A Milhas de Lugar Nenhum

Não aguento mais me ouvir falar tanto de bicicleta! Mas a triste verdade é que não há escolha – ultimamente tenho usado boa parte do meu tempo livre para estudar tudo o que é possível sobre o bicicletismo: tecnologia, ciência, esporte, política, infraestrutura, cultura, mercado, indústria, história, trânsito, acidentes e mobilidade urbana. Exagero, sim, mas é por uma boa causa. Daqui menos de um mês começa a disciplina Estudos da Bicicleta. Por isso o exagero não é exatamente o problema, já que é algo temporário. O problema mesmo é que há um alto preço a se pagar: fico tão imerso nessas questões “adultas” que acabo não escrevendo quase nada sobre o mais importante aspecto do bicicletismo, que é simplesmente rodar de bicicleta.

Para quebrar um pouco o ritmo desses estudos, mas principalmente para me forçar a lembrar da razão de tudo isso, fui até a minha estante de livros de bicicleta e escolhi com muito cuidado a história que eu queria ter vivido e escrito. Sem mais delongas, apresento Miles From Nowhere (“A Milhas de Lugar Nenhum”, de Barbara Savage, 1983).

Dizem que a primeira volta ao redor do mundo em uma bicicleta foi feita por Thomas Stevens, em uma viagem que durou dois anos e meio (1884-86). O mais legal é que foi feita em uma high wheel (ou penny-farthing, ou ordinary), aquela bicicleta que tem a roda dianteira imensa. Só os mais atléticos e os mais corajosos andavam naquelas bicicletas perigosas – ao contrário do que retratam os filmes de hoje em dia, que sempre colocam um atrapalhado em cima delas. Aliás, essas bicicletas de roda gigante eram muito avançadas, algumas pesando meros 5 kg. Para quem tiver interesse, é relativamente fácil encontrar o livro do Thomas Stevens na internet (Around the World on a Bicycle).

Tudo bem que a primeira vez de qualquer coisa tem o mérito de ser a primeira vez. Mas não necessariamente a primeira vez é a melhor. Na vera, quase nunca é. Por exemplo, a primeira viagem de moto ao redor do mundo foi feita por Carl Stearns Clancy, em 1912; mas a melhor história de uma aventura ao redor do mundo é a de Ted Simon (1973 e 2001). Livro por livro, o do jovem Tim Severin, que percorreu “apenas” 13.000 km em 1961, não rodando nem mesmo a Eurásia inteira, é melhor ainda. No final das contas, a importância de uma aventura não pode ser medida nem pela quilometragem nem pela época em que foi feita. O tamanho de uma aventura tem a ver com as transformações que ela provoca no espírito de quem a viveu, seja de verdade ou lendo o seu relato em um livro bem escrito. Uma grande aventura pode ser simplesmente ter a coragem de rodar sozinho pelo corredor de um hotel, que o diga Ralph S. Mouse.

A história de bicicleta mais legal do mundo, Miles From Nowhere, foi escrita pela jovem Barbara Savage. Ela e o seu marido Larry levaram dois anos (1978-80) para dar a volta ao mundo. Passaram por 25 países. Rodaram 35.000 km. Se alguém parar para fazer as contas, verá que isso dá uma média de 50 km por dia, todo dia, por dois anos! Levando em conta que houve dias de doença, de cansaço extremo, de burocracia, de piriri, de descanso, de festa e de manutenção, eles rodavam bem mais do que isso quando estavam na estrada.

Antes de mais qualquer coisa, sei que é chato antecipar o final de uma história. Mas neste caso é necessário, para que o leitor se acostume com a ideia desde o início e não fique chocado ao final de uma viagem tão bonita. O próprio editor conta esse final na parte de trás da capa, então não me culpem pelo spoiler. O fato é que Barbara Savage morreu antes de ver o livro publicado. Ironicamente, foi em um acidente de bicicleta, quando ela treinava para uma prova de triatlo.

Aliás, essa é uma coincidência macabra. Um dia desses eu estava folheando um livro sobre a ciência do ciclismo, High-Tech Cycling, quando li no prefácio que o seu autor, Edmund R. Burke, também morreu enquanto andava de bicicleta. Os bons morrem cedo. Mas, pensando bem, morrer todo mundo morre, mas nem todos vivem de verdade. Nem todos deixam uma marca como Barbara Savage e Edmund R. Burke.

Pronto, está contado. Agora vamos ao que interessa, que é como Barbara Savage viveu.

