A Grande Viagem

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A Grande Viagem – Introdução

Pode parecer fácil – mas não é – perceber que você vive uma vida não harmoniosa. Em meados de 2005 eu finalmente percebi isso. Quando eu vi, tinha passado os últimos 10 anos andando de ônibus. Vivia quase sem contato algum com outras pessoas a não ser com minha filha e meus amigos autores mortos. Tinha dedicado esses anos – sem sucesso algum, deve ficar claro – ao mundo das idéias. Deixara de lado as sensações, as interações, a contemplação das coisas incontroláveis. Acredito que não se deve viver em um mundo como um bicho, aceitando o mundo passivamente. Mas tinha esquecido que também não se deve viver em um mundo de idéias estéreis.

FÁBIO:

Decidi que era hora de voltar ao caminho da busca de uma vida harmoniosa. E para isso eu precisava de um símbolo. Lembrei do passado. Olhei para os últimos momentos enquanto ainda conseguia sentir alguma coisa. Me vi andando de moto. Foi por pouco tempo, uma CG lá em 1994 (ou 93), por talvez uns 6 meses. Não passava de 70 km/h. Estrada nem pensar. Mas estava decidido, este seria o símbolo do meu renascimento. Compraria uma moto e iria para Osvaldo Cruz-SP com ela.

Mas isso foi em meados de 2005. Eu estava todo endividado, literalmente enrascado. Foi necessário mais de um ano para sanar minhas dívidas que se amontoavam por quase uma década. Mesmo equilibrando as dívidas, ainda não tinha dinheiro para a moto. Passei metade do ano de 2005 e todo ano de 2006 lendo todos os livros e assistindo todos DVDs clássicos sobre motos (mecânica, dinâmica, pilotagem, viagens, crônicas e ficção). Me separei no final de 2006. Como iria agora morar a 15 km da minha filha, tinha que comprar um carro para visitá-la diariamente. Não tive dúvidas, ao invés de um carro comprei uma moto. Fiquei em dúvida entre a Falcon e a Tornado, pois não sabia se conseguiria fazer viagens com a Falcon. Bem, arrisquei e acertei! A Falcon seria minha grande companheira dali em diante.

Em janeiro de 2007 comprei a moto e me cadastrei no FOL.

O primeiro desafio foi pegar a Falcon na concessionária e ir para casa. Embora não andasse de moto seriamente há muito tempo, um colega tinha me emprestado a Falcon dele para dar uma volta uns dias antes. Então não tinha muito medo da moto em si. Minha maior preocupação era o trânsito de Recife. Mesmo quando andava de carro alugado, era sempre na estrada. Não sabia nem o caminho para seguir do centro até em casa, já que sempre andava de ônibus ou a pé. A Renata foi de carro na frente abrindo caminho e eu fui atrás, andando a 40 km/h. Depois de 10 km, cheguei em casa; são e salvo!

Depois começou o treinamento. Passei uma semana inteira acordando às 05:00 para andar na cidade sem trânsito. No próximo final de semana eu e a Renata fomos dar uma volta na cidade. Fomos até São Lourenço da Mata, que fica na Grande Recife. Na volta decidimos voltar pela estrada. 70 km/h, tensão máxima, mas, de novo, chegamos vivos.

No FOL fui muito bem recebido por todos. O Rad e a Irene estavam combinando uma viagem para Penedo-AL e estavam convidando o pessoal do Nordeste: eu, o Emano (João Pessoa-PB), o Cunha (Recife-PE) e o Fred (Maceió-AL). O Emano não pôde ir, mas os outros foram combinando a viagem. Embora eu dissesse que não tinha experiência, o Rad sempre insistiu muito: “Vá pelo seu coração, se você estiver com vontade de pegar a estrada é porque está pronto!”. Condicionei a ida a mais um pouco de treinamento. A viagem de ida e volta até Penedo-AL seria de 1000 km. Em um sábado andei sozinho 300 km aqui pelas estradas da região e no domingo eu e a Renata (na garupa) demos uma volta até Tamandaré-PE. Lá levamos um tombo na areia fofa a 5 km/h. Quebrou o manete da embreagem. Esse tombo me deixou com um pouco de medo de andar em terra até hoje. Mas, como tinha andando 600 km em dois dias, vi que dava para ir até Penedo-AL. A viagem foi fantástica, fomos recebidos como se fôssemos amigos há muito tempo. Todos andavam na minha velocidade. Fomos e voltamos andando no máximo a 90 km/h. Nas curvas baixava para 60 km/h. Achei incrível como o Rad (Salvador-BA), Adelson (Penedo-AL) e Marcelo (Salvador-BA) gastavam tempo me explicando técnicas e contando histórias. Depois fui ver que os grandes riders são mesmo assim.

Depois da volta vi que seria possível uma viagem até Osvaldo Cruz-SP no final do ano. Disse para mim mesmo que se conseguisse andar na terra, se conseguisse viajar 600 km por dia durante dois dias seguidos e se comprasse os equipamentos (jaqueta, bota, alforges, capacete etc) então iria fazer a viagem. O resto de 2007 foi dedicado a isso: andar na terra (Bonito-PE), andar 600 km em um único dia (Garanhuns-PE), andar em formação (Baía da Traição-PB), melhorar nas curvas (bananais de São Vicente Ferrer-PE), criar uma rede de amigos (FOL), andar forte e no calor dois dias seguidos (Icó-CE), andar à noite (Areias-PB). Outros grandes desafios para mim foram pedir informações na estrada (Serra Negra-PE) e conviver com pessoas com as quais só tinha contato pela internet (Areias-PB e Taquaritinga-PE). Isso pode parecer trivial, mas não é para uma pessoa que tinha passado 10 anos apenas com a companhia de livros.

A gente aprende um pouco por experiência própria, um pouco com livros e um pouco com amigos. Os livros são bons porque são escritos pelos melhores, mas o problema é que estão muito distantes. Acabei quase não fazendo amigos motociclistas aqui em Recife. Então quase toda a experiência de amigos que tenho vem do FOL. Mecânica, pilotagem, companheirismo, literalmente tudo do FOL. Acho que posso me gabar de ter sido o primeiro motociclista nascido do FOL, um motociclista que já não veio pronto de outro lugar, com experiência prévia. Por bem ou por mal, acho que é isso mesmo. O papel do FOL é inestimável: aqui fiz irmãos de verdade, tirei dúvidas, aprendi, ri, briguei. Com toda a certeza do mundo, e sem rasgação de seda, não teria evoluído nem um quinto neste ano se não fosse o FOL. Mas está aí. Todos os passos de treinamento prontos.

O que viríamos a chamar de “A Grande Viagem” seria uma viagem pelo sertão nordestino até o interior de São Paulo, voltando pelo litoral. Queria conhecer a Chapada Diamantina-BA, Serra da Canastra-MG, nascente e foz do São Francisco. Eu iria de moto e a Renata faria parte de moto, parte de ônibus e parte de avião. Embora eu tenha nascido no interior de São Paulo, vivi os últimos 20 anos em cidades praianas (10 anos em Florianópolis-SC e 10 anos em Recife-PE), então não tenho muito interesse em conhecer o litoral. Queria mesmo era conhecer o sertão.

Durante a preparação, o Claudino ficou com vontade de ir. Agora iríamos em duas motos. A Renata iria dirigindo o carro do Claudino, levando também a Francisca e Mateus (esposa e filho do Claudino). Por um lado eu teria gostado de ir sozinho. Mas seria bom ter a companhia de outro motociclista em uma viagem tão longa. Acima disso, seria fantástico compartilhar a viagem toda com a Renata. Inicialmente pensamos em incluir também a Chapada dos Veadeiros-GO, mas nos últimos dias acabamos desistindo desta mudança.

Comprei todos os equipamentos, peças e ferramentas. Embora tivéssemos um carro de apoio, eu sempre insisti em levar as minhas coisas na minha moto. Ia carregado com bauleto e alforjes. O Claudino preferiu levar suas coisas no carro de apoio.

Em um ano eu já tinha andado 20.485 km de moto. A viagem estava programada para o dia 27/12/2007. Seriam 7.000 km, duas motos e um carro.

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Informações da Grande Viagem

Estados a serem visitados:
PE-BA-MG-SP-ES-SE-AL (sete estados)

Pontos Fortes:
Visitar parentes em Osvaldo Cruz-SP
Visitar amigos do FOL
Nascente e Foz do São Francisco
Chapada Diamantina
Serra da Canastra
Cidades Históricas de Minas
Litoral do Nordeste (Bahia a Pernambuco)

Mapa do Relevo.

Mapa da Vegetação.

Mapa do Clima.

Para aliviar um pouco o trabalho, eu e a Renata fizemos um mapa para colocar na minha parede. Lá ia fazendo um mosaico com fotos antigas, informações, planejamentos e rotas para as próximas viagens.

Mapa na Parede.

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Criei dois repositórios para informações sobre nossa preparação: um blog que contém praticamente as informações postadas no FOL e uma página no YouTube com compilações das viagens anteriores.

BLOG: www.fabiomagnani.uol.com.br
YouTube: www.youtube.com/fabiomagnani

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Quase todas as nossas outras viagens estão registradas no FOL:

Primeira volta para ver se conseguíamos fazer uma viagem maior:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=1583.msg20311#msg20311

Viagem para Penedo-AL:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=1583.msg21855#msg21855

Não é uma viagem, mas uma brincadeira que eu, a Renata e a Falcon fizemos durante uma tarde, usando um termovisor:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=1744.0

Um passeio que fizemos pelas redondezas de Recife-PE para fotografá-la:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=2049.0

Um passeio até João Pessoa-PB, para conhecer o ponto mais oriental do Brasil:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=1963.0

Quando fomos amaciar o motor da moto do Claudino:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=2690.msg39083#msg39083

O rapel que fomos fazer em Bonito-PE para entrosar a turma (sem motos):
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3050.0

A volta para Bonito-PE na outra semana, agora com as motos:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3050.msg40428#msg40428

Viagem para a Baía da Traição-PB
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3145.0

Viagem até Icó-CE, para ver se aguentávamos andar forte no calor da caatinga dois dias seguidos:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3374.0

Passeio em Serra Negra-PE
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3145.msg48113#msg48113

Encontro FOL-PEB em Areia-PB
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3145.msg50780#msg50780

Viagem para Pesqueira-PE
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3145.msg52119#msg52119

Encontro FOL-PEBA em Caruaru-PE
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3199.msg44190#msg44190

Encontro FOL-PEB em Taquaritinga do Norte-PE
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=3145.msg54200#msg54200

O treino que a Renata fez para vez se conseguia dirigir grandes distâncias, Piranhas-AL:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=2690.msg53053#msg53053

Os preparativos iniciais para a Grande Viagem:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=4244.0

Os preparativos finais para a Grande Viagem:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=2690.msg55243#msg55243

Os posts durante a Grande Viagem:
http://www.falcononline.com.br/index.php?option=com_smf&Itemid=35&topic=2690.msg58947#msg58947

Faltam alguns passeios que não foram postados:

– primeiros passeios por Recife e Olinda, quando estava aprendendo ainda.
– eu e a Renata fizemos de moto até Taquaritinga do Norte-PE, passando por Barra de Guabiraba-PE. Passamos a noite lá em Taquartinga do Norte-PE e voltamos (uns 450 km).
– uma volta que fiz sozinho passando por Tamandaré-PE, Garanhuns-PE, Arco Verde-PE e Carauru-PE, para ver se aguentava andar 600 km em um único dia.
– uma volta que fiz sozinho, em um domingo pela manhã, passando por Caruaru-PE e Campina Grande-PB (uns 450 km).
– várias voltas de 200 a 300 km que fazia aqui pela região nos domingos pela manhã, em especial uma que fiz passando pelos bananais de São Vicente Ferrer-PE, onde treinei bastante curvas.

RENATA: Quando Fábio comprou a moto, em janeiro de 2007, começamos a fazer pequenos passeios pela cidade (Recife-PE). Depois fomos indo cada vez mais longe, desde São Lourenço da Mata-PE (a 20km de Recife-PE) a Penedo-AL (a 450 km de Recife-PE) em apenas dois meses de moto. Eu nunca tinha viajado de moto, mas adoro a sensação de liberdade, do vento batendo que nos faz sentir parte do cenário por onde a gente passa. O Fábio vive me perguntando se não é chato andar na garupa e eu digo que não, que adoro! O dilema é que eu gosto de parar mais nos lugares e o Fábio quer andar mais de moto. Pena que não dá pra fazer viagem grande juntos, a Falcon não nos agüenta.

Em abril de 2007 ele me falou que ia pra Osvaldo Cruz-SP de moto. Eu iria de avião até São Paulo-SP e de ônibus até Osvaldo Cruz. De lá, a gente faria uma parte da volta juntos de moto. A partir daí foram muitos passeios com o objetivo dele treinar a pilotagem na estrada (de asfalto, de terra, na lama, ….). O ano todo foi para equipar a moto e se equipar também.

O Claudino também comprou uma Falcon e disse que também ia fazer a viagem. Perguntou se eu topava ir dirigindo o carro dele com Francisca e Mateus. Pensei um pouco porque tenho problema de coluna e tendinite, mas resolvi encarar. Fiz duas viagens para sentir os meus limites, Baía da Traição-PB e Piranhas-Al. Como me senti bem física e mentalmente nessas viagens, percebi que conseguiria fazer A Grande Viagem e fiquei bem animada. Aí foi só curtir os planos, fazer reservas e procurar pontos turísticos dos lugares que íamos visitar.

A Grande Viagem – Dia 1 (quinta-feira – 27/12/2007)
Odômetro no início do dia: 20.485 km
Distância percorrida: 770 km
Distância acumulada: 770 km
Trecho: Recife-PE a Petrolina-PE
Tempo de viagem: 10 horas
Odômetro ao final: 21.255 km

FÁBIO: Saímos de Recife-PE hoje às 05:30. Aqui no nordeste o sol ainda não nasceu neste horário, mas o dia já estava claro. Não pretendemos sair tão cedo assim nos próximos dias, mas também não pretendemos andar tanto em um dia só. As motos e o carro já estavam prontos desde ontem. Hoje foi só ligar tudo e sair. O ponto de encontro foi em nossa casa, que fica perto da BR-232. Quase tudo que vou levar está em minha moto, carregada com alforjes e bauleto. Apenas as ferramentas (chaves, alicates, multímetro, etc etc), sobressalentes da moto (cabos, câmaras, lâmpadas etc), livros, guias, informações turísticas e presentes para a turma de Osvaldo Cruz-SP estão no carro dirigido pela Renata. O Claudino preferiu levar suas coisas no carro. Obviamente, o carro ainda levava as coisas da Renata, Francisca (esposa do Claudino) e Mateus (filho do Claudino). Como a Francisca não dirige, a Renata vai dirigir o carro a viagem toda.

A estrada até Caruaru-PE é nossa velha conhecida, uma pista duplicada quase sem curvas. Pegamos um pouco de chuva nos primeiros 100 km. Paramos um pouco depois, em São Caetano-PE, a 145 km de Recife-PE. Andamos quase todo o dia em comboio, pois lá no sertão de Pernambuco fica o Polígono da Maconha, região conhecida pelos inúmeros assaltos a veículos. Nos outros dias as motos vão poder andar um pouco descoladas do carro. Paramos ainda em Serra Talhada-PE, Salgueiro-PE e Santa Luzia da Boa Vista-PE. Nos primeiros 80 passamos pela Zona da Mata (cana e resquícios da Mata Atlântica), depois uns 200 km de Agreste (um planalto, com vegetação mais rala, um pouco mais fresco) e o resto é Caatinga mesmo. A Caatinga é linda, imensa, silenciosa e monocromática.

Quando fazemos as primeiras viagens existe a tentação de analisar sociologicamente as pessoas dos locais por onde se passa e naturalisticamente as paisagens. Depois de um tempo se vê como isso é ridículo. Em uma viagem, o máximo que se pode esperar é o autoconhecimento. E olha lá! E mesmo quando existe este autoconhecimento, não é possível descrevê-lo em palavras. O que resta é descrever os fatos.

Petrolina-PE, nosso destino final de hoje, fica às margens do São Francisco. Do outro lado fica Juazeiro-BA. Nossa viagem de hoje foi em direção ao sertão, sempre para oeste. Amanhã começamos nossa viagem para o sul. Ainda não me senti na Grande Viagem. O trecho de hoje, cruzando Pernambuco na horizontal, foi parecido com nossas viagens de treinamento para Icó-CE (com o Claudino na outra moto) e Paulo Afonso-BA (no carro com a Renata), ambas pela caatinga. Acho que a proteção sentida por estarmos em comboio tirou um pouco da excitação. Vamos ver amanhã, quando cruzaremos para o desconhecido sertão da Bahia.

Acabei não tirando muitas fotos hoje, acho que pela longa distância, medo do Polígono da Maconha, primeiro dia etc.

Sempre que chegamos em algum lugar, depois de um dia de viagem, eu e a Renata temos um comportamento bem diferente. Eu fico excitado com a estrada e não consigo ficar parado. Chego no lugar e já quero sair. A Renata prefere descansar um pouco no hotel. Descarreguei a moto e fui caminhar por Petrolina-PE. Nosso hotel ficava perto do São Francisco. Dei uma caminhada na ponte até Juazeiro-BA. Aqui deu uma certa emoção, a primeira vez que cruzei uma divisa nesta viagem e o primeiro contato com o São Francisco, que cruzaria outras vezes. Voltei para o hotel. O Claudino, Francisca e Mateus já tinham saído para comer e estavam descansando. Eu e a Renata fomos de moto até o Bodódromo, uma grande praça cheia de restaurantes que vendem carne de bode e carneiro.  Comemos bode assado e baião-de-dois. Delícia. Voltamos para o hotel e dormimos o sono dos justos. Recebemos várias ligações do pessoal do FOL perguntando se estava tudo bem e desejando boa viagem.

Fábio na saída de Recife, Renata no retrovisor:

Renata na saída de Recife-PE

Serra Talhada-PE (foto tirada por detrás do vidro do carro)

Pôr-do-sol no São Francisco; Bahia à esquerda, Pernambuco à direita:

Catedral de Petrolina-PE

RENATA: Saímos de Recife às 5:30h. Paramos em Serra Talhada-PE, Salgueiro-PE e Santa Luzia da Boa Vista-PE para abastecer motos e/ou carro. A paisagem da caatinga não me atrai muito, não sei explicar bem o porquê. É interessante passar por ela, ver a vegetação que antes só via em livros, mas tenho uma sensação de ausência de vida e de pouca energia com tanta seca, tantos galhos secos e pastos amarelados. Chegamos em Petrolina às 19h. Eu estava muito cansada, nunca tinha dirigido 750 km num dia. Além do mais, viajar de carro não permite que você faça parte da paisagem, como numa viagem de moto. Fui descansar um pouco no hotel, enquanto Fábio saiu para caminhar. Quando ele chegou fomos jantar no Bode Assado do Isaías, e comer, claro, um bode assado com baião de dois (uma delícia!). Demos uma volta de moto pela cidade e voltamos para o hotel. Capotamos!

Renata e Fábio – Saída de Recife-PE

Isso eu nunca tinha visto! Um bode e uma galinha sendo carregados numa moto!

Sempre passa uma Toyota ou uma caminhonete transportando o pessoal no interior. Essa tava cheia!

