As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno – parte 2

Apr 8th, 2011 | By | Category: Ficção, Posts

Este texto faz parte da história “Os Motoqueiros do Sertão – Episódio 5: As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno“. Para ler toda a história, desde o primeiro episódio, vá para a seção Ficção.

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“Corre! Corre! Corre mais!”. Era só o que eu ouvia ali na estrada. Nem o motor da caminhonete encobria os gritos de Giovana. O pior é que ela tinha razão, porque os motoqueiros fantasmas estavam alcançando a gente.

O chato do inferno não é que ele seja quente – não é -, ou aterrador. O chato do inferno é que o inferno é chato. Além da Giovana se esgoelando no banco de trás, eu ainda tinha que ouvir os comentários sinceros de Jessé. “Meu irmão, eu só estou aqui no carro com você porque quero voltar para a terra, mas deixa a gente chegar lá que eu já te enquadro direitinho”. Era verdade o que a Bruxa Tereza tinha dito – os mortos que foram enviados ao inferno estão condenados a falar tudo o que vem à mente. Não é algo muito vantajoso, pois Jessé ficou me contando todo o seu plano para me trair dali uns dois dias. No começo eu fiquei rindo, mas depois ficou só chato mesmo.

Giovana tinha virado uma prostituta em Brasília. Mas não em troca de dinheiro. Ela saía com qualquer homem que lhe desse uma mínima noção de segurança. Acho que ela foi para o inferno não por ter sido má, mas por ter vivido sempre com medo da vida. Jessé, que na terra tinha parecido um homem sisudo e correto, ali no inferno virou um vendedor de carros usados. A imagem de homem sério que ele usava na terra era só uma máscara mesmo, vendida como se vende qualquer objeto. Não sei por que ele foi para o inferno, já que todo mundo usa máscaras na terra. Deve ter sido porque matou aquele juiz lá na Serra dos Albuquerques. Talvez essa história de 10 mandamentos seja verdade. Vai saber.

Não consegui encontrar Lampião em Brasília. Talvez estivesse em outro lugar, mas todo mundo dali achava que não havia mais ninguém fora da cidade. Todos os condenados iam para lá. E ninguém saía, porque os motoqueiros fantasmas atacavam qualquer um que tentasse fugir da cidade. Não sei porque alguém que está no inferno teria medo de fantasmas, mas todo mundo tinha. Quem tentava sair de Brasília era atacado pelos motoqueiros, depois reaparecia todo arrebentado, com a carne rasgada. A pessoa então teria que viver assim para o resto da eternidade. A vaidade é forte até entre os mortos.

Quem tinha morrido de forma violenta levava essas marcas para lá. Jessé ainda tinha a cabeça arrebentada pela bala que o matou. Giovana estava em estado de putrefação, além de ter que empurrar as entranhas de volta para dentro da barriga de tempos em tempos. Quando voltassem para a terra teriam que dar um jeito nisso. A cabeça de Jessé poderia ser escondida com um boné. Giovana não tinha muito jeito, mas a Bruxa Tereza tinha prometido que ela voltaria a ser bonita, desde que o preço fosse pago. O preço era que Giovana não teria memória, não se lembraria de nada que vivera, não me amaria mais. Não que isso fizesse muita diferença, agora que eu tinha percebido que ela sempre tinha sido uma medrosa, que tinha se apegado aos outros só por medo de viver. Eu tinha sido só mais um porto seguro em algum momento de sua vida. Eu tinha quase me arrependido de ter me arriscado para pegar aqueles dois, mas a pena falava mais alto.

Por falar em falar mais alto, agora o ronco das motos dos fantasmas já superava os gritos de Giovana. O motoqueiro que vinha mais à frente puxou uma corrente da sua cintura, rodopiou no ar e prendeu no eixo traseiro da caminhonete. O tranco fez com que ele caísse da moto, mas continou segurando a corrente mesmo assim. Enquanto era arrastado no asfalto, aos gritos de dor, o fantasma se puxava pela corrente até alcançar o nosso carro. Subiu na caçamba, quebrou o vidro de trás com um murro, esticou o braço e torceu o volante. A nossa caminhonete virou para a direita, deu três piruetas no ar e caiu em um abismo no lado direito da pista. Eu vi tudo em câmara lenta. Também ouvi tudo, Giovana gritando que transaria com Deus se ele a salvasse e Jessé prometendo sua alma ao Diabo para não morrer no acidente. Se é que um morto pode morrer. Eu ainda estava acordado quando o teto da caminhonete alcançou o chão. Depois tudo ficou escuro.

(continua)

8 Comments to “As Três Pessoas que Você Encontra no Inferno – parte 2”

  1. Víviann says:

    Gostei…nesse inferno não tem diabo? ..rs..é um livro?

  2. magnani says:

    É só o esboço de um livro do tipo “pulp fiction”. Tudo começa em http://blog.fabiomagnani.com/?page_id=1761

    Quanto ao diabo, espere um pouco…

  3. Víviann says:

    Legal. Tbm tenho um esboço desses, ainda não sei direito o q é…rs..acho q é comédia, outros acham romance. São algumas histórias q parecem mais ficção.Vou ver se aproveito no blog.

  4. magnani says:

    No meu caso é claramente uma história com motos e tiros, nada mais. Abs.

  5. Víviann says:

    Gostei das partes q li…é dinâmico e dá vontade d saber o q vem pela frente.Abç!

  6. magnani says:

    É um pulp fiction de fórmula. Só tiros e fugas… hehehe

  7. Víviann says:

    essa formula tá funcionando..rs…

  8. magnani says:

    Obrigado. Ele estava parado há uns 10 meses. Como eu vou escrevendo e já publicando as partes, nem sempre sei para onde a coisa vai andar. Abs.

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