História da Bicicleta – Parte I

Sempre que acabo de ler algum livro sobre motos volta aquela velha impressão de que o mundo começou no início do século XX, como se antes disso tudo fosse uma grande pré-história. Agora que comecei a estudar o bicicletismo vi que nada podia ser mais ilusório. Tudo isso que vemos hoje em dia já tinha acontecido antes com as bicicletas no século XIX: viagens aos redor do mundo sobre duas rodas, grandes competições de velocidade, venda de acessórios de marca, aquisição de máquinas caras só por causa do status, grandes encontros, ódio e leis contra quem anda em duas rodas, agências para viagens turísticas ao velho mundo, e a imprensa vendendo produtos ou papagueando a classe alta. Parece que é verdade esse negócio de que a história se repete de tempos em tempos. Deve ser, do mesmo jeito que as modas que voltam a cada dez anos, como a dos patins, do cinema 3D, da música punk e do culto ao Jim Morrison.

Aprendi essa coisa toda no livro Bicycle: The History (Bicicleta: A História, 2004) de David V. Herlihy. O livro é dividido segundo as grandes fases do bicicletismo. Pré-História (74pp), Era das Bone Shakers (84pp), Era das High Wheels (66pp), Era das Safeties (84pp) e o Século XX (94pp). Essa última parte fala dos vários aspectos do bicicletismo atual – utilitário, recreativo e esportivo – e do futuro das bicicletas.

Antes de entrar nos detalhes, deixa eu fazer duas cronologias. As datas não são muito exatas porque não é nada fácil determinar exatamente quando uma tecnologia começou a ser amplamente utilizada. Por incrível que pareça, não é fácil descobrir nem mesmo quando alguma coisa foi patenteada pela primeira vez. Do ponto de vista da tecnologia, a cronologia é mais ou menos assim: veículo com duas rodas (1817), pedal (1865), quadro de aço e rodas raiadas (1870), corrente (1885), pneu inflável (1888), catraca (1900) e marchas (1930). Como exemplo da dificuldade de precisar os eventos, as catracas existiam muito tempo antes de 1900, bem como já havia bicicletas de marchas com engrenagens planetárias desde o início do século. A questão é que não eram usadas em grande escala.

Draisienne

Quanto ao consumo, houve o primeiro boom com as draisiennes em 1817, o segundo boom das bone shakers em 1868 e o terceiro com as high wheels por volta de 1875. Essas três booms tinham consumidores da classe alta e esportistas. Mas a época de ouro das bicicletas começou mesmo lá pelos anos 1885, com as safeties, que tiveram importante papel na liberação das mulheres. Depois que acabou essa moda, em 1900, as bicicletas passaram a ter um uso quase que praticamente utilitário, só com os commuters (pessoas que vão e voltam ao trabalho) e as crianças. Nos anos 1980 houve uma nova retomada, com a criação das mountain bikes, que permitiam o uso em todo terreno, desde as trilhas rurais até as ruas esburacadas das cidades.

Em resumo, a história da bicicleta pode ser contada assim: a Era de Ouro, com grande consumo da classe alta e avanço tecnológio, entre os anos 1865 e 1900; e a Era do Transporte Urbano, do início do século XX até os dias de hoje, com bicicletas relativamente menos avançadas.

A primeira bicicleta foi criada em 1817 por Karl Drais (por isso eram conhecidas como draisiennes). A tecnologia já existia há mais de 3500 anos, mas nunca ninguém tinha pensado em colocar duas rodas em linha. O fundamental era a direção, que estabilizava a bicicleta quando em movimento. Os cientistas ficaram maravilhados em como aquele mecanismo podia se equilibrar. Era bem parecida com as de hoje, mas ainda não tinha pedal. A propulsão era feita com os pés, como os Flintstones. Fez grande sucesso na Europa e nos EUA como uma diversão para os nobres. Mesmo na época era duvidoso se realmente era mais eficiente do que andar a pé, pois embora acelerasse o caminhar era um peso morto nas subidas e nas estradas ruins. Era mais uma brincadeira de abastados. Já naquele tempo a sociedade reclamava dos pilotos que corriam com suas draisiennes pelas calçadas e espantavam os cavalos nas ruas. Os médicos, sempre donos da razão, declararam que as draisiennes faziam mal à saúde e deveriam ser banidas. Os cartunistas ridicularizavam o seu uso, representando quem andava de draisienne como Dândi ou como prostituta. A moda durou uns três anos, depois foi esquecida.

