Viagem ao Sertão

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Relatos da Viagem ao Sertão

Sete Cidades-PI, Serra da Capivara-PI, Petrolina-PE e Maracajaú-RN
4.000 km e 15 dias em uma motocicleta 400cc – PE-PB-CE-PI-BA-RN

Fábio Magnani e Renata Nunes

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Introdução

Recapitulando… durante seis meses, no início da década de 90, eu tive uma Honda Today 125cc que usava para ir de casa para a universidade. Nunca peguei uma estrada e morria de medo de atravessar a ponte Colombo Salles lá em Florianópolis-SC quando era dia de vento sul. Mais de 10 anos depois, em janeiro 2007, comprei uma Honda Falcon 400cc. Foram necessários poucos meses para que projetasse duas viagens: A Grande Viagem, de Recife-PE a Osvaldo Cruz-SP – minha terra natal – que seria realizada em grupo; e A Viagem ao Sertão, pela caatinga nordestina, em que pilotaria sozinho. Em A Grande Viagem andamos 8.200 km, por PE/BA/MG/SP/ES/AL/SE, em janeiro de 2008. Uma grande característica dessa viagem foi conhecermos muita gente do FOL (www.falcononline.com.br). Visitamos a Chapada Diamantina-BA, Serra da Canastra-MG, Cidades Históricas de Minas e Litoral do Nordeste. Toda a preparação e aventuras estão em Relatos da Grande Viagem (Disponível on-line no site discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/fabiomagnani/moto (a senha é: moto ).

Na viagem de agora não havia praticamente ninguém do FOL por aquela região. Por outro lado, contamos com o apoio de outros dois fóruns de moto: M@D (www.debatemotos.com) e do Clube XT600 (www.xt600.com.br); e de um fórum de rede social, o Orkut (www.orkut.com).

Entre as duas viagens foram cinco meses de preparação. Queria principalmente aprender a andar na areia, para poder aproveitar melhor os parques nacionais. Fiz então três treinos: a) em fevereiro de 2008 dei uma volta pelas bandas de Limoeiro-PE e Serra Negra-PE em que andei sozinho (110 km de terra), b) em março de 2008 fiz um bate-volta até o Pico do Jabre-PB onde encontrei o Emano, mas fazendo a parte de terra sozinho (225 km de terra/areia) e c) em maio de 2008 fomos ao Vale do Catimbau-PE com a Renata na garupa (poucos mas significativos 15 km de terra/areia).

Andar sozinho é bom porque você ganha mais confiança, mas é ruim porque você não tem referência nenhuma. Até a ida ao Catimbau-PE tudo corria bem, cada vez andava melhor na terra/areia.  O problema foi na volta do Catimbau-PE. Caímos na areia! Joelhos e mãos ralados. Eu fiquei com medo de andar na areia. A Renata, que foi jogada da moto e bateu a cabeça no chão, ficou com medo de andar de moto. A moto quebrou o eixo de mudança de marcha, teve que ser rebocada de um lugar isolado, ficou parada 15 dias em Arcoverde-PE. Depois de consertada, a moto ainda teve a mola do tensionador avariada, um pequeno vazamento na junta e o esquecimento da concessionária de apertar o parafuso de purga de óleo. Coisas pequenas, mas que impediram mais tempo para treinamento e minaram um pouco a confiança na máquina, já abalada pela queda. Sem contar os R$ 900,00 para consertar a moto, que fizeram com que desistíssemos de parte de nossa viagem.

Todas essas aventuras são relatadas nos vários fóruns acima. Mas estão completas em nosso BLOG (www.fabiomagnani.blog.uol.com .br) e em vídeos (www.youtube.com/fabiomagnani).

Embora soubesse que queria andar pelo sertão, o roteiro ficou claro somente em fevereiro de 2008. Passaríamos pelo interior dos estados do nordeste, pararíamos em Sete Cidades-PI e na Serra da Capivara-PI. Na época pensávamos também em passar na Chapada Diamantina-BA, mas os custos com a queda nos obrigaram a desistir. A parte final da viagem seria definida apenas no final mesmo. Ao contrário de A Grande Viagem, queríamos andar mais soltos, sem planejar tudo nos últimos detalhes. Outra diferença é que eu já havia matado um pouco da vontade de viajar sozinho na viagem anterior, então agora eu faria apenas uma parte da viagem sozinho e a Renata me encontraria no meio do caminho.

Mas…. por que viajar? Por que de moto? Por que sozinhos? Por que para o sertão?

Não sei!

Só sei que há coisas na vida em que você pensa: eu sou bom nisso. Há outras que você pensa: eu adoro fazer isso. Bem, eu não sou bom para andar de moto. Não sei correr, às vezes tenho medo de andar na areia e tenho que quebrar a cabeça para solucionar algum problema mecânico. Mas, com toda a certeza do mundo, eu nasci para fazer isso. Não por ser bom, mas por adorar. Por ser uma ação na qual me sinto um indivíduo pleno, completo.

Quanto a irmos sozinhos, é por índole mesmo. Somos, eu e a Renata, indivíduos reservados, gostamos de ler, assistir filmes, caminhar.

Quanto ao sertão, talvez seja por um dívida que tinha por morar 10 anos em Recife-PE sem conhecer o seu sertão. E não por desinteresse, mas por puro medo! Talvez ainda seja pelos filmes da infância, como O Ladrão de Bagdá, ou pela mítica do Dakar ou Rally dos Sertões.

O certo é que, no dia 03 de julho de 2008 a minha Falcon estava toda pronta para a viagem. Sairia às cinco da manhã. Seriam 15 dias de estrada. 4.000 km rodados em uma motocicleta 400cc. Paramos mais tempo em Sete Cidades-PI, Serra da Capivara-PI, Petrolina-PE e Maracajaú-RN. O resto é a história que queremos contar…

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Algumas fotos de A Grande Viagem e dos passeios de preparação:

Chapada Diamantina-BA

Represa de Furnas-MG

Serra da Canastra-MG

Congonhas-MG

Maceió-AL

Pico do Jabre-PB

Vale do Catimbau-PE

Desanuviação

Dia 1

Quinta-feira – 03/07/2008
Trecho: Recife-PE a Icó-CE
Tempo de viagem: 9 horas
Distância percorrida: 573 km
Distância acumulada: 573 km

FÁBIO: O bauleto e os alforjes já estavam arrumados desde ontem. Já tinha lubrificado a corrente, verificado o óleo, calibrado os pneus e enchido o tanque. Hoje de manhã foi só amarrar tudo na moto, me despedir da Renata e pegar a estrada, às 5:15 da manhã. Estava chovendo bastante e fazia frio em cima da moto. Mesmo nesta hora da manhã, por ser uma quinta-feira, a BR101 já estava cheia de caminhões. O bauleto ia com 8 kg, os alforges com 16 kg, mais os meus 95 kg. Desde ontem eu estava bastante ansioso com esta viagem: stress por ter que cuidar de tantos detalhes (acessórios, tirar dinheiro, diminuir o peso da carga, deixar contas organizadas, revisão na moto etc), medo de acidentes, quebras e assaltos por estar viajando sozinho. Mas também estava me sentindo em êxtase por estar indo para o sertão, um lugar relativamente deserto e um pouco fora do main stream turístico.

Nos primeiros 300 km, até a Serra de Santa Luzia-PB, tinha apenas pensamentos erráticos. Não conseguia me livrar da obsessão pelos detalhes dos últimos dias: contas para pagar, roteiros, quilometragem e tudo o mais. Depois, com o passar do tempo a mente foi ficando mais clara. Consegui me concentrar mais na estrada. Ainda não me sentia bem por estar viajando para o desconhecido. Mas já sentia novamente o prazer por pilotar uma moto. A chuva foi diminuindo, mas não tirei a capa porque fazia um pouco de frio. Cheguei em Souza-PB lá pelo meio-dia, e resolvi parar para conhecer o Vale dos Dinossauros. Um parque com um pedaço de pedra em que se vê pegadas. Mas o importante para mim aqui foi o acesso: 500m de terra. Não tinha andado ainda na terra desde a queda no Vale do Catimbau-PE. Senti um medo paralizante de cair. Mesmo andando muito devagar, meus braços ficaram duros. Tudo bem, mas fiquei pensando em como será amanhã no final do dia, quando chegar em Sete Cidades-PI. O hotel fica dentro do parque. Não tem jeito de voltar no meio do caminho. Além disso, se não andar rápido, chegarei já com o sol posto. Tinha errado no roteiro, achando que teria que andar 600 km amanhã. Descobri, depois, que seriam no mínimo 800 km. Mas já tinha marcado uma parada em Icó-CE para rever o amigo Antônio, e não tinha como adiantar a viagem no dia de hoje.

Cheguei em Icó-CE às 14:00. Deixei as coisas no hotel e fui almoçar com o Antonio, amigo que tinha feito na última viagem à caatinga, no treinamento para A Grande Viagem, em que tínhamos vindo de Recife-PE até Icó-PE para ver se agüentávamos andar 600 km por dia em dois dias seguidos. Como da última vez, o Antonio me levou para conhecer as igrejas e prédios históricos. Chegamos até a passar um tempo na casa dos Colares, em um sobrado que mantém muitas características originais, com móveis belíssimos.

