Pedra da Boca-PB (II)

14-15.11.2009

Faltando 6 semanas para a partida ao Atacama, demos um pulo até a Pedra da Boca. Desta vez o passeio tinha várias motivações: rever os amigos Pebas antes da viagem, aliviar a tensão causada pela espera, testar alguns equipamentos da moto e estreitar os laços. Fomos em quatro amigos (da esquerda para a direita): Bacanex (João Pessoa-PB), eu (Recife-PE), Wagner (Recife-PE) e Denny (Campina Grande-PB). O parque é chamado de Pedra da Boca por causa daquela abertura na pedra que aparece ao fundo da imagem abaixo.

A Pedra da Boca é um parque que fica na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. O guia residente é o seu Tico, uma grande figura de 52 anos e que percorre a região desde os 12. O lugar é um misto de fazenda, mata, caatinga e floresta de formações rochosas. Eu já tinha passado na Pedra da Boca em maio deste ano, mas quis voltar porque fiquei com muita vontade de fazer uma escalada. Ali está um lugar onde você se sente em casa. Tem passeio para todos: escaladas leves, escaladas profissionais, pedaladas, rapel, caminhadas na mata etc. Tem até um açude para quem quiser se refrescar. A base é a casa do seu Tico, que também funciona como restaurante e camping. Nós ficamos em uma pousada em Passa e Fica-RN, apenas 2 km dali por uma estrada de terra.

Como é tradicional nesses lugares com muitas formações rochosas, cada pedra tem o seu nome: Pedra da Boca, Pedra da Santa, Pedra do Carneiro, Pedra do Coração etc.

Chegando lá rumamos para a Pedra do Carneiro, para fazer a escalada. É uma pedra de 50m de altura, nível 3. O instrutor Júlio subiu primeiro para prender a corda. Eu estava esperando algo bem mais baixo e menos vertical. Quando vi a pedra, para não perder a coragem, simplesmente parei de pensar no assunto. Fiquei conversando com o pessoal até o instrutor dizer que tinha chegado a minha hora. Os equipamentos são uma sapatilha, um capacete e um cinturão para prender a corda. Embora você esteja o tempo todo preso à corda, a subida é feita com os pés e as mãos mesmo, como se estivesse sozinho. O trecho todo levou 15 minutos para ser conquistado. Isso segundo o pessoal, porque para quem está ali na pedra, preso somente pelas pontas dos dedos, não há noção de tempo. Você não tem idéia se levou 2 minutos ou 2 horas. Interessante. O legal também é que não cansa tanto, nem dá medo. O tempo todo você fica concentrado em onde vai colocar os pés e as mãos para seguir em frente. Tudo fica completamente claro. Não há espaço para pensamentos de fora. Você fica focado nos dedos dos pés e das mãos, com o único objetivo de vencer mais 30 cm. É um estado mental fantástico, onde o presente consegue anular o passado e suspender o futuro.

O pessoal preferiu fazer um rapel ao invés da escalada. Eu que já tinha feito rapel na Cachoeira de Bonito-PE, preferi não fazer desta vez. É que não quis misturar a sensação libertadora da escalada com os quase que exclusivos jorros de adrenalina do rapel. São duas atividades completamente diferentes. Na escalada você está controlando tudo, a menos que caia, é claro. Já no rapel quem te segura não são seus dedos, mas a corda. Na escalada você precisa mais habilidade, no rapel de mais coragem. A escalada é uma atividade de conquista e paciência, o rapel é mais de ação. Os dois são fantásticos, mas para mim aquele dia era da escalada.

No final da tarde subimos a Pedra da Santa para ver o pôr-do-sol. De lá dá para ver todo o parque.

O sol estava lindo, exatamente como todos os dias. Estar em um local assim faz você pensar no que realmente é importante na vida. Que não há tempo a perder com detalhes insignificantes. Mas… o que é que é importante? Por mais que seja batido por todos, em todos os cartões de natal, em todas as despedidas, em todas as chegadas, em todos os programas de TV, é sempre o mesmo: amizade, amor, família, saúde, paixão, desejo, paz, tranqüilidade, curiosidade, sapiência e harmonia. Não há como fugir desses clichês. Talvez por não serem clichês.

A descida, já no escuro, foi muito engraçada. Escorregões, sons estranhos, casas mal-assombradas, sombras e um túmulo no meio da mata. Se alguém estivesse sozinho provavelmente teria morrido do coração nos primeiros 5 minutos. Mas já que estávamos em grupo, tudo era motivo para piada.

No dia seguinte, antes de voltarmos para casa, passamos ainda pela Praia da Pipa-RN para tirar umas fotos. Uma praia não é o melhor lugar do mundo para ir todo vestido para andar de moto. Mas vale a pensa suar as bicas para tirar umas fotos bonitas.

Andando mais um pouquinho para o sul, chega-se ao chapadão, uma falésia com cor que contrasta perfeitamente com o mar ao fundo.

Ao invés de voltarmos pela BR-101, preferimos vir pelo interior. Andamos um pouco mais, mas as estradas com pouco movimento fizeram da tarde de domingo mais um ponto alto do passeio. Se tivéssemos voltado pela 101 teríamos, talvez, percebido a volta como uma obrigação. Gostamos até dos 20 km perto de Araçoiaba-PE, cheios de buracos e com uma nuvem constante de poeira levantada pelos treminhões. Parecia que já estávamos na areia do Atacama.

No final das contas, o  passeio foi de 700 quilômetros, em dois dias. Chuva e sol, estradas desertas e movimentadas, curvas e longa retas, subidas de montanhas, descidas de montanhas, gargalhadas para a morte, o sol acompanhando as motos na estrada, o sol indo dormir bem calmamente, a pequenez de um ressalto que suporta o corpo na escalada, a imensidão do horizonte do alto de um monte, lembranças do passado, sonhos com o futuro e conseguir parar o tempo para viver o presente. O que mais alguém pode querer? Bem… 45 dias ao invés de 2 já seriam um bom começo. Ah… já que perguntaram, a presença, mesmo que temporária, de uma grande paixão, também vai bem!