Vol. 2 – O Segundo Motoqueiro

 
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Volume 2: O Segundo Motoqueiro

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Parte 1

Percebi agora há pouco que nunca me apresentei de forma apropriada. Vocês até sabem o meu nome e que gosto de andar de moto por aí. Mas nunca disse qual é a minha profissão; o que faço quando não estou em uma moto. Bem, sou fotojornalista free-lance. Corro o nordeste inteiro à procura de notícias para vender aos jornais. Às vezes sou contratado para algum serviço, mas é raro. Meu nome completo é Willinilton Barbosa. Hei, não olhem para mim! Foi o meu pai que escolheu. É que ele adorava ler as histórias dos criminosos do velho oeste. Os preferidos dele eram os Irmãos Newton, que superaram Jesse James e Butch Cassidy na quantidade roubada. Mas mesmo assim, diziam que nunca tinham matado ninguém. Como um deles chamava-se Willis Newton, não é difícil ver de onde veio o meu nome.

Essa história do meu nome vem bem a propósito, porque alguns dias atrás apareceu um novo bandoleiro no sertão. Um tal de Jessé Jemisson do Nascimento. O cara praticou a maior chacina em Serra dos Albuquerques e fugiu com o dinheiro do banco. Acostumado como eu sou com esse negócio de homenagem a personagens estrangeiros, não demorei a propor ao editor do jornal que o chamasse de Jesse James. Foi a sacada da semana. Com o dinheiro da manchete, consegui pagar algumas contas pendentes.

Mas as coincidências não param por aí. Eu estava há vários dias tentando convencer aquele editor a me emprestar o dinheiro para ir até Serra dos Albuquerques para bater umas fotos e desenvolver um pouco mais a história do crime. Como a notícia já estava fria, o cara me disse que só se interessaria quando houvesse um novo ataque. Mas, se eu conseguisse de alguma forma antecipar os fatos, então poderia tirar o pé da lama.

Eu estava em uma sinuca de bico. Não tinha dinheiro para uma grande história e não tinha uma grande história para fazer dinheiro. Como me deslocar até o sertão? Precisava pagar contas atrasadas e fazer o motor da minha moto.

Nisso aparece o Capitão Piquetão, da Polícia Federal, me fazendo uma proposta. Ir até Serra dos Albuquerques fazer contato com alguns locais. A coisa era simples. Usaria alguma desculpa para me aproximar de uma tal de Dona Thaís Albuquerque, que não deveria de jeito algum saber que eu era jornalista ou que tinha sido mandado pela PF. Ah… não deveria fazer mais nenhuma pergunta. Tudo viria a seu tempo. Em troca, ele me daria uma ajuda de custo de R$ 5.000,00 e emprestaria uma moto para a viagem.

– Não que eu tenha nada contra, mas só por curiosidade, por que ir de moto? Perguntei.

– Sem perguntas, tudo a seu tempo. Se tiver interesse, ligue para o número do cartão.

Esse Capitão Piquetão tinha conseguido o meu nome com o editor do jornal. Depois de ligar para alguns contatos, descobri que o cara era honesto e confiável. Linha dura na PF, já tinha participado de vários ataques a quadrilhas de narcotraficantes no sertão. A mais famosa foi a Operação Calango, que na época apareceu em todos os jornais e até na televisão. O procedimento tinha sido um sucesso, mas alguma manobra política tinha liberado os cabeças da quadrilha.

Como estava um pouco apreensivo em me meter com traficantes, antes de aceitar, liguei de novo para Piquetão.

– Bom dia, Capitão. Aqui é o Willinilton. Só queria dizer que estou interessado, mas estou com medo de me meter em fogo cruzado entre a polícia e bandidos. Eu sou só um fotógrafo.

