As 100 Melhores Bicicletas

Já estou chegando na reta final da preparação de Estudos da Bicicleta, que é a disciplina que vou oferecer para a graduação da UFPE no próximo semestre. Pois é, a matrícula começa em 22 de novembro.

Toda matéria nova dá um certo trabalho, principalmente quando não há um livro-texto único para seguir. Mais trabalho ainda quando a disciplina não existe em nenhum outro lugar. É preciso definir os objetivos, estudar para caramba, montar a estrutura, separar o material que importa e criar as apresentações. Mas é um trabalho muito legal – parece mais um hobby. Para quem tiver interesse, um livro que explica de forma bem prática como fazer essa preparação de cursos é o McKeachie’s Teaching Tips. Devia ser leitura obrigatória para quem trabalha na universidade.

A disciplina de bicicletas vai rodar por todo o mundo do bicicletismo: história, trânsito, cultura, fisiologia, física, política e mercado. Mas, por estarmos em um curso de engenharia, claro que a tecnologia terá um certo destaque. Grosso modo, essa parte de tecnologia pode ser dividida em concepção do projeto (design) e em dimensionamento dos componentes (projeto mecânico).

O dimensionamento tem mais a ver com o dia-a-dia do engenheiro mecânico, que tem uma boa formação em dinâmica, seleção de materiais, elementos de máquinas e aerodinâmica. A parte do design é que é mais complicada para a gente, pois depende de conceitos estéticos, de mercado e de ergonomia. Então, para lidar com essa parte, vamos seguir o caminho mais simples possível. A ideia é colecionar uma série de bicicletas importantes e discutir porque foram projetadas daquela maneira. No futuro espero ter a companhia de outros professores que possam explicar mais profundamente a teoria por trás daquelas concepções. Se bem que eu tenho quase certeza que a maior parte dos projetistas dessas bicicletas importantes não tinha grandes conhecimentos teóricos de design ou de engenharia. Mas isso não é desculpa para não melhorarmos a matéria cada vez mais.

Agora, o que é importante no design de uma bicicleta? Qual é a sua principal característica? Ela tem que ser eficiente? Barata? Bonita, exclusiva, resistente, simples, essencial, exibicionista, veloz, útil, fútil ou excêntrica? A resposta é muito simples: depende. Por exemplo, para um atleta é importante que ela seja eficiente. Para um trabalhador ela precisa ser barata – tanto na aquisição quanto na manutenção. Para um hipster deve ser exclusiva e para uma criança tem que ser extravagante. Para quem anda na cidade precisa de pneus lisos, para quem desce montanhas precisa ter suspensão traseira. Para quem viaja é bom que tenha uma longa distância entre eixos, para quem faz manobras é bom que seja curta. Por isso o projetista precisa entender exatamente o que um ciclista específico precisa. Não há uma bicicleta perfeita para todos os usos e todos os ciclistas. Mas, concentrando em um tipo de ciclista e em um tipo de uso, é possível fazer projetos cada vez melhores.

Um dos livros que vamos usar para tentar entender o design das bicicletas é 100 Best Bikes (“As 100 Melhores Bicicletas”, de Zahid Sardar), que foi lançado agora no final de setembro. O livro fala de bicicletas recentes, que ainda estão disponíveis no mercado. Aparentemente o autor escolheu as bicicletas pela eficiência mecânica, pelo design inovador ou pela exclusividade. Não há bicicletas baratas neste livro, por isso teremos que usar também outros livros para ver projetos antigos e convencionais. Mas isso é conversa para outro dia. Por hoje, vamos dar uma olhada no que acontece quando alguém não tem grandes preocupações com o custo final do produto.