Icó-CE é uma cidade fantástica. Muito religiosa e com construções coloniais que fazem-na parecer uma Olinda-PE encravada no sertão do Ceará-CE. Não consigo entender como o Guia Quatro rodas dá tanto destaque para Souza-PB e nenhum para Icó-CE. É um daqueles lugares em que você se sente em casa. Mesmo não sendo religioso, o sentido de propósito dessas pessoas ao falar das suas festas e tradições é contagiante.

Por falar em Ceará e sertão, aprendi que a palavra Ceará vem de Sahara, e sertão de Desertão… legal.

Hoje foi um dia de viagem como eu gosto. Acordei bem cedo, viajei a manhã toda, aproveitei a tarde para conhecer algum lugar e conhecer pessoas, jantei e tomei cerveja à noite. Não gosto de comer muito na estrada, por isso prefiro jantar do que almoçar. Hoje jantamos carneiro grelhado. Fui dormir cedo, pensando no longo caminho de amanhã e, principalmente, no terrível trecho de terra que me aguarda no final do dia.

Saí de manhã com chuva. O sol só apareceu em Icó-CE, quase 600 km depois. Achei bem representativo de como estava a minha cabeça. No começo do dia toda caótica, só pensando nos detalhes de preparação. Com o passar do tempo e do asfalto, foi ficando mais clara, mais ampla. Espero que o resto da viagem seja todo assim: desanuviado.

A bicha toda carregada para a viagem:

Pegadas de dinossauro em Souza-PB

Teatro em Icó-CE, uma jóia no meio do sertão:

Os Colares e Antonio (à direita):

Sertão do Ceará

Dia 2

Sexta-feira – 04/07/2008
Trecho: Icó-CE ao Parque Nacional das Sete Cidades-PI
Tempo de viagem: 11 horas
Distância percorrida: 814 km
Distância acumulada: 1.387 km

FÁBIO: Saí de Icó-CE às 5:30 com um dilema. Iria pelo caminho mais rápido para chegar em Sete Cidades-PI ainda com o dia claro ou passaria pelas vicinais e pelo Açude do Cedro? Embora com um frio na barriga, decidi pelo caminho mais longo. A estrada entre Igatu-CE e Mombaça-CE foi deliciosa. O sol nascendo às minhas costas fazia o campo todo colorido. A estrada com dezenas e dezenas de carcarás voando ao som da minha moto. Aqui no Ceará não vi mais bodes na beira da estrada. Eles foram substituídos por carcarás, jumentos e urubus. Uma bela serrinha e açude aqui e acolá. Finalmente o prazer por estar viajando para um lugar desconhecido apareceu.

Entre Mineirolandia-CE e Quixeramobim-CE vem um grande plano, parecendo o cerrado. Já chegando perto de Quixadá-CE, as formações rochosas que parecem ilhas impressionam muito.

Parei em Quixadá-CE para conhecer o Acúde do Cedro, projetado na época de Dom Pedro II. Lindo. Mas, segundo o pessoal que mora perto do Açude de Orós, também no Ceará, foi mal projetado porque a água jamais alcança o topo da barragem.

A minha pilotagem nas curvas melhorou desde ontem. Depois de muitas dicas de colegas, do vídeo de Dirt Bike da MSF e do vídeo promocional da nova Teneré, eu aprendi que para fazer curvas com motos do tipo da Falcon, é melhor tombar a moto com os joelhos, independentemente do tronco. Bem diferente do que se vê com as esportivas, onde se joga o corpo junto com a moto, no chamado body english.

De Quixadá-CE segui para o oeste. Chegando perto de Guaraciaba do Norte-CE subi uma serra imensa, de onde podia se ver uma grande parte do Ceará. Essa região, da Serra do Ibiapaba, tem vários pontos turísticos. Cachoeiras, serras, teleférico, etc. Podia ter parado, mas comecei a ficar preocupado em chegar à noite em Sete Cidades-PI. Se tivesse descoberto antes, teria ficado um dia por aqui.

Depois de passar o dia todo andando por estradas desertas, entrei na BR-222/343, cheia de caminhões. Na divisa entre o Ceará e o Piauí há uma grande serra. A estrada não faz curvas. É uma interminável subida do lado do Ceará e uma inacabável descida do lado do Piauí. Engraçado que logo na divisa somem os jumentos e voltam os bodes e vacas à beira da estrada. Não havia quase movimento além dos caminhões. Agora sim estava em um lugar longe de casa. Não podia deixar de pensar no que aconteceria se furasse um pneu ou houvesse uma quebra na moto. Para mim, ansioso como estava, lembrava injustamente as imagens de estradas sendo abertas no norte, que eu via no programa Amaral Neto, o repórter, quando era criança.

Felizmente não houve nada. Cheguei em Sete Cidades-PI às 16:15, ainda com sol. Foram 5 km de terra dentro do parque até chegar no hotel. Apenas poucos trechos com areia. Mas o meu medo de andar na terra continua paralisante e irritante. Chegando no hotel, depois de 800 km de estrada pelo Ceará, minha cabeça estava a mil. Passou um tempo até a adrenalina da viagem diminuir.

O hotel é bem simples. Perfeito. Amanhã vou conhecer o parque. Vou passar dois dias aqui.

Barragem em Quixeramobim-CE:

Açude do Cedro, em Quixadá-CE

Visão do alto da Serra do Ibiapaba-CE

Sete Cidades I

Dia 3

Sábado – 05/07/2008
Dia de passeio no Parque Nacional das Sete Cidades-PI
Quilometragem: 13 km
Distância acumulada: 1.400 km

FÁBIO: Hoje o dia foi aqui dentro do Parque Nacional das Sete Cidades. Como o hotel fica dentro do parque, não há necessidade de sair para nada. Logo de manhã chegou o Bruxo (do ClubeXT600) e o seu filho, para me acompanharem em um passeio. Fomos de moto até o centro de visitantes, para contratar um guia, o que é obrigatório para todos os tipos de passeio no parque. Como o Bruxo só tinha a manhã livre, decidimos ir de moto até a Cachoeira do Riacho. O Bruxo levou o seu filho na garupa, enquanto eu levei a guia. A cada areião que passávamos, me lembrava da Renata caindo da moto lá no Catimbau-PE. Embora fossem apenas uns 5 km, fiquei novamente paralisado de medo de cair com alguém na garupa. Tomei um banho de cachoeira e conversamos bastante por lá. Na volta, tive uma idéia que deveria ter tido antes. Quando passássemos nos areiões, pediria para que a guia descesse da moto. Desta forma voltei tranqüilo. Se tem uma coisa de que não padeço é vergonha por não ser experiente em moto, mesmo não sendo mais nenhum garoto. Agora com todos seguros, pude andar melhor.

Me despedi do Bruxo e seu filho, deixei a moto no centro de visitantes e segui com a guia para uma caminhada pelo parque. A vegetação é um misto de cerrado (predominante) e caatinga. O nome sete cidades foi dado por causa das formações rochosas que são agrupadas em sete conjuntos. Pela força do vento, as rochas foram esculpidas em formas interessantes: elefantes, bruços, casais se beijando, mapas, canhões etc etc. Passamos por seis das sete cidades, ainda pela manhã. No mirante pudemos ver cerca de 70% do parque. Lindo. Há também pinturas rupestres, mas o enfoque a elas parece ser principalmente lúdico. Fala-se de aviões, extraterrestres emitindo raios etc. Se você passar por um portal terá seu desejo atendido. Se duas rochas em forma de lagarto se beijarem, finalmente as sete cidades voltarão à vida. Histórias de fantasmas, almas. Legal.

O que mais gostei do parque foi o clima relaxado, tranqüilo. Caminhar pelas trilhas silenciosas entre as pedras é delicioso.

Depois de tomar um banho na piscina natural de pedras perto do hotel, almocei e fui descansar um pouco. Às 17:00, peguei uma bicicleta e fui até o mirante, novamente, para ver o pôr-do-sol. Magnífico. Na volta, ainda de bicicleta e sozinho, fiquei lembrando das histórias de onça que tinha ouvido pela manhã.

No início da noite fique ouvindo música deitado nas redes da área comum do hotel, enquanto esperava uma canja perfeita. Diferente da canja “de hospital” que estou acostumado a tomar depois de uma bebedeira, a canja era bem encorpada pelo frango desfiado, temperada com gosto e avermelhada pela cenoura.

Fui dormir tranqüilo, com a mente clara e a alma em paz. Sem medo de fantasmas, extraterrestres ou lagartos gigantes.

