Bicicletismo Total (On Bicycles)

Tem uma tuia (um monte, em pernambuquês) de projetos e estudos que só existem na minha cabeça. Entre os projetos, o de destaque é Competição Técnica e Esportiva entre Motos Vendidas no Brasil, para descobrirmos de verdade qual a diferença entre as japonesas e as chinesas, e para provarmos que já é chegada a hora de termos fábricas nacionais.

Já quanto aos estudos, é difícil destacar um só. Dá para fazer uma lista: A Verdeira História do Oligopólio de Motos no BrasilOrganização Política dos MotoqueirosArticulação Entre Motoqueiros, Bicicleteiros, Cadeirantes e PedestresO Conflito Entre Motoristas e Motoqueiros como um Aspecto da Luta entre as ClassesCarros: Os Verdadeiros Culpados nos Acidentes com MotosAs Falácias que a Grande Mídia Usa para Atacar os MotoqueirosO Motoqueirismo no Brasil: Aspectos Econômicos, Culturais, Comportamentais, Trabalhistas e PolíticosProjeto Completo de MotocicletasO Motoqueirismo no MundoImpactos Sociais, Econômicos e Ambientais da Produção e do Uso de Motocicletas no Brasil – e Instalação de Fábricas Nacionais de Motocicletas: Aspectos Educacionais, Culturais, Técnicos, Políticos, Legais, Econômicos e Comerciais.

Como eu disse, esses estudos só existem na minha vontade. A grande maioria dos livros de moto que existem são só sobre viagem, mecânica, competição ou filosofia. Há muito pouco sobre o dia a dia do commuter (quem vai e volta ao trabalho, podendo ser de moto, bicicleta, ônibus etc.). Pior ainda, esses poucos livros são sobre outros países. Na bibliografia acadêmica, também quase toda sobre outros países, a maioria dos artigos científicos são sobre consequencias de acidentes de moto (número de mortes, número de pernas amputadas etc). Claro que, na ausência de outros trabalhos, temos que adaptar esse material para tomar as decisões aqui no Brasil, mas o ideal seria termos nossos próprios estudos. Quem sabe um dia não começam a aparecer?

Já no mundo das bicicletas a coisa é um pouco diferente. Também não há muita coisa no Brasil, mas há muitos livros e artigos sobre os outros países: Fabricação de BicicletasCultura dos Bicicleteiros no Dia a DiaAspectos Legais do BicicletismoRoupas e Acessórios para o CommutingOrganização Política dos BicicleteirosFormas de Luta dos BicicleteirosUrbanismo Levando em Conta as Bicicletas.

Será que dá para transpor o conhecimento dos bicicleteiros para a luta dos motoqueiros? Eu não tenho muita certeza se é possível uma articulação política entre motoqueiros, bicicleteiros, cadeirantes e pedestres. Há muitas diferenças. Assim como os carros, as motos poluem e andam em grande velocidade. Por outro lado há grandes semelhanças nos interesses. Todos esses meios de transporte são marginalizados pela ditadura dos carros, em média seus integrantes fazem parte de uma classe econômica mais baixa que a dos motoristas de carro e todos são vítimas nos acidentes. Esses meios de transporte também têm em comum serem propostas de uma nova ordem no trânsito: orgânica, criativa, divertida, inteligente e democrática.

Mas não fico parado enquanto não publicam os estudos de moto que eu citei lá em cima, ou enquanto não descubro se é possível articular motoqueiros e bicicleteiros. Continuo na minha busca no meio das bicicletas, onde acabei de ler o livro On Bicycles: 50 Ways the New Bike Culture Can Change Your Life (Amy Walker, 2011). Só de folhear dá para ver que foi feito com carinho, pois é bem cortado e tem uma diagramação muito caprichada.

É um livro assim que eu queria que tivessem escrito sobre as motos, levando em conta todos os pontos de vista possíveis. O livro é uma coletânea de 50 textos com visões bem diferentes, que são divididos em quatro partes:

