As Motos de Milan Kundera

Apr 23rd, 2019 | By | Category: Destaques, Livros, Posts


Há dois anos que eu não escrevia um texto sequer aqui no Equilíbrio em Duas Rodas. O último foi em fevereiro de 2017, A Garota da Capa. Essa ausência de textos se deu porque passei esse tempo todo mais preocupado em aprender a fazer vídeos. Era o mesmo conteúdo, mas com forma diferente. No início esses vídeos eram sobre os textos antigos, depois começaram a ter originalidade própria. Um exemplo disso é As Motos de Milan Kundera, uma ideia que tive lá no final de 2017, mas que gravei só em outubro de 2018.

Um pouco depois, em dezembro, tentei dar um tom acadêmico a esse vídeo do Kundera, daí escrevi um texto em inglês com a ajuda dos profs. Steven Alford e Suzanne Ferriss (pensava em submeter esse texto para uma revista acadêmica). Essa ajuda dos professores envolveu tanto a correção do inglês quanto principalmente a re-estruturação das ideias. Para que eles entendessem o vídeo original, coloquei umas legendas em inglês. Acabou não dando certo a publicação, mas gostei mesmo assim do resultado.

O certo é que essa história toda acaba hoje. Finalmente traduzi o texto para o português e aqui estão os resultados: o vídeo original, a versão em português e a versão em inglês.







As Motos de Milan Kundera

(texto em português)


O escritor Milan Kundera é o Randy Mamola do mundo literário. Isso porque, embora ambos não tenham conquistado títulos famosos, nem o Nobel de literatura nem o Grand Prix de motociclismo, eles são grandes favoritos do público. O principal tema de Kundera é realmente grande: o indivíduo existencialista preso dentro de um regime autoritário, seja cultural, seja político.

De começo parece que as motos não parecem importantes em seu universo literário. Ou será que são?

A imagem de uma moto ultrapassando uma carruagem está estampada na capa da edição espanhola de “A Lentidão” (1995). Já na edição brasileira aparece só a carruagem, e nenhuma das duas aparece nem na edição inglesa nem na francesa.

Ao viajar para além das capas, para o interior dos livros, buscando encontrar motos e bicicletas, encontramo-nas em quatro de seus livros: “A Valsa dos Adeuses” (1972), “O Livro do Riso e do Esquecimento” (1979), “A Insustentável Leveza do Ser” (1984) e “A Lentidão” (1995). Os significados desses veículos em seus livros são multifacetados, mas ligados a elementos-chave das obras de Kundera: tempo, memória e autoritarismo.


Figura 1 – Edições espanhola e brasileira de “A Lentidão” (1995).

Milan Kundera nasceu em 1929 na Checoslováquia, e em 1975 mudou-se para a França. Um de seus principais temas é o seu país de origem, constituído em 1918 das cinzas do Império Austro-Húngaro, invadido pelos nazistas em 1939, e depois involuntariamente preso ao domínio soviético até a Revolução de Veludo de 1989. Em 1968, a Checoslováquia passou oito meses de liberdade logo após a eleição de um primeiro-secretário reformista. Este evento, conhecido como a Primavera de Praga, foi encerrado pela invasão do exército soviético em agosto de 1968, devolvendo a Checoslováquia ao autoritarismo.

O tema sociopolítico recorrente de Kundera é o próprio autoritarismo, que surge tanto de um governo poderoso quanto das pessoas comuns que o apoiam. É claro que o governo intimida seu povo silenciando, exilando e encarcerando. Mas ninguém pode manter um governo autoritário sozinho, sem o apoio do povo. Nos romances de Kundera, os apoiadores são movidos pelo ressentimento, inveja e tristeza. Em vez de tentar melhorar a si mesmos, eles preferem destruir o que é bom nas pessoas livres e criativas. As obras de Kundera questionam as origens desse autoritarismo.


Figura 2 – Milan Kundera (b. 1929)

Kundera também é fascinado pela experiência do indivíduo sob o governo autoritário. O exílio é um assunto favorito: exílio físico para aqueles expulsos de seus países, exílio cultural para aqueles que não podem falar. Relacionamentos pessoais, particularmente eróticos e românticos, refletem as relações políticas entre os indivíduos, alternando entre alegria e tristeza, memória e esquecimento.

Milan Kundera é, no entanto, talvez mais um filósofo do que um romancista. Seus temas são mais importantes que seus personagens. Às vezes ele simplesmente esquece um personagem, muda sua personalidade ou cria um personagem novo do nada, tudo a serviço do desenvolvimento do tema. Com as motos que aparecem em seus romances acontece o mesmo. Elas têm várias personalidades, cada uma a serviço de uma intenção literária específica.