Isaias, Bruxo e eu na Cachoeira do Riacho:

Mistura de cerrado e caatinga:

Pinturas rupestres com extraterrestres emitindo raios:

Área reservada para a contemplação das pinturas rupestres:

Vista do mirante:

Uma das inúmeras formações rochosas:

Quando estes dois lagartos se beijarem, as sete cidades voltarão à vida:

Mapa do Ceará:

Pôr-do-sol em Sete Cidades

Sete Cidades II

Dia 4

Domingo – 06/07/2008
Dia de passeio no Parque Nacional das Sete Cidades-PI
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 1.400 km

FÁBIO: Hoje não andei de moto. Acordei pela manhã e fui novamente para o centro de visitantes. Contratei uma guia e saí de bicicleta para conhecer o restante do parque. Fui até à Cachoeira do Riacho tomar um novo banho e até à primeira cidade, que era a que faltava, conhecer as pedras em forma de canhão e o Olho D’água dos Milagres, onde tomei mais um banho. Passei ainda pelo Mirante, para contemplar mais ainda o parque. Resolvi alugar a bicicleta pelo dia todo. Uma boa bicicleta, de marcha (bem, uma marcha) e com pneu careca. Há uma parte no parque, entre a portaria e o hotel, de 6 km, na qual se pode andar sem guias. Antes do almoço fui novamente tomar um banho na piscina natural. Depois de uma caminha ou pedalada no sol do Piauí, acho que não é de se estranhar que eu tenha tomado tantos banhos. Comi uma bela de uma Maria Isabel, que é um arroz misturado com charque.

À tarde andei mais de bicicleta. Acho que não andava de bicicleta a uns 20 anos. Tendo andado 40 km hoje, pela terra, no sertão e sem marchas, espero que dê para imaginar o meu cansaço. Mas valeu a pena.

Como já falei antes, não tenho muita experiência com motos. Além disso, a Falcon não é a melhor das motos para aprender a andar na areia, pois não perdoa erros. De bicicleta pude me aclimatar bem a esse terreno. Entendi a necessidade de acelerar na areia. O que acontece é que quando a bicicleta, ou moto, entra na areia, ela é freada. Para manter a velocidade constante, é necessário acelerar. Outra coisa interessante é o som. Quando a bicicleta sai da areia e volta para as pedrinhas, o som do pneu é parecido com o de uma roda travada. Daí dá um susto parecendo que você perdeu o controle. Espero que essas lições na bicicleta me ajudem na moto a partir de amanhã.

Na volta da portaria, de bicicleta, estava eu andando pela beirada da estrada para aproveitar bem as lições do areião. Quando uma cobra deu um bote no meio do mato, fazendo bastante barulho. Foi longe de mim, não tendo perigo algum, mas levei um baita susto, que me deu “energia” para chegar rapidamente no hotel, sempre pelo meio da pista.

Ao chegar no hotel, lá pelas 17 horas, me deparei com um estado do qual fujo normalmente: ficar sem fazer nada. Quando acontece isso vou ler, andar de moto, assistir algo na TV, mexer na internet. Mas, ficar sem fazer nada, é terrificante. A Renata, que tem as manhas para ficar quieta meditando, gosta de brincar que sou hiperativo. Bem, me esforcei bastante para ficar na rede quieto, ouvindo um Alceu Valença. Depois de um tempo de ansiedade funcionou. Me senti totalmente tranqüilo ali no meio do Parque das Sete Cidades, sem nada para fazer, sem nenhuma expectativa.

Normalmente eu iria em um lugar assim em busca de informação, aprendizado. Desta vez consegui fugir um pouco disso, aproveitando a calma e a paz. Talvez um dia eu aprenda a não querer aprender o tempo todo!

Mais um dia perfeito! Amanhã volto para a moto, rumando para o sul do Piauí, de encontro à Renata.

Andando de bicicleta no cerrado:

Mais uma vez na Cachoeira do Riacho:

Mais pinturas rupestres:

Área comum do hotel:

Piscina natural:

Mais mirante:

Sertão do Piauí I

Dia 5

Segunda-feira – 07/07/2008
Trecho: Parque Nacional das Sete Cidades-PI a Floriano-PI
Tempo de viagem: 7.5 horas
Distância percorrida: 470 km
Distância acumulada: 1.870 km

FÁBIO: De volta à estrada às 05:45. Tive que agüentar uma CG andando mais rápido do que eu nos 6 km de saída do hotel, mas tudo bem. O medo da areia não era mais paralisante. Apenas cuidado por conhecer os seus limites e ir progredindo lentamente. Acho que o tipo certo de precaução que se deve ter em uma moto.

De Piripiri-PI a Teresina-PI é uma grande reta com bom asfalto. Muitas pick-ups, caminhões e pessoas no acostamento. Motos com bebês, motos com 3 ou 4 pessoas, todas sem capacete, motos carregando bodes. Tudo o que for possível sobre uma moto. Chegando em Teresina-PI encontrei muito trânsito. Estava desacostumado.

Em Sete Cidades não havia sinal de celular ou telefone fixo. A única comunicação era com um celular de um dos funcionários do hotel. Em Teresina-PI consegui sinal de novo para ligar para o pessoal de casa.

Em Teresina-PI atingi o extremo oeste da minha viagem. Agora deixaria de andar para o norte e para o oeste e começaria minha viagem de volta para Recife. Peguei a estrada para o sul do Piauí, rumo a Floriano-PI.

Ainda não estava certo se pararia em Floriano-PI, uma cidade maior, ou em Oeiras-PI, uma cidade histórica. Decidi por Floriano-PI, porque queria voltar um pouco à civilização, deixar recados na internet, talvez ver algum museu, comer algo diferente e típico do Piauí.

A estrada de Teresina-PI a Floriano-PI era deserta novamente. Pouquíssimas cidades ou pessoas na estrada. Mais uma vez me deu aquela sensação de estar em um programa do Amaral Neto. Se furasse um pneu? Bem, eu estava levando câmaras extras, mas precisaria de um borracheiro.

Em Amarante-PI, a 80 km de Floriano-PI, deixei de abastecer, mesmo sabendo que os prováveis 4 litros no tanque seriam suficientes na medida. Impossível não haver um posto no caminho. Não havia. A 30 km de Floriano, com 1 ou 2 litros no tanque, parei em um povoado para abastecer. Não havia posto. Tinha duas opções: arriscar até Floriano-PI naquela estrada deserta ou entrar para Francisco Ayres-PI, que me juraram ter um posto. Arrisquei os 10 km até Francisco Ayres-PI. Estrada mais deserta ainda, se é que isso é possível.

Mas a gasolina foi suficiente. Ao avistar a cidade, vi que a ponte tinha sido destruída. Um rapaz me disse que tinha que pegar um desvio, de cerca de 2 km. Era uma estrada de areia. Fui devagar, no meu ritmo, sem problema.

A gasolina foi suficiente. Ao avistar a cidade, vi que havia um rio no meio da estrada. Um caminhãozinho atravessou o rio com água sobre o capô. Perguntei a um senhor se havia um posto do outro lado do rio. O senhor disse que sim e me ensinou o caminho das pedras, desviando entre os bancos de areia. Disse que até CGs passavam por ali sem problema. A maior profundidade foi 30 cm, sem problema. A dona da venda me explicou que a ponte tinha caído há dois anos atrás. Agora só era possível atravessar no inverno. No verão, quando chove, as pessoas deixavam os carros do outro lado do rio e atravessavam de barco. Abasteci na cidade e voltei para o rio.

Confiante com a travessia de ida, esqueci do caminho das pedras. A moto entrou em uma vala de uns 60 cm de profundidade e escorregou a traseira. Nisso, ao contrário do que normal e erradamente faço nessas ocasiões de risco, acelerei a moto. Ela endireitou e saiu da vala. Depois fiquei pensando que devia ter prestado atenção ao caminho de volta, não tendo ficado tão confiante. Também, que deveria ter olhado se havia outras pessoas por perto caso eu caísse. Havia uma outra moto, mas poderia não haver.

De lá, peguei novamente o trecho de areia, sempre andando mais lento que as CG’s e rumei para Floriano-PI. Chegando lá fui direto para uma Honda trocar o óleo, calibrar o pneu, ajustar e lubrificar a corrente. Serviço rápido, pagando apenas o preço do óleo.

Procurei vários hotéis na cidade até achar um barato. Desmontei a moto e fui almoçar no restaurante flutuante do Parnaíba. Nada de especial. Depois cruzei a ponte até o Maranhão, só para dizer que estive por lá. Aproveitei a tarde para postar na internet, ligar, gravar um CD com fotos e descansar. À noite, orgulhoso por ter chegado tão longe sozinho e até ter atravessado um rio, fui passear na orla de Floriano-PI. Visitei um museu contando a história do rio, tomei uma cerveja em um espetinho e voltei para o hotel. A Renata acabou de sair de casa agora. Amanhã vamos nos encontrar. Estou morrendo de saudade.

RENATA: Faz cinco dias que não nos vemos. Hoje a minha viagem foi bem pequenininha porque saí de Recife-PE de avião à 23:00 para chegar aqui em Petrolina-PE às 00:30. Só vou encontrar o Fábio amanhã lá pelas 20:00 porque o ônibus para São Raimundo Nonato-PI só sai às 14:00. O jeito mais rápido para chegar na Serra da Capivara é por Petrolina-PE. Só tem um avião por dia de Recife-PE para Petrolina-PE e apenas um ônibus por dia de Petrolina-PE para São Raimundo Nonato-PI. Não tem nada a fazer a não ser passar o tempo no hotel. Apesar de saber que o Fábio está bem, curtindo a viagem, estou morrendo de saudade, contando as horas para encontra-lo amanhã.

