Crônicas do Atacama – A Mão do Deserto

Jul 2nd, 2010 | By | Category: Crônicas do Atacama, Posts

Entre Copiapó e Antofagasta, mais um vez a estrada é ótima.  O trecho é bem simples. O Pacífico está 70 km a oeste de Copiapó. Depois você anda 90 km ao norte, acompanhando o mar, até chegar em Chañaral. Se Copiapó é o lugar onde os Andes encontram o deserto, Chañaral é onde o deserto encontra o mar. Lá a estrada entra um pouco para o continente, percorrendo mais 400 km dentro do deserto.

Embora tivéssemos entrado no Atacama oficialmente há dois dias atrás, é depois de Chañaral que tudo fica realmente seco. Não há nenhuma planta salpicando a paisagem. Nenhuma. Em alguns lugares, o deserto é meio avermelhado, lembrando as fotos de Marte. Mas talvez seja por causa do horário em que passamos.

Cansados de pagar caro pela comida, pela água e até para um xixi básico, tentamos arriscar parar em uma posada ao invés de fazer o lanche em um posto da estrada. Essas posadas são casinhas coloridas, bem simples, geralmente soltas no meio do nada. Mas por dentro são bem cuidadas e bonitas. A comida é mais barata e de boa qualidade, sem contar o bom atendimento.

Nessa posada em Agua Verde ficamos um bom tempo conversando com duas senhoras mais velhas que ali trabalhavam. Nos contaram bastante coisas sobre a vida no deserto. Tinham bastante orgulho por serem dali. Elas defendiam que o Deserto do Atacama, mesmo, era ali. São Pedro de Atacama – mais ao norte – seria parte de um outro deserto, segundo elas.

Logo depois apareceu um motociclista solitário com uma grande Gold Wing. Em geral não gosto muito dessa moto, mas nessas estradas ótimas e solitárias do Atacama, talvez sejam motos ideais. O rapaz se vestia de forma simples, com uma jaqueta de couro e calça jeans. Exatamente como veríamos mais tarde outra garota que tomava um sorvete à sombra de uma árvore lá em Huara. Esses viajantes tranqüilos me fizeram pensar muito sobre o meu estilo de viagem.  Agora, aqui em Pernambuco, dou o mesmo valor para viajar 1.000 km ou sair com os amigos para comer uma tapioca em Olinda. O passeio é de moto? Agora isso já basta. Não preciso mais provar nada para mim mesmo.

Passamos também pela Oficina Alemania, que era uma famosa salitrera. Mas não havia mais nada a não ser um grande monumento em homenagem às pessoas que largaram tudo em suas regiões natais em busca de uma vida melhor. O Atacama sempre foi o grande responsável pela economia do Chile. Entre os séculos 16 e 18, os famosos portos do Atacama é que mandavam para o  império espanhol a prata que vinha da Bolívia. No século 19, a produção de salitre – usado como fertilizante – era quem trazia a riqueza ao país. Com o declínio da venda do salitre natural – os alemães conseguiram produzi-lo artificialmente depois da primeira guerra mundial – parecia que o Chile iria ter um grande problema econômico. Mas hei que, mais uma vez, o Atacama aparece como solução, transformando o país no maior produtor mundial de cobre.

A diferença entre o salitre e o cobre é o número de trabalhadores necessários. Esse número diminui mais ainda porque hoje em dia as máquinas fazem quase todo o trabalho. Na época do salitre, muitas pessoas vieram para a região para trabalhar. Depois, com o seu declínio, foram abandonando as velhas salitreras. O Atacama, então, virou um grande deserto cheio de cidades fantasmas. Como o clima é muito seco, as coisas demoram muito para serem destruídas pela natureza. Mas o homem vem substitui-la. Quase todas as cidades  foram saqueadas com o passar do tempo. Com sorte, veríamos alguma no caminho mais adiante.

Um pouco antes de Antofagasta encontramos a Mão do Deserto. Ela é feita de tal jeito que parece que um gigante de pedra está saindo das entranhas da terra. É linda. Também muito simbólica para a nossa viagem, pois aquela escultura é o cartão postal do Atacama. Eu pensei que fosse menor e que ficasse próxima da cidade, amontoada com outras construções. Mas não, é bem grande e instalada em um lugar completamente isolado do deserto. Você a vê bem de longe. Vai se aproximando aos poucos, torcendo para não acordar o gigante.