– Senhor Willinilton, não posso negar que o nosso interesse seja policial. Também não estou autorizado a divulgar a operação. Mas pode ficar tranqüilo que o seu papel é apenas e somente entrar em contato com Dona Thaís. Você não vai precisar trazer informações, investigar, delatar ou se arriscar de jeito algum. Só precisamos do contato.

– Eu também não posso dizer que fiquei inteiramente tranqüilo. Mas estou curioso. Pode depositar o dinheiro na minha conta. Ah… pego a moto onde?

– A moto será deixada na porta da sua casa amanhã pela manhã. O dinheiro está escondido no quadro. Obrigado pela ajuda.

No outro dia pela manhã a moto estava lá. Pelo estado do motor, a moto era nova. Mas tinham pintado o tanque com pintura fosca. Provavelmente para parecer uma moto mais velha e não chamar tanta atenção.

Conferi o dinheiro, joguei a mochila na garupa e saí para Serra dos Albuquerques. Como não estava com tanta pressa, fiz a viagem em dois dias. No primeiro dia, cheguei no início da tarde na cidade de Roseiro. Depois de almoçar, fui até a a Lan House da cidade. Procurei informações sobre Thaís Albuquerque. A única notícia que encontrei sobre ela na internet é que tinha sido a secretária do juiz assassinado por Jesse James lá em Serra dos Albuquerques. Interessante. Entrando no Orkut, encontrei rapidamente o perfil dela. 30 anos, solteira, interessada em conhecer pessoas pela internet, com paixão por vinhos e muito romântica. Participava de comunidades de motos, de filmes de aventura e grandes amores.

Existe uma grande técnica para enganar as pessoas. Vá direto ao ponto e fique o mais próximo possível da verdade. Deixei uma mensagem para ela dizendo que era fotógrafo naturalista, uma espécie de Indiana Jones moderno, e que precisaria de alguém em Serra dos Albuquerques para me ajudar em umas fotos de pinturas rupestres. Não se passaram nem 30 minutos para receber uma mensagem me convidando para uma conversa on-line.

Em poucas linhas de conversa, a mulher já estava toda orgulhosa por ajudar um fotógrafo da capital. Disse que ela mesma iria providenciar a ida até a Caverna da Lua. Tudo certo. Combinamos para dali a dois dias. No dia seguinte fiz a segunda parte da viagem. Chegando um pouco depois do jantar, aluguei um quarto no Grande Hotel e dormi pesado até o outro dia.

Logo de manhã, fui até a Praça da Matriz, local combinado do encontro. A mulher que chegava por ali parecia mais fogosa ainda do que na foto que eu tinha visto pela internet. Ela passou direto por mim, certamente procurando o tal de Willi. Bastou um psiu para que ela olhasse para trás.

– Hei, Thaís! Sou eu, o Willi!

Com o rosto pálido, olhos estalados e de queixo caído, a mulher respondeu:

– Outro motoqueiro na minha vida? Essa não!

(continua)

Parte 2

Não foi fácil convencer a dona a me acompanhar até uma bodega para esclarecer a situação. A moça explicou que o seu namorado era motoqueiro. Que embora o amasse, tinha lhe trazido um monte de problemas sérios. Por isso não queria mais encrenca. Falei que estava ali só pelas fotos. Ela ainda assim olhava desconfiada. Mas assim que ela viu o tamanho das minhas lentes, viu que eu era profissional. Sabe como é, né? Por mais que digam o contrário, no final das contas é o tamanho que faz a diferença.

Compramos mantimentos e seguimos para a Caverna da Lua. Com Thaís na garupa, chegamos até a base da montanha em um pouco mais de duas horas por estrada de terra. O calor da caatinga estava forte. Por isso subimos devagar. Mas tudo mudou assim que chegamos na entrada da caverna, pois o vento fresco nos trouxe um novo vigor. Thaís não estava mais desconfiada. Depois de algumas horas, era como se fossemos velhos amigos. A mulher falava soltamente sobre tudo que lhe aparecia na mente, sem filtro nenhum. Eu, por minha vez, esqueci completamente da minha missão. Apenas aproveitava a bela vista e a não menos bela companhia.