  1. Porque andar de bicicleta. Essa parte é meio inspiracional, onde cada autor fala das maravilhas de andar devagar, não poluir, fazer amigos e criar os seus próprios caminhos. Principalmente, defendem que é possível se divertir no caminho para o trabalho, usando aquele tempo de lazer ainda para fazer exercício e liberar a mente.
  1. Equipamento. Aqui a coisa fica prática. Os textos falam como escolher uma oficina confiável, qual a roupa prática para ir ao trabalho, como se proteger da chuva, que acessórios instalar para usar a bicicleta no dia a dia, bicicletas de carga, bicicletas com engrenagens no cubo, ciclismo para pessoas com dificuldade de locomoção, motos elétricas e muito mais.
  1. Movimento Cultural: Comunidade e Cultura. Essa parte fala sobre o ciclista como um cidadãp. Ciclovias, viagens, transporte de crianças, aspectos femininos e pedaladas noturnas. Um dos textos que mais me surpreendeu foi sobre as oficinas coletivas, que são lojas em que qualquer um pode usar as ferramentas para ajustar a sua bicicleta. Muito além de baratear o custo, essas oficinas criam comunidades, transferem conhecimento e educam para uma profissão. Outro texto foi a campanha “mereça uma bicicleta”, onde as crianças passam alguns meses aprendendo a consertar uma bicicleta velha. Ao final, elas aprendem uma nova arte e ganham a bicicleta na qual trabalharam. Isso no meio de muitos passeios.
  1. Movimento Político: Luta. Aqui a coisa fica séria. O livro conta a história dos movimentos políticos em defesa dos ciclistas, de técnicas para minimizar acidentes de trânsito, protestos anárquicos (massas críticas), campanhas para que as crianças voltem a ir de bicicleta para a escola, como ganhar a vida em pequenas lojas e oficinas, urbanismo levando em conta bicicletas, estacionamento de bicicletas e por aí vai.

Depois que eu li o livro fiquei com sentimentos contraditórios. Em primeiro lugar fiquei com aquela ótima impressão de mente expandida, que se tem quando se aprende idéias novas. Mas também fiquei um pouco triste. Triste por saber que os motoqueiros não têm uma produção cultural tão forte quanto esses bicicleteiros mostraram que é possível ter. Bem, os bikers americanos têm uma expressão bem forte, mas isso é coisa muito distante da nossa realidade.

Fiquei com duas grandes dúvidas acadêmicas. Primeira: é possível unir os interesses dos bicicleteiros, dos cadeirantes, dos pedestres e dos motoqueiros na defesa de interesses comuns? Segunda dúvida: os bicicleteiros que têm se organizado nas cidades brasileiras vão lutar apenas por espaços de lazer ou também pelos commuters que se arriscam na ida ao trabalho? Aqui em Recife, por exemplo, há algumas poucas ciclovias em locais de lazer, mas quase nenhuma proteção aos ciclistas que vão ao trabalho. Mas não quero falar ainda sobre isso, pois conheço muito pouco sobre o movimento de luta dos bicicleteiros. Essa minha segunda dúvida nasceu mesmo do que eu conheço dos motoqueiros. Dentre os motoqueiros que se chamam “motociclistas”, alguns, geralmente de classe social mais alta, se consideram completamente distintos dos “motoqueiros” que usam as motos para trabalho e transporte. Esses “motociclistas” são mais articulados, mas nem sempre usam esse potencial em prol dos commuters.

Mas essas são só algumas preocupações superficiais e açodadas. Embora não tenha certeza, acredito que seja possível sim unir bicicleteiros e motoqueiros na luta por menos acidentes e melhores condições de transporte. Também penso ser possível criar um movimento que una quem usa o veículo para lazer e quem usa para o trabalho, independente da classe social a qual pertence. Para isso precisamos de um movimento cultural com produção artística (filmes, músicas e quadrinhos), informação (reportagens honestas, livros e blogs), mobilização social (escolas, oficinas, cursos, passeios, encontros, discussões acadêmicas e estudos científicos), mobilização política (pedaladas, motocadas, cadeiradas, passeatas, pressão nos legisladores, parceria com os governos e transformação de eleitores passivos em imperadores dos planos de ação) e mobilização econômica (produção local de motos, bicicletas e cadeiras de roda; e transformação de consumidores passivos em imperadores da produção industrial).

Agora, minha preocupação mesmo é com esse novo discurso dos políticos. Eles fazem viagens à Holanda para ver as bicicletas, falam como as ciclovias são importantes no desenvolvimento urbano e como a sustentabilidade é a base de suas plataformas eleitorais. Agora, quando você pergunta quantos quilometros de ciclovias foram construídos, quantos milhões de reais foram investidos em infraestrutura para bicicletas, quantos acidentes foram evitados, em quantos minutos diminuiu o tempo médio de ida ao trabalho, daí eles desviam a conversa. Outra profunda preocupação é com a grande mídia, que publica reportagens bonitinhas sobre as bicicletas, mas não denuncia os políticos que não fazem o que prometem. Pior ainda são os jornalistas que não divulgam manifestações como as massas críticas. Acho que ao colocarem as bicicletas e motos nos discursos, só nos discursos, os políticos e a grande mídia conseguiram disfarçar melhor ainda a falta de ação eficaz. Greenwashing 101.

Para finalizar, que essas minhas preocupações superficiais não sejam vistas como julgamentos. Não estou julgando ninguém (a não ser os políticos e a grande mídia), apenas tentando descobrir como podemos criar pontes entre os vários tipos de usuários de veículos alternativos e entre as classes sociais, com o intuito de protegermos nossas vidas e, principalmente, participarmos da criação de um novo trânsito que será muito mais humano, justo, inteligente e divertido.