Tecnologia da Motocicleta Moderna

Não há livros de Engenharia da Motocicleta no mercado (*). Os únicos livros específicos de moto com alguma modelagem matemática são o Cossalter e o Cocco. Mas esses falam só de ciclística, nada de propulsão, projeto ou fabricação. Agora, deixando de lado a parte de engenharia e nos contentando com a descrição da tecnologia, daí fica um pouco mais fácil encontrar. Por exemplo, os livros da Haynes, que são bem básicos, e o Spalding e o Cameron, que falam de motos de corrida.

Nessa linha de descrição tecnológica, há um ano eu encontrei um livro legal. Não tem nenhum dimensionamento, mas a parte descritiva é muito boa: Modern Motorcycle Technology: How Every Part of Your Motorcycle Works, de Massimo Clarke (2010).

O livro só fala de motos modernas, nada de história. As figuras são muito claras, mostrando cada peça com muita nitidez. Fico imaginando o trabalhão que deu só para tirar aquelas fotos. O autor explica a função de cada componente e a razão de terem escolhido aquele design, com as vantagens e as desvantagens. Outro aspecto legal é que há muita informação sobre a escolha dos materiais e sobre o processo de fabricação das peças. Alguns temas são mais bem explicados em outros livros, como o processo de combustão, projeto do quadro e a suspensão da moto. Os capítulos são divididos assim:

Motor. Primeiro ele explica a operação dos motores de dois e quatro tempos. Depois fala da diferença entre as várias configurações de motores (e.g., monocilindros e V-Twins), com ênfase no balanceamento. Os próximos passos são o comando de válvulas, o sistema de resfriamento e a lubrificação do motor. O Hoag e o Heisler são bons livros para aprofundar um pouco o que é visto aqui.

Partes Mecânicas. Este capítulo é o grande diferencial do livro. Fala sobre os materiais e o processo de fabricação das principais peças do motor. Faz uma análise comparativa entre os aços, ligas de alumínio, magnésio e titânio. Discute mancais de rolamento e deslizamento, e porque alguns virabrequins são fabricados em uma única peça ou bipartidos.

Alimentação de Combustível, Combustão e Meio Ambiente. Nessa parte, o livro explica o sistema de entrada de ar, com ênfase na ressonância e na inércia dos gases. São mostrados os sistemas de escapamento, silenciosos e catalisadores. Também mostra a ignição, injeção, combustão e formação de poluentes. Esse material, em particular, pode ser encontrado em livros de engenharia, como o Heywood e o Blair. Mas não deixa de ser interessante ver exemplos de moto.

Transmissão Final e Suspensão. Os últimos dois capítulos também são bem tradicionais, mas continuam com o mesmo capricho. São analisados todos os tipos de transmissão final (corrente, correia, eixo e CVT). O livro termina falando de quadros e suspensão de forma superficial. Esse conteúdo é bem mais profundo no Cossalter, Cocco e Foale.

O Autor e o Livro. Segundo o livro, o autor Massimo Clarke é jornalista de longa data, especializado em motos. Já escreveu vários livros e é diretor de um centro de pesquisa italiano que estuda a história e os aspectos tecnológicos das corridas de moto. O livro é bem leve e compacto. As figuras são muito claras e o papel é de qualidade. Além de ter informações importantes, também serve como livro de mesa para ficar só namorando. Não é um livro propriamente de engenharia, pois não tem nenhum dimensionamento ou modelagem. Mas, devido à qualidade das descrições e explicações, faz parte da bibliografia de qualquer curso de Engenharia da Motocicleta.

Voltando à questão da inexistência de livros de Engenharia da Motocicleta, é certo que há divulgação de conhecimento através de artigos acadêmicos. A vantagem desses artigos é que trazem o que há de mais novo. Mas não são suficientes, pois ainda precisamos dos livros para formar novos profissionais e para integrar o conhecimento. Os artigos acadêmicos são profundos e fragmentados. Os livros são superficiais, abrangentes e coesos. Livros e artigos são complementares. Outra vantagem dos livros é a liberdade para divagações racionais, apresentação de tendências futuras e discussão política franca. Não é possível compreender a tecnologia sem entender as restrições políticas, sociais, econômicas e culturais.

Agora, por que será que não há livros de Engenharia da Motocicleta? Será que é porque moto é coisa de pobre? Ou porque todo o desenvolvimento é baseado em um conhecimento tácito dos projetistas? Ou porque boa parte é empírica e de difícil generalização? Ou porque a tecnologia é ultrapassada, bastando então olhar em um livro de tecnologia automotiva de 30 anos atrás?

Não acredito. Acho que não há livros no mercado pela simples razão de que o conhecimento moderno está dentro das pouquíssimas fábricas que dominam o mundo das motos. Putz, isso até pareceu teoria da conspiração. Essas poucas fábricas criam, mantém e transmitem o conhecimento internamente. Afinal, se somente elas produzem quase todas as motos do mundo, por que razão espalhariam o que sabem? O racional é que concentrem todas as informações em seus arquivos e que façam elas mesmas o treinamento dos seus engenheiros.

No problema.

Há uma infinidade de blogs espalhados pelo mundo divulgando a tecnologia das motos, libertando o conhecimento e desmascarando a ideologia do: compre/compre/compre, seja limpinho, mantenha a ordem e não faça barulho. Há pelo menos algumas empresas alternativas desenvolvendo novas tecnologias. Também há alguns centros de pesquisa criando novos conhecimentos públicos. Com essa nova postura we the media, DIY e free knowledge, daqui a pouco teremos uma explosão de fábricas fazendo as motos que queremos. Nós os motoqueiros seremos libertados da condição de consumidores e passaremos a produzir a nossa própria tecnologia.

(*) Pelo menos não em português ou inglês. É possível que tenha alguma coisa em alemão (não sei ler), japonês (não sei nem procurar), italiano, francês ou espanhol (mas não encontrei nada recente).