Viagem a Penedo

12.07.2009

No início da década de 90 eu tive uma motocicleta Honda Today 125cc. Nessa época morava em Florianópolis e usava a moto só para ir ao trabalho ou na casa de alguém. Meu limite era 70 km/h. Tinha pavor de passar pela Ponte Colombo Salles em dia de vento sul. Acho que fiquei uns 6 meses com a moto. Assim que pude troquei por um carro.

Em 2005 decidi tentar o motociclismo novamente. Há várias razões para isso, mas basicamente precisava encontrar um símbolo, uma expressão e um caminho para uma nova vida que queria levar. Mas só em janeiro de 2007 é que comprei a moto: uma Honda Falcon NX4 400cc Dual Purpose. Queria comprar uma moto que me permitisse tanto andar na cidade quanto fazer pequenas viagens. Desde aquele momento sempre achei que o ideal seria uma moto naquele mesmo estilo, mas talvez um pouco mais potente. Mas foi o que podia comprar na época. Outro fator importante era que não tinha quase nenhuma experiência como motociclista, então uma moto de média/baixa cilindrada seria mais adequada.

Assim que recebi a moto, na primeira quinzena de janeiro, me inscrevi no fórum Falcon on Line, que trata de assuntos da moto Falcon, mas também é usado para combinar passeios. Havia gente de todo o Brasil nesse fórum. O pessoal do Nordeste estava combinando um encontro no carnaval, em Penedo-AL, que fica no Rio São Francisco.

Conversando com o pessoal resolvemos enfrentar a viagem, mas com a condição autoimposta de que só iríamos se eu me sentisse bem andando em uma estrada. Eu já tinha ido até Gravatá-PE – que fica a 80 km de Recife-PE – em um domingo de madrugada, sem movimento algum. Não passei de 70 km/h na BR-232, que é duplicada e não tem quase curvas fechadas.

Mas ir até Penedo-AL seria outra conversa: movimento, garupa e curvas. Fizemos então um planejamento para ver como nos saíamos na estrada, andando carregados. No sábado eu iria fazer uma volta sozinho e no domingo com a Renata.

A viagem do sábado foi pelo agreste de Pernambuco. Indo por Limoeiro-PE, Surubim-PE e Toritama-PE, e voltando por Caruaru-PE e Gravatá-PE. 320 km. Aqui já chegava à velocidade de 90 km/h.

O surpreendente foi como me apaixonei pelas estradas secundárias. As curvas, animais, carroças, vilarejos, as Toyotas levando o pessoal  e vegetação da estrada entre Limoeiro-PE e Toritama-PE faziam o medo desaparecer e a alegria por andar de moto dominar. Acho que só quem anda de moto compreende essa sensação. Aquele momento em que o vento, o movimento, o aroma e som todos se combinam para formar um momento de júbilo e leveza, em que se perde a noção do tempo e espaço. Nesse momento o prazer venceu o medo e percebi o que é ser um motociclista. Aprendi porque vale a pena arriscar a sua vida em uma máquina de equilíbrio tênue. Quando você perde o medo, deixa de tentar controlar as coisas e simplesmente deixa que aconteçam. Incrível!

No domingo foi a vez de andarmos em dupla, com a Renata na garupa.

Neste dia escolhemos outra paisagem: a estrada litorânea ao sul de Recife-PE. Fomos até Maragogi-AL. Outra estrada maravilhosa, cheia de curvas e pouco movimento pela manhã. A maior parte é no meio dos canaviais.

Maragogi-AL é um lugar especial para a Renata, porque ela passou muitos verões em sua infância por lá. Paramos para tomar um côco gelado na praia.

Na volta, pela mesma estrada, fomos para Tamandaré-PE, onde a estrada invade a Reserva de Saltinho, uma mata bem fresca a abundante. Depois, saindo da estrada principal, continuamos em uma estrada de paralelepípedo, o que aumentou bastante o clima interiorano da viagem.

Tamandaré-PE é uma das minhas cidades praianas prediletas. Casas de pescador, restaurantes simples e famílias na praia. Sem a badalação da vizinha Praia dos Carneiros. Chegando à praia, resolvi estacionar na areia. Andamos uns 10m, a 5 km/h e fomos repentinamente ao chão. Vergonha por cairmos tão devagar todo vestidos no maior solão da praia e o manete da embreagem quebrado. Mais tarde a Renata ficou com algumas dores na perna por causa da queda, mas nada demais. O pedaço que ficou do manete ainda permitia a volta para casa, mas a nossa confiança de andar na areia foi seriamente abalada.