Último amanhecer em Sete Cidades:

Travessia de rio para procurar gasolina em Francisco Ayres-PI:

Restaurante flutuante, no Rio Parnaíba, Floriano-PI na divisa do Piauí com o Maranhão:

Sertão do Piauí II

Dia 6

Terça-feira – 08/07/2008
Trecho: Floriano-PI a São Raimundo Nonato-PI
Tempo de viagem: 6 horas
Distância percorrida: 381 km
Distância acumulada: 2.251 km

FÁBIO: Saí de Floriano-PI às 07:00, depois do café-da-manhã. Hoje o dia não tinha muita pressa, pois só encontraria a Renata em São Raimundo Nonato-PI à noite. Depois do dia bem quente ontem à beira do Parnaíba, foi um refresco pegar a estrada para Oeiras-PI, a oeste. É a primeira vez que ando em direção a leste nesta viagem. A estrada é fresca, com bastante vento, arvores e arbustos ladeando o asfalto. Ainda vegetação de cerrado. De novo quase nenhum movimento a não ser alguns caminhões. Parei em Oeiras-PI para conhecer a antiga capital do Piauí. Muito arrumadinha, com casas coloridas, mascates e devotos. Me arrependi por não ter dormindo em Oeiras-PI  ao invés de Floriano-PI, uma vez que a segunda é uma cidade mais ou menos comum. Continua ventando bastante, deixando o clima bem gostoso. Em Oeiras-PI conheci o Museu de Arte Sacra, que conta a história religiosa da cidade. Bem, religiosa no sentido político da igreja, não no sentido espiritual. Bispos, festas, santos. Legal ver uma cidade com identidade tão forte, mesmo que eu não compartilhe com os seus valores.

De Oeiras-PI segui para São Raimundo Nonato-PI, ao sul. Aqui dá para ver a transição para a caatinga. Existe uma diferença entre o regime de chuvas aqui e mais próximo do litoral. Enquanto o sertão lá perto de Recife-PE está verde agora, aqui está bem seco. Não sei onde se dá a transição. Só sei que o clima por aqui está bem seco. Não há uma única gota de água no céu. Nunca vi um céu tão azul.

Agora além dos bodes, jumentos, urubus e vacas, há também porcos na estrada. Eles são os mais assustadores, pois parecem completamente alheios a tudo que passa pela estrada. Baixam a cabeça e saem rebolando erraticamente.

Chegando na Serra da Capivara-PI, fui até uma das portarias onde me explicaram que seria necessário um guia, qual seria a taxa e que eu conseguiria facilmente um carro para fazer o passeio no parque. Depois do tombo no Catimbau-PE, eu tinha decidido que não iria andar de moto no parque. Nós alugaríamos um carro.

Segui para São Raimundo Nonato-PI, me hospedei, contratei o guia e o táxi para amanhã. Almocei. Descansei. E depois fiquei esperando a Renata chegar. Ela chegou atrasada, lá pelas 22:00. Disse que a estrada para Petrolina-PE está muito ruim. Mais para frente teremos que decidir que caminho tomaremos na volta.

Matamos a saudade e fomos dormir para aproveitar o passeio amanhã. Finalmente estávamos juntos. Na Serra da Capivara. No sertão do Piauí.

RENATA: Passei a manhã descansando, lendo e vendo TV. Precisava matar o tempo até chegar a hora do ônibus. Fiz um lanche na rodoviária de Petrolina-PE e saí às 14:30h para São Raimundo Nonato-PI com uma previsão de 5 horas de viagem. É uma linha “pinga-pinga”, vai parando o tempo todo. Até Lajedo-BA a viagem foi tranqüila, mas depois… muito buraco! Nossa!! Não dava nem para ler e nem descansar! Fiquei com a missão de dar uma olhada nas condições da estrada porque a idéia é que a volta seja feita por esse caminho. Se não der para passar com a moto nessa estrada cheia de buraco e com um trecho muito grande de terra, teremos que dar a volta ao mundo (passando por Picos-PI) se quisermos ir para o MotoChico. Bem, só cheguei em São Raimundo Nonato-PI às 21:30h morta de cansada. Mas o Fábio já estava me esperando na parada do ônibus. Maravilha poder abraçá-lo e beijá-lo… Deixamos a bagagem no hotel e descemos para comer alguma coisa. Apesar de termos que acordar cedo amanhã, fomos dormir um pouco tarde para matar as saudades.

Oeiras-PI

Arbustos que ladeavam toda a estrada. Bonito e fresco, mas e se houver um bicho escondido aí?

Primeira visão da Serra da Capivara. Bem, talvez não seja exatamente ela, pois são quatro serras diferentes que compõem o complexo:

Serra da Capivara I

Dia 7

Quarta-feira – 09/07/2008
Dia de passeio no Parque Nacional da Serra da Capivara-PI
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 2.251 km

FÁBIO: Acordamos um pouco mais tarde, mas às 08:00 já estávamos saindo em nosso táxi alugado, em companhia de nossa guia. São uns 40 km entre São Raimundo Nonato-PI e a entrada para o Parque Nacional da Serra da Capivara.

Não há capivaras. Nunca houve capivaras. Ninguém sabe quem deu esse nome para a região.

O parque é grandioso como a Serra da Canastra, mas íntimo como Sete Cidades. Como isso? É que a Serra da Canastra é relativamente plana, sendo acidentada apenas nas bordas. E a vegetação é rasteira, um cerrado de altitude. Já Sete Cidades tem uma vegetação mais alta, de cerrado de baixa. O relevo é bem acidentado pelas  “construções” das cidades.

A Serra da Capivara tem um relevo bem acidentado, cheio de canyons, desfiladeiros, subidas, fendas etc. Na parte mais aberta fica a caatinga. Não completamente seca ainda. Perto das rochas, a vegetação é formada por pequenas matas. Muita sombra, muito vento fresco. Não é a toa que os nossos antepassados resolveram passar um tempo por esses pedaços.

É até engraçado. Toda vez que você termina uma caminha no meio da caatinga seca e chega em um lugar fresquinho, tem alguma pintura rupestre. Os caras também tinham bom gosto…

Então, são quatro tipos de lugares bem diferentes para se estar no parque: caatinga, mata, fendas e picos. Somente nos picos é que você tem uma visão da grandiosidade do lugar.

As partes que eu mais gosto são as fendas e desfiladeiros. Muito tranqüilos e frescos. Não dão boas fotos. Mas as lembranças e as sensações são incríveis.

Não há água para tomar banho aqui. Apenas alguns caldeirões com água parada para os animais tomarem. O céu está mais azul do que ontem, se é que isso é possível. Bebemos água o tempo todo durante a trilha.

O animal mais comum, para olhos leigos, é o mocó. Uma espécie de preá. Encontramos um conjunto de macacos-prego andando pelas árvores. Quando fui tirar foto do líder, ele ficou balançando os galhos e mostrando os dentes para me assustar. Não me assustei. Daí o FDP subiu em uma encosta e rolou uma pedra grande lá de cima, quase acertando a minha cabeça. Por que esses bichos não estão em jaulas?

Pela manhã visitamos vários sítios com pinturas rupestres. No começo é interessante, mas depois começa a ficar chato. Não entendemos nada dessas pinturas. Deve ser muito legal para quem estudou antes, porque pode diferenciar as várias épocas, decifrar significados, etc.

O parque foi criado depois de muita luta de um conjunto de pesquisadores. Isso permite que hoje possamos conviver com uma diversidade de vegetação, microclimas, fauna etc. Também, as pesquisas feitas neste parque colocaram por água a baixo a teoria de que o homem teria chegado à América pelo Estreito de Bering 12.000 anos atrás. Há registros por aqui de 50.000 anos. Parabéns a todos.

Mas, acima de toda a pesquisa, toda a importância, está a inexplicável sensação de estar em um lugar onde nossos antepassados também estiveram.

Para nós, sempre acostumados com a ênfase no eixo sul-sudeste. Ou no litoral, quando se fala do nordeste. Também é muito gratificante ter “encontrado” esta jóia no meio do Piauí. Os Piauienses são muito altivos e orgulhosos. Na minha humilde opinião, têm toda a razão. Parabéns!

O passeio de hoje foi das 08:00 às 17:00. Jantamos no próprio hotel.

Ainda da BR, a primeira visão do dia da Serra da Capivara:

Pinturas rupestres:

Uma festa? A primeira fila do mundo?

Um antigo abrigo, agora protegido para estudos e visitações:


Aqui é caatinga braba mesmo:

Famosíssima Pedra Furada:

Uma Gameleira… elas adoram subir pelas pedras por aqui. São altíssimas, mas não dá para tirar foto dela inteira:

Essas escavações parecem coisa de cinema. Com trabalho arquitetônico, viraram patrimônio cultural:

Dia 8

Quinta-feira – 10/07/2008
Dia de passeio no Parque Nacional da Serra da Capivara-PI
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 2.251 km

FÁBIO: Hoje saímos um pouco mais cedo para novo passeio no parque. Pedimos para a guia para não vermos tantas pinturas rupestres. Queríamos aproveitar mais para caminhar nas matas das encostas.

Fomos conhecer também um grande sítio arqueológico, onde vários estudantes faziam suas incansáveis “varreduras” das pedras com pincéis. Tudo é importante para eles. O lugar é muito bonito também, com  a escavação ladeada por passarelas de madeira, sob a vista de um imenso paredão. Parece filme do Indiana Jones. Dá vontade de voltar a ser adolescente para poder mudar de profissão. A Renata até se meteu a ajudar as escavações com algumas pinceladas.