Depois de um breve lanche, fui bater as fotos das pinturas rupestres. Tinha que fingir que entendia de alguma coisa. Inventei estilos, épocas, culturas locais, costumes e festas. Thaís ficou impressionada. Para não ficar para trás, começou a me contar algumas lendas do local.

– Você sabia que aqui perto está escondido o corpo de Lampião? Fica lá na Pedra da Caveira. Uma outra caverna aqui na região. É até maior que essa.

– Sério? Todo mundo sabe disso e ninguém vai lá?

– Acho que não tem homem suficiente para isso aqui não. Reza a lenda que quem aparecer por lá vai ser assombrado para o resto da vida, a não ser que saiba a resposta do enigma.

– Enigma? Que enigma é esse?

– Estava em um livro que o Velho Damastor descobriu. Diz o seguinte: “Aquele que bater na porta deve saber o lugar da morte, que virá depois do pai e da mãe.”

– O que é isso? O lugar da morte de Lampião? Isso não é conhecido? Perguntei.

– Não faço a mínima idéia – disse a mulher -, aliás, parece que ninguém sabe.

Thaís disse que várias pessoas já tinham tentado descobrir o enigma lá na Pedra da Caveira. Alguns ficaram loucos, outros desapareceram para sempre.

Como não sou homem de ter medo de fantasma, resolvi topar o desafio. Ficamos matutando a noite toda. Bem, tinha que ser algum tipo de mecanismo para liberar o segredo. Então a resposta devia estar em algum tipo de lista. Alguma lista em que aparecesse a morte. Será que é o dia em que Lampião morreu? Ou talvez o número de cangaceiros mortos.  Ficamos conversando até chegar a noite. Montamos a barraca na entrada da caverna e combinamos ir até à Pedra da Caveira no outro dia. A combinação da fogueira, do mistério do enigma, do vinho, do frescor da noite do sertão e o universo todo explodindo em estrelas era maravilhosa. Thaís estava bastante à vontade. Depois que esgotamos as tentativas de desvendar o enigma, ela ainda continuou a contar todas as histórias da região até que o sono nos venceu.

No outro dia pela manhã fizemos um café, levantamos acampamento e fomos até a dita cova de Lampião. Não andamos nem uma hora na moto em uma trilha de bodes até a Pedra da Caveira. Como ela disse, havia lá uma outra caverna. A entrada era estreita, mas dava para perceber que assim que entrava na terra se alargava para um grande salão. Logo que chegamos vimos 32 buracos ao lado da entrada. Então era isso. O enigma tinha a ver com algum daqueles buracos.

– Pense, Willi, pense. Falei em voz alta.

Foi então que me deu o estalo. Pai, mãe e morte. Os 10 mandamentos! Quinto mandamento: “Honrará teu pai e mãe”. Sexto mandamento: “Não matarás”. Então a morte, que viria depois do pai e mãe, era o sexto buraco.

Sem perda de tempo, coloquei um galho dentro do sexto buraco. A terra tremeu. Como a minha curiosidade superava qualquer precaução, não perdi tempo para entrar na caverna. O lugar era escuro, sombrio. Mesmo um descrente como eu não tinha como não ficar com um pouco de medo. Depois de andar uns 100 metros caverna adentro, ouvi outro barulho. Desta vez muito claro. E próximo de mim. Fiquei parado por um tempo esperando minha respiração voltar. Mas, não resistindo à curiosidade, acendi um fóforo.

O que eu vi lá tenho certeza de que ninguém vai acreditar, mas vou contar assim mesmo. Estava um cara, em pé ao meu lado, todo enrolado em uma faixa, com chapéu de cangaceiro e olhando para mim. Com uma cara de quem não estava entendendo o que acontecia, como se tivesse acabado de acordar, o cadáver olhou para mim e disse:

– Por que é que você me acordou, cabra? Tem algum serviço no ponto?