Um pedaço da estrada perto de Serra Talhada-PE.

A Grande Viagem – Dia 2 (sexta-feira – 28/12/2007)
Distância percorrida: 568 km
Distância acumulada: 1.338 km
Trecho: Petrolina-PE a Lençóis-BA
Tempo de viagem: 10 horas
Odômetro ao final: 21.823 km

FÁBIO: Hoje pela manhã tivemos uma grande surpresa. O Claudino, Francisca e Mateus tinham decido voltar para Recife-PE. O carro era do Claudino; então eu e a Renata ficamos com toda a nossa bagagem, uma moto e 6.300 km para percorrer. Quanto a este assunto, não tenho o que falar. Ponto final, bola para frente. Voltamos ao Plano A, que era eu fazer uma viagem de moto e a Renata me encontrando de tempos em tempos.  A Renata ficou com quatro opções: a) voltar para Recife e ir de avião para Osvaldo Cruz-SP, b) tentar ir de avião ali de Petrolina-PE direto para Osvaldo Cruz-SP, c) ir de ônibus o mais rápido possível para Osvaldo Cruz-SP ou d) ir de ônibus passo-a-passo, fazendo exatamente os passeios que tínhamos programado e passando o ano novo comigo. É claro que a Renata escolheu a alternativa ´d´: não esquentar para os imprevistos, conhecer esse brasilzão, fazer os mesmos passeios de antes e passar o ano novo comigo. Eu amo essa MULHER! O Claudino deixou a moto em Petrolina-PE e voltou de carro com a Francisca e o Mateus para Recife-PE. Depois viria de ônibus para Petrolina-PE para pegar a moto. Mandamos algumas coisas pelo carro: ferramentas, peças, livros, guias, mapas, informações turísticas, filmadora etc. Do carro, fiquei apenas com o tire-pando, duas câmaras, arame, fita scotch e o capacete da Renata (que por sorte tínhamos levado para passear só nas cidades que fôssemos parando). A Renata pegou suas malas. Devido ao peso e volume, as nossas bagagens juntas não podem ser levadas na moto. Então sempre que nos encontrarmos em algum ponto teremos que levar ou a minha bagagem ou a dela. Na volta da viagem mandaremos parte da bagagem por correio para Recife, daí poderemos andar juntos. Fomos até os correios para enviar os presentes por Sedex para Osvaldo Cruz-SP. Depois fomos até a rodoviária comprar uma passagem até Lençóis-BA. Tinha um ônibus até Seabra-BA, que fica a uns 60 km de Lençóis-BA, que saía às 10:30. Eu iria até Lençóis-BA, descarregaria as minhas malas, iria até Seabra-BA pegar a Renata e as suas malas e voltaríamos para Lençóis-BA. Levei a Renata até a rodoviária, nos despedimos até a noite. Fiquei muito orgulhoso da Renata por várias razões: por não ter entrado em pânico e ter resolvido o problema da melhor maneira possível, por ter ficado ao meu lado e por ter tido a coragem de enfrentar essa brasilzão sozinha. Amanhã pensaremos um pouco melhor no que fazer, em Lençóis-BA. O problema agora era como chegar lá. Eu sozinho de moto e a Renata sozinha no ônibus, em pleno sertão da Bahia.

O ônibus estava previsto para chegar em Seabra-BA às 20:00 (eu acho), então teria bastante tempo para andar os 500 km de Petrolina-PE até Lençóis-PE. O Guia 4 Rodas dizia que o trecho entre Juazeiro-BA e Senhor do Bonfim-BA (130 km) estava ruim. Estava bom, tranqüilo, bom asfalto. Então pensei, se este trecho que está marcado ruim está bom, então o resto vai ser mamão com mel.

Essa parte da viagem foi marcante por várias razões: estava indo em direção ao desconhecido sertão da Bahia, era a primeira divisa transposta, estava viajando sozinho no meio do Brasil e a impressionante transição entre a caatinga e o planalto do cerrado. A emoção, ótima, por pilotar sozinho era quase incontrolável, indescritível. O relevo, então, fantástico. Ao sair do São Francisco tinha uma grande caatinga seca e plana. Ao longe era possível ver uma cadeia de montanhas. Pareciam tsunamis que vinham engolir a estrada.

Parei para perguntar o caminho em Senhor do Bonfim-BA. Os motoristas em uma borracharia disseram que o caminho normal era por Feira de Santana-BA. Mas olhando para o mapa dava para ver uma volta grande. Tinha pensado em ir por Jacobina-BA, fugindo do tráfego. Foi um grande erro. De Senhor do Bonfim-BA até Wagner-BA são praticamente 300 km de buracos. Alguns trechos são bons, mas quase todo muito cheio de panelas. Em algumas partes, eu tive que andar dezenas de quilômetros a 10 km/h, desviando dos buracos com bordas cortantes. A suspensão da Falcon agüentaria bem os 5cm da borda, mas fiquei com medo de cortar o pneu ou soltar algum parafuso. O suporte inferior da bolha quebrou depois de passar em tantos buracos. Ela não vai cair, mas fica batendo o tempo todo. Prendi a parte inferior com a fita Scotch, vamos ver até onde aguenta. A maior parte da viagem de hoje foi feita em estradas desertas, sem tráfego algum. Como demorei muito para andar pelos buracos, fiz o último trecho entre Bonito-BA e Lençóis-BA (130 km) à noite, no maior breu, em uma estrada desertíssima. Não tinha escolha, tinha que encontrar a Renata em Seabra-BA e não havia lugar para parar.

Em nenhum momento de hoje reclamei dos buracos ou escuridão. Sempre fiquei contente por ter superado cada um dos obstáculos da viagem. Acho que o segredo é nunca pensar muito longe na viagem, mas sim colocar objetivos próximos como chegar ao próximo entroncamento ou ao próximo ponto de abastecimento.

Também não tirei muitas fotos hoje. Fiquei um pouco receoso de parar sozinho na estrada. Além disso os buracos atraiam quase toda a minha atenção.

Cheguei em Lençóis-BA às 20:00, descarreguei minha coisas na pousada, comi um lanche e fui para Seabra-BA. O ônibus chegou em Seabra-BA lá pelas 23:00; também tinha atrasado por causa dos buracos. Na volta passamos muito frio, mesmo estando no verão, no sertão. À meia-noite e meia fomos, exaustos, para a cama.

Caatinga (foto tirada por detrás do vidro do ônibus)

Transição caatinga-cerrado

A imensidão do cerrado

Centenas de quilômetros com essa freqüência de buracos. Nesta parte a estrada está boa porque tem acostamento e os buracos estão preenchidos com terra. Na maior parte da estrada a freqüência é a mesma, mas com bordas cortantes e sem acostamento.

RENATA: Hoje, antes do café da manhã, o Claudino falou que não iria mais continuar a viagem e voltaria para Recife. E aí? O que fazer? A viagem que eu tinha me preparado, imaginado e planejado não ia acontecer mais  Desabei, porque o carro que eu dirigia não era meu. Eu tinha três opções: voltar para Recife e ficar lá; voltar pra Recife e pegar um avião para São Paulo e um ônibus para Osvaldo Cruz; ou, seguir de ônibus até Osvaldo Cruz e ir encontrando com Fábio quando desse. Escolhi a última, sabia que seria muuuito cansativo, mas eu queria estar com ele. Já estávamos com reserva em Lençóis-BA para hoje e amanhã. Acredito que quando ouvimos o nosso coração, ele nos fala o que deve ser feito. E por mais difícil que seja, o Universo conspira a nosso favor para nos dar força e seguirmos em frente. Bem… eu e Fábio tomamos café, postamos os presentes da família para Osvaldo Cruz-SP e fomos direto para a rodoviária de Petrolina-PE. Por sorte tinha um ônibus saindo para Seabra-BA, que fica a uns 60km de Lençóis-BA, peguei esse mesmo. Foram 12h de viagem, passando por toda a Chapada Diamantina e cidadezinhas muito lindas. Cheguei às 11:30h em Seabra e o Fábio já estava me esperando para me levar de moto para Lençóis-BA. Que frio!!! Não estava preparada para viajar de moto, ou seja, não tinha levado a jaqueta de couro e nem a bota, contava apenas com o capacete, uma jaqueta jeans, as luvas e um tênis de caminhada. Quase congelei as mãos! Chegamos na pousada e fomos logo dormir.

No meio do nada uma propaganda de artesanato de carrancas, saída de Juazeiro-BA.

Caatinga, de algum lugar entre Juazeiro-BA e Jacobina-BA.

Depois de tanta Caatinga, uma bela vista de Flamboyants da rodoviária de Jacobina-BA.

Um belo pôr-do-sol na Caatinga, também não me lembro onde foi. De ônibus você fica meio perdida.

A Grande Viagem – Dia 3 (sábado – 29/12/2007)
Dia de passeio na Chapada Diamantina
Quilometragem: 184 km
Distância acumulada: 1.522 km
Odômetro ao final: 22.007 km

FÁBIO: Hoje acordamos pela manhã para conhecer a Chapada Diamantina e refazer os planos da viagem. A volta deixaríamos para organizar lá em Osvaldo Cruz. O foco agora era a ida. Fomos até a rodoviária. A melhor opção da Renata seria ir até Uberaba-MG amanhã de manhã, em uma viagem de 24 horas (1.800 km) passando por Brasília. Uberaba-MG fica a uns 500 km de Osvaldo Cruz-SP, então fica fácil achar ônibus de lá. Mas como está próximo da virada do ano, eles não tem mais passagem. Outra opção é ir até Governador Valadares-MG e de lá tentar ir para Uberaba-MG ou outra cidade de Minas. A viagem vai durar umas 30 horas (uns 2.000 km). Não há outra opção. Se a Renata não conseguir ir até Uberaba-MG, eu vou até onde ela estiver. Daqui a dois dias será a virada do ano, e nada nos impedirá de passarmos juntos. Se ela conseguir ir até Uberaba-MG, terei que mudar o ritmo da viagem de moto. Pretendíamos fazer este trecho de 1.600 km em três dias, agora terei que fazer em dois dias. Vou tentar andar o máximo possível no primeiro dia, para ter tempo de visitar o Geraldinho (FOL) lá em Patos de Minas-MG. Também quero evitar uma corrida contar o tempo no dia 31/12, com medo de perder a virada do ano com a Renata.

Depois de comprar a passagem fomos dar uma volta até o Morro do Pai Inácio. Impressionante o visual desta região. Não subimos até o topo do morro porque fiquei com medo da estradinha cheia de pedrinhas soltas. Estava com a Renata na garupa e chovia. Um tombinho agora poderia estragar todo o resto da viagem, que estava apenas começando. O poço encantado fica a uns 150 km daqui de Lençóis-BA, 300 km de ida e volta. Acabamos desistindo também. A chuva, o estresse do dia anterior, o tempo e energia gastos com os preparativos para a próxima etapa fizeram com que decidíssemos aproveitar melhor a cidade e a companhia um do outro. Passamos um dia tranqüilo em Lençóis-PE, comendo bem, namorando calmamente e descansando.

Um pouco frustrados por não conhecermos bem a Chapada Diamantina, combinamos de voltarmos uma outra vez com mais tempo. No problema, fica a apenas 1.200 km de Recife-PE. Pelo menos deu para ter um gostinho. Não gostamos muito de Lençóis-BA, muito movimentada, muito barulhenta e sem identidade própria. Quando voltarmos tentaremos outra cidade mais calma da região.

Quando se viaja de moto, a viagem não é feita de incontáveis horas de tédio à espera de alguns poucos momentos espetaculares. A viagem toda é uma coisa só, fluindo por você. Talvez essa seja a razão de minha relativa decepção: a grandiosidade da Chapada Diamantina não podia se comparar com a grandiosidade (para mim) de estar na estrada.

Outra coisa que percebemos é que é melhor contratar um passeio quando se vai passar pouco tempo em um lugar. Aprendemos bastante. Aproveitamos bem um ao outro também. Amanhã será o primeiro dia em que não dormiremos juntos.

Sempre juntos.

As formações grandiosas da Chapada Diamantina (chuva, chuva).

Morro do Pai Inácio (chuva, chuva)

Lençóis-BA

RENATA: Hoje não acordamos muito cedo, decidimos que iríamos conhecer o que desse depois de comprar a minha passagem para algum lugar de Minas Gerais. Tomamos um café da manhã bem tranqüilo e depois fomos para a rodoviária de Lençóis-BA. O único ônibus disponível, e já era um extra, tinha como destino Governador Valadares-MG e teve que ser esse. Resolvida a minha viagem, fomos passear. O tempo estava muito nublado. A idéia era ir até o Morro do Pai Inácio, mas desistimos porque o acesso é ruim. As formações da Chapada são muito bonitas, e a sensação de passar por elas é como se você fosse abraçado pelas montanhas. É uma mistura de energia pura da Terra e de aconchego. Começou a chover e voltamos para Lençóis. Almoçamos uma picanha e fomos para a pousada descansar. Já no final da tarde, voltamos ao centro, tiramos umas fotos e jantamos. A cidade é muito movimentada à noite, já que de dia todo mundo está passeando. O Fábio decidiu que ia sair bem cedo para tentar chegar em Montes Claros-MG amanhã. Pensamos em nos encontrar em Uberaba-MG, mas ia depender de como tivesse sido a viagem dele. A gente combinou de se falar e decidir onde passar o ano novo. O meu ônibus só sairia às 10h.

Morro do Pai Inácio

Lençóis-BA.

Uma parada para comer um crepe.

A Grande Viagem – Dia 4 (domingo – 30/12/2007)
Distância percorrida: 947 km
Distância acumulada: 2.469 km
Trecho: Lençóis-BA a Montes Claros-MG
Tempo de viagem: 13 horas
Odômetro ao final: 22.954 km

FÁBIO: Hoje saí às 05:00 da manhã. Tinha me proposto tentar ir até Montes Claros-MG, uns 1000 km de Lençóis-MG. Tudo dependeria da estrada. Se fosse como a estrada entre Jacobina-BA e Wagner-BA de anteontem – 300 km de buracos – então andaria bem menos.

Assim que peguei a estrada lembrei porque estava ali. Cada dia é mais gostoso andar de moto, será que nunca vou cansar? A estrada entre Lençóis-BA e Barra da Estiva-BA (232 km), sempre para o sul, é a mais impressionante que já andei em minha vida até hoje. Mata fechada, planície, rio, serra, cerrado, chuva, sol, subidas, retas, curvas, bom asfalto, neblina. A cada minuto uma nova sensação. Outra coisa, acho, é que agora não estou mais nervoso por estar sozinho, como estava anteontem. Ao chegar em Barra da Estiva-BA para comer um lanche, às 08:00, as pessoas estavam vestidas com blusas leves. Estava friozinho. Completamente inesperado para mim, encontrar frio durante o dia no meio do sertão.

Um pouco depois de Barra da Estiva-BA, deixei de ladear a Chapada Diamantina e as serras (que não lembro o nome) e passei a rumar para oeste. Aqui a estrada estava um pouco esburacada (uns 100 km) ou fortemente fresada (uns 70 km). Não andei mais que 80 km/h na parte fresada. Cheguei em Guanambi-BA às 13:30, já tinha andado 560 km. Este era o ponto original de parada, como tínhamos planejado no início. Mas precisava encontrar a Renata a 1.100 km dali amanhã, antes do ano novo. Não estava muito cansado, resolvi tentar tocar até Montes Claros-MG (mais 390 km).

Rumando de novo para o sul, transpondo a divisa de Minas, começa o calor. Não tinha sentido isso ainda na viagem. Junto com o cansaço e o sol na cara, comecei a ficar um pouco distraído. Passei direto em alguns quebra-molas. Poderia andar um pouco mais, mas achei arriscado. Amanhã continuo a viagem descansado. Fiquei bastante orgulhoso por ter andado quase 1.000 km em um único dia. E aproveitando cada momento da estrada, não foi na correria!

Cheguei em Montes Claros-MG às 18:00 e logo arranjei um hotel bom e barato lá no centro (sugestão de um taxista). As pousadas de Petrolina-PE e Lençóis-BA tinham sido reservadas antes da viagem porque tínhamos certeza de quando pararíamos. Quisemos encontrar um preço bom, perder menos tempo procurando uma pousada e evitar problemas por estarmos perto da virada do ano. De Lençóis-BA para baixo, decidíramos procurar quando chegássemos no lugar.

Durante este trecho, o óleo começou a baixar a cada parada. Estava medindo após andar bastante, a alta rotação. Não é a maneira ideal de se medir o óleo da Falcon, mas sistematicamente o óleo diminuía. Estou um pouco preocupado. Pretendo trocar o óleo amanhã em Patos de Minas-MG.

O Geraldinho insistiu muito por telefone para que fôssemos passar o ano novo lá com eles, mas seria complicado para a Renata ir para Osvaldo Cruz de lá. A Renata chegou agora à noite em Governador Valadares-MG e descobriu que, ao contrário do que esperávamos, não há ônibus até Uberaba-MG. Ela terá que ir até Belo Horizonte-MG e de lá ir para Uberaba-MG.

Acabou o trecho de sertão, onde eu viajei sozinho, à noite, no meio de buracos. Agora começa a parte em que vou encontrar o pessoal do FOL. Terei que interagir com pessoas com quem nunca falei ao vivo. Por incrível que pareça, agora é a parte mais desafiante da viagem para mim. Veremos.

Mata fechada no início da estrada, lá na frente a serra.

Algum rio que corta a chapada, tem um camping legal em suas margens.

Aqui acaba a mata fechada e começa a serra.

Finalmente a estrada tem a coragem de enfrentar a serra:

Já em Minas Gerais mais serra, mas essa só fica nos acompanhando a leste.

RENATA: O meu ônibus, marcado para as 10h, só saiu às 10:40h.  A viagem foi cansativa, mas conseguir dar bons cochilos. Fábio me enviou uma mensagem dizendo que tinha chegado em Montes Claros-MG às 18h e que a viagem tinha sido ótima. Tinha feito 1.000 km e tinha adorado a viagem. Cheguei em Governador Valadares-MG às 3:00h, mas não tinha ônibus para Uberaba-MG. Eu preciso ir para Belo Horizonte-MG e pegar outro ônibus para Uberaba-MG. É o que vou fazer, apesar de estar angustiada pensando se vai dar tempo de passar  o ano novo com Fábio.

Rodoviária de Lençóis-BA, bonitinha, né? A gente fica esperando o ônibus sentado na escada.

Chapada Diamantina-BA. A paisagem é deslumbrante, ficava imaginando o Fábio passando por ali de moto e curtindo o lugar.

A Grande Viagem – Dia 5 (segunda-feira – 31/12/2007)
Distância percorrida: 688 km
Distância acumulada: 3.157 km
Trecho: Montes Claros-MG a Uberaba-MG
Tempo de viagem: 12 horas
Odômetro ao final: 23.642

FÁBIO: Hoje de manhã a Renata me ligou dizendo que estava indo para Belo Horizonte-MG. Mais tarde, durante a minha viagem, ela mandou um torpedo dizendo que já estava pegando o ônibus para Uberaba-MG, devendo chegar lá pelas 19:30. Bem, agora só dependia de mim para chegar lá a tempo para passarmos o ano novo juntos.