Aproveitamos o dia também para umas visões mais do alto. Vimos a Pedra Furada, que parecia imensa ontem, agora pequenininha perto de um monte de outras rochas. Fomos também ver a Pedra Caída. Esse passeio foi legal, porque essa trilha ainda não tinha sido reaberta para passeios depois da época de chuvas. Então sentimos um pouco a dificuldade de andar no meio da caatinga/cerrado.

No final do dia fomos até o Canyon das Andorinhas, para ver o espetáculo diário que elas realizam, vindo do céu e se jogando para dentro de uma fenda no Canyon. Tivemos a oportunidade de presenciar um fenômeno raríssimo. O dia que as andorinhas não voltaram para a fenda. Dormiriam fora de casa? Bem, mesmo assim o pôr-do-sol no canyon é lindo. Valeu a pena mesmo assim.

Não vimos onças pintadas, não vimos capivaras, não vimos andorinhas e quase fomos mortos por um macaco-prego. Mas andamos pela caatinga, pelas matas, pelas cavernas, pelas fendas, pelas encostas. Vimos pinturas rupestres, escavações arqueológicas. Tivemos contato com pesquisadores e estudantes. Inesquecível!

Olha a Pedra Furada pequenininha lá embaixo:

Parece filme de cowboy:

Indiana Jones e Lara Croft:


Calango:

Essa é uma das principais escavações:

Circo?

Símbolo do parque, une dois estilos diferentes:

Mais pinturas diferentes, agora com fundo branco:

A Renata se metendo a arqueóloga:

Canyon das Andorinhas:

Margeando Sobradinho

Dia 9

Sexta-feira – 11/07/2008
Trecho: São Raimundo Nonato-PI a Petrolina-PE
Quilometragem: 350 km
Distância acumulada: 2.601 km
Tempo de Viagem: 7 horas

FÁBIO: O fato é que estávamos em São Raimundo Nonato-PI e queríamos ir para Petrolina-PE para o Motoencontro. Há duas alternativas. Margeando sobradinho, pela estrada horrível que a Renata pegou na vinda, ou por Picos-PI, fazendo uma volta de mais de 400 km, por uma estrada conhecida por assaltos.

Decidimos que eu iria sozinho com a moto descarregada por Sobradinho. A Renata iria de ônibus. Levei apenas as câmaras, ferramentas, água e barras de cereais.

Sái de São Raimundo Nonato-PI às 05:30. Peguei o sol nascendo na estrada, rumando ao sul, para a Bahia. A estrada estava muito esburacada, apenas com movimento de caminhões. Duas horas para fazer 100 km até Remanso-BA, já encostada no Lago de Sobradinho. Mas não dava para ver o lago da estrada.

Depois de Remanso-BA o asfalto vai sumindo progressivamente, até desaparecer completamente. São 70 km exatos de terra esburacada e cheia de seixos. A moto vai balançando o tempo todo. Felizmente quase não havia areia. A maior parte da estrada estava completamente deserta. Sem tráfego, sem pessoas, sem casas. Sem nada. Parece um caminho esquecido pela humanidade.

Fiquei bastante apreensivo por aqui, pois qualquer quebra significaria um problemão para voltar a qualquer lugar com um oficina. Não houve nada. É obrigatório abastecer em Remanso-BA, pois são 170 km até Casa Nova-BA.

Depois de Lajedo-BA a estrada fica ótima até Casa Nova-BA. Abasteci e perguntei se dava para ver o Lago de Sobradinho por ali. Me disseram que havia dois caminhos para Petrolina-PE. Um direto e o outro passando por Sobradinho-BA, que daria em Juazeiro-BA. Como eram 10:00 da manhã ainda, decidi passar na barragem. São 11 km de terra. Mas já não tinha mais medo de andar na terra. Não corria ainda, mas indo no meu ritmo tudo ia bem.

A vista do lago é linda! A água bem verdinha. Contrastando com a caatinga desta região, que nesta época está muito seca. Tirei algumas fotos, respirei o ar do lago, me congratulei por ter passado pela estrada de hoje e rumei para Petrolina-PE.

Em Casa Nova-BA, tinham me dito também que a estrada que eu acabara de pegar, com buracos e seixos, era muito perigosa por assaltos. Ainda bem que eu não sabia. Agora já tinha ido. Às vezes é bom ter um pouco de sorte.

Engraçado. Até um ano atrás, eu achava o acesso a Petrolina-PE um lugar super-perigoso. Isso porque Petrolina-PE é rodeada pela caatinga, um ambiente diferente na época para mim, e por causa das notícias dos crimes no Polígono da Maconha, que fica no caminho entre Recife-PE e Petrolina-PE. Mas agora, depois de passar por tantos lugares diferentes no último ano, chegar em Petrolina-PE, no cantinho oeste de Pernambuco, é como estar voltando para casa.

Cheguei em Petrolina-PE às 12:30. Desmontei a moto no hotel e fui comer um carneiro no Bodódromo. Na volta acessei a internet para notícias. Lá em São Raimundo Nonato-PI não havia internet porque o único provedor da cidade estava com problema.

O Rad, de Salvador-BA, me passou o telefone do pessoal que tinha vindo para o MotoChico. Liguei para eles e marcamos nos encontrar à noite.

A Renata chegou no hotel às 17:00. Às 19:00 encontramos o André e a Lu, de Salvador, e o Márcio e a Márcia, de Brasília. Rumamos para o encontro.

Bem, no encontro foi a coisa de sempre. Adoramos ficar ouvindo as histórias de todo mundo, aprendendo e nos divertindo. Não temos tantas histórias boas para contar. E quando temos, não temos o “time”. Parece egoísmo, só receber e não dar nada em troca. Mas paciência, adoramos!

Mais à noite, na volta para o hotel, encontramos o Adelson e a Ana, lá de Penedo-AL. Amanhã vamos fazer um passeio com a turma toda lá na Barragem de Sobradinho.

Por mais seco que seja, sempre tem um alagado bonito na caatinga:

Poeirão dos caminhões lá na frente:

Aqui acaba o asfalto:

Lago de Sobradinho:

Moto Encontro

Dia 10

Sábado – 12/07/2008
Trecho: Bate-Volta de Petrolina-PE a Sobradinho-BA
Quilometragem: 175 km
Distância acumulada: 2.776 km

FÁBIO:

Hoje foi dia de passeio com o pessoal do M@D. Depois de um arranjo do Afonso, de Salvador-BA, com o Cicinho, de Sobradinho-BA, tivemos acesso  à usina hidroelétrica. Quem não conhecia ainda a engenharia de uma hidroelétrica se apaixonou. Quem já conhecia, renovou os seus votos. Todos também ficaram embasbacados com a grandiosidade do lago de Sobradinho.

Enquanto o pessoal ficou em Sobradinho-BA para um almoço organizado pelo Cicinho, eu, Renata, Adelson e Ana voltamos para Petrolina-PE. Almoçamos no Bodódromo e voltamos para descansar.

À noite encontramos o pessoal de novo no MotoChico. O André estava impagável com suas histórias de disco voador, poder da mente, mundos paralelos, dobras espaciais.

Amanhã todo mundo vai embora para sua casa. Nós continuamos na estrada. Finalmente decidimos para onde vamos daqui. Tínhamos pensado em passar um tempo no Vale do Catimbau-PE, a 250 km de Recife-PE, pois manteríamos o estilo arqueológico da viagem. Mas o vale fica a 50 km de onde a Renata trabalha todo final de semana, então fica fácil voltarmos lá outro dia. Outra idéia tinha sido passar um dia em Triunfo-PE. Mas o hotel era muito caro e a viagem para o Rio Grande do Norte seria mais longa no segundo dia. Decidimos então andar o máximo possível em direção ao Rio Grande do Norte no primeiro dia, depois ficar uns dois dias em alguma praia.

Outra escolha que fizemos é que a Renata iria e voltaria comigo na garupa. Para diminuir o peso, mandamos roupas sujas, ferramentas e câmaras por uma transportadora. Ficamos apenas com alicate, arames e fita scotch. Como os correios estão em greve, tivemos que deixar tudo na rodoviária. Mas terei que passar lá pela manhã para os últimos acertos. Com isso só poderemos sair daqui de Petrolina-PE depois das 08:00.

Faltava o local no Rio Grande do Norte. Quando eu ia sozinho, tinha pensado em conhecer as salinas de Macau-RN. Mas agora que a Renata ia junto, preferimos ir em algum lugar com uma praia legal, mas calma. A Renata navegou no site da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte e decidiu por Maracajaú-RN. Parece ser uma cidade calma, com passeios de mergulho nos corais.

Faz tempo que a Renata não anda na garupa, então não sabemos direito como vai ser o dia amanhã. Temos vários pontos possíveis de parada: Triunfo-PE (375 km), Patos-PB (550 km) e Currais Novos-RN (700 km). Decidimos só amanhã na estrada mesmo.