O casal era jovem, ainda não tinha filhos ou carreiras consolidadas. Por isso pensaram que aquela seria a última oportunidade de viver uma grande aventura. Juntaram um pouco de dinheiro, deixaram os empregos e pegaram a estrada. Quando voltassem poderiam recomeçar. Legal que, além dos inevitáveis avisos de que morreriam na estrada, seus amigos e familiares na maioria apoiaram a aventura.

Barbara e Larry não eram bicicleteiros profissionais, nem mesmo tinham o costume de rodar grandes distâncias. Os corpos foram se adaptando durante a viagem. Com o tempo os músculos certos foram se desenvolvendo, eles aprenderam que tipo de alimento fazia bem e ajustaram um ritmo para cada tipo de clima.

Mas o grande ajuste não foi físico. Foi mental. Não é fácil para nenhum casal viver tão próximo todos os dias. Em geral dizem por aí que para um casamento saudável são precisos espaço e projetos individuais. O que eles não tinham. Para piorar, o cansaço físico ao final do dia muitas vezes provocava brigas homéricas. Por isso tudo, ao vencerem cada um desses desafios, eles forjaram um casamento de verdade. Provaram que é possível, ao contrário do que é comum, um casamento saudável onde os dois companheiros partilham um mesmo projeto de vida, convivendo todas as horas do dia.

A aventura do livro pode ser contada por partes. Começa do começo, com toda a preparação para a viagem. Depois a primeira perna que, como eu falei ali em cima, foi a mais difícil do ponto de vista físico, pois tiveram que se adaptar ao bicicletismo diário. Depois o livro traz uma série de crônicas da vida nos Estados Unidos no final dos anos 70, desde a saída na Califórnia, passando pela imensidão das regiões centrais, a hospitalidade do povo das pequenas cidades e o mais completo desrespeito ao próximo na costa da Flórida.

A parte da Europa foi um grande passeio do ponto de vista bicicletístico, mas uma grande transformação pessoal para eles. Isso porque tiveram que conviver com outras línguas e culturas, principalmente na Espanha e em Portugal. A única pedalada mais difícil foi o cruzamento dos Alpes, pois eles estavam correndo para passarem antes da chegada do inverno.

Mas foi no Egito que a viagem começou de verdade. Para eles, que estavam acostumados a viver em um país rico e espaçoso, as estradas africanas representavam um novo mundo. As pessoas dali tinham costumes tão diferentes que era preciso aprender a viver a cada nova situação. Difícil, mas legal. Afinal, é para isso que se viaja, não é?

Essa passagem pelo Egito preparou o casal para a Índia, Nepal e Tailândia, que traziam línguas cada vez mais diferentes e culturas cada vez mais surpreendentes. Alguns dias eram horríveis, alguns dias eram comuns, outros dias fantásticos. Exatamente como uma vida de verdade é.

Eles passaram as últimas semanas da viagem na Nova Zelândia, que dizem ser o país mais bonito do mundo, com suas imensas diferenças culturais, climáticas e de relevo. Para o casal de bicicleteiros foi uma espécie de férias e uma preparação para voltarem ao mundo “normal”.

O livro conta todos os detalhes da viagem. Descreve a dificuldade das grandes subidas, a quebra de componentes e como escolhiam os lugares para montar a barraca. Mas o mais legal é quando contam sobre as pessoas que conheciam no caminho. Algumas poucas eram brutas, como o professor da Flórida que quase os matou com seu carro e depois ainda quis brigar. Mas a grande maioria recebia o casal com as portas abertas. Muito legal.

Vivemos em um tempo de forte embate político na defesa do bicicletismo. É preciso pacificar o trânsito para os bicicleteiros que andam mais rápido, é preciso construir ciclovias para as crianças irem para a escola, é preciso produzir bicicletas úteis para o transporte urbano, é preciso plantar mais árvores para termos vias mais frescas, é preciso diminuir o apoio econômico ao culto da produção de petróleo e de carros, é preciso disponibilizar água gelada em vários pontos das cidades mais quentes, é preciso desmascarar diariamente o greenwashing, e é preciso ter chuveiros e armários nas empresas. Nessa conjuntura, parece egoísta falar de uma viagem que um casal burguês fez ao redor do mundo.

Mas isso não é egoísmo. Na verdade, o principal ato na defesa do bicicletismo é o próprio bicicletismo. É o exemplo. Cada pessoa que sai pela rua com a sua bicicleta mostra para as outras que é possível viver de outro jeito. Viver em um ritmo mais natural, em contato com a natureza, e em um trânsito orgânico onde cada qual pode escolher o seu caminho. É possível viver de forma livre, individual e chic. Barbara Savage, obrigado pelo exemplo de vida.