Ducentésimo Livro – “On My Vespa”

Jul 29th, 2011 | By | Category: Livros, Mais Destaques, Motoqueirismo, Posts

Cheguei aos meus 200 livros de moto! Bem, tinha que ser um especial. Algum que falasse sobre a vida, a arte e sobre motos. Melhor ainda, talvez um livro que falasse sobre o deleite da moto na arte de viver. Na procura, eu liguei uma motinha na cabeça para percorrer minha biblioteca, que é de tamanho médio para os dias de hoje. Acho que tem uns 1200 livros ao todo. Parece pouco, sim, mas, mesmo que eu leia um livro por semana, toda semana, levarei mais de 20 anos para conhecer tudo aquilo. Perfeito, ninguém aqui está com pressa.

Tento trazer o mundo para a minha biblioteca. Como escrever em mandarim, a viagem do Beagle de Darwin, a guerra do fim do mundo na nossa Canudos, as histórias completas do oeste de Elmore Leonard, Fitzgerald, Hemingway, Camus, Einstein explicando sua relatividade para os ignorantes, Faraday mostrando como funciona uma vela, sistemas de segurança digital, a história da descoberta do DNA, a arte do ataque no xadrez, ensaios sobre a anarquia, como assistir a um filme, arte moderna, a bíblia dos cafetões, técnicas para abrir cofres, formação acadêmica de verdade sem fazer universidade, como desenhar o que se vê, motores diesel, energia solar, como atingir o estado zen no arco e flecha… e por aí vai. Posso ser condenado por ser raso, mas não por falta de variedade.

Lá no canto esquerdo da minha estante, na parte de cima, estão os tais 200 livros de moto. Também não pecam pela homogeneidade. Tem livro de história, de chassis, de lesbianismo, de crime, de guerra, de filme, de filosofia, de motor, de viagem, de mecânica, de cultura, de foto, de ficção, de indústria e de tudo o mais que possa ter qualquer coisa a ver com moto.

Rodando por aquela região com minha motinha mental, procurei que livro podia ser esse para curtir “o deleite da moto na arte de viver”. Por alguma razão, ao mesmo tempo inevitável e incompreensível, achei a inspiração para o novo livro assim que cheguei na vilazinha italiana. Essa vila é como chamo o punhado de livros que tenho sobre Vespas, que fica no meio da estante de livros de moto, que formam o coração da minha biblioteca. É uma coleção dentro de uma coleção dentro de uma coleção.

O que mais pode significar a experiência de viver de moto do que a imagem de uma Vespa rodando pelas estradas da Itália? Ao contrário do culto à violência e ao militarismo dos motoclubes, as Vespas sempre significaram a inteligência e a liberdade. Saí à procura de mais um livro sobre Vespas. Tinha que ter uma pin-up e uma Vespa na capa, um monte de fotos dentro, falar sobre as Vespas de um ponto de vista cultural e ser leitura leve. Não foi difícil achar: “On My Vespa – Italy on the Move”. Comprei na hora.

On My Vespa – Italy on the Move

O livro é pequeno, com 150 páginas e papel fosco. Mas vem com 85 fotos, comenta mais de 100 filmes em que aparecem as Vespas, 30 referências para livros e outras várias para artigos em revistas, história, design e biografias. Uma grande aquisição para minha pequena coleção de livros de Vespas, que já tinha: “Eating Up Italy: Voyages on a Vespa”, “I See By My Outfit” (esse não é com Vespa, mas como são duas scooters, valem por uma), “Vroom with a View: In Search of Italy’s Dolce Vita on a ’61 Vespa”, “Mods and Rockers”, “Vespa: Style in Motion” e “Spotted in France: A Dog’s Life…On the Road”.

Por ser uma ocasião especial – meu 200o livro de moto! – resolvi escrever um texto um pouco diferente. Ao invés de pesquisar bastante antes, montar uma estrutura e só depois desenvolver o texto, resolvi deixar a minha motinha mental perambular por onde ela quisesse. A primeira parada foi escolher um vídeo para mostrar umas fotos de Vespas e ragazze. Para ficar bem no clima, tinha que ter fundo musical italiano. O primeiro vídeo que apareceu no YouTube quando digitei “Vespa pin up” foi “Girls & Vespas”, que prometia em sua descrição um vídeo sexy estilo retrô, com um monte de garotas. Vamos ver:

[N.E.: infelizmente, em 2015, o YouTube apagou o vídeo original, mas segue pelo menos o link com a música]:

Girls & Vespas. No fundo musical, Edoardo Vianello cantando “Guarda Come Dondolo” (1962)


Guarda Come Dondolo
de Edoardo Vianello

Guarda come dondolo
Guarda come dondolo con il twist
Con le gambe ad angolo
Con le gambe ad angolo ballo il twis

Sarà perchè io dondolo
Saranno gli occhi tuoi che brillano
Ma vendo mille mille lucciole
Vernirme in contro insieme insieme a te!

Guarda come dondolo
Guarda come dondolo con il twist
Con le gambe ad angolo
Con le gambe ad angolo ballo il twis

Le ginocchia scendono

Le mia gambe tremano
Forse sono brividi, brividi d’amor

Guarda come dondolo
Guarda come dondolo con il twist
Con le gambe ad angolo
Con le gambe ad angolo ballo il twis

Le ginocchia scendono

Le mia gambe tremano
Forse sono brividi, brividi d’amorguarda come dondolo
Guarda come dondolo con il twis
Con le gambe ad angolo
Con le gambe ad angolo ballo il twis

Le ginocchia scendono

Le mia gambe tremano
Forse sono brividi, brividi d’amor

Demos sorte nas fotos. Cada mulher mais bonita que a outra. Legal que não são vulgares, artificiais ou comerciais, como as siliconadas das fotos de moto de hoje em dia. Talvez passassem isso na época, mas agora já são clássicas. Essas propagandas da Vespa sempre tentavam mostrar isso: beleza, alegria e independência. Mas vamos deixar a sociologia barata de lado e aproveitar.

