabike é caracterizado por apresentar ilustrações baseadas em veículos individuais leves, como bicicletas, motocicletas e riquixás.

Do ponto de vista espiritual, a tradição comanda que, ao ingerir a infusão contida no morinchabike, o aprendiz deve mentalizar uma situação de congregação, como, por exemplo, um acampamento em que os moradores do deserto oferecem ao motobiciforasteiro um ‘chai’ (como o chá é chamado no Paquistão) após um extenuante dia de trabalho para os locais e um extasiante dia de deslocamento para o viajante. O praticante do morinchabike deve evitar ao máximo pensar, ao beber o chá, em um snob inglês (na Inglaterra, o chá é chamado de ‘tea’), sob o enorme e provável risco de assim o fazendo estar atraindo demônios alienantes.

Etimologia. Os especialistas acreditam que a palavra morinchabike, assim como a própria infusão conhecida como chá, ao longo do tempo teria tanto influenciado a cultura quanto absorvido a tradição linguística de vários cantos do mundo; nesse sentido, o morinchabike seria a conjunção das palavras ‘moringa’ (forma do utensílio), ‘chá’ (tipo de bebida a que se serve), e ‘bike’ (por causa das ilustrações em duas rodas).

Comércio. O morinchabike pode ser encontrado no Brasil em atacadões populares, ao preço médio de R$ 13.

Cultura. Para saber mais sobre a cultura motobicicletística brasileira, mundial, universal, hipertemporal e multidimensional, não deixe de seguir o ‘Equilíbrio em Duas Rodas’ (www.fabiomagnani.com).

Claro que o meu texto sobre o morinchabike foi uma brincadeira. A verdade é que eu gosto muito de café, então tomo bastante quando estou em casa. Quando chego no trabalho, para não me afundar na cafeína, eu passo o dia tomando chá, que eu também gosto, e que acabou até virando uma pequena cerimônia bacana para descansar um pouco do trabalho, além de ajudar a beber líquido durante o dia.

O problema é que sofro um bullying danado. Os meus amigos imaginários ficam me zoando por parecer um lord inglês tomando o chá das cinco. Há dois problemas nisso. Primeiro porque, como qualquer ser humano, não gosto de ser zoado. O segundo é que o chá realmente não me passa essa impressão de nobreza. Como eu leio muito sobre viagens de moto, é bem comum algum aventureiro contar como vai sendo convidado para tomar o tal do ‘chai’ quando pára para conversar na beira da estrada. Por isso, quando tomo chá, eu realmente me sinto como se estivesse em volta de uma fogueira, em uma região desértica e montanhosa.

Então, tanto para me livrar do bullying quanto para expressar os reais sentimentos que o chá me traz, preferi inventar essa mitologia pseudoerudita sobre o morinchabike e os acampamentos selvagens. Doce ilusão. Como se alguém pudesse controlar a forma como é visto, ou a forma como de fato é em sua essência (mesmo que não queira se reconhecer nela). De qualquer maneira, foi um texto divertido para escrever. Gosto de ´mangar’ do jeito acadêmico de mentir e de se dar importância.

O que importa é que a Renata ficou tão comovida com o esforço que eu fiz para fugir do bullying de ser tomador de chá, quando tentei toscamente reconstruir toda a espiritualidade mundial com a essa história do morinchabike, que até fez uma nova xícara toda personalizada. 🍵

[N.E.: (primeira publicação original: 21.10.2016) e segunda publicação original: 22.10.2016)]

Vamos Celebrar

Como eu disse lá no começo, estamos fazendo dez anos de equilíbrio em duas rodas. Sem pensar muito, duas músicas me vêm à cabeça. Uma do Raul Seixas, Eu Nasci Há 10.000 Anos Atrás, que conta a história de um velhilho sentado na calçada, com uma viola na mão, que diz para o povo que nasceu há 10.000 anos atrás. A música então começa a desvendar os mil mistérios que o velhinho teria vivido nesses milhares de anos. Mas o que eu acho mais legal é como termina a cantoria: “E para aquele que provar que eu estou mentindo, eu tiro o meu chapéu”. A outra música é do Oswaldo Montenegro, Letras Brasileiras, em uma letra que vai enumerando coisas profundas e grandiosas, como se representasse a passagem do tempo, nossa existência bela e triste: “Dez mil rubis, mil pedras turmalinas, cem mil cometas, um milhão de sóis, dez mil joões, mil vidas severinas, cem mil poetas, todos eles sós”.

Claro que gosto de artistas que mostram diretamente sua alma, como o Raul Seixas, o Jim Morrison, o Renato Russo e o Cazuza. Mas gosto também de um outro tipo de artista, mais contido, mais ressabiado – mais parecido com a gente. Entre eles estão o próprio Osvaldo Montenegro (Bandolins), o Humberto Gessinger (Infinita Highway), o Zé Ramalho (Chão de Giz) e o Renato Teixeira (Amanheceu, Peguei a Viola). Parece que eles não têm vergonha de serem vistos às vezes como intuitivos, às vezes como técnicos, como filósofos e sentimentais, reservados e expostos, personalistas e generosos, simples e complexos, ordenados e caóticos, épicos e zens, professorais e infantis. Parece que eles não têm vergonha de mudar de tempos em tempos, de se revelarem em várias camadas aparentemente contraditórias, mas que expressam muito bem as nossas inelutáveis e adoráveis contradições humanas.

