Entrevista no Cabeça de Área sobre Motoqueirismo

Programa Cabeça de Área - TV Universitária UFPE - 17.03.2012

Semana passada eu fui convidado pelo Programa Cabeça de Área para falar de motoqueirismo. Muito legal a força que me deram no programa, já que não é todo dia que consigo espaço para divulgar o nosso trabalho. Eu fiquei super nervoso na gravação, o que dá para perceber pelas dezenas de ‘tás’ e centenas de ‘nés’. Quando depois assisti ao programa lembrei da aula de ecologia no primeiro ano de engenharia mecânica, quando nós os alunos fazíamos um bolão para ver quem chegava mais próximo do número de ‘nés’ que a professora soltaria durante a aula. Agora foi a minha vez. Aqui se faz, aqui se paga. Isso sem contar o movimento das mãos. Mas acho que isso não é nervosismo, é italianismo mesmo. A Renata morre de medo quando eu converso ao volante. Tudo bem, um dia terei dinheiro para fazer media training, então vou falar bonito como os políticos e os representantes das grandes empresas.

Também achei muito legal ver como se faz um programa, desde a ideia inicial, passando pela gravação, até a ilha de edição. Quase descobri a explicação para uma das minhas maiores curiosidades: e se acontece alguma coisa enquanto estão passando o replay no futebol, como aquilo é gravado para um segundo replay? Mas por mais que tentassem me explicar eu não consegui entender. Acho que será um mistério para sempre.

Durante o programa, abordamos um monte de assuntos importantes. Primeiro como a bicicleta foi a responsável pelo crescimento das cidades e uma forte aliada na liberação das mulheres. Hoje em dia a moto ainda tem um forte impacto, pois representa uma ferramenta de ascensão econômica, um modo de expressão cultural e um instrumento de miscigenação social nas ruas da cidade.

Depois me perguntaram sobre as duas disciplinas de moto que ministramos na UFPE. Engenharia da Motocicleta é dada na graduação, com um viés bem técnico. O estudante tem contato com todos os aspectos tecnológicos da motocicleta. Além disso, tem noções de otimização de motores, modelagem da ciclística e projeto da suspensão e do quadro. Estudos da Motocicleta é ensinada na pós-graduação, focando mais as questões culturais, de mercado e de produção. As duas disciplinas têm como objetivo final que os estudantes compreendam as relações entre produção, mercado, tecnologia e expressão cultural. Acreditamos que apenas com essa visão completa seja possível lidar com as importantes questões atuais do motoqueirismo: início de um conflito entre o monopólio japonês e as importações chinesas, grande número de acidentes de trânsito, consumismo exacerbado de motos antigas com cores novas, incapacidade do Brasil de produzir suas próprias motos, como montarmos nossas fábricas no Brasil, revolução tecnológica com as motos elétricas, ascensão econômica das classes mais baixas que compram as motos, expressão cultural dos jovens que não têm outras opções e conflito entre as classes sociais nas ruas, como manifestado na luta dos carros vs. motos.


Outro assunto tocado foi a experiência dos outros países. Depois da Segunda Guerra Mundial, com a retomada do poder econômico, os cidadãos da Itália, Inglaterra, Alemanha e Japão compravam muitas motos, que eram produzidas internamente. Hoje em dia, a China e a Índia vivem um momento parecido, com forte produção nacional. O Brasil também passa por um forte crescimento econômico, com muita gente comprando motos. Mas não sabemos produzí-las por inteiro. Por que o Brasil não consegue projetar suas próprias motos? Praticamente 100% da produção brasileira é feita por fábricas japonesas.

Pude falar também sobre o preconceito contra os motoqueiros. Somos vistos como criminosos, imprudentes e ignorantes. As campanhas contra acidentes colocam toda a culpa em nós (mesmo que pesquisas científicas provem que os carros sejam os principais culpados) e a mídia cria estereótipos terríveis. Eu defendo que a forma de diminuir isso é a produção cultural: filmes, documentários, músicas, festivais, encontros, congressos, crônicas, reportagens, websites, blogs e livros que representem o dia a dia dos motoqueiros, com toda a sua diversidade.

Na minha opinião, as questões envolvendo os motoqueiros estão sendo abordadas de forma incompleta pelas autoridades. Certo que há estatísticas de contagem de corpos, campanhas educativas contra a imprudência dos motoqueiros e uma severa fiscalização contra o álcool no trânsito. Perfeito. Mas falta mais. Falta produção cultural para humanizar os motoqueiros aos olhos da sociedade, competições de moto para diminuir os acidentes nas ruas, estudos para determinar as reais causas dos acidentes, campanhas educativas para os carangueiros, investimento em motos elétricas, aposta em uma indústria nacional, mudança na legislação de trânsito para proteger os motoqueiros e testes das motos realizados por institutos isentos de interesses comerciais. O principal, no entanto, é que os motoqueiros sejam ouvidos. Não só os organizados, os commuters também.

No final me deram a oportunidade de fazer a minha propaganda. Como professores de engenharia, temos uma capacidade limitada para tratar de todos esses temas. No entanto, temos entusiasmo suficiente para propor a criação de uma Rede de Estudos da Motocicleta, com acadêmicos de todas as áreas, empresas, governo, sociedade organizada e, principalmente, os motoqueiros.

Contamos com a participação de todos.