Saí de Montes Claros-MG às 06:00. Fui até um posto a uns 5 km do hotel. Quando medi o óleo, nem uma gotinha no marcador. Fiquei um pouco assustado e coloquei ¼ de óleo. Agora aparecia até quase em cima da vareta. Dava para chegar até Patos de Minas-MG. Nesta estrada, em Pirapora-MG, cruzei mais uma vez o São Francisco. Parece que dá para ir de barco de Pirapora-MG até Petrolina-PE (mais propriamente até a represa de Sobradinho).

Ontem tinha avisado para o Geraldinho que chegaria em Patos de Minas-MG lá pelas 12:30. Eram uns 400 km e eu, depois de tantos buracos, já estava acostumado a fazer uma média de 60-70 km/h. As estradas de Minas estavam muito boas. Algumas ondulações, mas sem buracos e com acostamento! Dava para andar a 120-130 km/h tranqüilamente. Aqui os carros correm bem mais do que em Pernambuco. Mesmo a 130 km/h, às vezes aparece um carro para te ultrapassar. Cheguei em Patos de Minas-MG umas 10:40 e acabei pegando o pessoal de surpresa. Fui direto para a cidade. Nisso o Geraldinho e o Cláudio – com suas respectivas filhas nas garupas – tinham ido lá para o trevo da entrada me esperar. Depois de um par de ligações conseguimos nos encontrar.

Foi difícil saber como me comportar no primeiro encontro. Deve-se ser jovial e superficial, como se tivesse visto seu amigo no dia anterior lá no FOL? Deve-se ser formal, afinal é a primeira vez que você encontra esse novo amigo? Ou ser natural, deixar fluir o que aparecer no momento? Não sei a resposta, nem me lembro como foi a minha reação. Estava muito nervoso…

De lá fomos até a oficina do Silas trocar o óleo. Não havia nenhum vazamento de óleo. Estranho. Disseram que às vezes o óleo da Falcon “se esconde”. Vamos ver no restante da viagem. Na ida para a casa do Geraldinho parei para tirar dinheiro na Caixa. Sempre uma aventura. Depois que você coloca três senhas diferentes, o caixa eletrônico diz que você não pode tirar tanto dinheiro assim em um único dia, para sua própria segurança. Mas não diz qual é o valor que você pode tirar. Depois de várias tentativas frustradas (em todas tive que colocar as três senhas), consegui tirar o dinheiro. Ah, vida moderna.

Chegando na casa do Geraldinho, conheci a Lurdinha (mulher do Geraldinho), Edna (mulher do Cláudio), os pais do Geraldinho, o filho do Cláudio e a filhinha do Geraldinho, que parece um anjinho (ela, não ele!).

Hoje é véspera de ano novo e provavelmente atrapalhei um bocado a vida deles. Mas, acabei sendo egoísta e aproveitei ao máximo. Um almoço de imperador mineiro me esperava: frango caipira, mandioca, feijão tropeiro, creme de milho, carne, doce de leite etc etc. Conversamos muito sobre viagens. O Geraldinho e o Cláudio me deram um monte de dicas de pilotagem e cuidados a se tomar na estrada.

Mesmo tendo viajado já 3.200 km, não consigo destacar momentos específicos da viagem para contar aos outros. A viagem é um todo. As coisas importantes acontecem dentro de você. Não há como compreender racionalmente o que está acontecendo, muito menos contar para os outros. É fantástico, mas é para ser sentido, não compreendido. Talvez minha moeda de troca nesses encontros devesse ser contar grandes aventuras, perigos, ultrapassagens, velocidades limites, visuais… mas não dá. Não é isso o que realmente importa. É você e sua moto, sentindo as coisas sem compreender direito. Simples assim. Espero que eles tenham aproveitado algo do nosso encontro, mas sinceramente não sei o quê. Paciência, gafanhoto, paciência.

Saí da casa deles lá pelas 15:00. De novo, como na chegada, fui acompanhado por uma comitiva, desfilando pela cidade. Nos despedimos no trevo da cidade. Esse primeiro encontro da viagem foi muito melhor do que eu esperava. Estava tão nervoso lá no posto. Mas agora via que o dia tinha passado naturalmente, como se eu fosse da família. Nem percebi o tempo passar. Maravilhoso.

De lá segui para Uberaba-MG. Ainda faltavam uns 260 km. Uma nuvem chuvosa ficava sempre na minha frente, desabando. Mas a estrada estava do meu lado hoje e sempre desviava da chuva. Cheguei em Uberaba-MG umas 17:30. Procurei pousadas no centro, mas muito caras. Daí descobri que perto da rodoviária tinha uma porção de hotéis. Fui para lá. Encontrei um hotel bom, mas carinho (R$ 70,00 para um casal, com ar condicionado, garagem e frigobar). Estacionei a moto e a Renata me ligou, dizendo que tinha chegado. Fui a pé até a rodoviária, que ficava a uns 50m do hotel.

Nos demos um grande beijo. Tínhamos ficado longe por uns 1.600 km e 38 horas.

A maior parte das agências estavam fechadas, e não conseguimos passagem para perto de Osvaldo Cruz-SP. Qualquer ônibus para Presidente Prudente-SP passaria a 10 km de lá, mas não havia nenhum. Então escolhemos um que ia para Penápolis-SP, que fica a uns 100 km de Osvaldo Cruz-SP. Ligamos para os meus pais e eles se prontificaram a pegar a Renata lá, às 10:00. O ônibus ia sair às 03:00. A Renata teria 8 horas para matar a saudade, se recuperar da viagem de trinta e tantas horas, comer, passar o ano novo e seguir viagem.

A Renata ficou um tempão tomando banho. Fomos procurar uma lan house e um lugar para comer. Não tinha lan. Comemos em um trailer. Voltando para o hotel, decidimos dormir um pouco até a virada do ano. Colocamos o despertador para 11:58. Acordaríamos para comemorar e depois voltaríamos a dormir. Mas a virada do ano não era dois minutos depois das 11:58, e sim depois das 23:58 (um dos dois tinha colocado a hora errada no despertador)! Passamos batido o ano novo sudestino. Ainda bem que um tio da Renata mandou um torpedo um pouco antes da 01:00 (que é a virada de ano nordestina, e a solar também, pois não temos horário de verão). Acordamos e comemoramos.

Às 03:00 levei a Renata até a rodoviária e voltei para dormir um pouco mais. Estou me sentindo cansado e com o estômago queimando. Será que é por dormir pouco? A comida do trailer? O calor? A ansiedade pelo final da primeira parte da viagem?

Chegando em Patos de Minas-MG, logo após conhecer o pessoal. Ainda ansioso com o encontro.

Tínhamos esperado bastante por comer uma genuína comida mineira durante esta viagem. Eu não sabia se conversava com os novos amigos ou comia. (Lurdinha, Geraldinho, Fábio e Cláudio).

Na saída, triste por ir embora, mas feliz e tranqüilo por ter sido recebido como um antigo membro da família. (Edna, Cláudio, Geraldinho, Lurdinha e Fábio).

RENATA: Cheguei em Uberaba-MG às 19h, um pouco mais cedo do que o previsto. O Fábio já estava me esperando na rodoviária, que bom encontrá-lo! Tava com saudades… Compramos logo a minha passagem para Penápoli-SP, que fica uns 100 km de Osvaldo Cruz-SP. Era onde dava pra ir e depois os pais dele iam me buscar. Depois de 34 horas viajando de ônibus, pulando de rodoviária em rodoviária, finalmente eu ia tomar um banho e dormir numa cama! Foi o banho mais demorado que já tomei. Saímos para comer um lanche, pra variar eu comi um cheese bacon e o Fábio aqueles especiais que vêm com tudo. Voltamos para a pousada mortos de cansados. Combinamos de dar um cochilo até às 23:55h, e acordar para comemorar o ano novo. Só que eu coloquei o despertador para 11:55h e passamos o ano novo dormindo! Acordamos só porque um tio meu me mandou uma mensagem às 00:50h para desejar Feliz Ano Novo. A gente se beijou e se desejou Feliz Ano Novo sem nem levantar da cama mesmo. Foi muito bom, estávamos juntos. Acordei de novo às 2:00h para me arrumar, o Fábio foi me levar na rodoviária e saí às 3:00h para Penápolis-SP.

A Grande Viagem – Dia 6 (terça-feira – 01/01/2008)
Distância percorrida: 452 km
Distância acumulada: 3.609 km
Trecho: Uberaba-MG a Osvaldo Cruz-SP
Tempo de viagem: 9 horas
Odômetro ao final: 24.094

FÁBIO: Acordei cansado e com o estômago ruim. Ainda não sei a causa.

Saí de Uberaba-MG às 07:30 e cheguei em São José do Rio Preto-SP às 09:40. Tinha combinado com o Nilo que chegaria lá pelas 11:00. De novo tinha errado na minha velocidade média. A primeira estrada de São Paulo foi uma decepção, toda esburacada. Quando peguei a SP-425, deu para andar mais rápido. Depois me disseram que essa estrada é cheia de radares. Estou preocupado de ter levado várias multas.

Fiquei enrolando em um posto lá em São José do Rio Preto-SP. Em Minas Gerais e São Paulo, as pessoas têm o costume de perguntar de onde você vem e para onde vai. Ninguém tinha me perguntado nada lá em Pernambuco ou Bahia. Não sei porque. Um cara de Falcon veio conversar comigo. Seu nome era Júnior, e por coincidência é amigo do Vitor (pai do Vinícius de Recife, do FOL).

Liguei para o Nilo e combinei um lugar em Mirasol-SP. Chegando lá, para variar, passei direto no lugar combinado. O Nilo veio correndo e conseguiu me parar a tempo. De lá fomos até a casa do Nilo. Ele estava fazendo um churrasco para os seus familiares.

Me senti muito à vontade na casa do Nilo, mais uma vez como se fizesse parte da família. A Selma é um amor. Não deixava me faltar nada. Não sei se isso é aparente para os que fazem isso, mas compartilhar a sua família com um estranho que aparece na estrada é algo muito intenso.

O Nilo ligou para o pessoal de SJRP, que também estavam com outros compromissos, mas que deram um jeito de ir até lá. Me senti extremamente lisonjeado. Fiquei um pouco sem jeito porque não tinha grandes histórias da viagem para contar. Para mim, naquele momento ali eu estava vivendo uma grande história da viagem. Todos eles, sem exceção e sem exagero, são pessoas especiais. Muito simpáticos, curiosos, atenciosos. Da mesma forma que em Patos de Minas-MG, fiquei um pouco triste por não poder conviver com eles mais tempo.

Estava na hora de ir embora e o Nilo insistiu em deixar o churrasco para me levar até a saída para Jaci-SP. Disse que jamais se perdoaria se eu me perdesse em Mirasol-SP.

De lá foi uma esticada até Osvaldo Cruz-SP. Cheguei às 16:00.

Reencontrei os meus pais (Amadeu e Neide), irmã (Joice), cunhado (Carlinhos), sobrinhas (Cíntia e Carol) e avós paternos (Natal e Rosalina). Depois de 20 anos, não tenho mais apego à cidade. Iria para onde essas pessoas estivessem. Estavam em Osvaldo Cruz-SP, então fui para lá. Simples assim.

A Renata estava me esperando quando cheguei. A viajante multimídia (ônibus, carro como motorista, carro como passageira, moto) tinha chegado antes do que eu e estava demonstrando toda a felicidade pelo nosso reencontro. A Renata tem um grande “defeito”: não consegue disfarçar suas emoções. Quando está brava fica com cara de brava, quando está feliz fica com cara de feliz. Ela estava feliz. Então eu estava feliz.

Terminamos aqui a primeira parte da viagem. Um pedaço mais corrido, com cinco dias na estrada e um de descanso. Não tinha como ser diferente. A proximidade do final de ano tinha nos obrigado a fazer reservas prévias, o que engessou um pouco a viagem. As mudanças de plano lá em Petrolina-PE nos obrigaram a ser um pouco mais objetivos e diretos. Mas, acima de tudo, a própria novidade pela viagem tinha me feito querer viver a estrada de forma mais intensa.

Agora é hora de descansar um pouco, aproveitar a família e planejar a volta. Queremos voltar com mais calma, aproveitando um pouco mais as paradas. Até lá!

Mirasol-SP. Fábio, Nilo, Flávia, Claudiane, Susi, Márcio e Mauro.

RENATA: Cheguei em Penápolis-SP às 9:30h. Neide e Amadeu, os pais de Fábio, já estavam me esperando. Tava com saudade deles também. A distância que nos separa faz com que a gente se veja pouco, mas os encontros são muito legais. Quando chegamos em Osvaldo Cruz-SP a Joice, a Cíntia e a Carol estavam lá. Almoçamos todos juntos e depois dei só um cochilo, apesar de estar cansada ainda. Ficamos conversando até o Fábio chegar às 16h. Fiquei mais feliz com esse reencontro do que o de Uberaba-MG. Acho que foi porque sabia que íamos ficar mais tempo juntos. Nessas viagens existe sempre o conflito entre eu querer curtir mais o Fábio e os lugares que paramos, enquanto ele quer andar e andar mais de moto. Mas a gente vai tentando encontrar o meio termo e fazer com que seja bom para os dois. Hoje foi o dia de todos matarmos as saudades. Fomos dormir muuuito cedo!

A Grande Viagem – Dia 7 (quarta-feira – 02/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 3.609 km
Odômetro ao final: 24.094

FÁBIO: zzzzzz

RENATA: zzzzzz e zzzzzz

A Grande Viagem – Dia 8 (quinta-feira – 03/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 64 km
Distância acumulada:  3.673 km
Odômetro ao final: 24.158 km

FÁBIO: A moto já estava com 4.000 km desde a última revisão em Recife-PE. Tinha feito uma troca de óleo lá em Patos de Minas-MG, mas estava na hora de fazer algo maior. Com 24.000 km, segundo o manual, está na hora de trocar o óleo da bengala, velas, ajuste de válvulas, fluido de freio etc etc. Fui para a concessionária da Honda, em Adamantina-SP, para fazer a revisão. Os caras só fazem o básico do básico. Nem trocam o óleo! Tiveram que tirar xérox do manual da minha moto para ver o que fazer. Pedi para fazerem tudo o que estava programado no manual. Espero que tenham tido treinamento para isso. Não sei se fiz o certo, talvez devesse ter trocado só o óleo e deixado essa revisão maior para Recife-PE. Vamos ver.

O óleo estava normal. Acho que o que tinha acontecido antes tinha sido só o óleo “se escondendo” mesmo. A moto continua 10!

À noite, reunimos a família para comemorar o Natal e Ano Novo.

Lista de itens da revisão “super especial, tipo C” da Honda de Adamantina-SP.

As três gerações. (Amadeu, Fábio e Natal).

RENATA: Hoje fomos levar a moto para uma revisão em Adamantina-SP, uns 30 km de Osvaldo Cruz-SP. O Fábio levou a moto e depois voltamos juntos de carro. À tarde fomos buscar a motinha. A família toda esperou por nós dois para comemorar o Natal e Ano Novo, todos juntos. A árvore de Natal estava lá cheia de presentes, e marcamos para hoje esse jantar porque só ontem que os presentes que postamos em Petrolina-PE chegaram. Como eu perdi meus pais e avós, Fábio me empresta os dele. Eu gosto muito disso, a família toda reunida. A minha mais próxima é pequenininha: meu irmão Ricardo, meu sobrinho Guilherme e minha cunhada Silvana.

Joice, Vó Rosalina e Carol

A Grande Viagem – Dia 9 (sexta-feira – 04/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada:  3.673 km
Odômetro ao final: 24.158 km

FÁBIO: Hoje o dia foi dedicado – além do descanso e família – a planejar a volta. O mais importante é decidir as datas e as passagens aéreas de avião da Renata. O resto – pousadas e passagens de ônibus – vamos deixar para depois. Vamos mandar o máximo possível de nossas coisas pelo correio. Desta forma, a qualquer momento poderemos andar eu, a Renata, e toda a nossa bagagem na moto. Isso não foi possível na vinda, quando eu tinha que descarregar as minhas coisas para levar as coisas da Renata. Talvez enviemos parte das coisas da Renata até Belo Horizonte-MG. Vamos ver se isso é possível depois.

A volta vai ser mais ou menos assim:

Dia 09/01:
A Renata vai de ônibus até algum ponto próximo da Serra da Canastra-MG.
Eu passo em Araraquara-SP para conhecer o Konishi, pego a Renata e vamos para a Serra da Canastra-MG. Ainda não decidimos a cidade que ficaremos lá. O Betão (do FOL, de Pouso Alegre-MG) ligou hoje para falar sobre a viagem e recomendou ficarmos em São Roque de Minas-MG. Eu tinha achado que Delfinópolis era melhor para conhecermos a Nascente do São Francisco, mas parece que teria sido uma grande burrada ter ficado lá. Teríamos que andar centenas de quilômetros a mais. Também tinha achado que Franca-SP seria um bom ponto de apoio. Mas fica a uns 250 km da Nascente! Não sei como fui tão superficial no planejamento desta parte da viagem. O Betão também recomendou que a gente ficasse em Tiradentes-MG ao invés de São João Del  Rey-MG.

Dia 10/01: passamos o dia na Serra da Canastra-MG. Faço questão de conhecer a Nascente do São Francisco.
Dia 11/01: vamos para Tiradentes-MG
Dia 12/01: passeamos em São João Del Rey-MG e vamos para Ouro Preto-MG no final do dia. Ficamos um pouco em dúvida sobre aproveitarmos melhor Tiradentes-MG e dormirmos lá. Vamos arriscar Ouro Preto-MG mesmo.
Dia 13/01: passeamos em Ouro Preto-MG, Mariana-MG e Congonhas-MG. Faço questão de conhecer os Profetas de Aleijadinho.
Dia 14/01: vou para Linhares-ES de moto. A Renata fica em Ouro Preto-MG.
Dia 15/01: vou para Itabuna-BA de moto. A Renata fica em Ouro Preto-MG.
Dia 16/01: vou para Salvador-BA. A Renata pega um ônibus até Belo Horizonte-MG. De lá pega um avião até Salvador-BA. Nos reencontramos.
Dia 17/01: passeamos em Salvador-BA.
Dia 18/01: vou para Penedo-AL de moto. A Renata pega o avião e volta para Recife-PE. No reencontraremos lá alguns dias depois.
Dia 19/01: vou de barco até a Foz do São Francisco.
Dia 20/01: vou para Recife-PE de moto. Eu e a Renata nos reencontramos.

Compramos as passagens de avião da Renata. Belo Horizonte-MG a Salvador-BA e Salvador-BA a Recife-PE. Tudo ficou uns R$ 450,00. Deixamos o resto para decidir nos próximos dias: a questão do transporte das coisas da Renata até Belo Horizonte-MG, o que iria pelo correio até Recife-PE, a passagem de ônibus até a Serra da Canastra, que cidade ficaríamos na Serra da Canastra, pousada na Serra da Canastra, pousada em Tiradentes-MG, pousada em Ouro Preto-MG, pousada em Itabuna-BA. Os amigos estão ajudando nas pousadas em Linhares-ES (Waltinho), Salvador-BA (Rad e Irene) e Penedo-AL (Adelson e Ana).