O livro é dividido em cinco partes: Corrida/Turismo (20 bicicletas), BMX/Mountain Bike (14 bicicletas), Cidade/Utilitárias (36 bicicletas), Dobráveis/Inovadoras (30 bicicletas) e Acessórios (com 20 itens diferentes). Em geral as bicicletas são apresentadas em duas páginas, uma para uma foto da bicicleta toda, e a outra página para um texto explicativo e fotos dos detalhes. Cada bicicleta vem com o peso e com o preço aproximado, que varia nas classes $ (abaixo de $1000), $$ (abaixo de $2000), $$$ (abaixo de $5000), $$$$ (abaixo de $10000) e $$$$$ (acima de $10000). Todas as 100 bicicletas do livro têm alguma curiosidade, por isso é até difícil escolher o que falar aqui. Vamos então deixar o acaso escolher algumas bicicletas:

Ducati Copenhagen Wheel. A primeira página sorteada do livro não trouxe bem uma bicicleta. Apareceu uma roda – desenvolvida pelo laboratório SENSEable City Lab, do MIT – que já vem com bateria e motor elétrico. Desse jeito, um único componente absorve energia quando a pedalada estiver fácil, armazena essa energia na bateria e depois despeja de volta quando o ciclista estiver botando os bofes para fora por causa de alguma subida desgramenta. O legal é que, por ser sem fio, pode ser instalada em qualquer bicicleta, transformando-a em uma e-bike. Além do utilitarismo da roda, achei o design muito bonito. O problema por enquanto é o peso, já que a roda usa componentes comuns.

Urban Arrow – Electric Assist Cargo Bike. Já escrevi por aí que os maiores empecilhos para o uso de bicicletas em Recife são o clima quente e úmido – que faz a pessoa suar com facilidade – e escolas de qualidade que ficam longe das casas. Por isso um pai de família é praticamente obrigado a ter um carro para levar as crianças para a escola e depois chegar seco no escritório. Essa bicicleta resolve os dois problemas, já que tem espaço para as crianças e vem com um motor elétrico que auxilia a pedalada. Outras características legais são uma capota para os dias de chuva e a possibilidade de trocar o carrinho por uma caixa, transformando a bicicleta em uma cargueira.

Bianchi Oltre Super Record. Mas nem só de novidades vivem os que estão no topo. Algumas bicicletas tem um conceito extremamente convencional. Nessas, o investimento é feito para aperfeiçoar os seus componentes quase ao limite. A bicicleta ao lado é uma Bianchi – a lendária fábrica milanesa fundada em 1885 – que pesa menos de 4 kg. O quadro é de carbono, super leve e aerodinâmico. Os outros componentes são de fabricantes tradicionais, como o gruppo da Campagnolo.

Tjeerd Veenhoven Ordinary Carbon Bike. Já essa não tem nada de convencional. É a bicicleta mais maluca do livro. No começo da fabricação, os caras prendem componentes reciclados (banco, rodas, movimento central) em uma estrutura. Depois amarram uns aos outros com fibra de carbono, como se estivessem rabiscando em um jogo de ligar os pontos. No final é só embeber a fibra em resina epóxi. A bicicleta é barata e pode ser feita por qualquer pessoa, além de ser resistente e exclusiva. O problema é que fica muito rígida, o que causa desconforto em ruas esburacadas.

Van Nicholas Pioneer Rohloff. Essa daqui é outra bicicleta de estilo tradicional onde investiram muito na qualidade dos componentes. O quadro é de titânio, um metal com quase a mesma resistência do aço, mas bem mais leve e não corrosivo. As marchas são trocadas com um cubo de 14 marchas da Rohloff. Esse sistema de engrenagens planetárias é mais antigo do que os descarrilhadores, mas sempre foi ineficiente. Isso está mudando com a Rohloff. A eficiência e o número de marchas vêm aumentando consideravelmente, junto com o preço. No mais, a Pioneer é extremamente elegante, com uma transmissão por correia, suporte para bagagens e um acabamento bem caprichado. Para quem só anda na cidade e quer uma bicicleta cara para demonstrar a sua classe econômica, é bem melhor gastar dinheiro com uma bicicleta estilosa como essa do que com suspensões mirabolantes ou freios a disco na roda traseira. Não tem nada pior do que demonstrar ignorância gastando dinheiro com equipamentos desenvolvidos para outros fins.

