Tecnologia da Bicicleta

A disciplina de Estudos da Bicicleta tem três partes: “História e Tecnologia”, “Ciência do Ciclismo” e “Cultura, Trânsito, Mercado e Política”. Como estamos começando agora, a maior parte do conteúdo vem de livros. O começo, história da bicicleta, é muito bem servido por Bicycle: The History. O próximo tema, tecnologia, é fortemente baseado no livro Bicycle Technology, com pinceladas de manutenção de Zinn & the Art of Road Bike Maintenance. A segunda parte, “Ciência do Ciclismo”, tem como referência quase que exclusiva Bicycling Science, que já comentei por aqui. Conta também com alguma ajuda de High-Tech Cycling. A terceira parte, por lidar com as ciências humanas e sociais, naturalmente carece de um grande número de referências. Isso porque aqueles assuntos têm muitos pontos de vista, várias abordagens e infinitas opiniões. Basta pegar uma única referência para ter uma idéia das polêmicas, como, por exemplo, mostra muito bem o livro Pedaling Revolution.

Feita a contextualização, eu quero falar um pouco sobre a tecnologia, que pode ser vista de vários pontos de vista: projeto, fabricação, produção, manutenção, história e mercado. As partes de projeto, fabricação e produção são vistas nas disciplinas gerais do curso de engenharia mecânica. Agora, claro que além dos métodos gerais aprendidos nessas disciplinas, é importante ter acesso à descrição da tecnologia específica usada nas bicicletas. Isso porque não é nada eficiente reinventar a roda a cada novo projeto.

Um livro legal sobre a descrição da tecnologia das bicicletas é Bicycle Technology, de Rob van der Plas and Stuart Baird (2010). Tem cerca de 300 páginas que falam de quase tudo que se possa ter curiosidade. São 28 capítulos, que eu vou juntar em três partes um pouco mais adiante.

Antes alguns comentários. Em primeiro lugar, as competições internacionais são reguladas pela UCI, que tem como princípio dificultar que um atleta vença uma corrida por causa da tecnologia. Para eles, as competições são entre os humanos, não entre as bicicletas. Por isso eles são extremamente conservadores quanto ao projeto das bicicletas e, portanto, não necessariamente as bicicletas usadas nas competições são as melhores possíveis para o bicicleteiro comum.

Segundo, há vários tipos de bicicleteiros: o commuter que vai e volta para o trabalho, o atleta que corre nas estradas, o aventureiro que desce as montanhas, o viajante que percorre centenas de quilômetros por dia, o acrobata que se exibe nas ruas, o hipster que imita os mensageiros de Nova Iorque e muitos outros. Por isso, não há uma bicicleta ideal. Tudo depende de como ela vai ser usada.

Sim, mas o que o mercado tem a ver com tudo isso? O problema é que as fábricas usam as competições para promover e justificar os seus produtos. Muitas vezes acabam oferecendo produtos que têm acessórios que não são necessários para o usuário comum, como as suspensões dianteiras para uso urbano. Para piorar, não desenvolvem acessórios que são proibidos nas competições, como carenagens aerodinâmicas.

Por exemplo, eu não tenho coragem de pagar mais do que R$ 400,00 por qualquer bicicleta que esteja à disposição no mercado. Agora, se uma fábrica lançasse uma bicicleta baseada em uma cyclo-cross, com um quadro do meu tamanho, com pneus apropriados para uso urbano, com iluminação, cadeado, para-lamas, câmbio com apenas as marchas que eu uso, uma pequena bolha aerodinâmica e rack para bagagem, eu estaria disposto a pagar até R$ 2.000,00 (em suaves prestações). Assim como eu, quantos clientes essas fábricas não estão perdendo?

O livro Bicycle Technology tem exatamente esse objetivo, de informar aos bicicleteiros as funções de cada parte da bicicleta e ajudá-los a exigir que as fábricas lancem produtos apropriados para cada uso. O livro é bastante crítico em relação a produtos que só têm função mercadológica, sem qualquer vantagem técnica. Se você comprou uma bicicleta só porque estava na moda, não leia esse livro. Você vai morrer de raiva do vendedor que te empurrou algo que não precisava.

Mas vamos ao livro. A primeira parte é um resumo de assuntos que são mais bem explicados em outros lugares. Começa com um pouco da história, destruindo vários mitos, como por exemplo o mito de que Leonardo da Vinci projetou a primeira bicicleta. Depois fala sobre os vários tipos de bicicleta e quais são suas principais partes. O livro também toca brevemente na física da bicicleta, na fisiologia do ciclista, nos principais materiais e em algumas técnicas de projeto. Como eu disse antes, todo esse material pode ser encontrado em livros específicos, mas é interessante ter esse resumão, que é dividido em sete capítulos e espalhado por 90 páginas.