RENATA: Esses dias aqui em Osvaldo Cruz estão sendo para descansar e curtir a família. Estamos fazendo as coisas bem devagar. Hoje compramos minha passagem de Belo Horizonte-MG para Salvador-BA, e de Salvador-BA para Recife-PE. A idéia é que o Fábio me pegue em alguma cidade entre Passos-MG e Divinópolis-MG para a irmos de moto até São Roque de Minas-MG. De lá vamos para Tiradentes-MG, paramos um dia e seguimos no outro para Ouro Preto-MG.

A Grande Viagem – Dia 10 (sábado – 05/01/2008)
Distância percorrida: 230 km
Distância acumulada: 3.903 km
Trecho: Bate-volta de Osvaldo Cruz-SP a Araçatuba-SP
Tempo de viagem: 8 horas
Odômetro ao final: 24.388 km

FÁBIO: Hoje eu e a Renata fomos até Araçatuba-SP para conhecer o pessoal da região. Araçatuba-SP fica a uns 110 km de Osvaldo Cruz-SP. A viagem foi tranqüila. Encontramos o Koiti no Habib’s. Grande cara, muito legal mesmo. Roqueiro, boleiro e motoqueiro. Ficamos esperando um pouco mais até que chegaram o Thiago (Araçatuba-SP), o Batista (Três Lagoas-MS) e respectivas patroas. Fomos até a casa do Koiti, onde uma grande mesa nos esperava. Ele, a sua esposa e suas filhas tinham deixado tudo muito aconchegante. Mais uma vez me senti parte da família.

Logo depois chegaram o Nilo (Mirasol-SP), o Márcio e a Claudiane (São José do Rio Preto-SP). Ainda se juntaram a nós três amigos do motoclube do Koiti.

Ficamos a tarde toda conversando sobre a vida, experiências, trabalho, relacionamentos etc etc, como os grandes e velhos amigos fazem. A comida estava ótima. Pena que não pude tomar cerveja porque tinha que pegar a estrada de volta.

Minha bolha tinha quebrado lá na buraqueira da Bahia. Tinha ligado para o Koiti para ver se conseguiria comprar uma lá em Araçatuba-SP. Ele disse que tinha uma bolha da Motovisor que não usava. Mas a bolha não era cristal como a minha anterior, era fume. Tinha tirado a minha bolha na revisão, aproveitando a viagem até Araçatuba-SP para testar a performance da moto. Não gostei de andar sem a bolha. A frente fica mais leve e o vento empurra o peito para trás. Chegando na casa do Koiti instalei a bolha. Achei que a fume ficou muito mais bonita do que a cristal. Quando fui acertar o preço, o Koiti não quis aceitar de jeito nenhum. Disse que não usava essa bolha, já que tinha uma outra maior, e que a recompensa dele seria ver a sua bolha viajando pelo Brasil. Não bastasse um almoço de rei, ainda ganhei uma bolha.

Fantástico como rapidamente se fazem amigos no motociclismo. Se bem que até agora eu só recebi, nunca dando nada em troca. Em todos os lugares que parei sempre estava recebi amizade, comida, sombra, dicas, experiência, conselhos, sorrisos etc etc. Talvez chegue o dia em que poderei retribuir. Paciência, gafanhoto, paciência!

Nos despedimos lá pelas 16:00 e todos foram embora juntos, em comitiva. Depois, cada um para o seu lado. O Koiti disse que talvez vá comigo até Araraquara-SP. Ele tem que ir até São Carlos-SP visitar a sua filha e vai aproveitar para conhecer o Konishi.

Na volta, passamos em Parapuã-SP para comprar a passagem da Renata. Como não sabíamos muito bem para onde iríamos, compramos até Divinópolis-MG. Desta forma, o ônibus vai passar por toda a Serra da Canastra (pelo sul desta). Durante a viagem a Renata vai se informando para decidir o melhor lugar para parar.

À noite, fomos jantar fora com a Joice e o Carlinhos. Dia cheio, amigos novos e antigos, passeio de moto. Está começando a dar vontade de pegar a estrada de novo.

A grande mesa que tinham preparado para o encontro. Todos amigos reunidos.

Amigos do FOL. (Fábio, Koiti, Batista, Nilo, Márcio e Thiago).

O churrasco estava perfeito.

A despedida.

Como disse o Koiti, infelizmente chega a hora de ir embora. Mas outros encontros virão

RENATA: Hoje fomos para Araçatuba-SP, foi a primeira vez que fiz um trecho de moto. O Koiti preparou um churrasco para gente e outros amigos motociclistas. A ala feminina estava muito legal, e a Verônica (esposa do Koiti) preparou tudo com muito carinho e depois ficou com a gente. À tarde caiu a maior chuva. Fiquei imaginando a volta com toda aquela chuva, pois estava sem capa. Mas depois ela parou, e lá pras 16h voltamos para Osvaldo Cruz-SP. Na volta paramos em Parapuã-SP para comprar a minha passagem de ônibus até Divinópolis-MG. À noite saímos com Joice e Carlinhos para jantar no Angatoca (restaurante do Angatu Hotel – Osvaldo Cruz).

Fábio e Renata, na chegada no Habib’s de Araçatuba-SP.

Tiago e Fábio colocando a bolha que tinha ganhado do Koiti.

A Ala Feminina. Ops! O que o Márcio está fazendo no meio?

A volta pra Osvaldo Cruz-SP. Fui pega toda torta, ainda  me arrumando na motinha.

Carlinhos e Joice

Fábio e Renata

A Grande Viagem – Dia 11 (domingo – 06/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 3.903 km
Odômetro ao final: 24.388 km

FÁBIO: Hoje a Joice foi embora para Indaiatuba-SP. Aproveitamos para a última foto da família:

Amadeu (pai), Joice (irmã), Carlinhos (cunhado), Carol (sobrinha), Cíntia (sobrinha), Neide (mãe), Renata e Fábio.

RENATA: Hoje foi mais um dia para curtir a família e aproveitar os últimos instantes da Joice e família porque foram embora hoje. Assistimos a um filme pela manhã, almoçamos todos juntos e à tarde mais descanso.

A Grande Viagem – Dia 12 (segunda-feira  – 07/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 3.903 km
Odômetro ao final: 24.388 km

FÁBIO: Hoje reservamos as pousadas de São Roque de Minas-MG, Tiradentes-MG, Ouro Preto-MG e Itabuna-BA. O guia para o passeio na Serra da Canastra ainda não está certo. Temos contato com duas empresas. Vamos decidir quando chegarmos lá. O problema é que o preço depende do número de pessoas no carro. Se dermos sorte de ter outro casal, o preço cai pela metade.

Vimos que vai ser complicado mandar parte das coisas da Renata por ônibus até Belo Horizonte-MG. Ela vai mandar o que der pelo correio. Se faltar um pouco de roupa, como camisetas, ela compra no meio do caminho. Também vamos lavar parte da roupa em Ouro Preto-MG. Na vinda tínhamos trazido roupa para toda a vinda, lavando só em Osvaldo Cruz-SP.

Na vinda, arrumei a minha roupa em saquinhos contendo uma camiseta, uma cueca e um par de meias. Daí, quando chegava de viagem era fácil achar tudo. Em uma outra sacola iam roupas de passeio (calça leve, blusa leve, sunga, toalha e bermuda). Ainda levei tênis, chinelo, duas calças jeans extras e material de higiene. Não precisei trocar de calça jeans, então uma das extras volta pelo correio.

Tinha ficado apenas com as ferramentas da moto, duas câmaras, tire-pando e fita scotch. Para a volta, comprei um alicate, chave 24mm, duas chaves de fenda, arame e fio de cobre.

RENATA: Reservamos o dia hoje para pagar contas de casa e reservar pousadas e passeios. Para fazer o pagamento das contas eu levei os boletos que já tinham chegado até o dia 27, e os outros a minha empregada foi passando por telefone a numeração do código de barras. Deu tudo certo. Também levamos algumas fotos para revelar e dar a Neide e Amadeu e Vô Natal e Vó Rosalina. Mais um filminho à tarde, dessa vez só a Neide que nos fez companhia.

A Grande Viagem – Dia 13 (terça-feira – 08/01/2008)
Dia de passeio em Osvaldo Cruz-SP
Quilometragem: 54 km
Distância acumulada: 3.957 km
Odômetro ao final: 24.442 km

FÁBIO: Hoje estamos na metade da viagem, já andamos 4.000 km e 12 dias. Que venha a outra metade. Embalamos os presentes, livros, CD’s etc em três caixas. Mandamos tudo de volta para Recife-PE pelo correio. Agora cabe tudo na moto. Pena que a Falcon não seja confortável e segura para uma viagem tão longa com nós dois (somamos 200 kg junto com a bagagem, a Falcon foi projetada para 155 kg). Não é a questão do banco, é que a suspensão fica muito baixa, dificultando muito a dirigibilidade. Uma coisa é andar 500 km assim, outra é 8.000 km. Também não passei nenhum apuro com a moto, mas o que aconteceria em uma freada brusca, derrapada ou desviada com 200 kg em cima? Talvez pudesse resolver o problema trocando a mola, óleo ou válvula da suspensão, mas não sei onde fazer isso. No nosso caso, acho que só uma V-Strom resolve. Com uma moto dessa poderíamos ir os dois até o Ushuaia. Mas, mesmo com uma XT (projetada para 185 kg), acho que dá para fazer uma viagem dessa como a que estamos fazendo.

O Koiti confirmou que vai viajar comigo amanhã, até Araraquara-SP. Vai ser bom ter companhia de novo na estrada.

No último dia, aproveitamos para ficar com os parentes e tirar umas fotos da cidade.

Natal (vô), Rosalina (vó), Fábio e Renata.

Neide (mãe), Amadeu (pai), Renata e Fábio.

Prefeitura de Osvaldo Cruz-SP.

Estádio de Osvaldo Cruz-SP.

Ferroviária de Osvaldo Cruz-SP. Brincava aqui por perto quando era criança. Era bom viajar de trem, mas hoje tudo está desativado. A Renata, que nunca andou de trem, ficou só imaginando.

Igreja matriz, com arquitetura alemã… no meio de uma colônia de italianos e japoneses.

A caixa-d’água, ponto de referência da cidade, pode ser vista de todos os pontos.

A tradicional placa paulista na entrada da cidade.

O moderno portal da cidade. Estão fazendo isso em todas as cidades do país. É moda ou alguém está ganhando dinheiro?

Visão geral de Osvaldo Cruz-SP, cerca de 30.000 habitantes.

RENATA: Hoje o dia foi cheio. O último em Osvaldo Cruz-SP. Um misto de ansiedade e tristeza. Coloquei a maior parte da minha bagagem numa caixa para enviar a Recife. Se faltar roupa no meio do caminho, eu compro onde puder. Também foram presentes do Fábio e da Gabriela. À tarde fomos no correio para postar tudo isso, passeamos pela cidade para tirar fotos e depois fomos nos despedir dos avós e entregar as fotos. Quando chegamos em casa tinha um pão maravilhoso que a Neide tinha feito. Enroladinho com queijo e presunto. Nossa! Que delícia, ela tinha feito a massa especialmente pra gente naquele dia. Isso dá uma saudade danada! Não é só o pão, mas todo esse amor. Obrigada Neide e Amadeu, beijos.

Em frente à estação de trem de Osvaldo Cruz-SP. Eu nunca tinha visitado uma estação de trem, essa foi a primeira.

A Grande Viagem – Dia 14 (quarta-feira – 09/01/2008)
Distância percorrida: 761 km
Distância acumulada: 4.718 km
Trecho: Osvaldo Cruz-SP a São Roque de Minas-MG
Tempo de viagem: 14 horas
Odômetro ao final: 25.203 km

FÁBIO: Fomos dormir ontem às 23:00. A Renata acordou às 02:00. Meus pais foram levá-la até Marília-SP (120 km de Osvaldo Cruz-SP) para pegar o ônibus até Divinópolis-MG. Ela ainda não decidiu onde vai descer. No caminho vai ser informar qual o melhor lugar para depois ir até São Roque de Minas-MG. Duranta a viagem ela descobriu que poderia parar em Piaumhi-MG, a 60 km de São Roque de Minas-MG. Dependendo do horário do ônibus ela me esperaria lá para ir de moto. Se chegasse muito antes iria direto, daí nos encontraríamos lá.

Eu fiquei esperando os meus pais voltarem de Marília-SP. Iria sair às 06:00, para encontrar o Koiti em Penápolis-SP às 07:30. O problema é que depois que me despedi da Renata, não consegui dormir mais. Tinha que andar 800 km hoje, contando uma parada de 3 horas para almoçar em Araraquara-SP e tinha dormido apenas duas horas. Em geral, eu preciso dormir oito horas.

Depois de despedir dos meus pais que voltavam de Marília, saí de Osvaldo Cruz-SP com o maior sono do mundo, escuro ainda. Encontrei o Koiti em Penápolis-SP e rumamos para Araraquara-SP. Até agora, em todos os treinos e em toda a primeira parte da viagem, sempre tentei andar no meu limite. Nesta estrada poderíamos andar a 130 km/h, mas o Koiti marcou o passo a 100-110 km/h. Pela primeira vez, senti que às vezes é hora de parar de tentar progredir sempre e aproveitar o momento. Gostei muito de andar em um passo mais lento.

Inicialmente eu queria parar em Taiaçu-SP e São Lourenço do Turvo-SP, terra natal dos meus avôs materno e paterno. Mas na hora vi que não valia a pena. Volto uma outra vez, com mais tempo, para aproveitar melhor.

Viver no passado não é bom. Mas, às vezes, coisas boas do passado vêm até o presente. Não como uma fuga, mas para construir o futuro.  Mas é preciso calma. É preciso dar tempo. Tive uma linda amostra do passado hoje. Vou cultivá-lo um pouco melhor. Vou dar tempo ao tempo. Quando for a hora, sei que virá ao meu encontro. Tudo tem o seu tempo. E o lugar das coisas boas é no futuro, não no passado.

Chegando em Araraquara-SP conhecemos o Konishi. O Daniel e o Alexandre tinham ido de Ribeirão Preto-SP até lá para nos conhecer. O Konishi tinha preparado um ótimo almoço para nós. Adorei o pessoal de Ribeirão Preto-SP. Eu estava muito cansado por não ter dormido bem, e temo não ter sido agradável para eles. Paciência, gafanhoto, paciência, você não pode agradar a todos!

Lá para as 14:00, me despedi do Konishi e do Koiti, que seguiu para São Carlos-SP. Fui acompanhado pelo Daniel e o Alexandre até Ribeirão Preto-SP. De lá fui até Piaumhi-MG, encontrar com a Renata.

Depois de entrar em Minas Gerais a estrada fica linda. Cheia de curvas, subidas, árvores e campos. A represa de Furnas é linda. O sono foi embora na hora. Parece engraçado, talvez seja comum, mas eu tenho mais sono com o dia ensolarado. À noite, ou quando o sol já está se escondendo, eu fico mais desperto.

Tive um pouco de dificuldade nas curvas, algumas vezes me senti um pouco pressionado pelas vans de turismo que conhecem bem o local. Engraçado, no quesito curvas, pelo menos pelo o que aconteceu hoje,  parece que diminui a minha capacidade desde o começo da viagem.

Peguei a Renata em Piaumhi-MG às 18:30. Seguimos para São Roque de Minas-MG juntos. A estrada é maravilhosa. O sol se pondo, uma calma indescritível. Cruzamos mais uma vez o São Francisco, que aqui é bem barrento e pequeno. Fiquei apaixonado pela grandiosidade e paz do lugar. Mal posso esperar pelo passeio de amanhã.

Contratamos um guia para amanhã. Não há outro casal, então o passeio de dia todo, incluindo o carro, vai sair por R$ 150,00. Caro, mas não perco essa Nascente por nada. Deixamos a bagagem na pousada e fomos jantar. Uma delícia: tutu, caldo de mandioca, arroz branco, lombo. A Renata provou pela primeira vez a comida mineira.

Hoje o dia foi muito legal. Embora estivesse com muito sono no início do dia, a excitação de voltar a estrada foi me acordando. Fiquei mais à vontade para tirar fotos. Tive a companhia de outros motociclistas (Koiti, Daniel e Alexandre). A Renata voltou a viajar comigo na moto (tinha andando um pouco lá em Seabra-BA). Não podia ser melhor. Agora é dormir e esperar o passeio de amanhã.

O último nascer-do-sol em São Paulo, perto de Osvaldo Cruz-SP.

Aprendendo com o Koiti, perto do Tietê. (olha minha cara de sono… mas não é por causa do aprendizado não… é que não tinha dormido nada na noite anterior)

Já em Araraquara-SP:

Almoço na casa do Konishi, Araquara-SP. Koiti, Konishi, Fábio, Daniel e Alexandre. (eu ainda com cara de sono)

Companhia na estrada rumo a Ribeirão Preto-SP. Fábio, Koiti, Daniel e Alexandre.

Represa de Furnas.

Represa de Furnas. Na hora dessa foto passou um caminhão que, com a sua turbulência, quase mandou a moto lá para baixo. Que susto!

Mais represa de Furnas. Dá vontade de continuar reto na estrada.

Estrada deserta e silenciosa entre Piaumhi-MG e São Roque de Minas-MG. Paz. Um gostinho do que vai ser a Serra da Canastra amanhã.

Pôr-do-sol na Serra da Canastra.

RENATA: Fui dormir tarde e acordei às 1:15h para Amadeu e Neide me levarem na rodoviária de Marília-SP. Eles precisavam voltar cedo para se despedirem de Fábio. A viagem foi tranqüila. A viagem foi legal. A represa de Furnas é maravilhosa! Consegui fazer algumas fotos e alguns filminhos. Uma garotinha no ônibus me ajudou segurando a cortina da janela. Adoro a paisagem da vegetação e do relevo de Minas. Em Itaú de Minas-MG descobri que podia parar em Piumhí-MG e pegar um ônibus para São Roque de Minas-MG. Quando cheguei na rodoviária de Piumhí-MG mandei um torpedo para Fábio dizendo que o ônibus sairia às 18h. Depois ele me ligou dizendo que ia me buscar para irmos juntos para São Roque de Minas-MG. A viagem foi ótima. Nunca tinha andado por uma estrada tão tranqüila. E o pôr-de-sol que nos recebeu estava belíssimo! Passamos por uma ponte sobre o Rio São Francisco numa parte em que a água é barrenta. Estranho, porque a imagem que ficou na minha memória foi a desse rio que passa em Piranhas-AL, uma água azul esverdeada que deixa você encantada. Bem, só quando estávamos chegando pertinho da cidade começamos a ver algumas pessoas caminhando pela estrada. Assim que entramos na cidade fomos logo acertar o passeio de amanhã na empresa Caminhos da Canastra. Descarregamos a bagagem na pousada e fomos jantar no restaurante Alfaia, quase vizinho da pousada. Comi tutu à mineira pela primeira vez. Huuuummmm, que delícia! Comi tanto que nem agüentei a sobremesa. E olha que para eu recusar doce é que estava estufada mesmo! Voltamos para pousada e fomos dormir cedo.

Paisagem da vegetação mineira

Represa de Furnas…

Represa de Furnas…

Represa de Furnas…

Débora, a garotinha que segurou a cortina para eu fazer as fotos e os filminhos. Ficou toda fofa porque tirei uma foto dela.

Rio São Francisco, já chegando na entrada de São Roque de Minas-MG.