Também acertamos na música. Veio uma italiana, “Guarda Come Dondolo”, de 1962. Não é uma letra purista e nostálgica. Ao invés de falar bem de alguma coisa da Itália, a letra fala do “twist” americano. Isso me lembra um pouco os descendentes de italianos, como eu, com quem convivi no interior de São Paulo quando era criança. Talvez por não termos tido muita educação, ou então por termos nascido de descendentes de fugitivos da fome na Itália, não tínhamos muito medo de absorver a cultura dos outros, fazendo uma mistureba e recriando tudo. Ninguém ficava idolatrando o passado ou servindo outras terras.

“The Talented Mr. Ripley” (1999)

Também me lembrei do filme “O Talentoso Ripley”. Nada mais natural. Eles andam de Vespa, o filme se passa na Itália, há uma performance inesquecível de uma música italiana e o livro que deu origem ao filme é de uma das minhas autoras prediletas, Patricia Highsmith. Tenho sete livros dela. Perturbadora. Nada mais diferente do que passear de Vespa na Itália, mas vamos em frente. Quando se sai de viagem, ninguém sabe exatamente por onde se vai passar.

Digitando “Ripley Soundtrack” no google.com, depois apertando no primeiro link, acabei chegando na Amazon.com. Logo a primeira música era a que eu estava procurando: “Tu Vuo’ Fa’ L’americano”, de 1956. Por coincidência, embora uma amiga minha insista que não existam coincidências, chegamos a outra música italiana com o mesmo tema. Agora é de um italiano metido a americano. Achei várias versões no Youtube. A primeira é da época do lançamento. A segunda é com os personagens do filme cantando a música em um barzinho na Itália. Tudo conforme o planejado, mas encontrar a terceira versão foi como achar uma moeda no chão quando você está sem dinheiro para comprar cigarro: um trecho do filme “Started in Naples”, em que Sophia Loren canta essa música, só que agora em uma tradução para o inglês. Quantas curvas, quanto rebolado, quanta carne…

Renato Carosone cantando “Tu Vuò Fà L’Americano” (1956)

Jude Law e Matt Damon, em “The Talented Mr. Ripley” (1999). Baseado no livro de mesmo título de Patrícia Highsmith (1955)

Sophia Loren, em “It Started in Naples” (1960)


Tu Vuo’ Fa’ L’americano
Renato Carosone e Nicola Salerno

Puorte ‘e cazune cu nu stemma arreto
na cuppulella cu ‘a visiera aizata
passa scampanianno pe’ Tuleto
comm’a nuguappo, pe’ se fa’ guarda’

Tu vuo’ fa’ l’americano
mericano, mericano
sient’a mme chi t’ ‘o ffa fa’?
tu vuoi vivere alla moda,
ma se bevi “whisky and soda”
po’ te siente ‘e disturba’

Tu abball’ o’ rocchenroll
tu giochi a baisiboll
ma e solde p’ e’ Ccamel
chi te li da
la borsetta di mamma!

Tu vuo’ fa’ l’americano
mericano, mericano…
ma si’ nato in Italy!
sient’ a mme: nun ce sta niente ‘a fa’
ok, napulitan!

tu vuo’ fa’ l’american
tu vuo’ fa’ l’american!

Come te po’ capi’ chi te vo’ bbene
si tu lle parle miezo americano?
quanno se fa ll’ammore sott’ ‘a luna
comme te vene ‘ncapa ‘e di’ “I love you”?

Tu vuo’ fa’ l’americano
mericano, mericano…
sient’a mme chi t’ ‘o ffa fa’?
tu vuoi vivere alla moda,
ma se bevi “whisky and soda”
po’ te siente ‘e disturba’

Tu abball’ o’ rocchenroll
tu giochi a baisiboll…
ma e solde p’ e’ Ccamel
chi te li da
la borsetta di mamma

Tu vuo’ fa’ l’americano
mericano, mericano
ma si’ nato in Italy!
sient’ a mme: nun ce sta niente ‘a fa’
ok, napulitan?

tu vuo’ fa’ l’america
tu vuo’ fa’ l’america
tu vuo’ fa’ l’america!

Chegamos ao final da viagem do meu 200o livro. Não teve um grande clímax, ao contrário dos livros e dos filmes. Mas foi como uma viagem de moto de verdade. A cada momento escolhemos o caminho que parecia mais legal. Isso às vezes nos mete em encrencas, às vezes nos joga presentes no colo e, às vezes, nos leva exatamente para onde o destino nos havia ordenado. Bem, mais uma vez provado que, por mais que possa não parecer, escrever é muito parecido com viajar, a arte é muito parecida com a vida.

Mas não desisti ainda de procurar o desfecho deste texto. Começamos com garotas e Vespas, vamos terminar com mulheres e duas rodas. Tentei achar por todo lugar uma foto da Sophia Loren andando na scooter, mas não consegui encontrar de jeito nenhum. Mas, assim como na vida, muitas vezes você encontra algo muito melhor do que procurava: : uma linda foto da Sophia Loren passeando de bicicleta!

Sophia Loren em Duas Rodas

 

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