(continua)

Parte 3

Nunca corri tão rápido em minha vida. Em um instante já estava na saída da caverna. No outro, eu e Thaís estávamos em cima da moto subindo o caminho de volta, que fizemos correndo a toda. Paramos somente na Caverna da Lua. Chegando lá, acendi um cigarro para Thaís e outro para mim.

– Agora você pode dizer por que saímos correndo de lá? Perguntou Thaís.

– Não vou nem dizer que você não iria acreditar. Respondi.

– Mas é verdade! Falou uma voz atrás da gente.

Era a múmia do cangaceiro, que de alguma forma tinha nos seguido.

– O que é isso? Gritou Thaís.

– Virgulino Ferreira, à vossa disposição. Aquele que não tentar nenhum buraco morrerá. Aquele que tentar, mas errar, será assombrado. Mas aquele que tapar o sexto buraco será meu senhor. Bem… aqui estou.

Pedi licença à múmia, chamando Thaís de lado. O que fazer agora? Se deixássemos a múmia por ali, ele nos seguiria facilmente. Também não podíamos ficar ali para sempre. Teríamos que levá-lo para algum lugar. Mas como? De moto?

A próxima cena foi a coisa mais bizarra da qual participei em toda a minha vida. No banco da moto íamos eu na frente, Thaís abraçada a mim e a múmia amarrada às costas de Thaís. Como ela não aceitou ser abraçada pelo cadáver, o cara foi a viagem toda virado para trás.

Fomos daquele jeito até a fazenda de Thaís. Chegando na Casa Grande, fomos recebidos por um grandalhão com cara de poucos amigos. Thaís, para não perder o costume, ficou apavorada:

– Jessé? Você já está de volta?

– Quem são esses caras? Grita Jessé.

Ao perceber que um dos caras, o Lampião, era um monstro, Jessé instintivamente armou a 12 e disparou no peito da múmia, que saiu voando até o portão de madeira. Foi cair no chão, levantar-se rapidamente e correr em direção a Jessé. Novo disparo, novo vôo e novo levantar. Não houve tempo para novo disparo, porque antes que a arma fosse recarregada, a múmia já estava cara-a-cara com Jessé. Mesmo com a luta de Jessé, a múmia pegou com facilidade a 12, jogando-a longe. Segurou Jessé pelo pescoço e perguntou para Thaís:

– E agora, madame, faço o que com o cabeça quente aqui?

(continua)

Parte 4

Neste momento a história já tinha passado de espionagem para aventura, depois de terror para romance enciumado. Mas nada tinha me preparado para o que viria a seguir. Antes de Thaís responder o que a múmia devia fazer com Jessé, ouvimos o barulho de um carro vindo a toda velocidade. O impacto jogou o portão para longe. Enquanto um olha para o outro de forma incrédula, hei que sai Capitão Piquetão do carro, com uma sub-metralhadora na mão.

– Não corram. Esperem para ouvir o que eu tenho para dizer. Vim como amigo.

Bem, eu não tinha razão nenhuma para correr. Acho que ali só Jessé – que ainda estava preso pelo pescoço – é que tinha, porque os crimes de Lampião já deviam estar prescritos. Mas mesmo assim resolvi fazer o papel mais inteligente que o momento me permitia. Ou seja, ficar quietinho e ouvir. Daí Piquetão começou o discurso:

– Se prometerem que não vão fugir eu baixo a arma. Que bom que estejam todos juntos aqui. Tenho uma proposta a todos.

– Que proposta? Perguntou Thaís.

E o discurso continuou:

– Como todos sabem, eu tentei prender um coronel na Operação Calango. Mas ele conseguiu fugir alegando falta de provas. A quadrilha é muito esperta, pois descentraliza toda a operação pelo sertão. Você prende um gerente local do tráfico, mas não consegue subir na hierarquia. O que eu quero fazer é concentrar a estrutura deles.

