Motos Chinesas

Tecnologia Avançada Precisa Ser Complicada?

Tudo bem que as motos chinesas que chegam por aqui usem tecnologia antiga. Mas, olhando pelo lado bom, por serem motos simples os motoqueiros podem mexer nas suas próprias motos e há mais variedade nas peças de reposição. Tudo indica que logo as fábricas chinesas irão produzir motos mais avançadas. Só espero que consigam fabricar motos que sejam eficientes e pouco poluentes, mas que continuem simples.

Isso é possível. Basta que se escorem um pouco menos na eletrônica e nos mecanismos complicados, e apostem mais em novos materiais, processos de fabricação e conhecimento de fenômenos físicos (e.g., mecânica dos fluidos e combustão).

Quando as motos começaram a ser fabricadas, no final do século XIX e início do XX, eram super complicadas, com vários cilindros. Com o desenvolvimento de novos materiais, foram simplificadas. Depois, nos anos 50, as motos voltaram a ficar complicadas, principalmente nas competições. Até que o engenheiro Walter Kaaden conseguiu projetar motores dois tempos extremamente simples e potentes, só com o conhecimento de dinâmica dos gases. Nos anos 90 as motos se tornaram mais complicadas do que nunca, com um monte de eletrônica e mecanismos rocambolescos.

Parece então que há uma oscilação entre complicação e simplicidade, que se alternam sem parar. Seguindo a história, esperamos agora um novo ciclo tecnológico, em que alguém descubra que tudo pode ser simples novamente. As motos elétricas e os motores de dois tempos com injeção direta já estão aí. Quem sabe um dia não teremos conhecimento suficiente para projetarmos carburadores mais eficientes do que as injeções eletrônicas atuais? Talvez isso venha da China. Melhor ainda se vier aqui do Brasil.

Manutenção de Motos Chinesas

Enquanto essas novas motos não vêm, o negócio é fuçar nas motos mais simples que ainda restam. O livro “Chinese, Taiwanese and Korean 125cc Motorcycles“, da Haynes, mostra o passo a passo para fazer a manutenção de uma porção de motos chinesas. É um livro bem recente, de 2010.

A Haynes é uma editora fundada em 1960, dedicada a manuais de reparo e manutenção automotiva. Eles têm livros gerais (e.g., dicas de oficina e tecnologia básica das motos) e livros para manutenção de veículos específicos (300 carros e 130 motos). Para desenvolver os manuais, eles compram o veículo, desmontam completamente e remontam, levando algo como 10 semanas. Às vezes as montadoras apoiam esses manuais. Isso poderia parecer estranho, já que a assistência técnica é uma boa parte do lucro das empresas – um consumidor gasta cerca de 40% do preço inicial do veículo com manutenção. Além disso, as empresas não gostam muito quando alguém descobre que eles usam as mesmas peças em modelos diferentes. Por outro lado, esse tipo de manual informativo faz com que o consumidor se apegue mais ao produto. Sem contar que as empresas continuam vendendo as peças.

Esse livro de manutenção de motos chinesas cobre um sem número de fabricantes. Olhe só a lista: AJS, Baotian, Bashan, Better, Branson, British Trackstar, Chituma (Hongdou), Dadyw, Daelim, Dafier, Dayang/Dayun, Easy Rider, Feiyning, FYM, Geely, Giantco, Haotian, Hartford, Himo, Hongdou, Hongling, Hsun (HiSun), Huoniao, Hyosung, Jialing, Jianshe, Jincheng, Jinfeng, Jinlun, Kaisar (Lexmoto), Keeway, Kinlon, Kinroad, Kymco, Lexmoto, Lifan, Loncin, Megelli, Moto Roma, Netch, Oubao, Pioneer, POR, Pulse, Romet, Qingqi, Sanya, Sanye, Shineray, Sinnis, Sinski, Skyjet, Sky Team, Sukida, Sumoto (Hongdou), Superbyke, Suzuki, Sym, Tayako, TMEC, Urban, Venture, Vulcan, Wangye, Warrior, Wuyang, Xgjao, Xingyue, Xinling, Xiongtai, Yamasaki, Yuan, Zennco, Zhongneng, Znen, Zongshen e ZY Motor.