A Grande Viagem – Dia 15 (quinta-feira – 10/01/2008)
Dia de passeio na Serra da Canastra
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 4.718 km
Odômetro ao final:  25.203 km

FÁBIO: Essa é a história de um homem, sua mulher e sua moto. Sempre foi. Sempre será. Mas, como que por ironia, a moto quase não aparece na história. Não dá para descrever o que se sente quando se está sozinho na estrada com a sua moto. Quem esteve lá, sozinho, com sua moto, sabe.

A mesma coisa com a Serra da Canastra. Há duas palavras que resumem tudo: imensidão e paz.

Não é possível conhecer tudo em um só dia. Como eu fazia questão de conhecer a Nascente do São Francisco, contratamos um guia para nos levar até lá. O passeio incluía também a parte alta da Cachoeira Casca D’anta. Mais uma vez preferi não ir de moto. Não tenho muita experiência na terra, estaria sozinho, com garupa. Mais ainda, a 3.000 km de casa, com muita coisa para conhecer ainda.

Andamos o dia todo, vimos animais selvagens, plantas diferentes, a transição entre a mata e o cerrado, sol, chuva, cachoeiras. Nadamos lá no São Francisco, antes de cair na cachoeira. Foi a primeira vez que a Renata nadou em um rio. Depois de passear o dia todo, fomos de novo até o restaurante ao lado da pousada. Para variar um pouco, caldo de mandioca e feijão tropeiro.

A imensidão e calma da Serra da Canastra são indescritíveis. Sabe aquele lugar em que você se sente em sintonia? Pois é, para mim o lugar foi lá. A Chapada Diamantina é muito bonita, grandiosa. Mas não bateu a mesma coisa. Vai entender… Paciência, gafanhoto, paciência.

Depois deste banho na nascente do São Francisco, o convívio em paz com coisas grandiosas e pequenas, o compartilhamento disso com a Renata e o viver no ritmo certo, acho que o renascimento foi encontrado. Agora é só vida nova, só olhar para a frente, com leveza, dando importância só para o que é importante, não empacando em coisas que não podem ser resolvidas!

Amanhã eu e a Renata vamos viajar juntos de moto pela primeira vez durante esta viagem. Antes foram só pequenos trechos. Acho que ela estava esperando a tempos por esta parte da viagem.

Se hoje foi o meu renascimento, que amanhã seja o meu batizado. Da melhor maneira possível: na estrada, de moto!

Vamos às fotos.

Na entrada do Parque da Serra da Canastra.

Nosso companheiro, tração integral 4×4, com intertravamento. Não passa de 80 km/h, mas passa em qualquer lugar. No parque nunca pasamos dos 40 km/h. O guia, Elossandro, foi fantástico. Falava na medida certa, sempre paciente para que apreendêssemos o que estávamos presenciando. Quem quiser fazer um passeio com ele o site é www.caminhosdacanastra.com.br

O parque não tem grandes árvores. É a imensidão e a tranqüilidade que impressionam. Ali naquela mata ciliar está a nascente do São Francisco.

Disseram que se alguém colocar essas coordenadas no Google Earth encontrará a nascente.

A tão esperada nascente. Parece sem graça, mas estando lá e sabendo no que esse “córgo” se transformará, dá uma grande emoção.

O carcará, que encontramos durante toda a viagem.

Veado campeiro, que não se assustou com a gente.

Essa árvore chama Candeia, porque dizem que fica toda iluminada em noites de lua cheia.

O São Francisco, a uns 10 km da nascente, já está grande.

Entra naquela pedreira…

Passa por umas três cachoeiras dessas…

E desaba 130m na Cachoeira Casca D’anta. Para vê-la, só mais um dia de passeio, para ver a parte de baixo. Outro dia voltamos lá.

Depois da cachoeira, serpenteia lá em baixo.

Descansamos um pouco no mirante.

A Renata rivalizando com o São Francisco.

Mais uma das cachoeiras pequenas, antes do grande abismo.

A Renata em seu segundo banho de rio (chic, hein?). Este é um dos afluentes do São Francisco.

Na volta pegamos chuva forte. Ainda bem que não fomos de moto… não me sentiria confortável andando perto desses abismos.

Depois um descanso, lendo um pouquinho, ouvindo música, tirando uma soneca. Me preparando para a janta.

Pensando nas coisas grandiosas…

… e pequenas, mas não menos importantes, que encontramos hoje.

RENATA: Depois de uma boa dormida, tomamos o café da manhã. Quando eu estava preparando o lanche para levar no passeio, o nosso guia, o Elossandro chegou para nos buscar. O nosso passeio foi a bordo de um Niva, que andava bem devagarzinho, mas a estrada não deixa ser diferente. A Serra da Canastra é uma imensidão de montanhas, cachoeiras, trilhas e nascentes. A simplicidade e a força da natureza nesse lugar é espetacular! Não dá para falar, só sentir a paz quando estamos lá. Fomos na nascente do Rio São Francisco, na parte alta da Cachoeira Casca d’Anta e paramos em alguns lugares para tomar banho de rio. Também caminhamos até um mirante de onde conseguimos ver um pouco do leito do rio São Francisco e contemplar a beleza do lugar. Adorei esse dia, eu e Fábio tomamos banho de rio e caminhamos juntos, estávamos tão próximos (fisicamente e de coração)… nos curtimos muito, tiramos muitas fotos um do outro, enquanto o Elossandro tirava as nossas (ainda bem porque sempre saímos sozinhos nas fotos quando vamos passear), o Fábio tirou todas das paisagens. Amei!! Lá pelas 16h voltamos para a pousada, descansamos um pouco na rede e acabamos pegando no sono até a noite. De novo fomos no restaurante Alfaia, mas dessa vez comemos feijão tropeiro e caldo de mandioca. Voltamos e dormimos cedo porque amanhã vamos para Tiradentes-MG. Te amo muito, Amor maior que a Vida!

Na pousada, tinha uma copa e cozinha com um cafezinho sempre a nossa espera e vários potes de doce. Se eu comi? Nossa! Tinha um de leite com côco…

Uma vista do nosso quarto e da varandinha particular (só tinha a gente hospedado nessa parte da pousada).

Esse era o nosso cão de guarda. Dava um susto toda vez que a gente olhava para ele, ficava bem na frente do nosso quarto. Parece de verdade!

Estrada para chegar na portaria do Parque Nacional da Serra da Canastra. Esses bezerrinhos não queriam sair de jeito nenhum do caminho… O Elossandro teve que descer para tirá-los dali.

Como chegar na nascente…

E… a nascente! Incrível como esse córrego se transforma num grande rio que proporciona a sobrevivência de muitas pessoas e que produz energia limpa para gente!

Estou em cima de um Curral de Pedras, para onde os fazendeiros levavam o gado para pastar enquanto o pasto da parte de baixo da serra crescia.

Uma parada para um clic numa das quedas da Cachoeira Casca d’Anta. Mágico esse dia com você, te amo!

Sempre-viva.

Um veado campeiro atravessando a estrada. O nosso guia falou que esse veado é muito assustado. Ficamos bem quietos, ele desligou o carro para Fábio fazer a foto.

Uma imagem marcante de um poço do rio Rolinhos. Paramos para tomarmos o meu segundo banho de rio, hehehe.

Cachoeira no rio Rolinhos, bem acima daquele poço que paramos para tomar banho.

Gostei dessa árvore saindo do meio das pedras com a Serra ao fundo.

Gostei desse mirante, queria ter ficado mais tempo lá; quietinha, só sentindo o vento bater no corpo e admirando a natureza…. paz…

Mais belezas da serra…

Nessa pedra tinham quatro tipos de fungos diferentes vivendo em simbiose, cada um de uma cor (vermelho, branco, cinza e verde). Todos dividindo o mesmo espaço para viver, mas em harmonia.

E uma visão da nossa volta à cidade: muita chuva nos esperava! Mas não era ruim, era o símbolo de nossa alma lavada na paz e onipotência da Canastra.

A Grande Viagem – Dia 16 (sexta-feira – 11/01/2008)
Distância percorrida: 357 km
Distância acumulada: 5.075 km
Trecho: São Roque de Minas-MG a Tiradentes-MG
Tempo de viagem: 6 horas
Odômetro ao final: 25.560 km

FÁBIO: O dia acordou chuvoso. Mas, como não tinha pego chuva ainda a não ser nos primeiros 100 km da viagem, em Pernambuco, onde não deveria estar chovendo, arriscamos ir sem as capas. Como a Renata não tinha trazido nada para andar de moto, tínhamos comprado uma capa para a Renata lá em Osvaldo Cruz, junto com um jogo de polainas. Mesmo que não chovesse na viagem, a capa cortaria um pouco do frio que passáramos lá na Chapada Diamantina. Eu também não tinha colocado sacos plásticos dentro dos alforges, a não ser alguns para separar os conjuntos que usaria a cada dia (camiseta, cueca e par de meias).

A área ao redor da Serra da Canastra é cercada de grandes cafezais. Disseram que era prejudicial para a região porque usavam muitos produtos agrícolas. Por outro lado, a plantação de café por aqui já faz parte da tradição, sendo , pelo o que entendi, a única monocultura permitida. De qualquer forma, os cafezais formam uma vista muito bonita e acalentadora para quem nasceu em uma área cafeeira, como Osvaldo Cruz-SP.

Até Piumhi-MG, desafiamos as nuvens de chuva. A região estava com neblina, nuvens pretas, mas nenhuma gota ainda. Iríamos virar para o leste, onde as nuvens não estavam tão pretas. Mas não teve jeito, em Piumhi-MG a chuva caiu muito forte. A primeira chuva da viagem, depois de 5.000 km. Parece que o tempo queria compensar pela estiagem até ali. Colocamos as capas e seguimos viagem. Nenhum veículo, seja caminhão, carro, ônibus, moto, se atrevia a passar dos 60 km/h. Fiquei um pouco nervoso, pois estava carregado e a estrada começou a ficar com poças.

Daí me lembrei da velha história de que quando começa uma chuva, devemos esperar 20 minutos para que a sujeira seja lavada. Isso funciona bem em uma cidade, em que você pode ver a chuva vindo. Mas, na estrada, quando você está em movimento, como saber a quanto tempo está chovendo em um determinado local? Parece impossível.

De Formiga-MG em diante o céu abriu de novo. A viagem então ficou perfeita. Asfalto bom, sol na medida e a companhia da Renata. Sabe desses dias em que tudo está perfeito na viagem? Bem, esse dia foi hoje.

Durante essa viagem aprendi uma ou duas coisas. Uma delas foi como pedir informação na estrada. Por exemplo, você ficou os últimos três meses juntando informações sobre Tiradentes-MG (ou Lençóis-BA), sua história, arquitetura etc. Parece a cidade mais importante do mundo. Daí você para em um posto a 200 km de lá, perguntando como se chega lá, ou a que distância você está. É óbvio que o frentista não sabe. Não é uma cidade importante economicamente nos dias de hoje, então provavelmente ele não costuma ir para lá, nem a ouvir histórias de caminhoneiros sobre a estrada. 200 km é uma distância muito grande para alguém ter informações de estrada, a não ser que seja uma cidade grande.

Chegando em Tiradentes-MG nos ofereceram um passeio de trem até São João Del Rey-MG. Talvez façamos amanhã. Fomos direto até a pousada. Muito diferente, cheia de motivos angelicais, incensos, artesanato, etc. Legal.

Os alforjes seguraram bem a chuva, não molhou nada.

Tiradentes-MG é uma cidade muito simpática. Antiga, mas toda arrumadinha. Mas só têm turistas nas ruas, parece não ter vida própria. Não gosto muito. Gosto mais de cidades do tipo Recife-PE ou Olinda-PE, com história antiga, mas vida real presente. Sei lá. Por outro lado, a cidade fica no pé de uma serra, que pode ser vista de qualquer ponto. Muito bonito.

Passeamos a tarde toda, visitando principalmente as lojas de antiguidades e artesanato. Para que conste em ata: não passeei de charrete. Fábio Magnani não passeia em charrete!

Os cafezais em torno da Serra da Canastra.

A primeira vez que a Renata vê neblina.

Íamos para a esquerda (leste). Esperávamos que pudéssemos fugir da chuva. Ledo engano.

A Renata estreando sua capa nova.

Eu já tava pronto.

Depois o céu abriu e tudo ficou maravilhoso. Sensação ótima de estrada boa, sol na medida e companhia da Renata.

Uma “delícia” andar a 2 km/h nessas estradas de pé-de-moleque porque o carro da frente quer economizar suspensão. Os carros ficam parando o tempo todo na nossa frente. O negócio é ficar parado, segurando o trânsito de trás, até que os carros da frente se distanciem. Depois é só andar em uma velocidade mais apropriada para motos.

Essas pedras, então, se for muito devagar o pneu fica entrando entre as pedras. O negócio é andar mais rápido. A serra pode ser vista de qualquer ponto da cidade.

RENATA: Saímos de São Roque de Minas-MG, bem cedinho. A dona Diva, proprietária da pousada, acordou cedo para preparar um café pra gente. Estava bem friozinho quando saímos, e pelo que a gente viu o tempo não ia abrir tão perto. Vi neblina e passei por ela pela primeira vez, mas não estava muito fechada. Quando chegamos em Piumhí-MG começou a chover e não dava para arriscar mais porque eu estava de tênis. Paramos num posto para eu poder colocar a calça da capa de chuva e a polaina (sorte que eu tinha comprado em Osvaldo Cruz-SP). Seguimos debaixo de muita chuva no início da viagem. Depois o tempo abriu, paramos num posto, Fábio tirou a capa dele, mas eu não quis arriscar e continuei com a minha. Estou adorando viajar por Minas, a paisagem é muito agradável aos olhos. Quando cheguei em Tiradentes-MG, adorei a cidade, que é bem pequenininha, mas muito aconchegante. Muito movimentada de turista, mas agradável de estar e passear. Logo na entrada tem uns guias chamando para um passeio de trem que vai até São João Del Rey-MG, sai às 10h e volta às 15h. Acho que vamos fazer. Deixamos a bagagem na pousada (toda com decoração psicodélica, com temas de anjos). Cada quarto tem o nome de um anjo e a gente pode escolher em qual deles ficar, até achei estranho poder escolher o quarto que tem a energia melhor. Escolhemos o do anjo Miguel que é do signo do Fábio (Leão). Gostei muito do lugar, fomos recebidos pelo Dudu, filho dos proprietários, que nos deixou bem à vontade para escolher o nosso quarto. Fomos dar uma volta na cidade e procurar um lugar para almoçar. Tem muita charrete transportando e fazendo passeios pela cidade, mas Fábio disse que não andaria! Tudo muito bonito e arrumadinho. Muitas lojas de artesanato e muitos restaurantes. Comemos costelinha de porco com macaxeira frita. O Fábio encontrou um lugar para descarregar as fotos e depois pagamos algumas contas no Itaú. É incrível, mas em São Roque de Minas-MG e em Tiradentes-MG não tem Banco do Brasil, mas Itaú e Bradesco. Voltamos para a pousada para descansar um pouco. À noite demos mais um passeio pela cidade e comemos um lanche numa padaria. Dormimos cedo porque estávamos cansados.

A pousada em que ficamos: Anjos Astrais.

Uma varandinha bem gostosa para ficar. Pena que a gente não teve tempo, mas a energia do lugar é legal.

Nessa rua se concentram os restaurantes.

Esse cachorrinho não fica só aí, paradinho, no cavalo, ele vai junto com o dono nos passeios. Não sei como ele se equilibra!

Uma parada de ônibus bem rústica. Ficava no caminho entre a nossa pousada e o centro da cidade.

A cidade à noite…

A Grande Viagem – Dia 17 (sábado – 12/01/2008)
Distância percorrida: 160 km
Distância acumulada: 5.235
Trecho: Tiradentes-MG a Ouro Preto-MG
Dia de passeio em Tiradentes-MG e São João Del Rey-MG
Tempo de viagem: 3 horas
Odômetro ao final: 25.720 km

FÁBIO: Hoje o dia foi cheio. De manhã fomos comprar a passagem de trem para São João Del Rey. Às 11:00 pegamos a Maria Fumaça na estação. Para variar, primeira vez da Renata em um trem. Muito legal mesmo. A Maria Fumaça é toda arrumadinha, original. O passeio de 10 km margeia a serra o tempo todo. Em São João Del Rey-MG fizemos um City Tour relâmpago. Não deu para aproveitar quase nada. Os outros turistas, parece, ficavam contente em terem pago o passeio. Como se o pagamento fosse suficiente, não precisando aproveitá-lo. Gostei quando paramos em uma fábrica de utensílios de estanho. Mostraram como tudo é feito. Acabei comprando umas taças de vinho, tipo aquelas que os romanos usavam.

Voltamos, ainda de trem, para Tiradentes-MG. Deixamos a pousada às 16:00, tentando chegar com dia claro ainda em Congonhas-MG, para ver as obras de Aleijadinho. Pegamos a Estrada Real, que neste trecho margeia a estrada de ferro em que tínhamos passeado um pouco antes. Entre São João Del Rey-MG e Congonhas-MG, pegamos bastante chuva de novo. A estrada tinha bastante curvas. Fiquei um pouco inseguro em fazer curvas com o asfalto molhado. Sabe esses dias em que não é legal estar na estrada? Bem, até aquele momento hoje foi assim. Horrível: chuva, insegurança nas curvas, trânsito demais.
Estranho, minha habilidade em fazer curvas durante esta viagem às vezes parece que retrocede ao início dos treinamentos. Paciência, gafanhoto, paciência.

Um pouco antes de Congonhas-MG, saímos da Estrada Real e entramos na Rodovia JK. Muito trânsito mesmo. Não tinha pego nenhum trecho movimentado ainda. Acho que é um aviso do que vou pegar no resto da viagem.

Em Congonhas-MG nos disseram que àquela hora não veríamos nada. Eu, que estava louco para chegar logo em Ouro Preto-MG, sugeri que voltássemos amanhã. Pegamos mais uns 10 km de JK e entramos na estrada para Ouro Preto-MG. Linda, linda, linda. No meio da mata, subidas, descidas, curvas. Pena que no final foi escurecendo. Mas amanhã vamos passar aqui de novo, de volta a Congonhas-MG, e daí aproveitaremos melhor.

Chegamos em Ouro Preto-MG já às escuras. Achamos a pousada relativamente fácil. Deixamos as coisas e fomos até o centro conhecer a famosa Praça Tiradentes. Os restaurantes são muito legais, a cidade é maravilhosa. Cheia de vida. Comemos umas massas, tomei umas cervejas, e voltamos para a pousada.

Fábio e Renata esperando o trem. A Renata está toda ansiosa.

Renata fazendo pose de antigamente.

Ói, ói o trem…

Alguma igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Parece que não são propriedade da Igreja Católica. É propriedade de leigos católicos.

A famosa rua das casas tortas. Foram destruídas com o tempo e reconstruídas tortas de novo… estranho…

A estação de São João Del Rey-MG.

Os produtos da fábrica de estanho.

A rotunda, de onde antigamente saíam as máquinas. Como termodinamicista, fiquei emocionado em ver essas máquinas a vapor.

O mineiro não perde o trem.

Na Estrada Real.

Também na Estrada Real, entre Tiradentes-MG e São João Del Rey-MG. Tínhamos visto esta paisagem do trem.

Mais uma vista da Estrada Real.

