O Ciclista Iluminado

No calor das minhas quixotescas batalhas autolegislantes na defesa dos motoqueiros fracos e oprimidos, eu quase nunca percebo quando uso argumentos parciais. Vivo escrevendo por aí sobre os absurdos que ninguém quer ver: uma única fábrica tem o monopólio de 80% das motos no Brasil, as revistas vendem as próprias motos que “testam”, os carros é que matam os motoqueiros, os motoristas não gostam dos motoqueiros porque acham que as ruas não são “lugar para pobre”, a mídia se limita a papaguear o governo, esse negócio de “motociclista” é só para afastar a ralé… e por aí vai. Certo. O problema é que às vezes esqueço de fazer o contraponto: alguns motoqueiros são realmente imprudentes, as pessoas têm o direito de escolher serem consumistas e todos somos humanos.
Não que eu me preocupe em parecer um proselitista, um rebelde sem causa, um arrivista ou ainda monotemático em relação às motos. Já me acostumei com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei. O problema é que o meu discurso acaba tendo menos força do que poderia ter. A ficha caiu quando li o livro The Enlightened Cyclist (“O Ciclista Iluminado”), de Bike Snob NYC (2012). É o segundo livro dele que leio em poucos meses. Bike Snob também é muito legal.
O livro tem quatro partes que, embora tenham sido escritas pensando nos bicicleteiros, podem ser transportadas diretamente para os motoqueiros. Por falar nisso, há pouquíssima coisa escrita sobre os motoqueiros urbanos. Quase todos os livros de moto são sobre viagens e competições. Deixa então eu roubar um pouco as idéias dos nossos antepassados.
Logo no começo tem um texto sobre a irritação que passamos no commuting (ir e voltar para algum lugar). Os carros invadem a faixa dos ciclistas, os pedestres distraídos tentam o suicídio e os policiais enchem o saco por infrações pequenas enquanto os homicidas fazem o que querem em alta velocidade. Isso sem contar os outros ciclistas, que se espremem para passar na sua frente no sinal fechado, mas que depois ficam dormindo quando o sinal abre. Ou então os que querem apostar corrida. Irritante.
O resto do livro trata exatamente desse tema, como todos se irritam e como todos acham que estão certos enquanto todos os outros estão errados. O autor então passa a listar, de forma bem engraçada, todos os comportamentos que irritam no trânsito. Bicicleteiros, carros e pedestres, todos irritando a todos e a si mesmos. Isso sem contar um outro tipo de irritação, fora do trânsito, que é o discurso dos bicicleteiros que se acham melhores que todos os outros, pois estão salvando a Terra para as gerações futuras.
O mundo das motos também é assim. Motoqueiros irritam outros motoqueiros ao lutarem pelos corredores, motoqueiros irritam carros com o barulho do escape, motoqueiros irritam pedestres tirando finas, bicicleteiros irritam motoqueiros ao não respeitarem o sinal vermelho, carros irritam motoqueiros passando em poças d’água, motoqueiros irritam carros por terem a audácia de se divertirem no caminho do trabalho, carros irritam motoqueiros se jogando por cima da gente, e todas as outras combinações possíveis. Isso sem contar os blogueiros motoqueiros que insistem incansavelmente que as motos são especiais por trazerem uma nova ordem ao trânsito: orgânica, criativa, divertida, inteligente e democrática.
O autor apresenta três grandes teses. Primeiro de que não há um tipo de transporte ideal. As bicicletas são boas para pequenos translados e os caminhões para levar grandes cargas para longe. A segunda tese é que ninguém é melhor que ninguém. Todos estão aqui para continuarem vivos e serem felizes. Por fim, cada um deve se esforçar para um trânsito mais harmonioso.
Tudo bem, é difícil ter compaixão pelo imbecil do carro que acabou de tentar te matar na rotatória. A questão é que não adianta ter raiva do idiota que você nunca mais vai ver na vida. A melhor forma de transformar o mundo é o exemplo. Dar o exemplo de que a ida ao trabalho pode ser divertida (o que é bem mais fácil em cima de uma moto), ser cortês ao deixar um pedestre passar na faixa e não ficar o tempo todo defendendo que a sua escolha de transporte é melhor que as outras. Afinal, ninguém é motoqueiro, bicicleteiro ou carangueiro. Nós eventualmente andamos de moto, de bicicleta, de ônibus ou de carro. Ouvi dizer que algumas pessoas até andam a pé. Falando sério, somos muito mais que a nossa escolha de meio de transporte.
A lição do livro é que devemos sempre lembrar que não podemos mudar os outros. Eles vão continuar nos irritando ainda por um tempo. Mas podemos mudar a nós mesmos, sendo menos irritantes. O negócio é contaminar o trânsito a partir de bons exemplos. Isso podemos fazer. Eu, de minha parte, vou tentar esse negócio de ser um motoqueiro iluminado. Não vai ser fácil, mas prometo tentar. Pelo menos, mesmo que eu não consiga a iluminação espiritual, vou me esforçar para sempre andar com o farol ligado.