Figura 3 – “A Valsa dos Adeuses” (1972)

Por exemplo, se os personagens são secundários aos temas sociopolíticos de Kundera, as motos são terciárias em seus primeiros romances. “A Valsa dos Adeuses” (1972) apresenta uma bela enfermeira que se encontra romanticamente dividida entre um famoso trompetista que dirige uma limusine branca e um humilde operário que anda de moto. A moto nesse livro é usada apenas para representar as diferentes posições sociais de ambos os rivais.

Figura 4 – “O Livro do Riso e do Esquecimento” (1979)

Em “O livro do Riso e do Esquecimento” (1979), outro veículo de duas rodas – agora uma bicicleta, não uma moto – também serve a uma função representativa. No romance, Kundera mostra uma sociedade tentando esquecer seu passado, uma sociedade cheia de autoritarismo e de mediocridade. Em uma cena rara de otimismo, uma bicicleta aparece associada à subversão, à esperança e ao prazer físico. Nessa cena, um grupo de amigos está assistindo a um escritor famoso sendo entrevistado na televisão. A certa altura, o escritor fala sobre a transição de um mundo autoritário para um mundo melhor:
“Não se esqueça”, disse o escritor, com o rosto cada vez mais agitado, “foi em Rourou que eu primeiro andei de bicicleta. Sim, eu falo sobre isso em detalhes no meu livro. E todos vocês sabem o que a bicicleta significa no meu trabalho. É um símbolo. Para mim, a bicicleta é o primeiro passo tomado pela humanidade para fora do mundo patriarcal, em direção ao mundo civilizado. O primeiro flerte com a civilização. Como o flerte de uma virgem antes do seu primeiro beijo. Ainda é virgem, mas já é pecado”.
Sim, a virgem ainda está presa, mas ela já antecipa o amor. É assim que a sociedade começa a se transformar: com alegria, paixão, prazer e liberdade. A cena continua, mas agora um dos amigos, Joujou, relaciona a metáfora do escritor com sua realidade.
““É verdade”, disse Joujou. “Tanaka, uma menina com quem eu trabalhava, teve seu primeiro orgasmo pedalando uma bicicleta quando ela ainda era virgem”
Tanaka, ainda virgem, ainda presa aos laços de uma ordem autoritária que a priva de sentir prazer com o seu próprio corpo, tem um orgasmo mesmo assim. A bicicleta se torna um veículo para a liberdade pessoal, pois a garota subverte a ordem ao ter um orgasmo enquanto pedala.


Figura 5 – “A Insustentável Leveza do Ser”, livro (1984) e filme (1988)

A moto aparece quatro vezes em “A Insustentável Leveza do Ser” (1984), um romance que apresenta quatro personagens. Os dois homens, Tomas e Franz, um médico mulherengo e o outro um professor idealista, não são importantes do ponto de vista das duas rodas. A única aparição de uma moto relacionada a Tomas ocorre depois que ele morre e seu filho usa uma moto para ir ao funeral. Não há grande significado nisso.

Em vez disso, as cenas significativas envolvendo motos dizem respeito às duas personagens femininas. Tereza, esposa de Tomas, é fortemente ligada ao relacionamento deles, o que causa muita dor por ele ser infiel. Ela encontra certa liberdade ao se tornar uma fotógrafa documentarista, especialmente durante a invasão soviética após a Primavera de Praga. Tereza alcança fama tirando fotos dos tanques que chegam. Na primeira cena do livro em que aparece uma moto, Tereza está fotografando a chegada dos tanques soviéticos. Naquele momento, os soldados soviéticos ainda não sabem se podem disparar contra os cidadãos de Praga, de modo que os jovens checos começam a provocar os soldados.
Muitas dessas fotos foram publicadas pela imprensa ocidental: nelas se viam tanques, punhos ameaçadores, prédios destruídos, mortos cobertos com uma bandeira tricolor ensanguentada, jovens de moto que a toda velocidade circulavam em torno dos tanques agitando bandeiras tchecas na ponta de longas varas, e meninas muito jovens com minissaias incrivelmente curtas, que provocavam os infelizes soldados russos, sexualmente famintos, beijando às suas vistas transeuntes desconhecidos.
As motos que cercam os tanques soviéticos em alta velocidade com bandeiras checas são um símbolo potente de resistência e provocação política.