A parte principal do livro tem 14 capítulos em 170 páginas. Fala sobre todos os componentes principais das bicicletas: quadro, roda, direção, transmissão, marcha, freio, banco, suspensão, iluminação e acessórios. Tem um monte de discussões interessantes. Como exemplo, ele fala sobre os quadros mirabolantes que as fábricas vendem por aí para alavancar as vendas para adolescentes. Um ponto importante é a séria discussão sobre a diferença entre os descarrilhadores e as marchas de cubo. As marchas de cubo são mais antigas, mais pesadas e mais caras. Mas têm várias vantagens para o uso urbano, como por exemplo permitirem a troca de marcha com a bicicleta parada e uma menor manutenção. Deveriam ser levadas mais a sério.

Outras discussões legais são sobre o freio a disco e sobre a suspensão. Esses dois componentes aumentam muito o preço das bicicletas, mas não são tão importantes assim para o uso urbano. Muitas vezes, aqui no Brasil, as fábricas forçam a compra desses componentes em bicicletas de melhor qualidade. Por exemplo, eu posso estar disposto a pagar mais por um quadro melhor ou por uma transmissão mais confiável, mas para ter isso sou obrigado a comprar a suspensão e o freio a disco. Complicado.

Esses são só alguns exemplos de centenas de outras análises que são feitas ao longo do livro, como o uso de carenagens, rodas rígidas, tipos de mancais, variedades de pneus, sistemas de freio, coroas elípticas, e muito muito muito mais. Em todo componente apresentado, os autores sempre tentam mostrar as vantagens e desvantagens, apontando claramente qual é o uso indicado para tal configuração.

A última parte do livro tem 50 páginas em sete capítulos. Fala de assuntos muito importantes, que em geral não são tratados por aí. Começa com bicicletas para pessoas muito altas ou muito baixas, que têm um projeto diferente das bicicletas disponíveis no mercado. Depois o livro fala sobre bicicletas tandem (aquelas bicicletas com dois ou mais lugares), bicicletas dobráveis (que estão na moda embora sejam bastante antigas), recumbentes (em que se anda inclinado para trás, como se estivesse sentado) e bicicletas com mais de duas rodas (triciclos) ou menos (monociclos).

Um capítulo legal é sobre as bicicletas assistidas por motores elétricos. Os autores descrevem os vários sistemas. O mais simples é o CEB (conventional electric bicycle), onde basta clicar um botão para acionar o motor, sem a necessidade de pedalar. Para mim isso é uma moto elétrica, não uma bicicleta. No sistema SAB (simple assist bicycle), o motor só liga se você pedalar. Mas pode ser uma pedalada bem fraquinha, só para enganar o motor. Há também o sistema EHB (electro-hybrid bicycle), onde a potência do motor é proporcional à potência do ciclista. Nesse sistema a pessoa se sente como se estivesse em uma bicicleta normal, mas não precisa fazer tanto esforço. Muito legal para pessoas com dificuldade de locomoção ou então para cidades com muitas subidas. O mais moderno é o SHB (synergetic hybrid bicycle), que é parecido com o último tipo, mas que além daquelas características também regenera a energia da bateria nas descidas e nas frenagens.

O último capítulo é sobre o futuro das bicicletas. Logo de cara eles declaram que não acreditam na utopia de que todos no futuro vão andar de bicicleta. Também comentam as várias “tecnologias do futuro” que existem desde o começo das bicicletas, mas que todos os anos são relançadas como se fossem a última novidade, como por exemplo as bicicletas de bambu, a transmissão por correia ou os HPVs (human powered vehicles, veículos com propulsão humana) para o dia a dia.

Agora, embora não acreditem que todos andarão de bicicleta, pode haver um aumento significativo no seu uso. Para isso, alguns avanços podem ser perseguidos. Diminuir a resistência de rolagem, minimizar a resistência aerodinâmica e baixar o peso do conjunto. Outros “avanços” seriam mercadológicos, como por exemplo parar de vender bicicletas com suspensão para uso urbano!

O livro deixa algumas questões. O que vai acontecer quando a China entrar no mercado de componentes de alto desempenho? Algum dia alguém vai conseguir projetar um ABS ou um câmbio automático para bicicletas? A complexidade cada vez maior das bicicletas não vai afastar aqueles bicicleteiros que gostam de “fuçar” em suas máquinas? Como as bicicletas vão se aproveitar da comunicação eletrônica e das redes sociais? Que papel a mídia e as produtoras culturais vão ter na criação de uma imagem mais positiva do bicicletismo? Não está havendo um exagero na promoção do ciclismo, quando na realidade o transporte de massa é que deveria ser mais incentivado? Por último, será que o bicicletismo é para todos?

São muitas questões abertas, para pensar com mais calma. Não tenho uma opinião formada sobre nenhuma delas. Mas tenho certeza de uma coisa: o conhecimento traz a liberdade. Com livros como este, podemos descobrir o que realmente precisamos de uma bicicleta. Dá para determinar em que casos a bicicleta realmente é útil para o cidadão comum e em que casos a defesa do ciclismo é apenas uma fantasia juvenil. Também, conhecendo as vantagens e desvantagens de cada componente, podemos perceber quando uma fábrica está vendendo só perfumaria. Por fim, ao conhecermos melhor as bicicletas, é possível avaliar se as medidas dos governos são só eleitoreiras, se são tecnicamente corretas, e se estão aquém ou além do que é razoável exigir desse meio de transporte.