Dinâmica das Motos

Tem duas frases do Michelangelo que eu gosto muito. A primeira diz que dentro de cada bloco de pedra há uma estátua e que é o trabalho do escultor descobri-la. A outra frase diz mais ou menos a mesma coisa, mas de uma forma mais profunda: “Eu vi um anjo no mármore, então talhei até o libertar”. Eu gosto de usar essas frases para explicar como vejo os métodos que usamos para compreender o mundo. Alguns dão mais valor às teorias, tentando enquadrar o mundo inteiro dentro delas. Outros dão mais valor aos problemas reais, tentando vê-los de todos os lados. Os dois métodos têm vantagens e desvantagens. Às vezes são criadas teorias (e.g., físicas, artísticas, sociológicas) que explicam um monte de coisas ao mesmo tempo. São como blocos de mármore, que contém todas as estátuas possíveis. Outras vezes aparecem obras que revelam uma única coisa, mas vista em todos os detalhes. São como os anjos. Não queremos um bloco de mármore feio. Não queremos só um anjo. Queremos todos os anjos possíveis. Para isso precisamos da teoria e do estudo de problemas específicos.

Alguns autores, principalmente os mais artísticos, tentam seguir o caminho dos anjos. Eles procuram uma única estátua. Estudam um único tópico. Não tentam demonstrar que um anjo é apenas um caso particular de um bloco. Ao contrário, usam todas as técnicas possíveis para revelar o anjo. Não estão nem certos nem errados. A questão é que eles não gostam necessariamente das teorias, eles gostam de anjos.

As teorias gerais simplificam demais os problemas, mas por outro lado permitem analogias iluminadoras. Além de limitarem a quantidade de bobagens que se pode dizer. O problema é que só com a teoria vivemos em um mundo imaginário, falando de motos ideais que não existem. Um problema maior ainda é que sem a teoria também vivemos em um mundo imaginário, já que podemos criar qualquer explicação para qualquer coisa. Isso porque, no final das contas, não podemos viver sem teorias. Podemos usar uma teoria científica para explicar as motos (a física) ou uma teoria pessoal (pequenos demônios pedalam dentro do motor), mas não vivemos sem alguma teoria. O legal é usar as duas visões. Pena que os livros de engenharia tenham cada vez mais descambado só para a teoria, o que é ruim. Já as revistas, a televisão e os livros de manutenção têm descambado para o outro lado, o que também é ruim.

Escrevi tudo isso para fazer um elogio ao livro Motorcycle Design and Technology Handbook de Gaetano Cocco (2004, primeira publicação em 1999). Esse livro tem um monte de defeitos. As equações são muito simplificadas, portanto não preveem muito bem o que vai acontecer com uma moto de verdade. Também, ele podia ter aproveitado a teoria da ciclística da moto para explicar as bicicletas, ter generalizado a teoria da propulsão para explicar os carros. Poderia ainda ter usado a teoria da suspensão da moto para explicar as máquinas de lavar roupa. Isso sem contar que não descreve todos os tipos de moto que existem no mundo. O pior defeito é quando comenta um fenômeno físico, mas diz que não sabe explicar exatamente as suas causas. Como um autor tem a coragem de dizer que não sabe algo?

Por que ele fez isso? Porque o livro é sobre a essência da moto, não é sobre teoria. Porque o livro é sobre a essência da moto, não sobre todos os modelos que já foram vendidos. Ele usa a teoria e os casos específicos para entender as motos. O que se busca neste tipo de livro é explicar bem o problema e se possível encontrar algumas essências.

O título engana um pouco, pois não fala nem de projeto nem de tecnologia. Mas, como não existe nenhum livro de projeto de motocicletas no mercado, então está perdoado. O livro fala da dinâmica da moto, o que já está bom demais. Aborda os seguintes temas:

  • Por que a moto não cai?
  • Como controlar a moto nas curvas?
  • Como o torque do motor é transferido para o chão?
  • Qual a influência da aerodinâmica?
  • Como a atitude da moto muda dependendo da pilotagem?
  • Qual o papel da suspensão?

Para entender o livro é preciso ter um certo conhecimento de Física. O ideal é que o leitor já tenha estudado Física 1, Física 2, Estática e Dinâmica. Um pouco de Mecanismos e Vibrações também caem bem.

Mas este meu texto está teórico demais. Deixa eu dar alguns poucos exemplos do que ele explica no livro. Na parte de movimento em linha reta, comenta que a moto não cai por uma combinação de três fenômenos: inércia do conjunto, efeito giroscópico e efeito “autoendireitador” da direção. Na parte de curvas fala sobre o papel da geometria, da força centrífuga e do efeito giroscópico. Para tentar isolar esses efeitos, até explica porque é possível fazer uma curva empinando a moto. Herege! Agora todo mundo vai se matar! Na parte da suspensão, mostra os sistemas “pro-dive” e “anti-dive”. Legal que até defende o “pro-dive”, que diminui o “trail” bem na hora da frenagem, desestabilizando a moto e facilitando a entrada na curva. Outro exemplo legal dele é porque não usamos aerofólios nas motos, como nos carros de corrida. A diferença é que o carro está sempre na horizontal, então a força vai para baixo, aumentando a tração disponível. No caso da moto, que faz curva inclinada, essa força aerodinâmica tem um componente para baixo (o que aumenta a tração disponível), mas outro para fora da curva (que diminui a tração disponível). E por aí vai, cada página com algum fenômeno legal.

Para resumir, ninguém vai aprender física com esse livro, ninguém vai aprender a projetar uma moto, ninguém vai aprender todos os tipos de tecnologia que são vendidos pelas fábricas, ninguém vai aprender como funciona um motor e ninguém vai conseguir fazer um modelo computacional que preveja exatamente o que vai acontecer com uma moto quando estiver em uma pista. Por outro lado, quem ler esse livro vai aprender, por exemplo, porque uma moto não cai, como ajustá-la para ficar mais estável ou mais arisca, e como aproveitar a potência do motor para fazer a moto andar para frente. Acima de tudo, quem ler esse livro vai olhar para um monte de peças mortas de metal e ver vida. Como alguém que olha para uma estátua de mármore e vê um anjo de verdade.