Na cena seguinte, associada à outra personagem feminina, Sabina, a moto também provoca, mas agora em um nível individual. Como uma artista, Sabina usa sua criatividade para se libertar primeiro dos laços familiares e depois das correntes do autoritarismo. Mas daí ela começa a questionar a própria legitimidade e autenticidade dos que lutam contra o regime autoritário, suspeitando que eles são motivados pelo orgulho e pela vaidade. Ela teme que a música esteja sendo usada para criar uma felicidade artificial.
Descobriu que a transformação da música em barulho é um processo planetário que faz a humanidade entrar na fase histórica da feiúra total. A feiúra no sentido absoluto começou a manifestar-se pela onipresença da feiúra acústica: os automóveis, as motos, as guitarras elétricas, as britadeiras, os alto-falantes, as sirenes.
Nesta cena, as motos são vistas como ruidosas, como parte da feiúra do mundo.


Figure 6 – Renato Russo (n.1960, m.1996) e o álbum “Dois” (1986)

Sabina, uma artista visual, considera o ruído urbano uma afronta. Vamos ver, por outro lado, como um músico poderia reagir. Duas músicas brasileiras levam esse reflexo sobre o barulho das motos um pouco além. A letra de um blues chamado “Música Urbana 2”, do Legião Urbana, uma banda existencialista de pop-rock venerada dos anos 80, fala sobre o cenário urbano: antenas de TV, mendigos, viciados, o vento, favelas, coberturas, crianças nas escolas, policiais e assim por diante. Todos eles fazem música urbana. Na música, Renato Russo (o compositor, vocalista e líder da banda de rock) canta:
“Motocicletas querendo atenção às três da manhã – é só música urbana”
Aqui, como no romance de Kundera, as motos perturbam. Mas Renato Russo reflete sobre a causa dessa feiúra: as motos querem atenção! Isso é mais ou menos o que Kundera tenta desenvolver quando diz que a causa para as pessoas apoiarem o regime autoritário é a falta de afeto. Ninguém os ama, ninguém os admira, ninguém os acha inteligentes. É por isso que eles tentam atrapalhar a vida das pessoas criativas: as perseguindo. E é por isso que as motos atrapalham o sono da cidade às três da manhã – por querer atenção, por querer afeto.


Figura 7 – Caetano Veloso (n. 1942) e o álbum “Qualquer Coisa” (1975)

“A Tua Presença Morena” (*), do Caetano Veloso, enfatiza o poder dos indivíduos para aquietar o ruído urbano. Na letra, Caetano nos conta como a presença de uma mulher comanda, subjuga, espalha e paralisa a realidade. Em um verso, ele canta:
“A tua presença silencia os automóveis e as motocicletas”
A presença da mulher forte nos tira da consciência o barulho das motos, assim a música inspira uma esperança de mudança. Amor, alegria, inteligência, beleza e força podem nos livrar do barulho.

Ironicamente, em “A Insustentável Leveza do Ser”, Sabina, que quer escapar desse barulho, o faz em uma moto. Para fugir da música militar simplista usada pelos comunistas, ela pega a estrada:
Na época em que, estudante, Sabina trabalhava no Canteiro da Juventude e sentia na alma o veneno das alegres marchas que jorravam sem interrupção dos altos falantes, saiu para passear de moto num domingo. Percorreu quilômetros de florestas e parou numa pequena cidade desconhecida perdida no meio das colinas.
Neste caso, a moto se torna uma companheira de fuga. Ainda não é um veículo para a transformação para longe da sociedade autoritária como a bicicleta de “O Livro do Riso e do Esquecimento”, mas fornece pelo menos um alívio momentâneo.


Figura 8 – “A Lentidão” (1995)

Os significados contraditórios da moto – como barulho e fuga, como provocação política e liberdade pessoal – alcançam seu ápice em “A Lentidão”, o primeiro livro que Kundera escreveu originalmente em francês. Na primeira página, um homem está dirigindo um carro enquanto pensa em motos acelerando:
O homem curvado em sua motocicleta só pode se concentrar naquele exato momento de seu voo; agarra-se a um fragmento retirado tanto do passado quanto do futuro; é arrancado da continuidade do tempo; está fora do tempo; em outras palavras, está num estado de êxtase; em tal estado, não sabe nada da sua idade, nada de sua mulher, nada de seus filhos, nada de suas preocupações e, portanto, não tem medo, pois a fonte do medo está no futuro e quem se liberta do futuro nada tem a temer.

