IJMS – Coletivo canal*MOTOBOY (português)

Volume 7, Issue 2: Fall 2011

Coletivo canal*MOTOBOY

de Eliezer Muniz dos Santos
Língua: Português
Editora Aeroplano, 2010
ISBN: 857820039X
ISBN-13: 9788578200398
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Fábio Magnani

Em 2004, o artista espanhol Antoni Abad ficou impressionado com o grande número de motociclistas que rodavam em alta velocidade pelo meio dos carros nas ruas de São Paulo. Ele perguntou ao motorista do táxi quem eles eram. A resposta – “Eles são os motoboys, os donos da rua” – inspirou uma série de ações que deram voz aos motoboys e lhes permitiram participar mais fortemente na evolução da sua própria cultura.

Os Motoboys

Certa vez o Brasil foi chamado de Belíndia (Bélgica + Índia) porque uma minoria da sua população vivia como os belgas do primeiro mundo enquanto o resto vivia como os indianos do terceiro mundo. Isso ainda é verdade quando falamos sobre motocicletas. O mercado brasileiro de motocicletas maiores que 200cc (225.000 por ano) é quase do mesmo tamanho que os mercados do Japão e da Itália, e maior que os da França, Espanha e Alemanha. Essas motocicletas maiores são usadas principalmente para lazer e transporte. Há vários livros brasileiros que contam as experiências de pilotos esportivos ou turistas, em todo tipo de terreno (e.g., Grãos de Areia, 1995; Histórias de Motocicleta, 2004; e Manual do Viajante Solitário, 2010).

Por outro lado, a venda de motocicletas novas menores que 200cc (1.550.000 por ano) são comparáveis com os números do Vietnã, Tailândia e Paquistão. Essas motocicletas menores são usadas principalmente na entrega de documentos e produtos. Estima-se que apenas na metrópole de São Paulo haja mais de 200.000 motociclistas que usam suas motocicletas no trabalho. Eles são chamados de motoboys e, até recentemente, não havia um livro contando sua história. O livro Coletivo canal*MOTOBOY, publicado no ano passado, preenche esse vazio.

Como o livro explica, o fenômeno dos motoboys nasceu no final dos anos 80 e início dos 90. Antes disso, o Brasil tinha passado 10 anos em uma economia quase parada. O crescimento urbano tinha mais que triplicado o tamanho das cidades em 30 anos. Então, as cenas comuns nas cidades eram filas de desempregados e engarrafamentos de trânsito. De repente, com a redemocratização, uma série de mudanças ocorreu no Brasil: flexibilização nos contratos de trabalho, abertura do mercado para produtos estrangeiros, fim da inflação, crescimento econômico e facilidade em conseguir crédito. Como uma conseqüência direta, agora era necessário circular muito mais produtos e documentos. A solução social natural para isso foi que a legião de desempregados comprasse motocicletas a crédito para movimentar a nova economia através da cidade. O Brasil estava se movendo mais uma vez. Mas agora estava pilotando uma motocicleta.

A nova profissão trouxe novas maneiras de trabalhar. Agora o trabalhador era o dono da sua ferramenta, o que permitia que mudasse de emprego com mais facilidade. A moto era também um símbolo de status e um instrumento de lazer para quem até então tinha sido excluído. O motoboy passava o dia todo nas ruas, longe do patrão, criando suas próprias estratégias. Acima de tudo, o motoboy sentia a excitação da velocidade, por bem ou por mal.

A vida dos motoboys não é fácil. Eles acordam de madrugada para entregar jornais, gastam o dia todo cruzando a metrópole levando documentos e depois entregam pizzas até depois da meia noite. Embora sejam eles que tornem possível o transporte de mercadorias no tráfego quase parado das grandes cidades, mesmo assim são vistos como inimigos. Ao contrário dos outros trabalhadores que se locomovem em ônibus e metrôs, escondidos dos burgueses, os motoboys ousam se mostrar à luz do sol, correndo livres e deixando só o som do escapamento para trás. O número de motoboys mortos no trânsito é imenso, mais do que um por dia só em São Paulo, mas o dinheiro e a distância dos patrões aparentemente compensam os riscos.

