A Motocicleta e as Ciências Exatas

No início da história humana, o homem era fascinado pelos fenômenos naturais: os raios, o fogo, as ondas, o vento e as estrelas. Com o tempo, aprendeu a controlar esses fenômenos: transformar a matéria pelo fogo, transportar a água em tubulações e selecionar melhor os animais. Nessa época, o aprendizado das crianças era realizado através da observação dos fenômenos naturais e da experiência direta com a nova tecnologia.

Esse processo educacional era adequado enquanto as coisas permaneceram simples. Mas então surgiu a ciência, com suas teorias, modelos e cálculos, que permitiam a previsão de uma infinidade de mecanismos e fenômenos. Passou a ser praticamente impossível para um único ser humano aprender diretamente pela experiência, pela tentativa e erro. O sistema educacional, então, promoveu uma inversão no ensino. Primeiro os jovens aprenderiam a teoria subjacente da natureza, a analogia matemática entre os fenômenos e os métodos para criar novas tecnologias.

Esse novo método é muito eficiente para engenheiros e cientistas formados, pois organiza o conhecimento de uma maneira muito mais eficiente. São a física, a matemática e a química que permitem o constante progresso tecnológico. Uma pessoa que tenha uma grande experiência prática com determinada tecnologia, mas que não conheça a ciência por trás dela, não consegue usar o seu conhecimento para ampliar aquela tecnologia. O que resta a essas pessoas só práticas é o método da tentativa e erro, que é extremamente caro e ineficiente.

Tudo isso posto, pareceria que tudo estaria perfeito. Ensinamos a teoria aos nossos jovens, que depois unem esse conhecimento à prática para construírem um saber completo. Mas esquecemos de uma coisa extremamente importante: antes de orientarmos os nossos jovens no caminho do saber, precisamos motivá-los. Embora as ciências exatas sejam fundamentais no aprendizado, têm grande deficiência como motivação. Embora nossa tecnologia e ciências sejam altamente evoluídas, os seres humanos ainda têm praticamente as mesmas motivações que os homens da caverna.

Antes de ensinarmos ciências exatas aos nossos jovens, precisamos atrair a sua atenção. Precisamos fazê-los desejar o caminho do saber. Uma boa maneira de fazer isso, a meu ver, é usar o fascínio que eles têm pela tecnologia. Os jovens adoram carros, internet, aviões, GPS, celulares e, claro, motocicletas. São apaixonados pela velocidade, design e som. Ficam grudados na frente da TV assistindo às competições. Passam horas discutindo as vantagens de um modelo em relação ao outro.

Se, ao invés de ensinarmos ciências básicas, ensinássemos como funciona uma motocicleta, o jovem, aposto, ficaria grudado no tema. No começo iria querer apenas fuçar na moto, ouvindo o seu barulho, sentindo a sua vibração e observando como é o seu interior. Mas dali a pouco apareceriam as primeiras perguntas. Como se aumenta o torque? Ah… você precisa aprender um pouco de dinâmica. Mas como se aumenta a potência? Ah… você precisa aprender um pouco de termodinâmica. Mas como se faz para ela correr mais? Ah… você precisa aprender um pouco de aerodinâmica. Mas qual a diferença entre este e aquele combustível? Ah… só aprendendo um pouco de química. Como sabemos se a potência vai aumentar ou diminuir caso troquemos o escape? Ah… precisamos de um pouco de cálculo.

Primeiro ele deve se apaixonar pelo tema. Só então estará preparado a gastar energia na busca da consumação do seu amor. Primeiro precisa observar, fuçar, desmontar e remontar a motocicleta. Só então terá o desejo – se não um impulso quase incontrolável – para buscar o conhecimento necessário para modificá-la mais ainda.

Usando a motocicleta como motivação, poderíamos ensinar: estruturas metálicas, cinemática, dinâmica, termologia, termodinâmica, acústica, transferência de calor, mecânica dos fluidos, estequiometria, combustíveis, emissão de poluentes, acústica, eletromagnetismo, eletricidade, eletrônica, lubrificação, segurança, design etc etc etc.

Ninguém aqui está defendendo que ensinemos apenas a prática, sem as ciências exatas. Embora isso seja romântico, não é efetivo. Estamos, sim, defendendo que a prática seja usada em um estágio inicial, como motivação para o estudo das ciências exatas.

Quem sabe não começamos a trilhar esse caminho?