A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica concedeu de presente ao homem. Ao contrário do motoqueiro, quem corre à pé está sempre presente em seu corpo, forçado a pensar em suas bolhas, em seu fôlego; quando corre, sente seu peso, sua idade, consciente mais do que nunca de si mesmo e do tempo de sua vida. Tudo muda quando o homem delega a uma máquina a faculdade de ser veloz: a partir de então, seu próprio corpo fica fora do jogo e ele se entrega a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase.
O livro critica essa necessidade da velocidade, essa necessidade do êxtase, essa necessidade de esquecer.


Figura 9 – “Por Uma Noite” (1812)

O romance é parcialmente baseado em “Por Uma Noite” (1812), de Dominique Vivant Denon. Nesta estória erótica, uma mulher casada convida um rapaz para passar a noite em sua alcova bem no castelo onde ela mora com o marido. Na manhã seguinte, o jovem está cheio de vida e satisfação. Ele não quer esquecer a noite; ele quer lembrar. Em outras palavras, o oposto de usar o êxtase da velocidade para esquecer.

“A Lentidão” ocorre no mesmo castelo de “Por Uma Noite”, mas nos dias atuais. No final do romance, Vincent, um motoqueiro intelectual, quer provocar, quer chocar, as pessoas daquele castelo: acadêmicos, políticos e pensadores. Para fazer isso, ele seduz uma linda garota e a convence a fazer sexo anal selvagem na frente dos que estão no castelo. Eles ficam nus na piscina, mas, quando ele tenta penetrá-la por trás, não consegue ter uma ereção. Em vez disso, eles simulam o sexo, fingindo se envolverem no sexo anal encenado apenas para escandalizar. Mais tarde, a experiência lhe causa grande sofrimento, por isso ele tenta esquecer.
O desprezo que o outro lhe dirigiu faz Vincent mergulhar de novo em sua angústia. Sente-se subitamente fraco. Sabe que não contará a ninguém a história da suruba. Não terá forças para mentir. Está muito triste para mentir. Só tem uma vontade: esquecer depressa essa noite, toda essa noite fracassada, apagá-la, anulá-la – nesse momento, sente uma sede insaciável de velocidade. Com um passo determinado, apressa-se em direção à sua moto, enche-se de amor por sua moto, por sua moto na qual se esquecerá tudo, na qual se esquecerá de si mesmo.
Simultaneamente, o jovem da estória do século dezenove de “Por Uma Noite” reaparece. Ele acabara de fazer sexo com a mulher casada a noite toda. Ele estava satisfeito e não sentia necessidade de se mostrar para ninguém. Um observador, o próprio Kundera, logo depois de ver Vincent andando de moto para esquecer a penetração anal fracassada, observa o jovem cavalheiro indo para uma carruagem:
Espere um segundo.

Quero contemplar mais um pouco meu cavalheiro, que se dirige lentamente para a carruagem. Quero saborear o ritmo de seus passos: quanto mais avança, mais lentos eles são. Nessa lentidão, creio reconhecer uma marca de felicidade.

O cocheiro o cumprimenta; ele pára, leva os dedos ao nariz, depois sobe, senta-se, acomoda-se num canto, as pernas agradavelmente esticadas, a carruagem balança, logo irá cochilar, depois acordará e, durante todo esse tempo, procurará ficar o mais próximo possível daquela noite que, inexoravelmente, irá se misturar com a luz.

Sem amanhã.

Sem público.
Aqui está claro que o cavalheiro não estava fazendo sexo apenas pelo momento do êxtase. Ele se lembrava de toda a noite. Ele não queria esquecer. Ele queria que o perfume da mulher ficasse em seus dedos para sempre. Ele queria lembrar a noite para sempre, sempre em sua memória. Com sua interjeição, “espere um segundo”, Kundera parece elevar a lentidão, a memória e o passado – a carruagem -, sobre a velocidade, o esquecimento e o presente – a moto.

Para terminar, as motos de Milan Kundera, assim como seus personagens, são multifacetadas. Elas são humildes, porque são veículos da classe trabalhadora. Elas são libertadoras. Elas podem nos trazer prazer e alegria, e é isso que no final subverterá o autoritarismo do governo e a mediocridade das pessoas. Elas são provocadoras quando atormentam os soldados soviéticos. Elas são barulhentas quando representam o mundo onde ninguém mais quer dialogar. Elas são companheiras nos momentos em que perdemos a força para lutar e precisamos de uma fuga temporária. Elas nos levam ao êxtase, embora um êxtase limitado, uma fuga da realidade que é igualmente temporária.

