Mondo Enduro e Terra Circa

Vivemos em um tempo em que as viagens de aventura não mais são feitas somente pela aventura. Parece que viajamos para depois escrever livros, produzir blogs, transmitir vídeos, ministrar palestras, divulgar fotos, contar histórias impressionantes aos conhecidos ou publicar reportagens. Se bem que é difícil definir onde está esse limite entre quem “busca a aventura e por acaso publica algo depois” e quem “busca a publicação e por acaso viaja antes”. Isso sem contar quando pensamos que o tamanho da aventura é proporcional ao gasto. Como se uma moto maior ou um destino mais distante fizessem alguma diferença. Bem, talvez façam diferença para vender as publicações, mas certamente não melhoram a aventura. Muito pelo contrário, penso, quanto mais viajamos como realmente somos, mais fácil nos misturamos aos lugares por onde passamos. As pessoas cheiram posers, colonialistas e hipsters de longe. No final das contas, a diferença entre quem “vive a aventura” e quem “viaja para contar” é a diferença entre quem anda de moto porque é autêntico e quem anda de moto porque quer uma identidade. Mas essa é uma longa discussão, para outro dia. E que fique claro que eu não estou me eximindo de nenhum desses pecados.

Apesar de tudo, claro que eu gosto de ler livros e assistir documentários dos outros. Melhor se tivesse ido eu mesmo. Mas, como não posso ir a todos os lugares e também não posso ser amigo de todas as pessoas interessantes, pelo menos converso com eles por meio do que leio e do que escrevo. Gosto de saber de viagens com pouco dinheiro e com motos pequenas. Gosto de ver filmagens de motoqueiros que caíram no mundo para encontrar pessoas e aprender algo novo.

Duas viagens que eu assisto direto são Mondo Enduro e Terra Circa. As duas foram ao redor do mundo, com o mesmo núcleo (os irmãos Vince). Mondo Enduro ocorreu em 1995-96. Os sete caras rodaram 65.000 km pela Europa, Ásia, América e África. Usaram motos leves, Suzuki’s DR350. Até conseguiram bater algum tipo de recorde, terminando a viagem em 405 dias, mas esqueceram que tinham que ter avisado as autoridades recordianas antes. A segunda viagem, Terra Circa, foi de apenas 30.000 km. Foram sete meses, no ano 2000, para rodar a Europa, Ásia e América.

Mondo Enduro foi registrado em filme (2003) e em livro (2006). Terra Circa só em filme (2007). Ao contrário dos documentários da Discovery, não mostram só vistas fantásticas, locais turísticos e coisas necessariamente exóticas. Mondo Enduro e Terra Circa mostram o dia a dia de uma viagem de moto sem quase nenhum dinheiro, com as quebras, as amizades, o camping em prédios abandonados e as refeições cozidas em fogueiras na beira da estrada. Para se ter uma idéia da diferença, por exemplo eles escolheram passar pelo Cazaquistão. O país é um grande vazio do ponto de vista turístico. Não há muito o que contar ou mostrar. Mas há o que viver. O isolamento e a imensidão trazem uma nova perspectiva para quem passa por lá. Deve ser mais ou menos como cruzar o Atacama.

Mas eu estou sendo filosófico demais. Os relatos desses carinhas não são nada teóricos, são é engraçados. Mas não tolos. São divertidos e profundamente críticos como uma música do Ultraje a Rigor. O livro é baseado no diário de bordo, que foi escrito por todos eles. Ao ler, nós nunca sabemos quem escreveu o que, mas dá para ter uma idéia quando de repente aparece uma frase como “hoje X teve um ato de grande nobreza enquanto ninguém mais aguenta Y pelos seus roncos animalescos”. Bastava alguém dar um deslize para ser ridiculizarado anonimamente no diário. Tudo bem, eles estavam lá pela diversão.

Não recomendo os filmes e o livro para quem viaja com várias mudas de roupa, dorme em hotéis e come em restaurantes. É humilhante. Pior que humilhante, a história desses carinhas nos deixa tristes por perdermos tanto tempo com as coisas e com as pessoas erradas.