RENATA: Hoje o dia foi cheio mesmo! Como só precisávamos estar na estação de trem para comprar os bilhetes às 10h, tomamos o café da manhã bem tranqüilo e já deixamos a bagagem toda arrumada. Bem, foi a segunda vez que estive numa estação de trem, mas andar foi a primeira vez. Foi legal. Vimos todos os movimentos da Maria Fumaça para virar de lado. O trecho que a gente percorreu tem uns 16 km, e o trem leva pouco mais de meia hora para fazer. Adorei! Fui na janela curtindo muito a paisagem. Passamos por um rio, a serra nos acompanha por quase toda a viagem e muitas pessoas ainda dão tchau quando o trem passa. Quando chegamos em São João Del Rey-MG, contratamos um passeio “a jato” pelos principais pontos turísticos. A cidade é muito maior do que Tiradentes-MG, escolhemos certo ficando em Tiradentes-MG. Mas o passeio foi legal, acho que não ia dar tempo de conhecer quase nada sem um guia. Fizemos um lanche ao invés de almoçarmos, senão a gente ia ficar com uma moleza danada quando fosse andar de moto. Antes de pegar o trem de volta, visitamos o museu da estação e fizemos um pequeno passeio até a rotunda (lugar onde são estacionadas as Marias Fumaças). Chegamos em Tiradentes lá pelas 15:40h e fomos direto para a pousada colocar alforjes e bauleto na moto. Já estava chovendo quando saímos, o Dudu e o pai dele (Antônio) insistiram para a gente esperar a chuva, mas seguimos para Ouro Preto-MG. Pegamos chuva e muito trânsito numa rodovia que vai de Belo Horizonte para São Paulo (não lembro o nome). Fomos até Congonhas-MG, acho que era umas 17:30h, mas logo na entrada da cidade nos informaram que a Basílica que íamos visitar já estava fechada. Resolvemos ir para Ouro Preto-MG e voltar amanhã. A estrada é linda, cheia de árvores e de curvas. Mas… quase congelo as mãos, que frio!! Quando chegamos em Ouro Preto-MG o céu já tinha escurecido. Deixamos as bagagens na pousada e fomos dar uma volta no centro da cidade. É bem diferente de Tiradentes-MG, as ruas principais são bem maiores e os prédios são mais imponentes. Mas é tudo muito bonito e muito bem cuidado. O Fábio gostou mais daqui, mas eu preferi Tiradentes. Estávamos com fome, eu comi um capelletti e o Fábio um nhoque aos quatro queijos. Amanhã vamos dar uma volta com mais calma pela cidade.

Essa era a nossa vista do restaurante da pousada enquanto tomávamos café da manhã.

Esse aí é o Dudu, figuraça!

Estação de Trem de Tiradentes-MG.

A Maria Fumaça fazendo a volta.

Uma amostra do que a gente vê do trem.

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco (São João Del Rey-MG).

A rua das casas tortas. Todas as casas são inclinadas por causa da forma como foram construídas. Elas são assim bonitinhas e conservadas porque foram restauradas tortas, não aprumaram as paredes!

Estação de Trem de São João Del Rey-MG.

Olha eu fazendo pose num vagão. Esse era todo arrumado por dentro, mas a gente não podia entrar.

Nós dois na rotunda.

Na entrada do vagão que a gente voltou para Tiradentes-MG.

Eu de novo!

A Maria Fumaça se ligando ao trem.

A Grande Viagem – Dia 18 (domingo – 13/01/2008)
Dia de passeio em Ouro Preto-MG e Congonhas-MG
Quilometragem: 140 km
Distância acumulada: 5.375 km
Odômetro ao final: 25.860 km

FÁBIO: Hoje pela manhã, dia 13, voltamos até Congonhas-MG para conhecer os Profetas do Aleijadinho. Incrível. Um dos pontos altos da viagem. Difícil explicar porquê, uma vez que não sou religioso. Acho que é porque leio sobre isso desde que sou criança, na escola. Não tenho cultura suficiente para julgar se as estátuas precisaram de grande competência técnica ou artística. Mas acho que o bonito mesmo é o plano arquitetônico, a disposição das estátuas. Sei lá… hehehe. Voltamos para Ouro Preto-MG para conhecer a cidade. Maravilhosa também. Ouro Preto-MG tem um astral fantástico. Eu moraria aqui.

Ponte perto da estrada entre Ouro Preto-MG e Ouro Branco-MG.

Fábio e Oséas (o gol contra que esse cara fez para o Corinthians, quando jogava pelo Palmeiras, é antológico).

Renata e Daniel (esse é o cara da música do Legião, aquele que tem os leões…)

Todo mundo fica parado para uma foto…

Pronto, agora podem se mexer…

Renata, com a cidade de Congonhas-MG ao fundo.

A estrada para Ouro Preto-MG. É sempre assim, sobe, desce, desaparece, aparece mais na frente. Linda, linda.

Praça Tiradentes, Ouro Preto-MG.

Ouro Preto-MG.

Mais Praça Tiradentes, Ouro Preto-MG.

A motinha ficou descansando, aproveitamos o resto do dia a pé mesmo.

As ruas de Ouro Preto-MG.

RENATA: Hoje acordamos bem cedo para ir a Congonhas-MG visitar a Basílica do Senhor Bom Jesus, onde estão as estátuas dos doze profetas esculpidas por Aleijadinho. O lugar é muito bonito. O conjunto das estátuas com a basílica ao fundo é que impressiona. Também fomos na Romaria, um lugar construído para alojar romeiros que iam a Congonhas-MG que hoje funciona como museu. Bem, o que a gente queria conhecer era só isso, e depois desse pequeno passeio voltamos para Ouro Preto-MG. Demos uma volta de moto pela cidade, quanta ladeira de pé-de-moleque! Almoçamos uma boa comida mineira e fomos para a pousada descansar um pouco. Voltamos ao centro no final da tarde. O Fábio ficou numa lan house, enquanto eu olhava as lojinhas de artesanato. Hehe, tenho muita coisa para ver amanhã! Jantamos um caldo e voltamos cedo porque o Fábio tem que sair cedo amanhã. Vou sentir saudades de você… tiamomuito!

Orientando o Jonas.

Congonhas vista da Basílica do Senhor Bom Jesus.

Em frente à Basílica.

A Romaria….

… e como é lá dentro.

Pose para uma foto.

E uma minha tirada lá da Basílica.

A estrada para Ouro Preto-MG, muito agradável…

Cheia de curvas que rasgam a serra…

Cercados por serras…

Chegada no centro de Ouro Preto-MG.

Museu da Inconfidência (Ouro Preto-MG)

Mais um pouquinho da cidade.

A Grande Viagem – Dia 19 (segunda-feira  – 14/01/2008)
Distância percorrida: 651 km
Distância acumulada: 6.026 km
Trecho: Ouro Preto-MG a Linhares-ES
Tempo de viagem: 11 horas
Odômetro ao final: 26.511 km

FÁBIO: De Ouro Preto-MG até Vitória-ES, a estrada continua linda. As matas vão raleando, mas as serras parecem que ficam mais altas. Se eu soubesse, teria programado uma parada aqui, para fazer o passeio até o Pico da Bandeira. Continuo fazendo curvas mal. Não sei o que é. Tudo vinha bem até uns três dias atrás. Mas agora, nas curvas de descida da serra, muitas vezes me sinto pressionado por carros. O pneu Sirac 130, já com 11.000 km, está bastante gasto. Principalmente no centro. Está quadrado. Será que é porque não estou inclinando muito nas curvas? Mas mesmo assim estou curtindo a viagem de hoje, a estrada compensa minhas deficiências. Às vezes parece que o aprendizado anda para trás. Paciência, gafanhoto, paciência.

A Renata ficou em Ouro Preto-MG. O plano é nos encontramos em Salvador-BA na quarta-feira.

Chegando em Vitoria-ES tive a visão do inferno. Nunca vi tantos caminhões na minha vida. Tinha pensado que todos os caminhões fossem ao nordeste pela Rio-Bahia (BR-116), e não pela BR-101. Acho que me enganei.

Encontrei o Heráclito em Vitória. Grande cara, muito tranqüilo. Fomos juntos, ele na sua motard, encontrar o Waltinho lá em Linhares-ES. No meio do caminho vemos um louco de moto, ao lado da pista, balançando o braço. Era o Waltinho, no arco Zen da estrada. Lugar clássico para tirar fotos. Waltinho é outro grande cara, mas atirado que o Heráclito. O maior (único) perigo que passei até agora foi lá. Deixei a máquina do outro lado da estrada para focar nós três. Pensei que a pista fosse local, sem trânsito. Coloquei o timer e saí correndo. Quase fui atropelado (bem, é exagero, mais não fui atropelado por pura sorte). Para ver que esse negócio de religião é perigoso!

Paramos em uma lanchonete para tomar um caldo de cana. Lá comentei com o Waltinho que não tinha visto o mar ainda nesta viagem, mesmo depois de 6.000 km. É para já, respondeu. Fomos até Aracruz-ES para ver o bicho. Neste trecho passei pelo melhor asfalto de toda a viagem. Bom andar em grupo novamente. Não consegui acompanhar os dois nas curvas, mas pelo menos tinha uma referência de velocidade. Andar sozinho às vezes causa isso, você não tem mais referência do que é uma velocidade segura. Às vezes anda muito rápido, às vezes muito devagar.

Tiramos umas fotos na praia. Ao ligar a moto, ouvi um barulho estranho na marcha lenta. Meio parecido com o barulho do descompressor. Sei lá, às vezes a moto faz alguns barulhos diferentes depois de andar muito tempo em alta rotação.  Fomos até Linhares-ES, na oficina do Fernando, amigo do Waltinho, para trocar o óleo. Lá ouvi o barulho de novo. O Waltinho também achou estranho. O Fernando foi logo diagnosticando: é o tencionador (regulador do tensor da corrente de comando). Depois de uma discussão sobre vantagens e desvantagens dos sistemas de mola (original) e de catraca (paralelo), encomendamos um de catraca. Por sorte um rapaz de alguma moto-peças ainda estava por lá e trouxe a peça. No problema, tudo trocado e o barulho foi embora.

Aqui aconteceu uma coisa diferente. No meio da estrada, tive que decidir se confiava ou não em um mecânico desconhecido. Você tem três escolhas. Confia e faz a troca, não confia e segue viagem porque é só um barulhinho ou procura uma outra oficina. Bem, o cara é mecânico de confiança do Waltinho e ele próprio tem uma Falcon. Não vi motivo para não confiar.

Depois fomos jantar no restaurante que fica embaixo do hotel. Comemos pizza e tomamos cerveja. Conversamos sobre motos, casamentos, viagens, trabalho etc. Como os velhos amigos fazem. Bebi um pouco mais da conta. Tudo bem.

Uma parada em Mariana-MG para tirar fotos.

A estrada continua linda, serras imensas.

Formações rochosas.

Um mar de montes a perder de vista.

Eu e o Heráclito chegando no Portal Zen.

Foto clássica.

Voltando a ver o mar depois de 6.000 km.

Encontramos esse “maluco”, vindo do Alaska de Traxx.

Trocando o óleo e o tensor.

Amigos em Linhares-ES. Heráclito, Fábio e Waltinho.

RENATA: Hoje o Fábio saiu bem cedo para Linhares-ES. Tomei café da manhã com ele e dei mais um cochilo. Fui para o centro da cidade a pé. Hoje o dia foi reservado só para ir à feirinha de pedra sabão e nas lojas de artesanatos (quase todas), adorei! Comprei o que pude porque qualquer caixinha maior é um peso danado! Almocei no mesmo restaurante de ontem e depois de satisfeita com as compras comprei alguns pães de queijo (de-li-ci-o-sos, os mais gostosos de todo o estado de Minas) para o jantar e voltei para a pousada. Como a pousada não fica no centro, não quis voltar à noite da cidade. Falei com o Fábio em Linhares-ES e está tudo bem.

Uma amostra da Feirinha de Pedra Sabão. Maravilha, tem muita coisa linda, pena que a gente não agüenta o peso!

A Grande Viagem – Dia 20 (terça-feira – 15/01/2008)
Distância percorrida: 679 km
Distância acumulada: 6.705 km
Trecho: Linhares-ES a Ilhéus-BA
Tempo de viagem: 9 horas
Odômetro ao final: 27.190 km

FÁBIO: Saí de Linhares-ES às 07:30 da manhã. O Waltinho foi até o hotel para me escoltar à estrada.  Como eu tinha previsto no começo da viagem, este trecho foi o mais chato de todos. Nada para se ver na estrada, tráfego e buracos. Além disso, peguei muita chuva. Para piorar, foi daqueles dias em que você arrisca ficar um pouco na chuva sem a capa, se dá mal e se molha todo. Depois pára para por a capa. Anda um pouco e o sol aparece. Quando tira a capa, a chuva volta. Maravilha!

Fui pela BR-101 até Santa Luzia-BA. De lá, virei para leste e fui ver o mar novamente. Estrada muito gostosa, curvas, subidas, descidas. Quando parei para reabastecer, o dono do posto me levou até os fundos para me mostrar o cacau. Embora não seja época, tive sorte de encontrar um maduro para experimentar. Muito bom. Mas se come a polpa, não a semente que depois vai virar chocolate.

Depois de uns 40 km encontrei o mar e virei novamente para o norte. Praias lindas. Principalmente próximas a Olivença-BA. Uma mistura de Maragogi-AL com Porto de Galinhas-PE.

Vou passar a noite aqui em Ilhéus-BA, que é uma cidade das minhas: história misturada com povão na rua. Jantei no Vesúvio, restaurante clássico da época dos Coronéis do Cacau. Tomei um sorvete de chocolate, delicioso. Agora pouco conversei com o Rad e a Irene, lá em Salvador-BA, pelo MSN. Fiquei um tempão. Estou com saudade da Renata. Amanhã nos encontraremos em Salvador-BA.

Na saída de Linhares-ES. Chuva.

Aqui por perto, segundo as placas, fica o tal do Monte Pascoal. Não sei se é um desses ou se é todo o complexo rochoso. Mas a foto ficou bonita…

Vi e experimentei cacau pela primeira vez. Muito bom.

Vendo o mar novamente, perto de Canasvieiras-BA.

As praias de Olivença-BA são lindas.

Mais um pouco de Olivença-BA.

Resolvi pagar um pouco mais na pousada (R$ 80,00 para um quarto de solteiro com AC e frigo), mas a vista compensou.

O famoso Vesúvio.

RENATA: Bem, hoje o dia foi reservado para conhecer alguns pontos turísticos que achei mais interessantes. Visitei o Museu da Inconfidência, várias Igrejas, um dos Museus do Aleijadinho, o Teatro de Ópera e a Casa de Contos. Almocei no mesmo restaurante de sempre (não me lembro do nome) na Rua Direita. Também comprei pão de queijo para o jantar, desse eu vou sentir saudades! Voltei cedo para a pousada. Descobri que tem um passeio para uma antiga mina de ouro em Mariana-MG, e resolvi comprar minha passagem para Belo Horizonte-MG só às 15h para fazer o passeio. O Fábio já está em Ilhéus-BA, me fazendo inveja da vista que ele tem do quarto dele.

Teatro de Ópera, o mais antigo em funcionamento da América Latina.

Mais Teatro de Ópera… lá de dentro.

Mais … adoro teatro!

A Grande Viagem – Dia 21 (quarta-feira – 16/01/2008)
Distância percorrida: 545 km
Distância acumulada: 7.250 km
Trecho: Ilhéus-BA a Salvador-BA (com bate-volta em Itacaré-BA)
Tempo de viagem: 9 horas
Odômetro ao final: 27.735 km

FÁBIO: O trecho de hoje era pequeno, uns 400 km. O Rad e a Irene só estariam livres às 17:00 e a Renata iria chegar só às 23:00. Não tinha pressa nenhuma. Aproveitei para conhecer Itacaré-BA. Praias lindas, mas aquele ar de caça-turistas que senti em Lençóis-BA. Voltei para Ilhéus-BA e segui para Salvador-BA.

De Ilhéus-BA para Salvador-BA você tem 3 opções. Seguir a BR-101, rodeando a Baia de Todos os Santos. Ir pela BR-101 até Santo Antonio de Jesus-BA e depois entrar para leste rumo a Itaparica-BA, de onde se pega o Ferry Boat. Ou sair da BR-101 em Travessão-BA e ir direto para Itaparica-BA. Escolhi a terceira opção e não me arrependi. Melhor estrada que peguei até aqui do ponto de vista técnico. Curvas, subidas, descidas.

Um pouco de teoria. Para se fazer uma curva de moto, é preciso deslocar o centro de gravidade combinado para a parte de dentro da curva. Existem basicamente duas formas de se fazer isso: a) tombando a moto ou b) inclinando o corpo (“body english”). Na realidade não se usa apenas uma técnica, mas a combinação das duas. A vantagem do “body english” é um ajuste mais fino, a desvantagem é seu efeito relativamente pequeno.

Um pouco de prática. Eu ainda estava mal nas curvas. Daí tentei mais uma vez observar o que estava fazendo. Estava entrando nas curvas com “body english”. O problema é que na Falcon você não sai completamente do banco como em uma esportiva. O “body english” é feito só com a parte superior do corpo. Desta forma, você fica meio limitado nas curvas. Quando estava no meio de uma curva mais fechada, acabava o efeito do “body english” e não conseguia mais inclinar o CG. Quando tentava virar o guidon, no meio da curva, meu braço estava travado pelo movimento do tronco. Quando percebi isso, foi fácil resolver. Era só uma questão de entrar na curva com o guidon e, então, fazer o ajuste fino com o corpo. Ah… as curvas voltaram a ser gostosas.

Engraçado, de forma imperceptível, durante a viagem comecei a entrar nas curvas com o corpo, daí meu braço travava para aumentar a inclinação. Não tinha percebido isso no início porque andei em estradas com grandes retas (Pernambuco e Minas, na ida) ou devagar por causa dos buracos (Bahia). Quando precisei novamente de curvas (Minas, na volta), o defeito de pilotagem já tinha se instalado.

Os 150 km da estrada de Camumu-BA, com a pilotagem corrigida, já foram suficientes para gastar as laterais do pneu novamente.

Em Itamaracá-BA peguei o Ferry Boat até Salvador-BA. É uma viagem de uns 45 minutos. Eu conhecia Salvador-BA, mas só entre o aeroporto e o Pólo de Camaçari. Chegar em Salvador-BA pelo Ferry Boat é inesquecível. Parece que você está em um filme.

Já em Salvador-BA, segui as instruções por celular do Rad para chegar em Lauro de Freitas-BA, onde ele me encontraria na rua. No meio do caminho o telefone tocou, parei para atender… nisso aparece um louco de XT acenando. “Hei, você não é o Fábio?”. Era o Marcel, que sabia da minha vinda e tinha me encontrado no caminho. Cara super gente-fina. Me acompanhou até o lugar onde estava o Rad. De lá, fomos todos buscar a Irene no trabalho (sua moto estava na manutenção). Nos despedimos do Marcel. Mais tarde, fomos todos buscar a Renata no aeroporto. Não nos víamos já a três dias. Saudades. Amanhã vamos decidir se vamos conhecer o centro da cidade ou as praias ao redor. Agora vamos descansar.

Chuva no início do dia.

Itacaré-BA.

Mais Itacaré-BA.