Quase cinquenta anos depois, na França, alguém teve a idéia de colocar um pedal na roda da frente. Ninguém sabe muito bem porque demorou tanto tempo para alguém pensar nisso. Uma hipótese era a hostilidade do público às draisiennes. Outra possibilidade era o grande fortalecimento das ferrovias nos anos 50, que atraía a atenção dos inventores. Outra hipótese ainda é que ninguém pensava nas draisiennes como veículos, mas sim como aceleradores de passadas. O certo é que a tecnologia estava lá. Havia um monte de máquinas com manivelas manuais, até um submarino. Simplesmente ninguém tinha pensado em colocar essas manivelas em uma bicicleta. Um exemplo de como a cultura influencia a tecnologia.

Bone Shaker

Esse pedal que finalmente colocaram na bicicleta nos anos 60 era usado tanto para propulsão como para frenagem. Essas bicicletas eram chamadas de bone shakers (sacudideiras de ossos) porque tinham rodas de madeira. A criação da bone shaker é alvo de controvérsias, mas parece ter sido criada por Lallement e produzida pela Michaux. O que se sabe de fato é que começaram a ser vendidas em 1867, criando um novo boom. Nessa época, nos EUA, quase todas as cidades tinham ringues de ciclismo. Foram criados muitos clubes de cicloturismo e as corridas chamavam muito a atenção da população. Mas essa moda logo passou. As bicicletas ainda eram muito caras, pesadas e perigosas. Sem contar que as estradas eram de péssima qualidade. Mais uma vez houve forte perseguição da sociedade, com a criação de leis que multavam quem se atrevesse a andar de bicicleta em público.

Em 1869 os EUA celebraram a finalização da ferrovia transcontinental. Mais uma razão para ver as bicicletas como brinquedos caros de riquinhos mimados. Mesmo assim essa época trouxe avanços, como os raios flexíveis, o pneu de borracha maciça e o quadro tubular. As catracas já tinham sido inventadas, mas não eram aceitas por causa da complexidade. Algumas bicicletas mais avançadas já usavam rolamentos e eram fabricadas totalmente em metal.

As rodas dianteiras começaram a ficar cada vez maiores. Isso por três razões: absorviam melhor os impactos, passavam melhor sobre obstáculos e permitiam correr mais, já que o pedal tinha que rodar na mesma rotação que a roda.

High Wheel ou Ordinary

Essas bicicletas altas não eram para qualquer um, por isso a partir de 1870 o consumo diminuiu novamente. Mas algumas fábricas continuaram desenvolvendo bicicletas para as corridas, que ainda atraiam o público. Começou o reinado das high wheels (rodas altas). Essas bicicletas eram muito rápidas, eficientes, simples e leves (em 1889 havia uma James que pesava apenas 5 kg). Seus pilotos precisavam ter muita habilidade e coragem para correr sobre rodas que passavam de 1,50m de diâmetro. Os tombos frontais machucavam muito. Nos filmes de hoje em dia as high wheels sempre aparecem pilotadas por bobões, mas na realidade eram conduzidas por atletas muito valentes. Depois dos EUA e da França, a Inglaterra entrou forte na produção e no desenvolvimento tecnológico dessas novas bicicletas. Por lá elas eram chamadas de penny-farthings, pois suas rodas de diferentes tamanhos lembravam a relação entre as duas moedas.

A população rica clamava por bicicletas mais seguras. Eles não queriam só assistir aos intrépidos pilotos das high wheels, queriam andar também. Mas isso fica para a segunda parte da História da Bicicleta.

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