A Rainha de Recife

May 20th, 2011 | By | Category: Ficção, Motoqueiras, Posts

Elisa chega toda desanimada na sede da MotoFly, a maior empresa de motoboys de Recife. Mas, assim que dá alguns passos no prédio, a vida já volta ao normal. Como sempre, todos os olhares se voltam para ela. Ser a única motoqueira da empresa tem suas vantagens.

“Oi, Elisa, minha morena linda, como anda essa realeza?”, pergunta Maurão, o melhor amigo de Elisa.

“Tá fogo, Maurão. Fiquei presa em uma blitz a tarde toda. Fiz só 10 reais. Tô rezando para aparecer uma camica”.

“Cê tá doida de pegar essas camica, minha princesa. Cê ainda vai morrer por causa disso.”

“Vô não, meu amigo, vô não. Deus está do lado dos justos. Não tô em situação de perder essa grana. O nosso chefinho aqui só paga R$ 5,00 por corrida. Numa camica, a Calendra bota mais R$ 20,00 em cima disso”.

“O detalhe é que você tem que fazer Boa Vista – Boa Viagem em 15 minutos bem na hora do rush… Cê ainda vai morrer, meu anjo”.

“Deus não deixa eu morrer não. Tenho minha filha para criar. Somos só nós duas no mundo”.

Elisa dá um beijo em Maurão e segue para o escritório do chefinho para entrar na fila da camica. Ela odeia aquele baixinho engordurado, sempre com o sorriso falso arreganhando os dentes amarelados. O duro é agüentar as cantadas.

“Olá minha majestade. O que é que manda? Sabe que aqui sua vontade é lei”.

“Oi chefinho, me coloca na lista da camica aí. Tô precisando recuperar o tempo que perdi na blitz”.

“Minha morena jambo, por que você se arrisca assim? Uma gata tão fogosa. Tem jeito mais fácil de ganhar dinheiro. Quem sabe a gente não sai para tomar uma cerveja?”

“Chefinho, chefinho. Sô disso não, ainda mais com você. Cê vai ver que eu ainda conto essas coisas pra Dona Joana.”

Chefinho fica sério, se ajeita na cadeira, acende um cigarro e coloca o nome de Elisa na lista.

“Nem pensa nisso. Se ela descobre que continuo nessa vida ela pede o divórcio e leva tudo o que eu tenho. E você, Elisa, um dia você vai se dar mal. E eu vou estar lá para te tirar da lama. Da lama pra cama.”

“Vai sonhando, chefinho, vai sonhando”.

Nisso toca o celular de Elisa. É a vizinha dela, que liga para avisar que começou outro ataque de asma em Sofia, a filha de seis anos de Elisa. É para comprar o remédio porque dessa vez a coisa é séria. E não adianta levar para o posto de saúde por causa da greve dos hospitais públicos.

Elisa sai correndo do escritório de chefinho, em busca de Maurão. O remédio custa R$ 50, mas ela só tem R$ 10. Maurão está liso, do mesmo jeito que todos os outros amigos de Elisa. Quase todo mundo deve uma grana para Terto, o agiota, que já tinha passado para pegar o pagamento do dia. O problema é que nem uma camica resolve a vida de Elisa, que desmorona em uma cadeira da sala de espera. Não tem jeito, Sofia não vai ter remédio hoje.

Mas de repente o sangue volta ao rosto de Elisa, que abre um sorriso, levanta a cabeça e sobe na cadeira, bradando para todo o recinto.

“Pessoal, quem aí á na lista da camica? Eu tô fazendo um xálengi. Tô facinha, é só vir em mim.”

Topete, o motoqueiro mais mascarado da MotoFly diz que ele é o próximo da fila e que aceita o xálengi.

“Tá ligada como é o negócio, né mocinha? Quem chegar primeiro fica com a camica de R$ 25 do outro. São R$ 50 para uma corrida de 15 minutos. Dinheiro fácil… pra mim”.

“Só se for agora, Topete.”

(clique aqui para ler a história até o final)

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Esse conto – A Rainha de Recife – faz parte da série Contos de Motoqueiros. O texto não está completo aqui para não carregar a página de posts, mas pode apertar tranqüilo o link aí de cima que não tem nenhuma pegadinha. Para outras histórias, de ficção ou não, tem a seção Textos, com mais uma porção de links.

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