Segundo a placa, o mais bonito cartão postal da Bahia. Deve ser, é a capa do Mapa Quatro Rodas 2006. Pena que o tempo estava chuvoso.

Na ida para Salvador-BA, uma bela estrada na mata. Não consegui distinguir a estrada vicinal da BR-101.

O Ferry Boat vindo de Salvador-BA.

A vista de Salvador-BA, quando se chega por Ferry Boat, é grandiosa.

Uma outra visão da Baía de Todos os Santos.

RENATA: Acordei cedo porque tinha que pegar o ônibus para Mariana e fazer o passeio na Mina da Passagem. Ela tem esse nome porque fica numa passagem entre Mariana-MG e Ouro Preto-MG. Foi legal para ter idéia de como era explorado o ouro. A gente desce, acompanhado por um guia, até a mina por um carrinho e depois fica caminhando lá embaixo. As dimensões são impressionantes: os vão têm uns 4m de altura e de largura, o comprimento da mina é de 30 km e sua área fica em torno de 11 km2. Hoje não existe mais exploração, ainda tem ouro nas rochas, mas numa quantidade muito pequena e a extração não é viável. Deu tempo de chegar antes das 12h na pousada. Fui para a rodoviária fazer um lanche e esperar o ônibus. A viagem foi tranqüila e rápida, pois a distância para Belo Horizonte é só de 100 km. Peguei um ônibus até o aeroporto de Confins-MG, fiz o check-in, jantei, comprei dois livros e fiquei lendo até o embarque às 22:18h. O vôo foi bom e não teve barra de cereal no lanche! Quando cheguei em Salvador-BA o Fábio foi me buscar no aeroporto com o Rad e a Irene. Conversamos um pouco quando chegamos em casa e eles nos sugeriram pegar uma praia porque amanhã é o dia de Nosso Senhor do Bonfim e o centro da cidade vai ter carnaval. Vamos decidir ainda. Estavam os quatro cansados (Rad e Irene vão trabalhar amanhã) e eu e Fábio por causa das viagens.

A entrada para a mina.

A entrada da mina lá embaixo.

Como é lá dentro da mina. A gente desce nesse carrinho aí.

Para mostrar que estive lá.

A Grande Viagem – Dia 22 (quinta-feira – 17/01/2008)
Dia de passeio em Salvador-BA
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 7.250 km
Odômetro ao final: 27.735 km

FÁBIO: Decidimos conhecer o centro da cidade. Era dia de Nosso Senhor do Bonfim. As ruas estariam cheias, mas resolvemos arriscar. Pegamos um ônibus e chegamos perto do Mercado Modelo. Estava acontecendo uma espécie de carnaval de rua, sem trio elétrico. Coisa normal para quem é de Recife-PE. Passamos pelo Mercado Modelo, subimos o Elevador Lacerda e fomos até o Pelourinho. Lá, resolvemos visitar uma outra igreja da Ordem Terceira de São Francisco. O curador de lá, ou algum outro cargo importante, foi com a nossa cara e passou horas explicando tudo. Quem tinha pintado o que, as várias etapas da construção, a reforma do órgão, as falhas propositais nos santos do pau oco, etc etc. Muito legal mesmo.

Resolvemos gastar um pouco mais, pois a viagem estava chegando ao fim, e matamos uma Moqueca de Camarão (R$ 50,00). Foi a única vez que nos excedemos nos gastos assim.

À noite fomos com o Rad e Irene até um barzinho, encontrar os seus amigos. Um ambiente maravilhoso. São oito casais, em sete dos quais os dois têm moto. Todo mundo com muita experiência e alegria em andar de moto. Ouvi muitas histórias e nem vi o tempo passar. Fico um pouco triste por não ter conseguido construir um ambiente assim em Recife-PE. O pastel de camarão, então, simplesmente fantástico. Uma noite inesquecível. Simples e verdadeira, como todas deveriam ser.

Hoje é o último dia de viagem para a Renata. Daqui ela vai para Recife-PE.
Elevador Lacerda.

Palácio do Governo (ou algo assim…)

Mercado Modelo.

Um forte redondo no meio do mar! Incrível. Pena que não deu tempo para visitarmos.

Elevador Lacerda.

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco.

Vista da cidade alta.

Órgão que logo será restaurado.

Pelourinho.

Grandes amigos de Salvador-BA.

RENATA: Hoje fizemos a opção de conhecer o centro de Salvador-BA ao invés de ir para uma praia. Demos sorte porque pegamos um ônibus bem pertinho da casa do Rad e da Irene em Lauro de Freitas-BA que desceu no centro. Caminhamos um pouco, passamos pelo meio dos blocos e chegamos no Mercado Modelo. O mercado é muito bonito, pena que não deu para visitar. Paramos para comprar bonés pra gente (que calor!) e subimos o elevador Lacerda. Que vista maravilhosa lá de cima! Decidimos que íamos passar somente no Pelourinho. Fomos lá e vimos uma igreja que nos chamou atenção. Era da ordem terceira de São Francisco. Lá conhecemos um senhor que dirige a igreja e parou por mais de uma hora para nos mostrar a igreja, seus detalhes e obras de arte. Paramos para almoçar uma moqueca de camarão. Como não tínhamos muito tempo, voltamos para casa depois do almoço e descansamos um pouco.  À noite, o Rad e a Irene reuniram alguns amigos para nos conhecer e outros para nos reencontrar. O encontro foi muito alegre e leve, as pessoas têm uma energia muito boa. Quando chegamos em casa ficamos conversando um pouco com o Rad e a Irene. Obrigada vocês dois, amigos do coração, por terem compartilhado a casa, o Mad Max e o tempo de sono para ficar conversando. Depois arrumamos as nossas bagagens (eu volto amanhã para Recife-PE e Fábio vai para Penedo-AL).

A entrada do elevador Lacerda lá da cidade alta.

Uma pose perto do elevador Lacerda.

Agora o Fábio.

O Pelourinho.

O pátio interno da igreja da ordem terceira de São Francisco.

Parada para um descanso…

O restaurante onde almoçamos.

A baiana que nos serviu a moqueca.

Renata e Fábio.

Os capacetes da galera na cerca do restaurante.

O Casal 20!

A Grande Viagem – Dia 23 (sexta-feira – 18/01/2008)
Distância percorrida: 450 km
Distância acumulada: 7.700 km
Trecho: Salvador-BA a Penedo-AL
Tempo de viagem: 8 horas
Odômetro ao final: 28.185 km

FÁBIO: Deixamos a Renata no aeroporto, rumo a Recife-PE, e segui viagem para Penedo-AL. Hoje também não tenho muita pressa para chegar, já que o Adelson e a Ana vão estar trabalhando durante o dia. Na Estrada do Côco, fui conhecer a Praia do Forte-BA. Pareceu ser legal e calma, mas passei bem pela manhã. Na volta da praia, passei no Castelo D’Ávila. Segundo a história, é o único castelo do estilo feudal no Brasil. Todo restaurado, colocaram umas passarelas de chapa de aço para andarmos pelo primeiro andar. Bem, eu estava sozinho no castelo, com bota, joelheira, jaqueta com cotoveleiras, protetores de peito, costas e ombros. O som das botas contra as chapas de aço retumbava no castelo solitário. Me senti um próprio cavaleiro, com sua armadura, chegando em seu castelo. Adorei a sensação.

Chegando em Sergipe, resolvi seguir o caminho mais complicado. Passar por duas balsas até Aracaju-SE. Valeu a pena. Passei perto de Mangue Seco. Visual muito bonito da região. Nas duas balsas, cheguei bem na hora que estava saindo. No problema. Continuo fazendo bem as curvas, sempre me concentrando em primeiro usar o guidon, e só inclinar o corpo já dentro da curva.

Não tive uma impressão muito boa de Aracaju-SE. Passei batido, talvez seja o calor. A região entre Aracaju-SE e a divisa com Alagoas também não é muito legal. Não sei porque, mas não gostei.

Cheguei mais uma vez ao São Francisco. Já tinha cruzado o rio em Petrolina-PE e Pirapora-MG na ida. Na volta tinha nadado na sua nascente. Agora seria a última vez que teríamos contato. Amanhã vou até a foz.

Cruzei o rio com a balsa. Em Penedo-AL encontrei o Adelson e a Ana. Conversamos bastante, baixei fotos da máquina e postei no FOL. À noite comemos uma pizza. Considero o Adelson e a Ana, juntamente com o Rad e a Irene, como os meus padrinhos no motociclismo. Nunca vou me esquecer quando nos conhecemos aqui mesmo em Penedo-AL, no carnaval do ano passado, e me trataram como um velho amigo e com o respeito que só um grande motociclista teria merecido. Foi muito emocionante ouvir o Adelson falando: “um ano atrás o Fábio veio se arrastando de Recife até aqui, mal passando dos 60 km/h, hoje ele está voltando de uma viagem de 8.000 km”.

Praia do Forte-BA

Castelo D’Ávila, Praia do Forte-BA. O próprio cavaleiro voltando das cruzadas.

Mais Castelo D’Ávila.

Balsa perto de Mangue Seco.

Linda vista próximo a Mosqueiro-SE.

Ponte nova de Aracaju-SE.

Farol em Aracaju-SE.

Ao norte de Aracaju-SE a vegetação fica meio desolada. Será que é o calor que me desanima?

Me preparando para cruzar o São Francisco pela última vez nesta viagem. Penedo está do outro lado.

Chegando em Penedo-AL.

RENATA: O meu vôo de volta para Recife-PE estava marcado para 09:55h. O Fábio e o Rad me deixaram no aeroporto. Até aí tudo bem, em alguns dias da viagem eu e o Fábio nos despedimos, mas sabíamos que iríamos nos reencontrar. Cheguei em Recife-PE quase 12h e fui direto para casa. Almocei com Madrinha e descansei um pouco à tarde. Falei com o Fábio à noite, ele já está em Penedo-AL e vai fazer o passeio até a foz do rio São Francisco amanhã com o Fred. Estou com muitas saudades…

Fábio e Rad no aeroporto de Salvador-BA quando foram me deixar.

A Grande Viagem – Dia 24 (sábado – 19/01/2008)
Dia de passeio na Foz do São Francisco
Quilometragem: 65 km
Distância acumulada: 7.765 km
Odômetro ao final: 28.250 km

FÁBIO: Hoje fui conhecer a famosa Foz do São Francisco. É um ciclo que se fecha. Não fiz esse passeio no ano passado. Mas a sua ausência ficou martelando em minha mente o tempo todo. Tinha que fazer o passeio. Mas, antes, tinha que provar que era merecedor. Andei 7.500 km de moto, praticamente sozinho, fui até à sua nascente. Agora estava pronto.

O Adelson e a Ana foram me levar até Piaçabuçu-AL, de onde saem os barcos para a foz. O Fred e a Lídia já estavam lá. Tudo é muito interessante. Nesta viagem, estou encontrando as mesmas pessoas que encontrei na viagem do ano passado.

Depois de uma discussão infrutífera para diminuirmos o preço do passeio, pegamos o barco. Mais ou menos uma hora para descer, uma hora lá e uma hora para subir.

Assim como no caso da Serra da Canastra, não vou tentar descrever a grandiosidade deste momento. Mas, tem uma certa diferença. Esta vinda à foz representa algo em minha vida, como o fim de um ciclo e o recomeço. Mas externamente, digamos assim, a foz não é tão impressionante como a Canastra. É bonito, decerto, mas como são a Chapada Diamantina, Itacaré, Tiradentes etc. O lugar me tocou por ser o final da viagem, mas não houve nenhuma sintonia com o lugar. Não tenho ganas por voltar e conhecer melhor. Fui lá, gostei, foi importante. Mas que fique na memória.

O barco não vai exatamente até o encontro das águas. Mas dá para ver o lugar. Me senti realizado e com o sabor do dever cumprido. Que venha a nova vida agora.

Voltamos de barco até Piaçabuçu-AL, sonolentos agora. O Fred e a Lídia voltaram para Maceió-AL. Tentaremos nos encontrar no almoço lá amanhã. Na volta à Penedo-AL, passei no Rocheira para comer jacaré. Bomzinho, mas nada de excepcional.

Voltei para casa e despenquei no sono. Quando levantei, ouvi um barulho de pressurizador de água: o Adelson estava lavando a minha moto. Isso sim é que é honra, ter a moto lavada por um rider de primeira. À noite, ainda em Penedo-AL, fomos até um churrascão que um dos amigos do Adelson estava promovendo para os seus funcionários. Conheci vários integrantes do moto clube de Adelson por lá.

À noite a Renata ligou para mim, de Recife-PE, dizendo que queria de todo jeito fazer o final da viagem comigo. Fiquei muito contente. Ela vai pegar o ônibus amanhã de manhã e nos encontraremos em Maceió-AL na hora do almoço.

Barco que nos levou até à foz.

No caminho.

Ainda no caminho, feliz.

Quase chegando lá. Some o manque e começam as dunas.

O encontro das águas. Esse é o ponto mais próximo que os barcos chegam.

A foz vista completamente. Alagoas à esquerda e Sergipe à direita. Dizem que esse trecho, há 500 anos atrás, chegou a ter 10 km. O rio entrava 18 km dentro do mar. Hoje é o contrário, a água do rio está ficando salobra. Os locais dizem que isso aconteceu depois da construção das barragens.

Ponto de parada dos barcos. Dá para ver o encontro lá atrás.

De novo, a foz.

Fábio na foz.

Fred e Lídia na Foz:

Piscinas naturais nas dunas.

Barquinhos…

Dunas…

As vacas comem em um lugar distante e vêm tomar água no rio. Alguns turistas ficaram impressionados com a sua magreza. Mas, quem sabe elas não fazem um grande esforço nas caminhadas para se manterem esbeltas assim?

Voltando, realizado.

Última visão do São Francisco, depois de ter comido um jacaré na Rocheira.

RENATA: Hoje o dia foi meu esquisito. Sei lá… uma sensação de estar faltando alguma coisa. Resolvi algumas coisas de casa e fui matar a saudade do meu sobrinho gostosíssimo Guilherme (muito fofo!). À tarde liguei pro Fábio dizendo que amanhã logo cedo vou para Maceió-AL e voltar com ele. Queria terminar a viagem com ele. Vou dormir mais tranqüila. Tiamomuito, viu?

A Grande Viagem – Dia 25 (domingo – 20/01/2008)
Distância percorrida: 438 km
Distância acumulada: 8.203 km
Trecho: Penedo-AL a Recife-PE
Tempo de viagem: 9 horas
Odômetro ao final: 28.868 km

FÁBIO: Marquei encontro com a Renata às 12:00 lá em Maceió-AL. Último dia de viagem, estrada conhecida. É como se já estivesse em casa. Cuidado, é aqui que o piloto relaxa…

Me despedi do Adelson e Ana e segui viagem.

Até Maceió-AL tudo tranqüilo. Chegando lá, peguei a Renata na rodoviária e fomos até a praia almoçar com o Fred e a Lídia.

O último trecho da viagem foi muito movimentado. Domingo de férias, pessoal voltando das praias. Acho que andei mais na contra-mão, ultrapassando, do que na minha pista mesmo. Muito movimento. Chegamos cansados e um pouco irritados em casa. Este último trecho de 270 km com movimento foi terrível. Para ajudar, estão fazendo uma obra perto de Recife-PE. Todos os carros parados. A poeira sujou completamente a minha viseira. Tive que vir com o capacete aberto até em casa para enxergar alguma coisa.

Fiquei bastante contente com este trecho porque, mesmo andando pesado, minha pilotagem tinha melhorado muito. Inclusive nas curvas. Antes eu sentia uma certa dificuldade em fazer curvas com a Renata. Mas agora, entrando com o guidon e só fazendo o body english depois, ficou muito fácil. A Renata depois disse que ficou um pouco com medo, porque eu estava andando mais rápido que o normal.

Mas acho que é isso mesmo, depois de 8.200 km, impossível não ter aprendido uma coisa ou outra. Uma das principais lições foi não colocar a luva no tanque, e sim no painel. Perdi a conta de quanta vezes tive que me esticar para pegar a luva no chão.

Não queria que a viagem terminasse. Poderia passar a vida inteira assim. Viajando de moto, encontrando pessoas, comendo coisas diferentes e conhecendo lugares. Quem sabe não ganho na loteria?

Despedida do Adelson e da Ana.

Velha conhecida.

Mirante do Gunga.

A motinha quase de volta à sua terra.

Maceió-AL.

Mais Maceió-AL.

Almoço com o Fred e a Lídia, em Maceió-AL.

A última despedida. Depois fomos para casa.

RENATA: Hoje acordei bem cedinho e pegar o ônibus para a rodoviária. Apesar de morar perto da rodoviária, os ônibus demoram a passar. Saí de Recife-PE às 8:15h e cheguei em Maceió-AL às 12:20h. A viagem foi boa. Depois que viajei quase 34 horas entre Bahia e Minas, essa de hoje foi fichinha. O Fábio já estava me esperando na rodoviária. Fiquei muito feliz de reencontrá-lo. Fomos direto almoçar com Fred e Lídia, num restaurante na beira-mar de Ponta Verde, muito agradável. Almoçamos e seguimos viagem. Pode parecer bobagem eu ter ido para Maceió-AL, numa viagem de 4 horas, ficar só duas horas parada e voltar com o Fábio de moto, e mais 4 horas de viagem. Mas foi muito importante estarmos juntos nesse momento final. Cheguei em casa realizada.
A Grande Viagem – Equipamentos, roupas e acessórios Aqui vai uma lista do que levei na viagem.

FÁBIO:

Moto:
Honda Falcon NX4 400cc – ano 2006, modelo 2007, prata
Quilometragem no início da viagem: 20.485 km
Todas revisões feitas na Honda, de 3.000 em 3.000 km.

No corpo:
Calça jeans
Cinto
Meia, cueca e camiseta
Bota
Jaqueta com proteção nos cotovelos, ombros, peito e costas
Luva e joelheira
Capacete escamoteável
Lenço
Mapas (escaneei o mapa 4 rodas em pequenos pedaços)
Ficha de anotação de consumo e gastos
Caneta e bloco de anotação
Carteira falsa (com documentos xerocados) e celular
Câmara e tripé.
Mp3 e calculadora
Pochete escondida (com dinheiro e documentos verdadeiros).

