Construa Sua Própria Moto Elétrica

Carl Vogel, no livro Build Your Own Electric Motorcycle (“Construa a Sua Própria Moto Elétrica”, 2009), defende que não precisamos esperar que as grandes fábricas comecem a produzir motos elétricas em grande escala. Por que não as fabricamos nós mesmos? De repente nasce assim a próxima líder mundial.

As motos elétricas são uma questão de amor e ódio. São menos poluentes e mais simples que as motos convencionais. Mas têm menor autonomia, são mais caras e menos potentes. Por enquanto a maioria de nós fica só na torcida, a favor ou contra. Não se tem muita informação concreta, já que não há muitas motos no mercado. Agora, o que aconteceria se alguém cansasse de esperar o lançamento das grandes fábricas e começasse a produzir as suas próprias motos elétricas? Seria fantástico. Primeiro porque teríamos motos elétricas para comprar. Mais importante ainda, teríamos uma fábrica brasileira, que faria motos com a nossa cara. São assim que as grandes empresas começam, encontrando um nicho desprezado pelas grandes, fincando uma bandeira de resistência e depois passando por cima dos dinossauros.

Além de defender a fabricação das motos elétricas, Carl Voger explica como se faz. A estrutura do livro é mais ou menos assim:

Economia, Energia e Meio Ambiente. (30 pp) Os primeiros capítulos discutem as vantagens econômicas de termos motos elétricas e o impacto sobre o meio ambiente. Eu não gostei muito desse material, pois defende as motos elétricas de forma muito parcial. O uso de veículos elétricos demandará uma mudança muito grande no sistema de fornecimento de energia elétrica, mas isso é deixado meio de lado na discussão. No entanto, o livro é bem honesto sobre a atual baixa autonomia das motos elétricas, dizendo que por enquanto elas devem ser usadas apenas para ir e voltar ao trabalho, para lazer ou servindo como uma segunda moto.

História das Motos Elétricas. (30 pp) Ao contrário dos quadrúpedes elétricos – que já formaram a maioria da frota mundial até o início do século XX, época em que a gasolina ficou barata -, as motos elétricas não têm uma história muito importante. Parece que a primeira moto elétrica é de 1911, mas foi nos anos 20 que algumas motos começaram a ser desenvolvidas mais seriamente (e.g., Ransomes e Automatic Electric Transmission Company). Na década de 40, a fábrica austríaca Socovel produziu cerca de 400 pequenas motos elétricas. Em 1974 havia a Corbin-Gentry e no final da década de 90 apareceu a EMB Electra VR24. Outra moto importante foi a KillaCycle, que em 2000 atingiu a velocidade de 245 km/h em uma pista de quarto de milha, demonstrando que motos elétricas podem ser potentes. O livro fala de algumas motos que estão atualmente no mercado, como a Zero e a Brammo. Comenta ainda sobre os prospectos da KTM, Honda e Yamaha.

Projeto e Construção. (80 pp) Depois de falar sobre o estado atual e as alternativas para o futuro, o livro entra no que interessa, explicando como fazer o projeto. Ele defende que façamos modificações em motos convencionais, ao invés de começarmos o projeto do zero. Como as baterias são grandes e pesadas, o quadro e a suspensão precisam ser modificados. O dimensionamento do motor depende do tipo de moto que se quer (velocidade, economia ou arrancada).

Componentes Principais. (100 pp) O grosso do livro é sobre os componentes principais (bateria, motor e controlador). Comenta sobre as vantagens e desvantagens de cada tipo de bateria (chumbo-ácido, níquel-cádmio e lítio), em relação ao preço, peso, caraterísticas de carga e entrega de potência, e mostra cálculos para o dimensionamento do sistema de baterias. Depois vêm os vários tipos de motores: série, shunt, composto, de magneto permanente, brushless, universal, de indução e síncrono. São analisadas características como capacidade de freio regenerativo, curva de torque e range de velocidade. Essa parte termina com os controladores, suas principais especificações e modelos disponíveis no mercado.

Componentes Auxiliares (50 pp) São discutidos os vários tipos de carregadores, o sistema de gerenciamento e balanceamento das baterias, instrumentos para o piloto, cabeamento, conversores e dicas sobre o sistema elétrico.

Fontes. (50 pp) Uma das partes mais importantes do livro são os anexos, que listam fontes para tudo o que um contrutor de motos elétricas pode precisar: associações, fabricantes, fornecedores, equipamentos, bibliografia e sites. Pena que quase tudo é dos EUA e Europa. Mas chegamos lá. Daqui a pouco teremos nossas próprias motos e nossos próprio livros, então não precisaremos mais depender dos outros.

A impressão do livro não é muito boa, com linhas prensadas, letras pequenas e figuras em preto e branco. O conteúdo é baseado em “Build Your Own Electric Vehicle” (Seth Leitman, 2009), que por acaso é uma revisão de “Build Your Own Electric Vehicle” (Bob Brant, 1994). Então, algumas seções são repetidas do material para carros. Por outro lado, o livro também é baseado na experiência do autor, que construiu duas motos elétricas. Em 2001, ele fabricou a Electra Cruiser, que foi usada na série Coolfuel Roadtrip, sobre vida sustentável nos EUA. Então, em balanço, embora não possa ser considerado o único livro para se montar uma fábrica de motos elétricas, ele é muito bom como introdução ao assunto.

A informação está aí para quem quiser começar a produzir motos elétricas. Eu só tenho um alerta para fazer: a fábrica vai dar tão certo que o proprietário vai ter que deixar a parte legal (projeto, montagem e teste das motos) para se preocupar em como investir o lucro. Coitado.