Quando eu morava em Florianópolis, há quase trinta anos, fui em um par de shows do Oswaldo Montenegro. No final de um deles, ele propôs que fizessemos algo diferente. Ao invés dele, o artista, sair enquanto a platéia assistia, ele é que ficaria tocando no palco enquanto nós saíamos. Claro que eu adorei a experiência, e claro que saí sem nem olhar para trás. Acho que fui o único. Queria um dia perguntar para ele se algum dia isso tinha dado certo – todos saindo e ele ali sozinho no palco. Nunca saberei, mas aposto que a experiência me marcou muito mais do que para aqueles que ficaram ali para assistir ao finalzinho do show.

Dia desses estava ouvindo uma música do Oswaldo Montenegro em que ele contava como a Madalena sempre dizia que não importava como era o meio do show, no final tinha que ter alegria. Ele continuava a história, dizendo que às vezes ele era até ranzinza – talvez fosse muitas vezes ranzinza -, mas que, em um grande esforço para não ser, tinha feito uma música listando só as coisas de que gostava: “eu gosto, eu gosto, eu gosto”. É chamada ‘Vamos Celebrar’. E é com essa música que ficamos aqui no final do texto, espantando a ranzinzice e celebrando nossos dez anos. Obrigado pela companhia.


Vamos Celebrar

 

SUMÁRIO

Introdução
The Tao of Steve
This is My Generation, Baby
Perfect Sense
La Vie de Jésus
One Week
The Bicycle Book
Autorretrato
A Love Song for Bobby Long
Milo Manara
Garotas Fofinhas
Michiko & Hatchin
Evel Knievel
Vila Velha
Companheiros de Papel
Fanpage do Equilíbrio em Duas Rodas
Sobre Árvores e Desertos
Cinco Anos de Estudos da Bicicleta
Bicicleta na Praia de Boa Viagem
Livros e Miniaturas
Suave na Nave
Vegetarianismo
Brew to Bikes
Arquitetura e Urbanismo para Bicicletas
Motoqueiros no Corredor
A Política das Duas Rodas
A Filosofia do Motoqueirismo
Promoting Walking and Cycling
Transit Metropolis
Mobilities
Sapato Furado
The Go Girls
O Mapa
Ordem e Caos
Nossos Corpos, Nossas Bicicletas
Moto em Cordel
O Grande Canyon
Termovisão
Origem Universitária
Cidades Famosas
O Inferno é Aqui
Anarquito
Modelagem das Motocicletas
O Mundo das Motocicletas
Reconsidering the Bicycle
Bosozoku
Jaquetas
Ghost Rider #1
Estrada da Fúria
Sociabilidade ou Solitude?
Culinária
Argumentos Macabros
Anjos e Demônios
Oclismo
A Última Pedalada
Zona Norte
Retrato
De Volta à Estrada
Vida de Professor é Difícil
A Volta da Velocidade
A Mais Completa das Pistas
Cycling and Society
A Bicicleta e o Calor
A Bicicleta e a Chuva
Fumaça de Café
Desertos
Bikers
Livros Sobre Livros
Congestionamento
Capacete de Bicicleta
On the Map
The Flamethrowers
Frankenstein
Detalhes
A Origem das Bicicletas
Xadrez em Duas Rodas
Só Sei Que Nada Sei
Congestionamento Experimental e Computacional
Domesticação
Excesso de Velocidade
Gibiteca em Duas Rodas
Contraste
Bicicletas e Cachorros
Corridas de Bicicleta
Fotografia Histórica
Dislexia
Bike Art
As Culturas do Bicicletismo
As Culturas do Motoqueirismo
Livros, Professores, Música e Motos
Ainda Sobre Livros Acadêmicos
A Moto Urbana Perfeita
Picasso e Duchamp
Filmes, Tragédias e Paixões
Faculty Towers
Sobre as Irregularidades
How Colleges Work
Universidades na América e na Europa
The Professor
Get Lost!
The Gate of Angels
A Quarta Onda
Duas Rodas na Cultura
Os Motoqueiros do Sertão
Jason Bourne e Tom Ripley
Touched with Fire
Motos, Filmes, Mulheres Lindas e Professores de Música
Um Homem Sério
LOBO LOKO é 66.666
NINA BAIQUE é 66
Deixa eu Gostar de Você
Leporello
Legends of the Tour
Os Dedinhos
Não É o Gato, É a Escuridão
The British Museum is Falling Down
Microcosmographia Academica
Set Free the Bears
The Hipster Colouring Book
The Groves of Academe
O Que Que Há, Velhinho?
Termodinâmica Clássica, Livros e Notas
“Tanquilo”
Nemesis
Pneus Furados e Pneus Furados
Mãos Sujas
Os Estereótipos das Duas Rodas
Bike & Art
Twisted
Morinchabike
Vamos Celebrar
Sumário

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