Tem quatro partes. Uma introdução, explicando que tipos de motos são cobertos e checagem do dia a dia; manutenção de rotina, como substituição das pastilhas de freio e troca de óleo; reparos de grande porte, incluindo todo o motor, embreagem, transmissão, sistema de arrefecimento, sistema de combustível, escape, ignição, quadro, suspensão, rodas, transmissão final, carenagem e sistema elétrico; e uma parte final com ferramentas, dicas de oficina e um procedimento para diagnóstico de falhas. Esses manuais da Haynes são manuais de serviço melhorados, pois dão dicas de conserto (não só de troca de peças, troca de peças, troca de peças) e porque têm a liberdade de falar que as motos têm sim problemas comuns (ao contrário do mundo fictício dos manuais oficiais, onde o piloto sempre é o culpado por qualquer problema).

China e Japão, Inimigos ou Parceiros?

Agora, uma página do livro é especial, valendo todo o investimento que fiz. Logo na introdução, há um texto do Julian Ryder: “The Tip of A (Very Big) Iceberg”, algo como “A Ponta de um Iceberg (Muito Grande)”. Nesse texto, ele faz uma análise da indústria de motos na China. Primeiro, fala o óbvio, que eles produzem 25 milhões de motos por ano (umas 15 vezes mais que o Brasil). Também comenta a falta de qualidade de alguns produtos. Isso tudo estamos cansados de ouvir.

O legal é quando ele descreve os esforços que a China está fazendo para melhorar. São três ações principais que eles já vêm desenvolvendo: melhorias nas exigências técnicas dos produtos chineses, participação em competições e acordos com as grandes fabricantes japonesas.

Esse último ponto é que mais me aguça a curiosidade. O Japão percorreu mais ou menos o mesmo caminho nos anos 50, com alguns produtos de baixa qualidade, cópia de motos de outros países e muito desenvolvimento tecnológico. No entanto, naquela época as indústrias poderosas da Inglaterra e da Alemanha não apostaram tanto em pesquisa como as japonesas. Também não viam a indústria japonesa como uma ameaça. No final, as fábricas tradicionais europeias ou quebraram ou passaram a fabricar só motos de luxo.

O que está acontecendo agora, entre a China e o Japão, talvez não seja exatamente o mesmo. Certamente as fábricas chinesas vão crescer cada vez mais. Agora, será que elas vão quebrar as japonesas ou serão simplesmente compradas pelas quatro grandes (Honda, Yamaha, Suzuki e Kawasaki)? Em outras palavras, as motos chinesas ameaçam o Japão ou a China é apenas mais um país controlado pelas fábricas japonesas, como o Brasil?

O Impacto no Brasil

Só para terminar, o Brasil tem uma grande vantagem em relação à China. O que quebrou a indústria americana e a inglesa foi a falta de um mercado interno. O Japão, por outro lado, conseguiu fazer sua indústria crescer exatamente porque tinha esse mercado. Quando o mercado interno japonês começou a diminuir nos anos 80, eles continuaram produzindo nos outros países, como Índia e Brasil. O problema com a China é que, segundo Julian Ryder, lá não são permitidas motos de grande porte. Além deles estarem proibindo até a venda de motos pequenas nas grandes cidades. Por isso, o mercado chinês não é tão forte como poderia.

Aqui no Brasil temos um mercado muito forte, mas não temos espaço para criar nossas próprias fábricas, pois as japonesas têm uma estrutura bastante robusta. Mas talvez a entrada das motos chinesas aqui no Brasil tenha um lado positivo, que é mexer um pouco na estrutura estável de hoje em dia. Não queremos simplesmente substituir japonesas por chinesas, nem queremos chinesas comandadas por japonesas. O que queremos é que, nesse rearranjo de forças na nossa produção de motos, alguns empreendedores brasileiros consigam germinar e florescer. Vamos esperar.