Treehugger Thinbike. Essa ideia talvez seja a mais simples do livro, mas foi a que mais me impressionou. Uma bicicleta da mesma cor da parede, e que dobra o guidão e o pedal na hora de guardar. Perfeita para quem mora em um apartamento pequeno. Outros cuidados são uma correia de carbono que reduz o ruído e que elimina as manchas de óleo, selim da Brooks e cubo de 11 marchas. Segundo o livro essa não é uma ideia original, já que a Airnimal e outras dobráveis também ficam bem finas. O interessante desta Thinbike é que usa componentes comuns, que podem ser instalados em qualquer bicicleta. O único problema é o preço: mais de $5.000!

Olhe que só falei de seis bicicletas de um livro de 100 bicicletas exclusivas – que não são necessariamente as melhores do mundo, já que essa avaliação é bastante subjetiva. Além disso, existe ainda todo um mundo de bicicletas esportivas, de bicicletas de baixo custo, de bicicletas de carga, de bicicletas de transporte urbano, de bicicletas de passeio, de bicicletas para viagens e de bicicletas recumbentes. Só entre as esportivas há as de estrada, de pista, de trilha, de trial e de ciclocross. Cada uma dessas bicicletas tem que ser pensada para um uso diferente, para uma necessidade diferente e para uma pessoa diferente. Isso porque alguns querem ganhar corridas, alguns querem mostrar que têm dinheiro, alguns querem celebrar a riqueza cultural do trabalho manual, alguns querem eletrônica moderna, alguns querem gastar pouco, outros querem maluquices e outros ainda querem bicicletas conservadoras. Há espaço para todos os conceitos. Ainda bem!

Isso me dá bastante esperança de que é possível aos jovens brasileiros começarem suas próprias empresas de sucesso. Não é preciso muito dinheiro. Dá para começar com uma revenda honesta, onde se saiba recomendar a bicicleta certa para cada consumidor. Honestidade e conhecimento são produtos escassos no nosso mundo, e há muitos consumidores dispostos a pagar um pouquinho a mais por isso. Depois você passa a montar bicicletas diferentes, com componentes disponíveis no mercado. Com um pouco mais de investimento o negócio então é fabricar os próprios quadros e continuar montando as bicicletas com peças de outras fábricas. Finalmente, com o aumento das receitas, o empreendedor pode então investir no desenvolvimento de componentes específicos, passando a fabricar a bicicleta inteira. Depois bicicletas elétricas, motos elétricas, veículos para necessidades especiais, novos conceitos de transporte humano e o céu é o limite. Para se ter uma ideia, só no Brasil o mercado atual de bicicletas é de R$ 1,5 bilhões anuais. Mas pode crescer muito mais.

Nosso mercado é bem menor do que poderia ser porque nós não fabricamos bicicletas para exportar, porque nos limitamos a copiar o que há de mais conservador, porque iludimos o consumidor – que depois não volta para comprar outra bicicleta melhor -, porque não investimos quase nada na divulgação do uso das bicicletas, porque cada empresa só está interessada em suas migalhas e não coopera na criação de uma grande cultura de bicicletismo, porque nossas cidades não apresentam boas condições para os bicicleteiros, porque não desenvolvemos tecnologia, porque não criamos nossos próprios designs, porque nossas revistas só sabem vender, e porque não oferecemos bicicletas para nichos específicos.

Há muito espaço para crescer. Só precisamos de gente para preencher esse vazio deixado pelas fabricantes atuais. Precisamos de gente com criatividade, gente independente, gente que entenda que trabalhar para o bem comum é sempre a melhor maneira de conseguir benefícios individuais, gente que não se contente em ser empregada das grandes empresas, gente com ética, e gente que queira fazer do seu trabalho uma diversão e uma fonte de orgulho. O mundo das bicicletas está dormindo, à espera da grande era do renascimento. Que venham os jovens!