Em suma, Milan Kundera é um mentiroso. Ele usa as motos para desenvolver seus personagens e, em seguida, ele usa seus personagens para desenvolver seus temas. Ele está disposto a distorcer as motos e os personagens para beneficiar sua ficção. Ele cria fantasias só para falar sobre o que realmente importa para ele.

Será que ele pode ser perdoado por suas mentiras? Acho que sim, porque ele representa as fantasias que todos nós habitamos, incluindo os acadêmicos que usam motos como pretexto para homenagear seus escritores favoritos, cidadãos que mencionam regimes autoritários do passado só para denunciar atuais palhaços vestidos como presidentes, e até um indivíduo falando de estórias fictícias apenas para seduzir uma bela mulher-tigresa (**) com lábios carnudos convidativos.

As motos do universo literário de Milan Kundera são, em certo sentido, bem mais reais que qualquer outra moto. Isso porque são apresentadas como entidades cheias de mobilidade existencial e de significados contraditórios. Exatamente como é a própria realidade.

Agradecimentos

Obrigado a Steven Alford e Suzanne Ferriss pela ajuda na preparação deste texto.

Notas

(*) Não é fácil traduzir “morena”. Nos anos 70, quando a música foi composta, às vezes o termo era usado como “preta”, mas agora é usado apenas como “morena” mesmo. Hoje, o uso de “morena” significando “preta” é considerado uma espécie de branqueamento.

(**) O termo “tigresa” é utilizado pelo autor deste artigo em referência à música “Tigresa” composta por Caetano Veloso, outra música que pinta uma mulher poderosa com traços ricos e contraditórios.


Trabalhos Citados

Kundera, Milan. “A Insustentável Leveza do Ser”, 1984.
—. “A Lentidão”, 1995.
—. “O Livro do Riso e do Esquecimento”, 1979.
—. “A Valsa dos Adeuses”, 1972.
Russo, Renato. “Música Urbana 2.” Dois. EMI, 1986.
Veloso, Caetano. “A Tua Presença Morena.” Qualquer Coisa. Philips, 1975.
Veloso, Caetano. “Tigresa.” Bicho. Philips, 1977.
Denon, Dominique Vivant. “Por Uma Noite”, 1812.









As Motos de Milan Kundera

(video em português, English subtitles)









Milan Kundera’s Motorcycles

(English text)


The writer Milan Kundera is the Randy Mamola of the literary world, given that although both have won no titles, neither Nobel nor Grand Prix, they are crowd favorites. Kundera’s main theme is a great one: the existentialist individual caught inside a cultural or political authoritarian regime. Initially, motorcycles do not appear important in his universe. Or are they? The image of a motorcycle overtaking a chariot is on the cover of the Spanish edition of “Slowness” (1995), but only a chariot on the Brazilian edition and no vehicles at all in the English and French editions. Traveling beyond the covers to the books’ interiors in the quest of finding motorcycles and bicycles reveals them in four of his books: “The Farewell Waltz” (1972), “The Book of Laughter and Forgetting” (1979), “The Unbearable Lightness of Being” (1984) and “Slowness” (1995). The vehicles’ meanings are multifaceted, but tied to key elements of Kundera’s works: time, memory, and authoritarianism.


Figure 1 – Spanish and Brazilian editions of “Slowness” (1995).

Milan Kundera was born in 1929 in Czechoslovakia and in 1975 he moved to France. One of his main subjects is Czechoslovakia, created in 1918 from the ashes of the Austro-Hungarian Empire, invaded by the Nazis in 1939, and then involuntarily under Soviet rule until the Velvet Revolution of 1989. In 1968, Czechoslovakia experienced eight months of freedom after the election of a reformist first secretary. This event, the Prague Spring, was terminated by the invasion of the Soviet army in August 1968, returning Czechoslovakia to authoritarianism.

Kundera’s recurrent sociopolitical theme is the authoritarianism arising both from a powerful government, as well from the ordinary people who support it. Of course, the government intimidates its people by silencing, exiling and jailing them. But no one can maintain an authoritarian government alone without the support of the people. In Kundera’s novels, the supporters are moved by resentment, envy and sadness. Instead of trying to become better themselves, they prefer to destroy what is good in free and creative people. Kundera’s works question the origins of authoritarianism.


Figure 2 – Milan Kundera (b. 1929)

He is also fascinated by the experience of the individual under authoritarian rule. Exile is a favorite subject: physical exile for those expelled from their countries, cultural exile for those not allowed to speak. Personal relationships, particularly erotic and romantic entanglements, mirror the political relationships among individuals, alternating between joy and of sadness, memory and forgetting.

