Campina Grande – PB (II)

Há algumas semanas atrás (22.01.2012), eu e a Renata pegamos a estrada de moto para participar do Encontro de Estudos da Motocicleta em Campina Grande. Era para o encontro ser o principal evento do dia, mas, como passamos quatro horas em Campina Grande e sete horas na estrada, dá para dizer que foram dois dias em um só.

Nosso café da manhã foi o usual: pão com queijo coalho, café e suco. Eu sou muito aberto a novas culturas e gosto de experimentar novas comidas, mas nunca consegui me adaptar ao café que vendem nas estradas de Pernambuco, com macaxeira cozida, cuzcuz e carne guisada. Eu até gosto, mas no almoço. Então, de preferência eu tomo o café em casa antes de sair. De algumas tradições nós nunca nos libertamos. Uma pena. Se bem que o queijo coalho, de Pernambuco, acabou virando o meu queijo preferido. Nem tudo está perdido.

Pernambuco parece um canteiro de obras. Não dá nem vontade de andar de moto nas redondezas de Recife. Por exemplo, desfiguraram uma das estradas mais legais que havia para passear de moto logo de manhã, entre Recife e São Lourenço da Mata. O trecho de alguns quilometros tinha subidas e descidas, curvas bem feitas e relava em uma mata virgem fresquinha. Agora estão duplicando essa pista. Acho que é para melhorar o acesso ao Alphaville (Vila dos Alfas?) e para as pessoas irem ao estádio da copa durante uns poucos jogos. Quem tem dinheiro é quem manda.

Ainda bem que logo depois chega Guadalajara. Adoro o nome dessa cidade. Quer dizer, não sei se é cidade, distrito ou bairro. Não importa. O que importa é que é legal. Fico só imaginando porque escolheram chamar a cidade assim. Será que foi em homenagem aos jogos do Brasil na copa de 70? É bem possível, pois logo na chegada há dois campos de futebol. Sempre que eu passo por ali tem alguma peleja. Quero ver ser algum dia vou lá assistir ao final do campeonato e ver a festança dos campeões.

Estão desfigurando também a estrada em Paudalho. Vai ficar tudo bem moderno, com uma estrada bem rápida e as cidades escondidas atrás dos outdoors ou embaixo dos viadutos. É o progresso. Tudo bem, de agora em diante eu vou considerar que as minhas viagens começam só depois de Carpina, onde acaba a duplicação.

Depois de Carpina, quando acaba o novo progresso, cada um pode escolher o seu caminho: Araçoiaba, Lagoa do Carro, Tracunhaém ou Lagoa do Itaenga. Dá para ir para Campina Grande por qualquer uma das três últimas cidades. Escolhemos Tracunhaém porque deu na telha ali na hora. Por esse caminho passamos por mais uma cidade com nome legal: Buenos Aires. Não pretendo entrar lá tão cedo. Prefiro continuar imaginando que é uma cidade de forasteiros, incrustada no meio do estado, lutando pela sua individualidade e pela sua cultura única.

Pegamos muita chuva, o que não é nada comum nesta época do ano. As estradas estavam esburacadas. Mas não que isso faça muita diferença, pois é fácil desviar com a moto. Além disso, não dá para correr nessas estradas porque sempre tem algum animal na pista, pessoas passeando ou algum veículo curtindo o visual. Legal. Tem todo tipo de animal: cachorro, gato, galinha, boi, bode, carcará, cavalo, urubu, jegue, cobra e aranha. Em uma curva eu tomei um susto porque tinha um caranguejo atravessando a pista. Caranguejo no agreste? Que nada, era uma aranha das grandes.

O meio de transporte preferido do pessoal da região parece ser as Toyotas. Um amigo nosso, o Zé Carlos, prefere pegar quatro Toyotas para ir ao trabalho do que esperar um ônibus. Ele paga mais caro pela escolha, mas diz que é melhor.

Uma visão que me dá esperança de que a humanidade não está perdida é um motoqueiro rodando com seu cachorro. Desta vez encontramos a Babi, que viajava com o seu casal de humanos. Talvez seja perigoso para a bichinha – não sei porque não conheço as estatísticas de acidentes de moto com cachorros motoqueiros -, mas aposto que ela adora sentir o vento no rosto. Daqui a pouco vão proibir a diversão dela. Aproveita Babi!

Na volta viemos pela serra de Umbuzeiro, outra das minhas estradas preferidas. Acho que o progresso vai demorar um pouco mais para chegar até ali. Eu não tenho nada contra o novo, desde que ele seja criativo. Também não tenho nada a favor da tradição quando ela não é viva. O que eu quero dizer é que não acho que exista uma briga entre o novo e o velho, mas sim entre o vivo e o morto. Esse tipo de estrada que estão fazendo de Recife a Carpina destrói a complexidade da vida que existe no local e coloca em seu lugar o nada. Esse tipo de progresso não é o novo, é o nada.

Mas uma coisa ainda não conseguiram destruir naquele trecho: a Acerolândia. Essa é uma lanchonete que vende principalmente polpa e sorvete de acerola, mas também tem coxinha e sorvete de nata goiaba. Na parte de trás tem um viveiro, que a Renata costumava visitar quando era criança. Para mim também é marcante, pois, há muitos anos, foi um pouco depois de pararmos ali para um sorvete que eu dei o primeiro beijo na Renata.

Fotos

Café da manhã:

Muita chuva:

É duro passar pela desertificação entre Recife e Carpina:

A terra dos campeões:

O primeiro beijo:

Já estive lá em sonho:

Se você quer escolher, tem que pagar caro:

Fábio, Renata e a motoqueira Babi: