O Mecânico Pensador

Oct 20th, 2010 | By | Category: Livros, Mais Destaques, Posts

Para começar, vamos combinar que ‘mecânico pensador’ é um pleonasmo. Tipo subir para cima. Isso porque é impossível fazer a manutenção de uma motocicleta sem pensar. Sim, existem trabalhos em que só o corpo se mexe, como o dos trabalhadores em uma linha de montagem. Também há trabalhos em que só se pensa, como o de um matemático construindo um teorema. Por sorte nossa, há trabalhos em que podemos ser seres humanos completos, desenvolvendo todo o nosso potencial para observar o mundo real, pensar e agir. O trabalho do mecânico de motos é um desses.

Quem escreve muito bem sobre essa ideia é o filósofo Matthew Crawford. Em 2001, ele foi contratado para ser o diretor executivo de uma grande empresa. O seu trabalho era articular argumentos que pudessem ser usados em benefício de determinados projetos. Por exemplo, articular opiniões contra a hipótese do aquecimento global que “por acaso” coincidiam com certos projetos das empresas de petróleo que financiavam o seu grupo.

Esses grupos que criam “argumentos” a favor de um determinado projeto são chamados de ‘think tanks’. Podem ser usados para avançar projetos de empresas lucrativas ou de movimentos sociais. Tanto faz. Seja como for, usar falácias para defender projetos “do bem” ou “do mal” não é coisa para um filósofo honesto.

Cinco meses depois Matthew Crawford largou o ‘think tank’ para encontrar o seu verdadeiro lugar de filósofo em uma oficina de motos.

No seu livro “Shop Class as Soulcraft” (é difícil traduzir, mas talvez pudesse ser algo como “Trabalhando o Espírito Através da Educação Profissional Tecnológica”), ele defende a importância do contato com o mundo real na construção de um ser humano pleno. Segundo ele, até o início do século XX, a atividade do artífice (e.g., mecânico, torneiro, carpinteiro, ourives) mesclava de forma quase perfeita atividades mentais e manuais. Com a criação da linha de produção, as duas atividades foram separadas. Agora existiam pessoas que só pensavam e outras que só mexiam o corpo. O trabalho, que antes era um dos maiores motivos de satisfação na vida de um ser humano, agora passava a ser uma obrigação. O salário passava a ser uma compensação pela atividade prestada.

Certo. Mas, como convencer alguém a trabalhar de forma cada vez mais eficiente e chata se agora não havia mais o desafio e a busca da perfeição? Era preciso criar a necessidade do salário. Foram inventados, então, o consumismo e o crédito fácil. Hoje todos precisam trabalhar para comprar a mais moderna televisão, o mais novo celular, a mais nova moto. O motivo de orgulho dos homens deixou de ser o produto do seu trabalho. Agora cada um é orgulhoso do que consegue consumir, mesmo que para isso viva preso a dívidas eternas e uma vida vazia de significado.

As motos estão bem no meio desse furacão. Para alguns, fuçar em uma moto pode ser o caminho para criar uma atividade que une pensamento e ferramentas. Deixam tudo de lado para ajudar um amigo. Felizmente, tem um monte de gente que adora consertar as motos, só pelo prazer de trazer ordem ao caos.

Já para outros, o motociclismo é o caminho perfeito para o cultivo da imagem. Ter uma moto não é um motivo de plenitude, mas sim uma forma de expressar a sua “individualidade”, “superioridade”, “status”, “criatividade”, “poder de compra” e “estilo pessoal”. Infelizmente, o mundo também está cheio de gente que precisa de qualquer jeito mostrar sua moto nova, exclusiva, seus acessórios “personalizados” e sua viagem única.

Alguns desses assuntos já tinham sido tratados no livro “Zen e a Arte da Manutenção da Motocicleta”, talvez o livro de filosofia mais lido do século XX. Robert Pirsig tenta explicar a diferença entre as pessoas que procuram entender o que se passa por dentro da carcaça do motor e aquelas que veem as motos apenas como uma forma de arte. Para essa discussão, Pirsig navega entre a filosofia oriental e a ocidental.

Eu fiquei muito interessado por esse tema. Nossa necessidade de ajeitar as coisas, a frustração que muitas vezes sentimos quando nossa moto quebra, o júbilo quando conseguimos consertá-la e a paz de espírito que quase sempre os mecânicos de moto transmitem ao trabalhar.

Essa minha busca por entender essas questões passa por conversar o máximo possível com mecânicos, cultivar a amizade com quem gosta de manter as coisas funcionando, fazer cursos de manutenção, fuçar na minha moto e ler também textos de pessoas que tenham mais clareza ao apontar os caminhos.

Neste último aspecto, encomendei um outro livro bem interessante. Ele não fala exatamente sobre as motos, mas sim sobre esse tal de trabalho completo, que precisa de ferramentas e de inteligência. É “The Craftsman” (“O Artífice”), de Richard Sennett.

Um outro tema interessante do livro do Matthew Crawford é a discussão de questões éticas, como o valor a ser cobrado pelo serviço, a qualidade final, a temperança e a introspecção necessárias durante o trabalho, a honestidade intelectual e a busca da perfeição. Não é exatemente uma ética de como fazer o bem para os outros. É, principalmente, uma ética de como ser uma pessoa plena. Não é uma ética cristã, é uma ética do indivíduo.

Espero que daqui alguns anos eu consiga entender um pouco melhor todo esse assunto e ter uma opinião própria. Mas, por enquanto, fiquem com essas recomendações de leitura. De repente nos encontramos no caminho, ou em uma oficina.

2 Comments to “O Mecânico Pensador”

  1. Parabéns pelo texto Fábio! Vou ver se eu peço os livros. Obrigado pelas dicas.

  2. magnani says:

    Oi Marcelo. Legal pela visita. Geralmente compro esses livros pela Amazon.com. E, caso não esteja com pressa, muitas vezes compro livros usados, que vêm quase como novos. Abraço. Fábio.

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