No bauleto:
Óleo SAE 90 para lubrificar corrente
Capa de chuva
Papel higiênico
Água
Saco de couro (para eventualmente levar bagagem no banco)
Aranha e elásticos extras
Boné
Protetor solar
Kit de primeiros socorros
Bolsa com dinheiro, cheque, carregador do celular, carregador da câmera, cabos, chaves extra e óculos extra.
Pochete grande (para caminhadas)

Nos alforjes:
Livro
Informações sobre pousadas
Dez conjuntos (cueca, meia e camiseta)
Camisa de manga leve e calça leve
Tênis e chinelo
Sunga e toalha
Caderno e caneta
Dois lenços extras
Dois conjuntos de roupa de dormir
Bolsa de produtos de higiene
Saco de roupa suja
Chaves de fenda, alicate, chave 24mm, arame, fio de cobre e fita scotch
Câmaras dianteira e traseira, tire pando
Chaves extras
Sacos de plástico

Equipamentos da moto:
Pneus Sirac
Jogo de ferramentas original
Protetores de mão com alma de alumínio.
Bauleto Givi 45 l
Bagageiro reforçado Roncar
Afastador de alforje genérico
Alforjes Front Side
Antena corta-pipa telescópica
Manoplas circuit (mais confortáveis).
Bolha Motovisor
Tire-Seal Motovisor

Detalhes:
Bauleto envolto por aranha.
Alforjes fixados com elásticos
Corrente lubrificada diariamente
Pneu calibrado de dois em dois dias

Primeiros Socorros:
Iodo e soro fisiológico
Tesoura
Esparadrapo, band-aid, gaze e atadura
Tandrilax, dipirona e benegripe
Bepantol
Cataflan
Calminex
Hidratante
Manteiga de cacau
Termômetro
Albicon

Higiene:
Xampu + condicionador
Sabonete e desodorante
Escova de dente
Pasta de dente + fio dental + enxag.
Lâmina barba
Protetor solar +  Repelente
Cotonete
Cortador de unha
Protetores

A Grande Viagem – Análise Técnica Agora que a viagem é finda, podemos fazer algumas análises do que deu certo ou errado, ou do que poderia ter sido feito diferente.

FÁBIO:

A preparação física – natação quatro vezes por semana – foi válida. Não senti dores ou cansaço na viagem. Mas talvez tivesse cansado se tivesse feito trilhas a pé maiores,. Na próxima pretendo, além de continuar a natação, fazer mais corridas com o intuito de baixar o peso e ganhar resistência para caminhadas.

Na próxima tentaremos gastar menos. Às vezes escolhemos pousadas às pressas para ter tempo para passear. Também temos um fraco por comida e às vezes acabamos nos excedendo nos restaurantes. Comi demais (ah… comida baiana, mineira, paulista, pernambucana etc etc) e ganhei 4 quilos na viagem.

No decorrer da viagem fui perdendo o receio de parar na estrada para tirar fotos (pois estava sozinho, muitas vezes em locais ermos). Mesmo assim, tiramos 1071 fotos e fizemos 136 filminhos. De qualquer forma, tenho que aprender a tirar foto em movimento, arranjar algo para amarrar a máquina no peito (para não precisar parar e tirar a luva toda hora). Mas, principalmente, quero ver se estudo um pouco de fotografia, pois é frustrante não conseguir expressar a vastidão de um vale ou a altura de uma montanha.

Não me arrependi da roupa que levei. Jaqueta leve, mas com muitas proteções. Passei frio em alguns momentos, mas poderia ter colocado a capa de chuva por cima se quisesse. Como a maior parte da viagem foi no calor, a jaqueta foi fantástica. O uso do capacete escamoteável também foi uma escolha muito boa. Podia tranqüilamente pedir informações e conversar ao longo da estrada. Quanto às joelheiras, não usei, mas não me arrependi. Acho que não fariam grande diferença em uma queda grande. Mas, se tivesse caído devagar lá nos buracos da Bahia, andando a 10 km/h, um esfolado no joelho poderia ter sido a diferença entre continuar ou não a viagem. Vou continuar usando.

Um problema da roupa toda protegida é que causa um pouco de distanciamento com as pessoas de cidades pequenas. Você parece um alien quando chega. O uso de calça jeans ao invés de uma de cordura diminui um pouco o impacto visual. Mas acho que o uso de roupa completa é um bom preço a se pagar. Por um lado você tem segurança e por outro às vezes é bom causar um certo medo, principalmente quando se viaja sozinho. É claro que se perde, às vezes, a oportunidade de uma boa prosa. Mas não se pode ter tudo.

Os pneus SIRAC (que duraram 11.000 km comigo) gastaram quase do mesmo jeito que os Pirelli originais (duraram 15.000 km comigo), levando-se em conta que viajei mais com o SIRAC do que com os Pirelli.

Durante a viagem queimaram três lâmpadas do painel (talvez já estivessem queimadas antes e eu não tivesse percebido, já que dificilmente ando à noite em estradas escuras) e o regulador do tensor da corrente de comando começou a fazer barulho (quase imperceptível, que se confundia com o ruído do descompressor). Na viagem, troquei o original por um de catraca lá em Linhares-ES. Logo ao chegar em Recife (uns 2.000 km depois), o regulador de catraca quebrou novamente (fazendo um barulho assustador agora). Troquei pelo original novamente. Até agora tudo bem. Por essa experiência muito específica, da qual não deveria tirar conclusões, fiquei um pouco inclinado a confiar mais nas peças originais da Honda. Ainda bem que guardei a tensor que tinha quebrado. O que eles vendem na Honda vem sem a tampa (parafuso e junta metálica). Segundo os mecânicos, é difícil conseguir esses componentes. Como nada é perfeito, o pessoal da Honda montou o escape errado. Na parte do silenciador, eles prenderam o escape na parte de dentro, não da de fora. Com isso, o escape começou a pegar no pára-lama e no pneu traseiro. Pelo menos foi fácil de descobrir, já que o afastador de alforje serve como referência de distância. Descoberto o problema, fácil de resolver. Mas é o tipo de coisa que pode passar batida em uma viagem até que o pneu fure no meio do nada. Nada como a velha inspeção visual antes de sair de casa, procurando por qualquer coisa estranha.

Não gostei nada da revisão da Honda em Adamantina-SP. Estou acostumado a fazer revisões na Honda de Recife-PE a cada 3.000 km. Na próxima viagem, acho que vou fazer uma grande revisão na saída. Durante a viagem, só troca de óleo (a cada 2.000 km), de filtro de óleo (a cada 4.000 km) e inspeções no filtro de ar. Se for necessário, uma limpeza de carburador.

Bem, quando troquei o pneu, coloquei de novo o SIRAC ao invés do Pirelli 130 (estava o mesmo preço). Mas neste caso, tinha ficado impressionado com o SIRAC quando ele segurou a moto com o pneu furado, a 110 km/h (em uma viagem anterior a Caruaru-PE). Além disso o SIRAC traseiro é mais bonito que o Pirelli. Os dianteiros são iguais.

Devido aos buracos, o suporte inferior da bolha quebrou. No modelo que eu tinha o suporte era de plástico. No modelo que o Koiti me presenteou, o suporte é de arame. Acho que este novo será mais resistente.

Minha habilidade em curvas foi diminuindo durante a viagem. Depois que percebi isso, e comecei a observar o que estava fazendo de errado, melhorei novamente. É bom sempre estar atento a sua pilotagem. Não é bom achar que o progresso vem sempre automaticamente. Às vezes se anda para trás.

Por enquanto não apareceu nenhuma multa. Tomara que continue assim. Só fui parado uma vez, na Linha Verde, perto da Costa do Sauípe-BA. O guarda quis encrencar com a cor da minha moto, que segundo ele não era prata e sim preta. Falei para ele reclamar na Honda. O cara teve ainda que me ver abrindo as calças para tirar a pochete falsa com os documentos. É, guardinha, não se pode ganhar todas.

Embora não tenha sido possível mantê-los, na próxima viagem vou levar os cabos de acelerador e embreagem, lâmpadas, vela, kit para consertar pneu e manetes. Não pretendo levar tantas ferramentas como tinha me proposto originalmente. Principalmente por causa do peso, já que nesta viagem teríamos um carro de apoio. Acho legal ter peças e ferramentas, mesmo que não saiba usá-las. Sempre vai aparecer um motoqueiro na estrada com alguma experiência, ou um mecânico em uma cidadezinha. Mas eles não terão necessariamente ferramentas ou peças para a Falcon.

A Falcon é muito segura, confiável e confortável. Falta um pouco de potência, principalmente quando se usam alforjes.

É possível andar 1.000 km por dia em uma boa estrada. Mas o ideal é andar 600 km, porque a tarde pode ser usada para conhecer os lugares onde se para. Se a estrada for muito esburacada, acho que 600 km é uma boa medida.

Nesta viagem escolhemos parar pouco tempo em muitos lugares, com o intuito de visitá-los mais à frente caso valesse a pena. Também não tínhamos muita escolha, porque o nosso destino final, Osvaldo Cruz-SP, era distante. Por ter ficado pouco tempo, deveríamos ter contratado um guia para conhecer os locais. Principalmente na Chapada Diamantina. Quando se fica pouco tempo, se gasta muito tempo para se virar no lugar. Caso vá ficar mais tempo isso é legal, mas com pouco tempo perdem-se oportunidades.

Na próxima viagem vou dar menos ênfase para as preparações da moto e mais importância para informações turísticas. Também pretendo andar mais em cada dia. Normal que tenha sido o contrário na primeira grande viagem. Era a primeira vez.

A Grande Viagem – Algumas lembranças visuais: Não necessariamente os momentos mais importantes, mas algumas fotos que ficaram legais.

FÁBIO

Pôr-do-sol no São Francisco – Petrolina-PE – 750 km

Morro do Pai Inácio – Chapada Diamantina-BA – 1.500 km

Barra da Estiva-BA – 1.750 km.

Represa de Furnas – MG – 4.600 km

Pôr-do-sol na Serra da Canastra-MG – 4.700 km

Mirante da Cachoeira Casca D’anta – Serra da Canastra – 4.750 km.

Profeta de Aleijadinho – Congonhas-MG – 5.200 km

Estrada na serra de Ouro Preto-MG – 5.250 km

Ouro Preto-MG – 5.300 km

Olivença-BA – 6.700 km

Castelo D’Ávila – Praia do Forte-BA – 7.300 km

Foz do São Francisco-AL – 7.700 km

Maceió-AL – 7.900 km

RENATA: Essas são as imagens mais fortes na minha lembrança.

Chapada Diamantina-BA.

Chapada Diamantina-BA.

Lençóis-BA.

Osvaldo Cruz-SP.

Três gerações. (Osvaldo Cruz-SP)

Amigos do FOL. (Araçatuba-SP)

Avós. (Osvaldo Cruz-SP)

Família reunida para uma foto na saída da Joice. (Osvaldo Cruz-SP)

Pôr do sol lindíssimo na estrada para São Roque de Minas-MG.

Serra da Canastra (São Roque de Minas-MG)

Serra da Canastra (São Roque de Minas-MG)

Neblina na saída de São Roque de Minas-MG.

Esperando o trem, juntos. (Tiradentes-MG)

A viagem de trem. (Tiradentes – São João Del Rey-MG)

Num mirante da Serra da Canastra (São Roque de Minas-MG). Essa é a minha preferida.

A Grande Viagem – Últimas Palavras Isso que escrevemos foi só um resumão. O primeiro estágio da escrita de um texto, onde as palavras são jogadas no papel sem um segundo pensamento. Um grande rascunho. Não foi revisado nem editado. Têm muitas coisas repetidas, ordenamento discutível, pieguices (principalmente), fórmulas prontas, vírgulas em locais errados, erros de grafia, alguns problemas de concordância, esquecimentos etc. Quem sabe um dia reescrevemos. Não temos muito tempo disponível agora para refinar o texto. Então, tivemos que deixar do jeito que está, com o risco de esquecermos coisas importantes.

FÁBIO:

Infelizmente, não dá para descrever as mudanças interiores durante a viagem. Não há um ponto de mudança, a viagem é um todo. Gostaria que todos pudessem viver uma viagem assim.

Por que alguém se expõe deste jeito, escrevendo detalhes tão pessoais? Certamente, neste caso, não é para se fazer de vítima ou chamar a atenção. É uma homenagem a um tempo que se foi. É o fim de uma etapa. É o epitáfio de um ciclo. Que seja escrito para que não precise ser revivido. Acabou. Agora é só vida nova.

Quero agradecer a todos que ficaram acompanhando a viagem pelo FOL (meus amigos) e pelo BLOG (meus familiares). Adorei conhecer vários integrantes do FOL durante a viagem. Posso dizer que me sinto uma pessoa muito mais completa agora do que era antes desta viagem. De verdade mesmo, não teria feito isso sem o FOL e sem a minha família. Certamente aprendi muito sobre amizade durante esta viagem. Sempre que cheguei em algum lugar, normalmente suado e cansado, contando fatos irrelevantes, fazendo críticas impensadas etc, nunca me senti julgado. Sempre me senti aceito e ponto final. As pessoas (de Patos de Minas, Mirassol, Rio Preto, Osvaldo Cruz, Araçatuba, Araraquara, Três Lagoas, Ribeirão Preto, Linhares, Salvador, Penedo e Linhares), compartilharam o seu tempo, família, comida, auxílio, sem que eu precisasse dar nada em troca. Eu fui sempre recebido com grandes honras, não por ser isso ou aquilo, mas simplesmente por amizade. Aposto que fizeram isso naturalmente, sem perceber a intensidade com que me marcaram. Saio desta viagem com a certeza de que amigos não são pessoas que têm um relacionamento perfeito; amigos são aqueles que se amam, mesmo sendo imperfeitos.

Tenho uma porção de vídeos e livros sobre pilotagem, viagens e crônicas de motociclismo. Todos foram muito importantes para me motivar durante a preparação. Seus autores são pessoas excelentes, de quem aprendi muito. Pena que estejam tão distantes.

Eu tenho um amigo que diz que a palavra inveja é usada para duas coisas diferentes. Inveja ruim (quando você quer roubar alguma coisa do outro, ou destruir o que o outro tem) e inveja boa (quando você também queria ter aquilo, ou compartilhar). Eu acho que podemos chamar a inveja boa de VONTADE. Eu tenho um monte de livros sobre viagens de moto, sobre aventureiros habilidosos e corajosos. Também leio um montão de relatos de nossos amigos do FOL. Morro de VONTADE de viver o que eles viveram. Não quero roubar nada deles. Quero é fazer igual. E se não puder, quero receber o que eles estão me dando de presente, um pouquinho das suas sensações. Acho é muito bom sentir inveja boa (ou vontade)! Foi isso que me deu força para fazer a minha viagem. Não fiz mal a ninguém. Espero que possamos inspirar outros com nossas humildes aventuras.

Minha avó, que aparece nas fotos de Osvaldo Cruz-SP, faleceu alguns dias depois de termos chegado em Recife-PE. Era a sua hora. Fiquei contente por ter tido a chance de vê-la nesta viagem.

O meu relacionamento com a Renata levou uma grande martelada lá em Petrolina-PE, com a mudança repentina de planos e a aparente destruição de um sonho de mais de um ano. Mas o impacto foi absorvido instantaneamente, ali, na hora. Não saímos trincados, saímos forjados. Mais fortes do que nunca. A vida real se mostrou melhor que o sonho.

Estamos preparando a próxima viagem para julho de 2008. Serão 4.000 ou 5.000 km, em uns 14 dias, pelo sertão nordestino. Queremos conhecer melhor a Chapada Diamantina-BA, a Serra da Capivara-PI e Lençóis Maranhenses-MA. Mas ficar pouco tempo em cada um? Ou desistir de um deles para aproveitar melhor os outros? Qual a ordem da viagem?  Engraçado, na viagem anterior sempre tivemos um foco, que era Osvaldo Cruz-SP. Agora não há mais. Temos que nos acostumar um pouco com a liberdade que ganhamos.

Para finalizar, algumas besteiras infantis e piegas que ia pensando sozinho na estrada ou durante a preparação:

O que se encontra na estrada? O passado? O futuro? O presente! Não há nem futuro nem passado, apenas o infinito presente em um piscar de olhos. Só de moto, em uma curva, com o vento no corpo, o sol nos olhos, é possível deslumbrar o tempo infinito. Tudo se comprimindo em um único instante.

A viagem é o caminho ou é o destino? Certamente é o caminho.

Por que você escolheu uma viagem assim, de moto, pelo sertão? “No fundo, escolha é uma palavra carente de sentido.”

Espera-se pela mulher que te foi determinada, pelo tempo que for o ideal.

Encontrei uma ou duas coisas do passado que valeram a pena. Espero ter sabedoria e leveza para trazê-las ao presente.

Caminha-se pela estrada que apresente desafios e prazeres na medida de cada um. E a única coisa que se deve esperar é que a sua estrada seja o mais desafiante o possível, e que você seja merecedor dos obstáculos.

Não aprendi grande coisa na viagem, apenas que tenho muita coisa a aprender. Seja em pilotagem, seja na vida. Pelo menos tenho mais paciência com meus defeitos e limitações. Continuarei a ouvir por um bom tempo “paciência, gafanhoto, paciência!”.

Conheci a Nascente e Foz do São Francisco, a Chapada Diamantina, a Serra da Canastra, Cidades Históricas de Minas e Litoral Nordestino. 25 dias, 8.200 km. Fiz novos amigos, tive sensações maravilhosas de liberdade e me conheci melhor.

Não quero abandonar o caminho do aprendizado. Isso nunca foi perda de tempo. Apenas o desequilíbrio entre o pensar e o sentir é que era prejudicial.

Encontrei na estrada uma maneira fácil de representar o meu renascimento. Representações claras de coisas pesadas que me seguravam, de como decidir quando seguir sozinho ou acompanhado. De quando ir devagar, quando correr. Principalmente, de como quero que minha vida seja de agora em diante. Sempre olhando para frente, sempre para o próximo ponto de parada. Aproveite cada quilometro, tenha objetivos em curto prazo. Viva. Tem um buraco? Passe por ele. Fique orgulhoso de ter transposto o obstáculo, mas não perca tempo colocando a culpa no buraco, tentando descobrir quem o colocou ali. Ande sempre para frente, com liberdade, sempre buscando a harmonia. Vivendo. Não necessariamente aprendendo, mas sempre sentindo. Harmonia. Equilíbrio.

Uma música que sempre cantarolava na estrada: “Eu não vim até aqui para desistir agora (…) se depender de mim eu vou até o fim!” (Humberto Gessinger)

“Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.” (Mahatma Gandhi)

Valeu a pena? Valeu!

RENATA: Tiveram muitos momentos lugares legais por onde passamos. Belas paisagens, tanto urbanas quanto rurais. Momentos inesquecíveis por onde passamos e onde conhecíamos o que tínhamos planejado (algumas vezes não, o imprevisto nos fez mudar de planos), reencontrando e conhecendo amigos, ou simplesmente nos recarregando com a energia pura da natureza.

Para mim, essa viagem foi mais marcante no aspecto pessoal do que nos lugares que visitamos. Foi muito bom tomar banho de rio, ver neblina e andar de trem pela primeira vez. Mas, o que me marcou mais foram os encontros. Que encontros? Os encontros com os amigos, que ficam distantes só fisicamente, mas estão bem pertinho de coração. Os encontros com a família de Fábio [Neide (mãe), Amadeu (pai), Natal (avô), Rosalina (avó), Joice (irmã), Carlinhos (cunhado), Cíntia e Carol (sobrinhas)], que são a origem dele e que ele compartilha comigo. Não tenho palavras para expressar como as reuniões familiares foram gostosas e cheia de amor! O encontro do Fábio com ele mesmo, sabendo sempre o que ele queria e indo até o final sem enfraquecer. O meu encontro comigo mesma, buscando lá dentro de mim a tranqüilidade necessária para contornar os imprevistos e superar os desafios. Isso a gente leva para a vida toda, e ninguém tira! O nosso encontro mais profundo, o do Fábio e da Renata. Em momentos muito difíceis e estressantes, onde nos superamos para preservar a história que estamos construindo juntos. E também em momentos mágicos, onde nos aproximamos para reafirmar o nosso amor.

A melhor viagem é aquela que conduz você a sua essência. E essa viagem pra mim foi isso!

– FIM –