As condições que criaram a aparição dos motoboys 20 anos atrás agora são mais fortes ainda. O tráfego nas cidades quase parou. As transações via internet multiplicaram o número de produtos que circulam nas ruas. Em uma época de relações virtuais, os motoboy são as pessoas reais que cruzam as cidades para satisfazer os desejos dos consumidores da nova era. De forma irônica, uma das profissões mais pé-no-chão dos nossos tempos é a própria interface entre o mundo cibernético e a existência física. O motoboy é a forma como a internet toca os humanos.

Coletivo canal*MOTOBOY

A técnica aparentemente simples do projeto canal*MOTOBOY era prover telefones celulares com câmeras integradas para 12 motoboys que rodavam por São Paulo. Eles iriam registrar o seu mundo por completo, em palavras, fotos e vídeos, depois colocar o conteúdo em tempo real no website megafone.net/saopaulo. Dependendo de quem vê, o website pode ser visto como um fórum de discussões, um banco de dados para estudos posteriores, o registro de uma tradição quase que exclusivamente oral e, acima de tudo, uma ferramenta de produção cultural para os motoboys.

A experiência começou com a Exibição canal*MOTOBOY em 2007. Antes disso, Antoni Abad já tinha produzido outros projetos com motoristas de táxi no México (2004), jovens ciganos em Leon e Lleida (2005), prostitutas em Madri (2005), pessoas com dificuldade de locomoção em Barcelona (2006) e migrantes nicaragüenses na Costa Rica (2006). Todos os projetos até 2010 podem ser vistos no website megafone.net. O tripé da exibição de 2007 era Antoni Abad (mentor), Ronaldo Simão da Costa (coordenador) e Eliezer Muniz dos Santos (curador adjunto), também conhecido como Neka. Ronaldo e Eliezer são motoboys. As diferenças entre o canal*MOTOBOY e os outros projetos são a longevidade do grupo (coletivo canal*MOTOBOY) e a ausência de uma organização acadêmica do conteúdo. Neste projeto, os próprios motoboys colocam “tags” nos textos para criar uma nuvem de palavras (canal*PALAVRAS), discutindo tópicos pertinentes ao grupo. Eles falam sobre acidentes, religião, buracos nas ruas, amigos, família, arte, trabalho e tudo o mais (canal*DIAaDIA).

Continuando suas atividades em 2008, o coletivo organizou a Primeira Semana da Cultura Motoboy. Entre as discussões, música e poesia, eles projetaram uma série de filmes. Um em particular, Motoboys: Vida Loca (2003), era muito rico em imagens. (Nele os não brasileiros podem ver como os motoboys navegam através dos engarrafamentos.) Mas a riqueza do documentário está no vasto campo de pontos de vista que ele traz: os motoristas que odeiam os motoboys, o motoboys que pilotam com cuidado para voltarem para suas e os “cachorros loucos” que fazem malabarismo mortais no caminho das entregas.

O Livro

Em 2010 Neka publicou o livro Coletivo canal*MOTOBOY, que conta a história acima. Assim como o projeto motoboy como um todo, o livro foi escrito a várias mãos. Oito autores, contando o prefácio de Antoni Abad, criam uma trança sociológica, histórica e pessoal sobre o início dos motoboys.

A primeira parte, 60 páginas, consiste de cinco textos acadêmicos. No prefácio, Antoni Abad conta a origem da exibição de 2007. Neka escreve a introdução, explicando a importância dos motoboys, sua dificuldade em tomar as rédeas de seu próprio destino e a importância da produção cultural na conquista do poder dos motoboys. Um texto pequeno assinado pelo coletivo conta a história do grupo. Então Augusto Astiel Neto escreve sobre os conflitos urbanos entre os motoboys e os motoristas, a imagem quase criminosa criada pela mídia e a cumplicidade dos motoboys em representar o papel de forasteiro, rebelde e maníaco suicida. A primeira parte termina com outro texto do Neka sobre a Primeira Semana da Cultura Motoboy em 2008.

A segunda parte do livro, 85 páginas, é dividida entre cinco motoboys e motogirls que escrevem livremente sobre suas vidas. O primeiro é Ronaldo, o coordenador da exibição. Ele fala como se tornou motoboy e sobre a organização da exibição do ponto de vista dos motoboys. Depois segue Andréa, uma ex-dançarina e agora motogirl, que advoga uma redefinição do trabalho: a alegria de pilotar uma moto aliada com a segurança. O terceiro texto é de Marcelo Veronez, o poeta dos motoboys, um ex-motoboy que virou motorista de ambulância depois de ver tantas mortes no tráfego. Então Fábio Ascempcion nos conta sobre o dia que ele bateu. Fábio descreve as duas primeiras ações de qualquer motoboy caído: mover seus dedos dos pés e das mãos para ver se não virou paraplégico e começar a se preocupar em como vai alimentar a sua família durante os meses de recuperação. Finalmente, Bruna Bo escreve um texto sobre uma garota que deixa sua pequena cidade para trabalhar como entregadora de pizza na cidade grande.