Lago de Sobradinho:

Pessoal do M@D na barragem:

Motos em cima da barragem:

Em cima do São Francisco, entre Petrolina e Juazeiro:

Casal na Estrada

Dia 11

Domingo – 13/07/2008
Trecho: Petrolina-PE a Acari-RN
Quilometragem: 679 km
Distância acumulada: 3.455 km
Tempo de Viagem: 10 horas

FÁBIO: Hoje é o nosso primeiro dia de viagem juntos. Na realidade, depois da queda no Catimbau, a Renata quase não andou mais na garupa. Ontem, no bate-volta até Sobradinho-BA, ela estava bastante tensa. Tudo bem que havia muito vento na estrada. O combinado hoje era andarmos pernas de 150 km e decidirmos a cada parada se valia ou não seguir.

Saímos de Petrolina-PE às 08:30, depois de acertar o envio de nossas coisas pela transportadora. Quase todas as motos do motoencontro já tinham saído mais cedo, mas mesmo assim encontramos algumas na estrada.

A primeira parte até Cabrobó-PE teve aspectos bons e ruins. Bons porque a Renata perdeu completamente o medo de andar de moto e estávamos andando muito bem. Eu sentia a perda de potência da moto, mas a dirigibilidade não mudou nada com a Renata na garupa. O problema era ver todas as GSX-F e V-Strom com garupa passarem voando. A estrada era praticamente um retão só. E a nossa Falcon sentia o vento, as subidas. Mantivemos 120 km/h.

De Petrolina-PE até Cabrobó-PE a caatinga estava bem seca. Virando para o norte, rumo a Salgueiro-PE, tudo começa ficar verde de novo. Talvez a tal de transição no regime de chuvas seja por aqui. Chegamos em Serra Talhada-PE (355 km depois) às 12:30. Estávamos a cerca de 450 km de Recife-PE, nossa casa. Se quiséssemos, podíamos terminar a viagem por aqui mesmo. Mas não queríamos. A Renata já estava ficando um pouco cansada, depois de tanto tempo sem andar de moto. Mas não queria voltar para casa. Talvez parar hoje um pouco antes, mas certamente seguir para mais uns dias de passeio.

Pegamos a estrada para o norte novamente, subindo a serrinha de Triunfo-PE até Teixeira-PB. Depois de andar em longas retas a manhã toda, foi gostoso pegar uma estrada com curvas novamente. Muito bonito o lugar perto de Triunfo-PE. O problema são os buracos. Muitos. Fiquei mal acostumado com os retões e entrei logo em três buracos. Depois tomei mais cuidado.

Paramos na Pedra do Tendo, que a Renata ainda não conhecia, para tirar umas fotos de onde se vê uma boa parte da Paraíba-PB. Depois dali, é só descida, para uma grande planície.

Chegamos em Patos-PB às 16:30. Já tínhamos andado 550 km. Nem na Grande Viagem tínhamos andado tanto assim em um único dia. Embora a Renata estivesse cansada, insisti para que dormíssemos em alguma cidadezinha do Rio Grande do Norte. Eu já tinha passado por Patos-PB no primeiro dia desta viagem, e queria ares novos.

Esse lugar da Paraíba é lindo. A BR-230 passa por um grande plano, com serras dos dois lados. Vários açudes pelo caminho. O único problema é a estrada cheia de remendos.

Um pouco antes de Santa Luzia-PB, pegamos uma vicinal rumo a Currais Novos-RN, onde pretendíamos dormir. O sol começou a se por, tornando a estrada escura. Em Ouro Branco-RN nos disseram para tomar cuidado com a estrada, pois havia muitos bichos na pista. Isso é comum no nordeste, com tantos bichos soltos. À noite eles vão para pista que é mais quente.
Eu nunca tinha andado de moto no Rio Grande do Norte, então estava achando uma maravilha, mesmo que estivéssemos cansados. Com medo dos bichos, e por causa do lusco-fusco, andei a 80 km/h. Depois de Jardim do Seridó-RN a estrada fica muito boa, mas completamente deserta. Não havia nada, nada. Depois de um tempo, ainda andando a 80 km/h com medo de bichos, uma moto começou a se aproximar no horizonte, atrás de nós. Fiquei preocupado com assalto, daí não teve jeito e começamos a andar mais rápido. Chegando em Acari-RN, decidimos ver se achávamos um hotel por ali mesmo, e não arriscar um assalto ou colisão com bicho nos próximos 30 km provavelmente desertos também. Na hora achamos uma pena, pois queríamos dormir em Currais Novos-RN, conhecida pelo seu encontro de motos.

Outro detalhe ainda é que, quando passamos em Várzea-PB, havia uma grande festa na cidade. Me lembrei que nesta época do ano sempre há festas no nordeste, havendo o risco dos hotéis estivessem lotados em Currais Novos-RN.

Perguntamos sobre um hotel em um posto de gasolina. O frentista disse que só havia a 4 km dali, em uma vila chamada Gargalheiras, da qual nunca tínhamos ouvido falar. Decidimos arriscar. Depois de uma  estrada cheia de curvas, subimos um pequeno caminho sinuoso até chegar ao topo de um morro. Lá estava o hotel, provavelmente da década de 50. Muito charmoso. Fantástico. De lá dava para ver um açude lá embaixo, mas sem muitos detalhes.

O jantar ia se encerrar dali 10 minutos, então corremos para aproveitar. Muito boa a comida. Ficamos depois um bom tempo conversando sobre a viagem: os retões entre Petrolina-PE e Cabrobó-PE, as curvas/serras/buracos entre Triunfo-PE e Teixeira-PB, a Pedra do Tendo, os açudes ladeados de montes na Paraíba, a escuridão do Rio Grande do Norte, a sorte por termos encontrado um hotel tão legal que nos trazia imagens da infância e o fato de termos andado juntos quase 700 km. Isso abria portas para novas viagens, em que poderíamos fazer pernas longas juntos.

Depois foi só dormir e esperar a vista no próximo dia.

Em Petrolina-PE, prontos para pegar a estrada juntos:

Volta a caatinga verde:

Pedra do Tendo-PB:

Pôr-do-sol no Rio Grande do Norte:

O Sertão Vira Mar

Dia 12

Segunda-feira – 14/07/2008
Trecho: Acari-RN a Maracajaú-RN
Quilometragem: 261 km
Distância acumulada: 3.716 km
Tempo de Viagem: 5 horas

FÁBIO: A vista do açude em Gargalheiras é impressionante. De certa forma parece um fiorde que vemos nas fotos européias. Não tenho nem palavras, basta ver as fotos.

Depois descobrimos que Acari-RN é famosíssima por causa deste açude, que todos acham lindo, com toda a razão.

Era esse tipo de experiência que queríamos ter em nossa viagem. Parar em algum lugar e ter uma grande e boa surpresa. Em Floriano-PI não tinha tido nenhuma grande surpresa. Mas isso foi compensado aqui. Lindo.

Depois de um lento acordar, um ótimo café da manhã, ficamos aproveitando a vista do açude. Não havia muita pressa porque tínhamos que andar apenas 250 km hoje.

Seguimos para Currais Novos-RN para trocar o óleo. Mais uma vez um serviço de primeira da Honda. Corrente, pneu, freios. O bagageiro estava um pouco frouxo e tinham caído parafusos da grelha da carenagem e da capa do pinhão. Tudo resolvido agora.

Estava havendo uma parada em Currais Novos-RN. Era semana do padroeiro. Ainda bem que não arriscamos vir até aqui ontem. Perderíamos Gargalheiras e teríamos corrido o risco de não haver vagas.

A estrada de Currais Novos-RN a Natal-RN é muito movimentada. Todo mundo andando a 120 km/h. Depois de tanto tempo acostumado com a falta de trânsito, é meio esquisito andar assim. Paramos um pouco antes de Natal-RN para reabastecer e comer um lanche. A BR estava muito cheia, com trânsito rápido.  De lá, entramos em Macaíba-RN para fugir de Natal-RN. Andamos uns 10 km por dentro de várias cidades, até pegar a estrada para o litoral norte. Vento em popa, sem movimento, só curtição. Aqui queria ter uma custom. Mas logo passou a vontade…

Chegando em Maracajaú-RN, havia areia na pista. A Renata ficou morrendo de medo. Insisti e fui passando devagar. Nada aconteceu. A vila estava vazia, com apenas alguns pescadores na rua. Fomos em várias pousadas, que insistiam em cobrar tarifa cheia, mesmo estando vazias. Até que encontramos uma pousada no canto da praia, na beira do mar. Estavam praticamente fechados. Deram um grande desconto, mas não haveria café-da-manhã ou qualquer outro serviço. Em troca podíamos usar a cozinha. Tudo bem, é como se tivéssemos alugado um apartamento.

A vista era magnífica. Logo entramos em contato com o pessoal que faz passeios e agendamos um mergulho nos corais, um passeio a cavalo nas dunas e um passeio de buggy pela praia. Nos próximos dois dias a moto iria ficar parada, o combinado era apenas descansarmos e namorarmos.

Aqui é permitido andar de moto nas praias e dunas. Em uma outra ocasião, quando eu aprender um pouco mais, pretendo aproveitar um local como esse para excursões de moto. Mas não é o momento ainda. Tinha andado boa parte do sertão nordestino. Um grande desafio vencido. Agora era hora de descansar.