Kundera is, however, perhaps more a philosopher than a novelist. His themes are more important than his characters. Sometimes he simply forgets a character, changes his/her personality, or creates a new one out of nowhere, all in service of developing the theme. The motorcycles that appear in his novels are the same. They have several personalities, each one in service of a specific literary intention.


Figure 3 – “The Farewell Waltz” (1972)

For instance, if characters are secondary to Kundera’s sociopolitical themes, the motorcycle is tertiary in his earlier novels. “The Farewell Waltz” (1972) features a beautiful nurse who is romantically divided between a famous trumpeter who drives a white limousine and a humble machinist who rides a motorcycle. The motorcycle is used only to represent the different social positions of both rivals.

In “The Book of Laughter and Forgetting” (1979), a two-wheeled vehicle—a bicycle, not a motorcycle—also serves a representative function. In the novel, Kundera shows a society trying to forget its past, full of authoritarianism and mediocrity. In a rare scene of optimism, a bicycle appears associated with subversion, hope, and physical pleasure. In this scene, a group of friends is watching a famous writer being interviewed on television. At a certain point, the writer is talking about the transition from an authoritarian world to a better world:
“Don´t forget,” said the writer, his face more and more agitated, “it was in Rourou that I first rode a bike. Yes, I tell about it in detail in my book. And you all know what the bicycle signifies in my work. It’s a symbol. For me, the bicycle is the first step taken by humanity out of the patriarchal world and into the world of civilization. The first flirtation with civilization. The flirtation of a virgin before her first kiss. Still virginity, and already sin.”

Figure 4 – “The Book of Laughter and Forgetting” (1979)

Yes, the virgin is still trapped, but she already anticipates love. This is how society begins to be transformed: with joy, passion, pleasure, and freedom. The scene continues, but now one of the friends, Joujou, relates the writer’s metaphor to their reality.
“That’s true”, said Joujou. “Tanaka, a girl I worked with, had her first orgasm riding a bicycle when she was still a virgin.”
Tanaka, still a virgin, still stuck in the bonds of an authoritarian order that deprives her of feeling pleasure within her own body, enjoys it nonetheless. The bicycle becomes a vehicle for personal freedom, as she subverts the order by having an orgasm as she rides.


Figure 5 – “The Unbearable Lightness of Being”, book (1984) and film (1988)

The motorcycle appears four times in “The Unbearable Lightness of Being” (1984), a novel that features four characters. The two men, Tomas and Franz, one a womanizer doctor and the other an idealistic professor, are unimportant from two-wheeled point of view. The only appearance of a motorcycle related to Tomas occurs after he dies and his son uses a motorcycle to go to the funeral. There is no great meaning in this.

Instead, the meaningful scenes involving motorcycles concern the two female characters. Tereza, Tomas’s wife, is attached to their relationship, which causes her a lot of pain because of his womanizing. She finds a certain freedom in becoming a documentary photographer, especially during the Soviet invasion after the Prague Spring. She achieves fame by taking pictures of the tanks coming in. In the first scene of the book in which the motorcycle appears, Tereza is photographing the arrival of the Soviet tanks. At that moment, the Soviet soldiers still do not know if they can fire on the Prague citizens, so the Czech youths begin to irritate the soldiers.
She shot roll after roll and gave about half of them, undeveloped, to foreign journalists (the borders were still open, and reporters passing through were grateful for any kind of document). Many of her photographs turned up in the Western press. They were pictures of tanks, of threatening fists, of houses destroyed, of corpses covered with bloodstained red-white-and-blue Czech flags, of young men on motorcycles racing full speed around the tanks and waving Czech flags on long staffs, of young girls in unbelievably short skirts provoking the miserable sexually famished Russian soldiers by kissing random passersby before their eyes. As I have said, the Russian invasion was not only a tragedy; it was a carnival of hate filled with a curious (and no longer explicable) euphoria.
The speeding motorcycles encircling the Soviet tanks with Czech flags is a potent symbol of resistance and political provocation.

In the next scene, associated with the other female character, Sabina, the motorcycle provokes, but on an individual level. An artist, Sabina uses her creativity to break free from family ties, and then from the chains of authoritarianism. But she begins to question the legitimacy and authenticity of others who fight against the authoritarian regime, suspecting they are motivated by pride and vanity. She fears that music is being used to create artificial happiness.
At the time, she had thought that only in the Communist world such musical barbarism reign supreme. Abroad, she discovered that the transformation of music into noise was a planetary process by which mankind was entering the historical phase of total ugliness. The total ugliness to come had made itself felt first as omnipresent acoustical ugliness: cars, motorcycles, electric guitars, drills, loudspeakers, sirens. The omnipresence of visual ugliness would soon follow.
In this scene, motorcycles are seen as noisy, as a part of the world’s ugliness.