– Como assim? Perguntei – figindo interesse -, já que ninguém mais o fez.

– Vamos criar uma quadrilha que vai atacá-los em todas as suas fachadas: fazendas de gado, bancos, lojas, bolsa de valores etc. É fácil, pois não têm uma segurança muito forte, pois acreditam que ninguém teria coragem de enfrentá-los. A única saída deles será concentrar todas as operações em uma única fortaleza. Com tudo em um lugar só, fica fácil armar um golpe fulminante.

– E o que você quer com a gente? Pergunta Thaís, que  então se lembra que lampião ainda está erguendo Jessé pelo pescoço. – Ah… Lampião, pode soltar Jessé.

Enquanto Jessé cai no chão com a mão no pescoço, lutando para recuperar a respiração, Piquetão continua a explicação:

– Quero que vocês formem essa quadrilha. Podem ficar com todo o dinheiro que conseguirem e não serão acusados de nenhum crime que possam vir a cometer. Inclusive crimes passados.

– E por que o senhor está aqui sozinho? Cadê toda a cavalaria? Pergunta Jessé, já conseguindo respirar novamente.

– Porque o resto da polícia não sabe de nada. Só a alta cúpula. Não quero arriscar entregar a operação novamente. Mas tenho aqui uma carta do secretário geral da PF garantindo o que eu falei.

– Por que nós? Exclama Thaís.

– Porque formam um incrível grupo diversificado. Jessé: especialista em demolições e sistemas de segurança; Willinilton: investigação e infiltração; Lampião: força bruta; e a senhora: dama da sedução. Eu não vou participar diretamente, mas informarei sobre todas as operações deles. Só falta um integrante, que está ali no carro. Lino, vem cá!

Até aquele momento ninguém tinha percebido aquele rapaz franzino e de óculos no banco de passageiro do carro.

– Esse aqui é Lino. Preso como hacker no início do ano, está fazendo o mesmo tipo de acordo que vocês. Ele será o especialista em sistemas computacionais.

Thaís coloca as mãos na cintura, olha desafiadoramente para o capitão e solta o verbo:

– Tudo bem que esses dois serão libertados, mas o que nós outros ganhamos?

– Parece claro, minha senhora. Além de todo o dinheiro, Willinilton vai poder vender a história aos jornais, ganhar prêmios, mais dinheiro, ficar famoso e respeitável. A senhora vai viver a grande aventura de sua vida, o que parece, se me desculpe a franqueza, que é o que a senhora está procurando. E essa múmia aí não será tratada como uma cobaia de laboratório. Ele não estava nos meus planos, mas vi que é totalmente imune a tiros. Isso vai ser muito útil nos ataques.

– E você precisa ver como ele aparece rápido nos lugares. Respondi com uma risadinha.

Jessé, que não estava achando nada engraçado, cortou a minha fala:

– E se não aceitarmos?

– Você e Lino vão presos agora. Lampião vai para o circo e os outros dois estão livres para viver o resto da vida na mais completa mediocridade.

– E se um de nós for preso ou morto? Insiste Jessé.

– Se forem mortos não posso fazer nada, a não ser que descubram a fonte da juventude aí com a múmia. Se forem presos, ficarão assim até que a operação termine com sucesso.

Eu comecei a ficar preocupado. A aventura valia a pena pela história, mas os riscos eram grandes. Às vezes você não quer fazer uma pergunta com medo da resposta. Mas por alguma razão ela escapa da sua boca:

– E se a operação não for um sucesso? Perguntei.

– Então ficarão presos pelos seus crimes para o resto de suas vidas! Respondeu Piquetão, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

(continua)

Parte 5

O tal do Jessé era competente para esse negócio de ataques. Mas que cara estressado! Logo de cara já se fez de líder e começou a mandar em todo mundo. Eu não sabia até quando ia aguentar as ordens dele. Mas resolvi ficar na minha por um tempo.