Açude de Gargalheiras, em Acari-RN:



Primeira visão do mar nesta viagem, Maracajaú-RN:

Visão de dentro do nosso quarto:

Maracajaú I

Dia 13

Terça-feira – 15/07/2008
Dia de Passeio em  Maracajaú-RN
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 3.716 km

FÁBIO: Então chegou o dia do descanso. Maracajaú-RN são três cidades em uma. Pescadores e turistas. Os pescadores têm as suas casas e vivem as suas vidas normais. Os turistas chegam pela manhã, em ônibus e vans, fazem os passeios, almoçam e vão embora. E os estrangeiros, que têm imensos condomínios fechados na região. No verão, provavelmente há turistas que ficam na cidade, como nós. Mas nestes dias de inverno, praticamente só ficávamos nós depois do almoço.

Logo de manhã fomos até a praia, pegar a lancha para o mergulho nos corais. Nós nunca tinha andado de lancha, mas achamos muito legal. Havia muito vento, com o mar mexido. Daí a lancha foi saltando nas ondas nos 7 km do percurso. Muita emoção.

Lá nos corais havia muito vento e a corrente estava muito forte. Por isso a água estava um pouco suja. Mas dava para apreciar os corais mesmo assim. Fiquei mais de uma hora mergulhando na região. Nadava contra a corrente, depois descia apreciando tudo.

Voltamos a favor do vento, então sem tanta emoção assim, já que a lancha não pulava tanto. Mas foi legal mesmo assim. Comemos um lanche na pousada e descansamos. À tarde fomos andar à cavalo nas dunas. Uma maravilha. Saímos pela praia, subimos algumas dunas e depois esperamos o pôr-do-sol lá no topo. Inesquecível.

Jantamos uma moqueca mista em um restaurante para turistas. Quase todos os restaurantes fecham à noite nesta época do ano. Cara, mas deliciosa. O atendimento também era de primeira. O dono tem um restaurante, uma pousada e uma farmácia. A nossa garconete, nesta época do ano, ficava revezando o trabalho nestes três lugares durante o dia, dependendo da clientela.

Ao sair do restaurante, na vila que tem uns 400m de comprimento e só, qual não foi a nossa surpresa quando vimos uma Lan House. Muito legal que os jovens tenham visto esta oportunidade por aqui e montaram a loja em uma salinha. Aproveitamos para postar na internet e nos comunicarmos com o povo. Ah… para variar, não havia sinal de celular em Maracajaú-RN.

Depois do dia cheio de hoje, nada nos restou além de ficar um bom tempo na varanda, ouvindo o vento nos coqueiros e o bater das ondas no praia. Eita vida dificir!

Lancha que nos levou a 7km da costa, com emoção:

Nos corais:



Andando de cavalo nas dunas:






Pôr-do-sol nas dunas:

Maracajaú II

Dia 14

Quarta – 16/07/2008
Dia de Passeio em Maracajaú-RN
Quilometragem: 0 km
Distância acumulada: 3.716 km

FÁBIO:

Hoje foi mais dia de passeio. Logo de manhã pegamos um buggy para passear nas areias. Passeamos por várias praias, subimos e descemos dunas, atravessamos richos, tiramos fotos. Nenhuma emoção de adrenalina, só nós dois curtindo o passeio.

À tarde foi mais passeio na beira do mar, descanso, namoro, curtição. Coisas das quais não se escreve, mas se imagina. Foi nosso último dia de férias. Tranquilo, calmo e pleno. Como todos os dias deviam ser.

Amanhã voltamos para casa.

Amanhecer:

Passeio de buggy nas dunas:






A Renata dando bronca em uma filhote de doberman, a pretinha:

Passeio na praia ao pôr-do-sol:


De Volta para Casa

Dia 15

Quinta-feira – 17/07/2008
Trecho: Maracajaú-RN a Recife-PE
Quilometragem: 349 km
Distância acumulada: 4.065 km
Tempo de Viagem: 6 horas

FÁBIO:

Hoje acordei um pouco ansioso com a volta. É aquela velha história que ouvimos que a maior parte dos acidentes acontece perto de casa.
Na saída, lá pelas 06:00, tiramos as últimas fotos do mar, na frente de nossa pousada.

A estrada de Natal-RN até Recife-PE estava horrível. Muito movimento de carros e caminhões, muitos buracos, muitas máquinas trabalhando na duplicação. É como se tivéssemos andado 300 km dentro de um parque de obras.

Engraçado que a mente também começou a se alterar. Assim como no primeiro dia, as preocupações com do cotidiano insistiam em bombardear a minha mente. Mas me esforcei um pouco para libertar a mente e curtir o último dia de viagem. Depois consegui.

Também como no primeiro dia, pegamos chuva entre João Pessoa-PB e Recife-PE. Isso era esperado, já que é tempo de seca no sertão, e tempo de chuva no litoral nordestino.

Chegamos em casa perto do meio-dia. Felizes e cansados. Hoje pegamos o resto do dia só para descansar. A escrita do relato, o filminho, a organização das fotos, ficam para depois que a cabeça parar.

RENATA:

Saída ao nascer-do-sol:

Última parada para abastecimento, em João Pessoa-PB:

De volta em casa:

Análise Técnica

FÁBIO: A troca de óleo foi feita a cada 1.700 km, quando aproveitamos também para calibrar os pneus e verificar a corrente e os freios. Lubrificava a corrente todo dia pela manhã, com óleo SAE90, que levei em um tubinho de catchup. O atendimento nas agências da Honda sempre foram excelentes. Demora cerca de 40 minutos, mas é o tempo para tomar uma água, pegar uma sombrinha, ir ao banheiro, etc. Eles cobram só o óleo mesmo, ao preço do mercado.

A média de velocidade foi de 70 km/h, contando as paradas para refeições e abastecimento. Isso significa que, se eu quisesse andar 700 km em um dia, teria que reservar 10 horas.

Perdi o medo paralisante de andar na terra. Agora só tenho o medo do receio mesmo.

Achei que o pneu traseiro, um SIRAC 130, se desgastou muito rápido, tendo durado só 11.000 km. Assim como na Grande Viagem, ficou todo quadrado no final. Acho que é porque eu não troquei o aro.

Quanto às ferramentas, embora eu não tenha usado, me arrependi de não ter levado uma chave 24mm e o kit de reparo de pneus. Andei em lugares muito desertos e poderia ter tido dificuldade se o pneu furasse.

A Falcon é uma moto quase perfeita para a viagem que eu fiz. A única reclamação é a falta de potência nas grandes retas, quando se está com alforjes e garupa. Outra dificuldade é ultrapassar caminhões andando a 110 km/h. Como não dá para ficar colado neles por causa do vácuo e dos buracos que aparecem de surpresa, falta potência para dar aquela arrancada de longe. Mas, não sei que moto seria a ideal. Talvez uma XTR, que pretendo comprar no ano que vem, mas dizem que não é tão confortável. Uma V-Strom seria ótima para o passeio que eu fiz, mas não seria legal se um piloto mais experiente tivesse tentado aproveitar melhor os passeios pelos areiões, dunas e praias. O ideal, acho, seria uma Falcon com uns 20 CV a mais e com o mesmo peso.

Últimas Palavras

FÁBIO: Como da outra vez, na Grande Viagem, eu gostaria de ter aproveitado melhor as estradas de terra e areia. Teria tido muito mais autonomia nos passeios e diversão na pilotagem. Mas… esse é sempre o meu lado super autocrítico falando. Quando penso melhor, lembro que a 18 meses atrás eu nem andava de moto. Agora já andei 39.000 km, sendo 12.000 km em duas viagens grandes, sozinho. Quando penso assim vejo que sim, aproveitei o máximo possível. Mais para a frente aproveito a areia.

Não pretendo fazer nenhuma viagem grande nos próximos 12 meses. Isso porque quero juntar dinheiro para uma XT660R. Ou uma outra moto equivalente, que a Honda sempre está prometendo. Talvez faça uma viagem em janeiro de 2009 para Fortaleza-CE, Salvador-BA ou São Luiz-MA. Mas só para andar mesmo, sem grandes passeios.

Quero ver se aproveito melhor esse tempo para melhorar a minha pilotagem e fazer uns passeios com amigos aqui pela região.

Próximos desafios? Chapada dos Veadeiros, Chapada dos Guimarães, Foz do Iguaçu, Jalapão, Lençóis Maranhenes, Bonito, Pantanal, Peru, Chile, Ushuaia, Transamazônica, Humaitá-Manause e Caribe. Coisa para os próximos 10 anos.

De novo em cima de uma moto por vários dias, lembrei que devemos deixar as coisas fluirem. Deste jeito a mente fica clara, percebendo e sentindo melhor a vida. O desafio é aprender a manter a cabeça assim no dia-a-dia. Ou, melhor ainda, não precisar ter um dia-a-dia e viver o resto da vida sobre uma moto.