Mas no final o resultado foi positivo. Andamos 600 km em dois dias por estradas simples e com curvas. Houve uma queda mas conseguimos religar a moto após algum encharque do carburador e quebra do manete da embreagem. Mas, acima de tudo sentimos um imenso prazer e liberdade por andar de moto. 4 semanas depois de recebermos a moto e 2 semanas antes do carnaval, nos sentíamos prontos para a Viagem a Penedo.

Os dois únicos acessórios que a Falcon tinha nesta época era a bolha e o bagageiro, então nossa bagagem ia amarrada na rabeta. Meio feio, mas fazer o que? Esperar ter dinheiro para comprar um bauleto ou alforges? Fomos assim mesmo!

No dia da viagem – sábado de carnaval – encontramos um casal de amigos que iriam junto em outra moto. Como saímos logo de manhã não pegamos muito movimento na estrada. A velocidade era de 90 km/h, nas retas! O único susto foi quando um caminhão, um pouco depois da Serra do Saltinho, encostou atrás da gente em uma descida de curvas.

Chegamos em Penedo-AL um pouco depois do almoço e logo fomos almoçar com o pessoal do fórum no Restaurante Rocheira, cujo prato mais famoso é o jacaré. A subida para o Restaurante – também para a garagem da nossa pousada, causou um friozionho na barriga.  Descansamos um pouco e à noite fomos  comer em um barzinho ao lado do Rio São Francisco.

No outro dia pela manhã – domingo -, fomos até à Praia do Peba andar um pouco na areia da praia. Era bastante dura, mas a minha falta de experiência  e o tombo em Tamandaré-PE fizeram o passeio tenso para nós. Mas é o tipo de situação que eu passaria a gostar no motociclismo, a superação dos limites. Que fique claro que esses desafios e limites são pessoais. Passar por uma poça d’água pode ser mais desafiante para uma pessoa do que saltar 20 carros para outra.

Almoçamos de novo sobre o São Francisco em um bar de Piaçabuçu-AL.

O resto da tarde foi dedicado à tirar fotos da cidade de Penedo-AL. Além de ser a nossa primeira viagem de moto, também foi a primeira vez que eu e a Renata viajamos juntos. De certa forma foi como uma lua-de-mel.

À noite pegamos a balsa para Neópolis-SE para ver o carnaval. Muita bagunça para o nosso gosto, mas valeu o passeio.

Segunda pela manhã voltamos até Maceió-AL. Passamos por Coruripe e pelo Mirante do Gunga. Muito bonito o litoral ao sul de Maceió.

Chegando em Maceió-AL logo após o almoço, aproveitamos para comer, descansr na praia, aproveitar o hotel, jantar… coisa de turista mesmo. Eu, que não conhecia Maceió-AL, achei a orla linda.

No último dia de viagem, terça de carnaval, saímos de Maceió-AL logo cedo. Eu não coloquei gasolina na cidade achando que seria fácil encontrar na estrada. Mas nada de posto. Tentei entrar em algumas cidadezinhas, mas nenhuma tinha gasolina. Fomos andando em frente com fé de que nada aconteceria. Até que a gasolina acabou. Nada mais a fazer. Várias pessoas pararam para oferecer ajuda ou carona, mas ficamos inseguros. Até que passou uma Kombi que fazia transporte de pessoas. A Renata então foi até o próximo posto enquanto eu fiquei com a moto. Embora tivéssemos andado mais de 40 km procurando um posto, o próximo estava a uns 2 km dali, então tudo foi resolvido rapidamente com a Renata voltando com uma garrafa de plástico com 1 litro de gasolina.

O restante da viagem foi sem problemas. Almoçamos em Maragogi-AL à beira da praia.

Ao chegarmos no nosso condominio olhei para o odômetro: 1.000 km! Exatamente!

Uma grande viagem, que seria a marca de outras que faríamos. Treinamos para determinar nossos limites, fomos para um lugar legal, conhecemos novos amigos, tiramos fotos e registramos a viagem. Mas, acima de tudo, aproveitamos cada momento da viagem e a companhia um do outro. 10!