A terceira parte, mais do que a metade do livro, é usada por Neka para explicar tudo o que envolve os motoboys. Isso deveria ser quase impossível, mas a forma escolhida faz parecer fácil. Neka, um menino dos subúrbios pobres do Brasil, viveu tudo isso sentado no banco de uma moto. Então, aos 36 anos, ele abandonou o mundo dos motoboys em 2002 para estudar filosofia em uma das mais prestigiosas universidades brasileiras. Desta forma única, Neka combina a experiência da vida real com ferramentas teóricas para entender o que aconteceu. Para contar tudo sobre os motoboys, Neka escolheu contar sua própria vida.

Neka nasceu em 1966. No começo dos anos 80 ele começou a trabalhar como office boy, a profissão que depois daria início aos motoboys. Naquele tempo os jovens office boys cruzavam a cidade em ônibus. Então ele foi promovido como contínuo em um banco, onde ele lutou nas mais ferozes greves que o Brasil viveu na sua saída da ditadura militar. Embora seu trabalho no banco fosse mais prestigioso e pagasse um salário melhor, Neka sentia falta da liberdade que ele tinha experimentado quando era office boy. Então foi sem muita dor que ele começou a trabalhar como motoboy em 1988.

No início, os salários eram bons porque não havia muitos trabalhadores e o pequeno grupo de motoboys tinha uma forte ética trabalhista nascida durante as greves que eles viveram em seus empregos anteriores. Mas o número de motoboys crescia exponencialmente, substituindo os primeiros por jovens sem a mesma cultura. Desta maneira o grupo se encontrou facilmente explorado e sem os meios para resistir, uma vez que a constante substituição por novos recrutas impedia a criação de uma cultura trabalhista saudável.

No final dos anos 90, Neka estava desapontado com as novas condições de trabalho. Salários baixos e um crescente número de acidentes caracterizavam a nova cena. Então Neka começou a agir politicamente em associações e trabalhou em uma revista para motoboys. Mas logo ele percebeu que os resultados positivos eram poucos. A grande maioria dos motoboys não queria participar em política. Essa desilusão cresceu e em 2002 Neka abandonou seu trabalho como motoboy. Ele passou os próximos anos estudando filosofia e vivendo de bolsas de baixo valor.

Então, em 2007, quando ele foi convidado para ser o curador adjunto da exibição, ele sabia o certo a se fazer. Ao invés da política sindical tradicional, o que os motoboys precisavam era de meios de participar na produção da sua própria cultura: filmes, livros, teses, poesia, fotografias, vídeos, festas, gíria, congressos, revistas, websites. Eles também precisavam ser proprietários do negócio, ter acesso a novas tecnologias, participar na construção de novas formas de organização do trabalho e serem ouvidos na construção das leis. A exposição de 2007, a Primeira Semana da Cultura Motoboy, o website megafone.net/saopaulo e o livro resultaram daquela campanha.

O livro é focado em experiências específicas e sua visão é parcial aos motoboys. Se fosse considerado apenas como um livro acadêmico, isso seria uma falta grave. Mas o Coletivo canal*MOTOBOY não é simplesmente uma análise do que aconteceu. O livro é um poderoso produto cultural por si mesmo, dando voz àqueles que até agora eram sem voz. Desta forma, se tomado como mais uma peça em um futuro estudo mais amplo, sua contribuição é imensa.

Ao observar os motoboys pilotando nas ruas, alguém pode ver crime, violência ou desrespeito às leis. Mas também é possível ver um novo sopro de independência para os trabalhadores, companheirismo, liberdade para construir suas próprias estratégias e amor pelas motocicletas. A visão final desta profissão muitíssimo nova será governada pela forma como ela cresce. Projetos como o canal*MOTOBOY estão tentando fazê-la crescer em uma direção positiva.

Este artigo foi publicado pela primeira vez no International Journal of Motorcycle Studies: http://ijms.nova.edu/Fall2011/IJMS_Rvw.MagnaniP.html