FIM

Anexo A
Sites da Internet

Todos os nossos relatos e filmes são registrados em nosso BLOG. Inclusive, é possível acessar uma versão completa do relato da Grande Viagem em pdf. Daqui a um tempo, depois de revisar este relato aqui de acordo com todas as sugestões que estamos recebendo, vamos disponibilizar também uma versão em pdf toda diagramada. Nesta próxima versão teremos também a visão da Renata, que por causa do trabalho não pode escrever muito ainda. Nosso blog está na página www.fabiomagnani.blog.uol.com .br

Outros três sites muito importantes para a nossa viagem são os fóruns de motos:

ClubeXT600: www.forumxt600.com.br
M@D: www.debatemotos.com
FOL: www.falcononline.com.br

Nesses fóruns fizemos muitos amigos, aprendemos bastante, tivemos suporte durante as viagens e sugestões para os relatos. Não seria possível fazer viagens como essas, “sozinho”, sem a ajuda de todos os amigos.

Anexo B
Equipamentos, Roupas e Acessórios

Moto: Honda Falcon NX4 400cc – ano 2006, modelo 2007, prata.Quilometragem no início da viagem: 35.071 km. Todas revisões feitas na Honda, de 3.000 em 3.000 km. Troca de óleo a cada 1.500 km.

Equipamentos da moto: Pneus Sirac. Jogo de ferramentas original. Protetores de mão com alma de alumínio. Bauleto Givi 45 l. Bagageiro reforçado Roncar. Afastador de alforje genérico. Alforjes Front Side. Antena corta-pipa. Manoplas circuit (mais confortáveis). Bolha Motovisor. Tire-Seal Motovisor

No corpo: Calça jeans. Cinto. Meia, cueca e camiseta. Bota. Jaqueta com proteção nos cotovelos, ombros, peito e costas. Luva e joelheira. Capacete escamoteável. Lenço. Mapas (escaneei o mapa 4 rodas em pequenos pedaços). Ficha de anotação de consumo e gastos. Caneta e bloco de anotação. Carteira falsa (com documentos xerocados) e celular. Câmara e tripé. Mp3 e calculadora. Pochete escondida (com dinheiro e documentos verdadeiros).

No bauleto: Óleo SAE 90 para lubrificar corrente. Capa de chuva. Papel higiênico. Água. Saco de couro (para eventualmente levar bagagem no banco). Aranha e elásticos extras. Chapéu. Protetor solar. Kit de primeiros socorros. Bolsa com dinheiro, cheque, carregador do celular, carregador da câmera, cabos, chaves extra e óculos extra. Pochete grande (para caminhadas)

Nos alforjes: Livro. Informações sobre pousadas. Seis conjuntos (cueca, meia e camiseta). Camisa de manga leve e calça leve. Tênis. Sunga e toalha. Caderno e caneta. Dois lenços extras. Roupa de dormir. Bolsa de produtos de higiene. Saco de roupa suja. Chaves de fenda, alicate, jogo de chaves combinadas, arame, fio de cobre e fita scotch. Câmaras dianteira e traseira, tire pando. Chaves extras. Sacos de plástico

Detalhes: Bauleto envolto por aranha. Alforjes fixados com elásticos. Corrente lubrificada diariamente. Pneu calibrado a cada 1.700 km, nas paradas para troca de óleo nas concessionárias Honda.

Primeiros Socorros: Iodo e soro fisiológico. Tesoura. Esparadrapo, band-aid, gaze e atadura. Tandrilax, dipirona e benegripe. Bepantol. Cataflan. Calminex. Hidratante. Manteiga de cacau. Termômetro. Albicon

Higiene: Xampu e condicionador. Sabonete e desodorante. Escova de dente. Pasta de dente + fio dental + enxaguante. Lâmina barba. Protetor solar. Repelente. Cotonete. Cortador de unha.

Anexo C
Tabela de Distâncias

dia   data      trecho/passeio         diária   acum.

1   03 jul 2008   Recife-PE a Icó-CE         573 km     573 km
2   04      Icó-CE a Sete Cidades-PI       814 km   1.387 km
3    05      Passeio em Sete Cidades-PI       13 km   1.400 km
4    06       Passeio em Sete Cidades-PI          1.400 km
5   07      Sete Cidades-PI a Floriano-PI    470 km   1.870 km
6   08      Floriano-PI a Serra da Capivara-PI    381 km   2.251 km
7   09      Passeio na Serra da Capivara-PI       2.251 km
8   10      Passeio na Serra da Capivara-PI       2.251 km
9   11      Serra da Capivara-PI a Petrolina-PE    350 km   2.601 km
10   12      Bate-volta em Sobradinho-BA    175 km   2.776 km
11   13      Petrolina-PE a Acari-RN       679 km   3.455 km
12   14      Acari-RN a Maracajaú-RN       261 km`   3.716 km
13   15      Passeio em Maracajaú-RN            3.716 km
14   16      Passeio em Maracajaú-RN          3.716 km
15   17      Maracajaú-RN a Recife-PE       349 km    4.065 km

Quilometragem por estado (aproximada)

Piauí:          984 km
Ceará:          792 km
Paraíba:          693 km
Pernambuco:       620 km
Rio Grande do Norte:    500 km
Bahia:          475 km
Maranhão:       1 km

Anexo D
Livros e Filmes

FÁBIO: Aproveitamos para registrar uma lista de livros e filmes que foram muito importantes para nos motivar a sair por essas estradas em cima de uma moto. É uma lista atualizada do publicado na Grande Viagem.

Livros

Handbooks
Adventure Motorcycling Handbook, 5th : Worldwide Motorcycling Route & Planning Guide – Chris Scott
Riding the World : The Biker’s Road Map for a Seven Continent Adventure – Gregory W. Frazier

Relatos
One Man Caravan – Robert E., Jr. Fulton
Jupiters Travels : Four Years Around the World on a Triumph – Ted Simon
Long Way Round : Chasing Shadows Across the World – Ewan McGregor & Charley Boorman
Long Way Down – Ewan McGregor and Charley Boorman
The Longest Ride: My Ten-Year 500,000 Mile Motorcycle Journey – Emilio Scotto
Mondo Enduro – Austin E. Vince
Mi Moto Fidel – Christopher Baker
Two Wheels Through Terror: Diary of a South American Motorcycle Odyssey – Glen Heggstad
Against the Wind: A Rider’s Account of the Incredible Iron Butt Rally – Ron Ayres
Ghost Rider: Travels on the Healing Road – Neil Peart
Breaking the Limit: One Woman’s Motorcycle Journey Through North America – Karen Larsen
Histórias de Motocicleta – Luiz Almeida
Viajando pela Rota Transiberiana – Godoy
Nordeste de Moto – Sidney Geraldo dos Santos
Ushuaia – Chardô
Machu Picchu – Chardô
Alaska – Clodoaldo Braga
Do Ceará ao Chile – Paulo Guedes
Saindo do Lugar Comum – Cícero Paes
Saindo, Novamente, do Lugar Comum – Cícero Paes

Manutenção
The Essential Guide to Motorcycle Maintenance – Mark Zimmerman
Motorcycle Maintenance Techbook – Keith Weighill
Motorcycle Workshop Practice Manual – John Haynes
Manual de Mecânica de Motos – Sergio Alejandro Ribaric

Dinâmica e Performance
Motorcycle Design and Technology – Gaetano Cocco
Sportbike Performance Handbook – Kevin Cameron

Pilotagem
Proficient Motorcycling: The Ultimate Guide to Riding Well – David L. Hough
More Proficient Motorcycling : Mastering the Ride – David L. Hough
Motorcycling Excellence – Motorcycle Safety Foundation
Total Control: High Performance Street Riding Techniques – Lee Parks
Pro Motocross & Off-Road Riding Techniques – Donnie Bales
Twist of the Wrist – Keith Code
Twist of the Wrist II – Keith Code

Crônicas
Leanings: The Best of Peter Egan from Cycle World Magazine – Peter Egan
The Perfect Vehicle: What It is about Motorcycles – Melissa Holbrook Pierson

Relacionados ao Motociclismo
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Robert M. Pirsig
Hell’s Angels – Hunter S. Thompson
Hell’s Angel – Sonny Barger
Under and Alone – William Queen
The Ultimate History of Fast Motorcycles – Roland Brown

Dicas
Motorcycle Camping Made Easy – Bob Woofter

Engenharia

Internal Combustion Engine in Theory and Practice, Vol 1 – Charles Fayette Taylor
Internal Combustion Engine in Theory and Practice, Vol 2 – Charles Fayette Taylor
Internal Combustion Engines and Air Pollution – Edward Frederic Obert
Internal Combustion Engine Fundamentals – John Benjamin Heywood
Projeto de Máquinas: uma Abordagem Integrada – Robert L Norton
Manufacturing Engineering and Technology – Serope Kalpakjian and Steven R. Schmid
Practical Electronics for Inventors – Paul Scherz
Filmes

Aulas
The MSF Distbike School

Documentários
On Any Sunday
Long Way Round
Long Way Down
Mondo Enduro
Race to Dakar
Dust to Glory
Evel Knievel
American Chopper – Series

Ficção sobre Motociclismo
The Wild One
Easy Rider
Girl on a Motorcycle
Hells Angels on Wheels
The World’s Fastest Indian
The Motorcycle Diaries
Ghost Rider
Wild Hogs
Psychomania
Harley Davidson and the Marlboro Man
Torque

Ficção com Cenas Importantes de Motociclismo
Rumble Fish
The Terminator
The Great Escape
Mad Max