Figure 6 – Renato Russo (b.1960, d.1996) and the album “Dois” (1986)

Sabina, a visual artist, takes the urban noise as an affront. Consider, by contrast, how a musician might respond. Two Brazilian songs take this reflection a little further. The lyrics of a blues song called “Música Urbana 2” (“Urban Music 2”), by Legião Urbana (“Urban Legion,” a venerated existentialist pop-rock band from the 80s), talk about the urban scenery: TV aerials, beggars, junkies, the wind, shanty towns, penthouses, children in schools, police and so on. All of them make urban music. In the song, Renato Russo (the composer, vocalist and leader of the rock band) sings:
“Motocicletas querendo atenção às três da manhã – é só música urbana” (Port.)
“Motorcycles craving for attention at three in the morning – it’s just urban music” (Eng.)
Here, as in Kundera’s novel, the motorcycles are disturbing. But Renato Russo further reflects on the cause of that ugliness: the motorcycles want attention! This is more or less what Kundera tries to develop when he says the cause of those people supporting the communist regime is lack of affection. No one loves them, no one admires them, no one thinks them intelligent. This is why they try to disturb the lives of the creative people persecuting them, and that is why the motorcycles disturb the sleep of the city at three in the morning—for attention, affect.


Figure 7 – Caetano Veloso (b. 1942) and the album “Qualquer Coisa” (1975)

“A Tua Presença Morena” (*) (“Your Black Presence”) by Caetano Veloso, emphasizes the power of individuals to quiet the urban noise. In the lyrics, Caetano tell us how the presence of a woman commands, overpowers, spreads and paralyzes reality. In a verse, he sings:
“A tua presença silencia os automóveis e as motocicletas” (Port.)
“Your presence silences the automobiles and the motorcycles” (Eng.)
The presence of the strong woman makes us no longer aware of the ugliness of the motorcycles’ noise, thus the song inspires a hope for change. Love, joy, intelligence, beauty, and strength can rid us of the noise.

Ironically, in “The Unbearable Lightness of the Being”, Sabina, who wants to escape from that noise, does so on a motorcycle. To flee from the simplistic military music used by the communists, she takes a ride:
When Sabina was working in the student brigade, her soul poisoned by the cheerful marches issuing incessantly from the loudspeakers, she borrowed a motorcycle one Sunday and headed for the hills. She stopped at a tiny remote village she had never seen before, leaned the motorcycle against the church, and went in. In this case, the motorcycle becomes an escape companion. It is not yet a vehicle for the transformation of authoritarian society as the bicycle was in The Book of Laugher and Forgetting but it provides at least a momentary relief.


Figure 8 – “Slowness” (1995)

The contradictory meanings of the motorcycle—as noise and escape, as political provocation and personal freedom—reach their apex in “Slowness”, the first book Kundera wrote originally in French. On the first page, a man is driving a car while thinking about speeding motorcycles:
What could I say? Maybe this: the man hunched over his motorcycle can focus only on the present instant of his flight: he is caught in a fragment of time cut off from both the past and the future; he is wrenched from the continuity of time; he is outside time; in other words, he is in a state of ecstasy; in that state he is unaware of his age, his wife, his children, his worries, and so he has no fear, because the source of fear is in the future, and a person freed of future has nothing to fear.

Speed is the form of ecstasy the technical revolution has bestowed on man. As opposed to a motorcyclist, the runner is always present in his body, forever required to think about his blisters, his exhaustion; when he runs the feels his weight, his age, more conscious than ever of himself and of his time of life. This all changes when man delegates the faculty of speed to a machine: from then on, his own body is outside the process, and he gives over to a speed that is non-corporeal, nonmaterial, pure speed, speed itself, ecstasy speed.
The book critiques this need for speed, this need for ecstasy, this need to forget.


Figure 9 – “No Tomorrow” (1812)

The novel is partly based on “No Tomorrow” (1812) by Dominique Vivant Denon. In this erotic story, a married woman invites a young man to spend the night with her, in the castle where she lives with her husband. The next morning, the young man is full of life and satisfaction. He doesn’t want to forget the night; he wants to remember, in other words, the opposite of using the ecstasy of speed to forget.