Ao terminar aquele dia tão marcante, descemos mais uma vez para o Pacífico, para encontrar a cidade de Antofagasta. A estrada desce em uma grande rampa, parecendo que vai nos jogar ao mar. Como por ali o sol se põe no mar, ao contrário do que estamos acostumados na costa leste do Brasil, andamos esse último trecho com uma iluminação forte à nossa frente, como se tivessem aberto uma fresta no paraíso.

No dia seguinte seria eleição – tudo estaria fechado já  no início da noite -, então tivemos que correr para comer alguma coisa e comprar mantimentos para o próximo dia. Como ficamos só ali por perto do flat – longe do mar e do centro antigo -, não nos impressionamos muito com a cidade. Mas isso mudaria bastante no próximo dia pela manhã quando passamos pelo mercado portuário.

Como tudo estava fechado naquele feriado, não conseguimos encontrar um hotel muito barato. Mas o conforto do flat foi relaxante depois de vários dias em que ficamos amontoados em pequenos quartos. Tinha até TV a cabo e água quente funcionando.

Ao dormir, fiquei lembrando do que tinha acontecido no início da tarde. Eu estava um pouco entediado em andar devagar na estrada. Tínhamos combinado isso para evitar multas, acidentes e esforço da moto nessa grande viagem. Mas tudo tem um limite. Então, em uma grande reta completamente deserta, apertei o punho e deixei o motor à vontade. No começo você fica meio temeroso com a aceleração, mas depois se acostuma com o vento, o movimento da moto e a sensação de velocidade. Lá estava eu tranqüilo, curtindo o momento em alta velocidade, quando a moto deu um estouro. Pum! Depois pegou de novo. Não deu nem tempo para reduzir a velocidade de novo e pum, outro estouro e o motor morreu. Depois de passar o susto pelo barulho e pela desaceleração repentina, enquanto reduzia a velocidade da moto para conduzi-la até o acostamento, comecei a ficar meio chateado com essa quebra bem no meio da viagem. Também comecei a pensar como faríamos para conseguir ajuda ali no meio do nada. Os meus amigos tinham ficado um pouco para trás, então parei a moto para esperá-los. Quando vi o que tinha acontecido, não conseguia mais parar de rir com a bobagem. É que com a tremedeira da minha moto – devido à grande velocidade -, a chave tinha rodado na ignição e simplesmente desligado o motor. Cada uma que acontece…

Naquele dia tinha me sentido pela primeira vez realmente viajando pelo deserto. A chuva da Argentina e o movimento de Valparaíso pareciam fazer parte de uma outra vida. Tudo agora era muito simples e direto. Acordaríamos pela manhã, rumaríamos pelo relevo arenoso infindável e andaríamos em nossas motos até cairmos de cansaço. Depois dormiríamos para fazer de novo a mesma coisa. Depois o mesmo, e o mesmo.

Acho uma grande pena que eu não consiga compartilhar o que uma pessoa pensa em cima de uma moto, em um lugar tão amplo, simples e iluminado. Mas pelo menos posso tentar falar sobre os efeitos. Você volta de uma viagem assim com a visão clara da vida. Você passa a distinguir facilmente o que é importante do que não é. O que é necessário do que é peso morto. O que é presente do que é passado. Você passa a ter foco e clareza. Assim como tudo é raro no deserto, você passa a valorizar cada bom dia que dá a um colega, cada árvore que vê no caminho. Ao ficar no meio de um lugar tão sem vida, você passa a ter consciência de como sua própria vida é única e rara. Depois de voltar do deserto, você começa a simplesmente sentir o prazer de estar vivo nas situações mais mundanas possíveis do dia-a-dia.

A experiência de uma vida, com o poder para mudar uma vida. Minha última lembrança daquele dia, um pouco antes de cair no sono, foi pensar que tudo tinha valido a pena. Era exatamente ali que eu queria estar naquele momento. Posso ser um homem de pouca fé, mas tenho uma baita sorte. Vá entender a vontade dos deuses.

(continua)

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Apresentação. A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho – percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 – lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: Planejamento (textos escritos antes da partida), Diário da Viagem (relatos publicados durante a viagem) e Crônicas do Atacama (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.

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