Açude do Boqueirão-PB (II)

22.11.2009

A região de Boqueirão-PB é uma das mais secas do Brasil. Como não chove quase nunca, a vegetação é da mais característica caatinga que se pode imaginar. Essa é a razão por escolherem a cidade vizinha – Cabaceiras-PB – para fazerem filmes com a caatinga no pano de fundo. As atrações da região são muitas, como o Açude Epitácio Pessoa, na cidade de Boqueirão-PB, a cidade de Cabaceiras-PB, onde foi filmado o Auto da Compadecida e o Lajedo do Pai Mateus. O açude é um espetáculo a parte. Depois de sentir o calor e a monocromia da caatinga, é uma delícia descansar os olhos naquela água azul. O vento fresco e um banho também reavivam qualquer moribundo.

Eu e a Renata – desta vez em viagem solo – saímos de casa logo de manhã, com o nascer do sol. Paramos em Taquaritinga do Norte-PE para tomar um café da manhã no hotel da cidade. Caro, mas como era um passeio especial e não havia alternativa, ficamos por ali mesmo. Depois fomos para o Boqueirão-PB para tirar fotos, tomar uma água de coco e, no caso da Renata, conhecer o local. Na volta paramos ainda em uma pousada em Limoeiro-PE, que tinha uma piscina maravilhosa. Em um dia quente como esse, qualquer banho cai bem.

Esse trecho é legal porque passa pela Zona da Mata, Agreste e Caatinga, representando bem as vegetações do nordeste. O percurso todo do passeio foi de 480 km. Mais ou menos o que vamos andar por dia na viagem ao Atacama. Fomos em um ritmo um pouco mais lento, aproveitando bem para conhecer os locais e tirar fotos. Isso por duas razões: a Renata precisava se acostumar de novo às viagens de moto e porque a viagem ao Atacama será nesse ritmo mesmo. Não há sentido em sair disparado todo o dia, não conhecer nada e depois ficar parado em uma cidade qualquer. Queremos viajar, não chegar a um lugar específico.

Nesta época do ano não chove muito no nordeste, então o açude não está vertendo. Mas em compensação, a jusante dele se transforma em um cânion muito bonito.

Entre o cânion e o açude há uma estrada improvisada, com superfície de aspecto lunar. Um lugar tranqüilo e acho que parecido com o que vamos encontrar lá pelo Atacama.

Por falar nisso, essa viagem foi bastante interessante quanto ao relevo. Subimos duas serras – Taquaritinga do Norte-PE e Umbunzeiro-PB. Deu para testar bastante a pilotagem da XT660 com garupa nesse tipo de estrada que vamos encontrar na viagem. É bem diferente do que andar sozinho. O motor sente um pouco o peso, sendo preciso às vezes negociar marchas e a pilotagem deixa de ser tanto com o corpo, passando a ser feita mais com o guidão.

Essa foi a terceira vez que visitei a região, mas a primeira vez da Renata, que não viajava de moto há um ano e meio, desde a gravidez. Com o nosso bebê desmamando e a iminência da viagem ao Atacama, era mais que chegada a hora de recomeçarmos. Além de acostumar com a moto, o desafio da Renata também era ficar um dia todo longe do bebê. Mesmo monitorando o bebê o tempo todo, ela conseguiu aproveitar bastante a viagem.

Eu, que desta vez estava mais como coadjuvante, só tentando fazer com que tudo saísse bem nesse retorno da Renata, também aproveitei para uns testes. O capacete LS2 aperta muito os óculos, machucando a cabeça. Espero que com o tempo o forro ceda um pouco. A luva Alpinestar é muito dura, mas por causa das proteções. Também espero que fique mais confortável conforme vá tomando a forma da minha mão. Aproveitei até para resolver detalhes, como o melhor lado para amarrar a cartucheira de forma a facilitar a hora do xixi. É na perna esquerda.

O banco também ficou bom. Depois de duas semanas lixando, refazendo a fibra, lixando, pintando e instalando arruelas, conseguimos encaixar direito na moto. Espero que agora esteja firme e agüente a viagem toda para o Atacama. Por falar em tanque, a sua autonomia de 350 km também muda bastante o ritmo da viagem. Em geral, paramos a cada 150 km, aproveitando para abastecer. Isso significa que só paramos para descansar em postos de gasolina. Com o tanque novo, uma em cada duas paradas pode ser em um local mais agradável.

Também consegui chegar à conclusão de quantos cadernos são necessários em uma viagem: 1) caderneta para anotar quilometragem, horário e local de parada, 2) caderneta para anotar idéias e pensamentos para escrever depois, 3) caderno para escrever os textos que irão para o blog e 4) caderno para escrever textos definitivos e pessoais. Esse último é uma novidade, mas estou gostando da idéia de usar um tempo na viagem para escrever textos que não necessariamente vão para o blog de motociclismo.

Na semana que vem vamos fazer uma viagem um pouco maior, agora em dois dias, com 450km por dia. Isso é um terço do que a Renata vai fazer na viagem para o Chile. Se sair tudo bem, então será um ótimo sinal.

Para finalizar, quero comunicar, com muito orgulho, que testei uma técnica revolucionária para lavar as roupas durante a viagem. Em primeiro lugar, é bom usar uma camiseta do tipo “dry fitness”, porque armazenam menos suor, são mais fáceis de lavar e de enxugar. Mas o negócio mesmo é na hora de lavar. Você chega no hotel e veste toda a roupa do lado do avesso. Entra debaixo do chuveiro e começa lavar a roupa – no seu corpo mesmo – com sabão. Depois de esfregar bem, é só enxaguar, ainda completamente vestido no jato de água. Você lava e enxágua tudo em poucos minutos. Fantástico!