“Slowness” occurs in the same castle as in “No Tomorrow,” but in the present day. At the end of the novel, Vincent, an intellectual motorcyclist, wants to provoke, to shock, the people in that castle: scholars, politicians, and thinkers. To do so he seduces a beautiful girl and convinces her to perform savage anal sex in front of the castle’s inhabitants. They get naked in the swimming pool, but, when he tries to penetrate her, he fails to get an erection. Instead, they simulate sex, pretending to engage in anal sex. Later the experience causes him great suffering, so he tries to forget.
The contempt he spat upon him has plunged Vincent right back into his turmoil. Suddenly he feels weak. He knows he will not tell anyone the orgy story. He will not have the strength to lie. He is too sad to lie. He has only one desire: to forget this night speedily, this entire disastrous night, erase it, wipe it out, nullify it – and in this moment he feels an unquenchable thirst for speed. His step firm, he hastens toward his motorcycle, he desires his motorcycle, he is swept with love for his motorcycle, for his motorcycle on which he will forget everything, on which he will forget himself.
Simultaneously, the young man of the nineteenth-century story “No Tomorrow” reappears. He had just had sex with the married lady all night. He was satisfied and felt no need to show himself to anyone. An observer, Kundera himself, soon after seeing Vincent riding the motorcycle to forget the failed penetration, watches the young gentleman going to a chariot:
“Wait a second.”

I want to go on contemplating my Chevalier as he walks slowly toward the chaise. I want to relish the rhythm of his steps: the farther he goes, the slower they are. In that slowness, I seem to recognize a sign of happiness.

The coachman greets him; he stops, he brings his fingers to his nose, then he climbs up, takes his seat, huddles into a corner, his legs stretched comfortably before him: the chaise starts, soon he will drowse off, then he will wake, and all that time he will be trying to stay as close as he can to the night as it melts inexorably in the light.

No tomorrow.

No audience.
Here it is clear that the Chevalier was not having sex only for the moment of ecstasy. He remembers the whole night. He does not want to forget. He wants the scent of the woman to stay on his fingers forever. He wants to remember the night forever, always in his memory. With his interjection, “wait a second,” Kundera appears to elevate slowness, memory, and the past—the chariot—over speed, forgetting, and the present—the motorcycle.

However, Milan Kundera’s motorcycles, like his characters, are multifaceted. They are humble, because they are vehicles of the working class. They are liberating. They can bring us pleasure and joy, and those are what in the end will subvert the authoritarianism of the government and the mediocrity of people. They are provocative when they tantalize the Soviet soldiers. They are noisy when they represent the world where no one wants to dialogue anymore. They are companions in moments when we lose the strength to fight and want a temporary escape. They are ecstatic, although this ecstasy may be limited, an escape from reality that is equally temporary.

In short, Milan Kundera lies. He uses motorcycles to develop his characters, and then he uses characters to develop his themes. He is willing to distort motorcycles and characters to benefit his fiction. He creates fantasies to talk about what really matters to him. Can he be forgiven for his lies? I think yes, because he represents the fantasies everyone inhabits, including scholars using motorcycles as a subject to pay tribute to their favorite writer, citizens remembering past authoritarian regimes to denounce present clowns dressed as presidents, and even an individual talking about fictional passions only to thrill a beautiful woman-tigress (**) with fleshy inviting lips. The motorcycles of Milan Kundera’s literary universe are, in a sense, more real than any other motorcycle, because they are presented as mobile and full of contradictory meanings, exactly like reality itself.

Acknowledgments

Thanks to Steven Alford and Suzanne Ferriss for their assistance in the preparation of this text.

Notes

(*) It’s not easy to translate “morena.” In the 70s, when the song was composed, it was sometimes used as “black,” but now it is used only as “brunette.” Today, the use of “morena” to signify “black” is considered a kind of whitewashing.

(**) The term “tigress” is used by the author of this paper in reference to the music “Tigresa” (“Tigress”) composed by Caetano Veloso, another music that paints a powerful woman with rich and contradictory strokes.


Works Cited

Kundera, Milan. “The Unbearable Lightness of Being”, 1984.
—. “Slowness”, 1995.
—. “The Book of Laughter and Forgetting”, 1979.
—. The Farewell Waltz”, 1972.
Russo, Renato. “Música Urbana 2.” Dois. EMI, 1986.
Veloso, Caetano. “A Tua Presença Morena.” Qualquer Coisa. Philips, 1975.
Veloso, Caetano. “Tigresa.” Bicho. Philips, 1977.
Denon, Dominique Vivant. “No Tomorrow”, 1812

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