O primeiro ataque seria em um laboratório de refino de drogas no meio da caatinga. Não haveria dinheiro, mas a droga poderia ser vendida, em troca de armas, para os contatos que Piquetão tinha nos passado. Além disso, o capitão forneceu duas pistolas Grendel P30, com capacidade para 30 projeteis .22, dois rifles calibre 12, uma dúzia de granadas de mão e explosivo C-4.

Enquanto eu olhava para as generosas pernas de Thaís, distraído, Jessé explicava o plano. Não prestei muita atenção, mas entendi que o negócio seria fazer o maior barulho o possível. Passamos o dia todo espalhando o explosivo plástico pela estrada próxima do laboratório. Eles não tinham qualquer preocupação com a segurança. Em cima de cada explosivo, colocamos um galão de gasolina.

Com tudo preparado, esperamos a chegada da noite para começar a festança. Lá pelas 11, quando os empregados já tinham ido dormir, mandamos Lampião andando às claras até perto do galpão. Assim que chegou lá, começou a descarregar a 12 nas paredes externas. Os empregados, acordando rapidamente, pegaram suas armas e protegeram-se por trás das paredes, acertando inutilmente em Lampião. Nisso, eu e Nilo começamos a jogar as granadas na parte de trás e lateral oeste do galpão, deixando apenas a lateral leste livre para fugirem. Essa porta era exatamente a que estava com os carros e saía direto para a estrada.

Mal os empregados entraram no carro para pegar a estrada, começamos a disparar os explosivos. A gasolina se incediava toda, iluminando a noite. A fumaça, o barulho, o fogo e as explosões das granadas assustaram os empregados, que achavam que estavam sob bombardeio pesado. Em desespero, largaram os carros e fugiram em disparada para o meio da caatinga.

Entramos rapidamente no galpão, pegamos alguns sacos da droga e corremos para nossas motos escondidas ali por perto.

Senti uma das melhores sensações da minha vida depois do ataque, com o alívio que vem depois do sucesso de uma missão arriscada, com a velocidade da motos saltando pelas trilhas da caatinga e com o vento fresco envolvendo nossos rostos. Foi uma das melhores coisas que senti na minha vida. Como se você pudesse sentir, ao mesmo tempo, um orgasmo, uma liberdade absoluta e o sangue transformado em vida pura, correndo em suas veias. Inesquecível!

Ao chegarmos na fazenda, Thaís nos esperava com sorriso aberto. Até Jessé estava rindo com o sucesso do ataque. Lampião, que mais uma vez tinha vindo amarrado atrás em minha moto, queria fazer uns disparos comemorativos, mas Thaís o convenceu de que chamaria a atenção das fazendas vizinhas. Lino não conseguia parar de tremer e rir de tanta alegria.

No dia seguinte, a nossa felicidade continuou ao lermos as manchetes dos jornais locais:

“Bombardeio aéreo destrói laboratório de drogas no sertão”.

“Briga de traficantes acaba em destruição total”.

“A guerra do fim do mundo”.

Conseguimos toda essa publicidade sem machucar ninguém. A droga foi vendida, trocada parte em dinheiro e parte em mais armas. Desta vez a coisa tinha sido simples. Na próxima não esperaríamos tanta facilidade em enganar uma gangue toda só com barulho. Nos próximos ataques teríamos que usar as armas contra os empregados. Acabara o tempo de brincadeira de meninos. Chegara o momento de batalhas feitas por homens de verdade… e por uma mulher de verdade também.

(continua, algum dia, com as novas aventuras dos Motoqueiros do Sertão).

 
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Você acabou de ler o “Volume 2: O Segundo Motoqueiro”. Os outros volumes já estão disponíveis nos links abaixo. Boa diversão com os motoqueiros do sertão!

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